Nelumbo nucifera
6 Injuriarum remedium est oblivio
Notas iniciais
Injuriarum remedium est oblivio
Capítulo 6
Shaka apagou assim que se deitou na cama e sentiu a maciez dos lençóis e o cheiro que havia neles. Simplesmente apagou, seu corpo estava exausto demais para resistir a todo aquele desgaste emocional.
Acordou na manhã seguinte, ouvindo o cantar dos pássaros, prestando atenção ao que estava fora daquela casa. Sentou-se lentamente, sentindo o corpo reclamar um pouco. Mirou o pulso machucado e olhou para o lado por reflexo; Ikki não estava mais ali e Shaka não soube entender o que sentiu com a ausência dele, talvez alívio. Levou a mão à testa a massageando e resolveu levantar-se, era melhor sair dali e voltar ao “seu quarto”.
Abriu a porta do quarto silenciosamente, olhando pelo corredor tentando notar a movimentação, mas ali não havia ninguém, então ele seguiu rápido pelo corredor acarpetado, prestando atenção às câmeras de segurança enquanto andava rapidamente. Naquele momento, ele pensou que poderia aproveitar o pequeno momento de solidão para conhecer melhor o seu cárcere, então em vez de ir para o quarto, adentrou outro corredor que ainda não conhecia e experimentou as portas. Várias estavam trancadas, aquele lugar parecia gigantesco e sem saída. Seguiu pelo corredor e desceu a imensa escada. Seguiu mais outro corredor imenso e chegou a uma grande sala em que empregados trabalhavam. Todos meio que pararam o que faziam ao vê-lo. De frente a si uma porta de madeira gigantesca e talhada como a do seu quarto no último andar dava para a área externa, exatamente um frondoso jardim. Shaka caminhou em direção a porta, a luz da manhã entrando com toda sua energia, mas ele estancou na soleira. Parecia que todos o observavam para saber o que ele faria.
O advogado percebeu que vestia uma roupa ridícula, a calça do pijama estava terrivelmente folgada e ele estava sem cuecas, o que a deixava um tanto obscena, pois o tecido era fino, e nada sexy, admitia. Segurou o cordão parecendo ter medo que a calça escorregasse por seu corpo, mas não era hora para se preocupar com isso. Deu mais um passo para a saída e logo dois dos ‘macacos’ – era como ele chamava os seguranças do moreno – apareceram. Voltou-se para o interior da casa, com a mesma altivez de sempre, embora segurasse ainda o cordão da calça, e subiu as escadas, agora para o quarto que esteve originalmente, local que se recusava a chamar de seu.
Ikki acabava de regressar do almoço com seus sócios. Estava extremamente mal-humorado, porque era o pior momento para problemas como aquele estarem surgindo. Tinha traçado uma meta e finalmente se via perto de alcançar seu objetivo. Tudo deveria, especialmente agora, estar correndo perfeitamente. Realmente, aquele problema tinha sido imprevisível, mas era preciso contorná-lo da melhor forma. Um havia lhe perguntado se ele já tinha entrado em contato com o jovem Phalke e, quando Ikki disse que já havia levado o advogado para sua mansão, houve, como era de se esperar, discordância acerca dos métodos usados por Ikki. Um sempre se colocava contra esses métodos e Aldebaran tendia a concordar; Aiolia ficava bastante dividido porque compreendia os argumentos de Mu, mas possuía um gênio intempestivo como o de Ikki, o que fazia com que não tivesse uma opinião bem formada a respeito. Aiolos, por sua vez, era ideologicamente contra, mas acreditava que talvez fosse a única solução plausível. Milo concordava com Aiolos e Camus não dava qualquer opinião a respeito. Afrodite, Shura e Angelo, que não por acaso tinha o apelido de Máscara da Morte, não só concordavam como aprovavam plenamente os métodos por Ikki utilizados e mais: se dependesse deles, os métodos seriam ainda mais “persuasivos”. Perguntaram quando o jovem advogado estaria pronto para falar com eles e Ikki respondeu que o rapaz era bem mais difícil do que imaginava. Sabia que ele não se entregaria fácil, mas acreditava que ainda iria se surpreender mais um pouco.
Depois dessas breves explicações, nas quais Ikki nunca gostava de se prolongar, voltaram à discutir o que havia de mais emergencial. Assim, a reunião terminou e Ikki pôde regressar à sua mansão, que ficava em um lugar muito distante da cidade. Era um local bastante isolado, da forma como o moreno preferia. Em seu carro, vinha fazendo algumas últimas ligações quando os imensos e fortificados portões de ferro se abriram para que pudesse passar. A mansão, que vista por fora aparentava ser um daqueles chateaux do século XIX, era muito vigiada. Definitivamente, não era fácil chegar àquela mansão, mas, se possível fosse, entrar ali seria uma tarefa ainda mais impossível.
Ikki sabia que tinha muitos inimigos e que todo cuidado, diante disso, era pouco. Dos portões externos até a entrada da mansão, ainda era necessário passar por algumas outras fortificações, sempre vigiadas, até que finalmente parou diante do gigantesco e vigoroso jardim, que rodeava a propriedade. Saiu do carro, dando algumas ordens ao motorista e entrou. Como já esperava, seu mordomo o aguardava à porta:
— Bom dia, senhor. Como foi tudo?
— Mal. Eu vou ter que traçar um plano de emergência para contornar alguns problemas. Mas tudo bem; eu consigo. Sempre consigo. – bufou e pegou o uísque que seu mordomo lhe oferecia. Afrouxou a gravata e tirou o paletó que trajava, jogando sobre o elegante aparador junto à porta. – Como ele está? – indagou, olhando algumas cartas que seu mordomo lhe passava agora.
— Ele já acordou. Ainda não se alimentou. E... tentou sair. – com essa última frase, Ikki levantou uma sobrancelha e encarou o mordomo friamente – Mas ele não conseguiu, senhor! Os seguranças o afastaram antes que ele pudesse! – Khan completou, rápido.
— Chegaram a machucá-lo?
— Não, senhor. Todos estão cientes de que não devem feri-lo.
— Ótimo. Preparem algo para ele comer. Vou ver como ele está.
— Acredito que ele voltou para os aposentos a ele destinados, senhor.
Ikki apenas acenou com a mão, já se colocando a caminho, ainda concentrado nos documentos que lia. Passou rapidamente na sua biblioteca, deixou-os dentro de uma gaveta, que sempre trancava, e em seguida rumou para o quarto do loiro, enquanto bebia o uísque.
Ao chegar ao quarto, o loiro foi para um banheiro e tomou um banho demorado, saindo tempos depois e escolhendo roupas adequadas no closet, uma camisa branca leve e uma calça jeans escura, calçou os sapatos negros, caros, de uma grife famosa, e prendeu os cabelos de forma displicente numa trança folgada que deixava escapar alguns fios. Faria tudo como o outro esperava. Ikki lhe dissera que ele era transparente e previsível. Talvez fosse o caso de fazer o jogo dele. Assim pensando, borrifou um pouco do perfume de sempre e pegou os benditos óculos no criado mudo. Franziu a testa ao verificar que eles estavam exatamente na mesma posição que costumava colocar em sua casa. Como Ikki podia saber daquilo, como? Quem ele infiltrou em sua casa para saber tão bem daquelas peculiaridades? Um mal-estar o tomou com isso. Ele confiara em alguém que o traiu, era óbvio. Examinou os óculos com cuidado. Era exatamente igual ao seu, o designer e com certeza o grau. Colocou sobre o nariz, ajeitando-o e se olhou no imenso espelho. Apesar das olheiras que ainda marcavam seus olhos azuis, seu aspecto era relativamente saudável.
Ouviu o ranger leve da porta e virou-se, Ikki entrou no momento que uma rajada de vento passava pela porta de vidro aberta e esvoaçava os fios soltos dos seus cabelos. O loiro ajeitou a postura e ergueu o queixo o encarando mudamente.
Assim que entrou, Ikki parou por alguns instantes para observar mais a figura do outro. Shaka parecia bem melhor que na noite anterior, embora ainda conseguisse ver alguns traços de cansaço físico e mental nele, por mais que o loiro certamente não quisesse demonstrá-los. Admirou aquela figura, mas não mais do que se podia permitir.
— Vejo que encontrou seus óculos. Ficam bem em você. – preferiu não comentar acerca da aparência do loiro, pois isso poderia remeter aos acontecimentos da noite passada e Ikki não queria falar a respeito disso no momento. Colocou uma mão no bolso da calça e começou a andar pelo quarto, como quem não quer nada, observando aleatoriamente os objetos e móveis, levando seu copo de uísque à boca vez ou outra, até que parou próximo à entrada da varanda, por onde entrava a claridade do dia e a brisa do começo da tarde – Então... Eu soube que você tentou sair. – falou olhando para o céu azul da varanda.
— Só estava conhecendo o ambiente. – Declarou friamente. – Não iria fugir, só queria conhecer o jardim que parece muito bonito. Não tentaria fugir, sei que a casa está cercada por seus macacos – a última frase foi dita com um curvar amargo de lábios.
— Acontece que eu lhe disse que você não poderá sair de dentro da mansão até eu permitir. – Ikki olhou duramente para Shaka. – Quer ter a permissão de sair? Vai ter que ganhar um pouco da minha confiança, primeiro. E, se quer saber, está bem longe disso no momento. Eu não tenho pressa. Mas você, se quiser manter esse seu orgulho, vai ficar um bom tempo longe do sol até aprender a se comportar de verdade.
Mesmo sem querer, Shaka observou na figura do homem a sua frente. Ele usava como sempre um terno escuro e muito bem cortado. Possuía uma aparência impecável, embora os cabelos repicados conferissem a ele um jeito rebelde e jovial. Os olhos azuis eram profundos e escuros como um mar bravio e, além disso, eram astutos, analíticos, perigosos. Os lábios carnudos e o queixo másculo formavam um conjunto bonito e arrogante. Shaka desviou o olhar, a aparência de Ikki não era algo que ele deveria perder tempo analisando, mas suas ações,sim. Precisava fingir que estava fazendo o jogo dele se quisesse sair dali.
— Então me diga uma forma de “me comportar bem de verdade”, porque até o momento você não deixou muito claro como terei esse bom comportamento. Quer que eu sente, role e pegue o osso quando você mandar? – Sorriu irônico, mas algo dentro de si alertou: “Não, Shaka, não é assim que você vai conseguir sair aqui”, mas a língua afiada era sempre mais rápida que a prudência.
Ikki olhou para Shaka em silêncio. Alisou o próprio queixo. Então sorriu:
— Bom, acho que você acabou de definir perfeitamente o modo de comportamento adequado. Quando eu mandar, você obedece. Não questiona, não olha feio... Seja dócil. É só isso. Em troca, vai ganhar um tratamento muito bom. Viu só? Não é nada tão impossível. – Ikki virou o resto do líquido e colocou o copo vazio sobre uma cômoda, colocando agora as duas mãos nos bolsos da calça, à espera de uma resposta do loiro.
— Dócil... – Repetiu com amargura. – Não seria mais ‘normal’ – simulou aspas com os dedos – comprar um cão? – suspirou. – Enfim, eu não serei seu cão, senhor Ikki. Mas eu pretendo colaborar na medida do possível – encarou o moreno nos olhos, aproximando-se um pouco dele. – Mas não ouse exigir de mim mais do que é humanamente possível. Não cederei a tudo, acho que já deu pra perceber isso. Então se for fazer exigências, que faça exigências humanamente possíveis a mim, e o que é humanamente possível a mim é bem diferente do que é humanamente possível às pessoas comuns. Eu não sou comum, o senhor me entende? – Os olhos espreitavam o moreno com um olhar quase homicida, embora soubesse que aquela não era a linha que devesse seguir.
— Você gosta de complicar as coisas... – Ikki respirou fundo, pensativo – Olha só, você já está até tendo privilégios, caso não saiba. O último que me desafiou de forma parecida com que você está fazendo agora, eu obriguei a usar uma coleira, sim. Como um cachorro. Não tinha pensado em fazer isso com você, mas está começando a me tirar do sério. Não parece que você entendeu a sua real situação aqui. Não está em condições de fazer qualquer exigência. Quem manda aqui sou eu. Enquanto não entender isso, vai continuar sendo privado de uma série de coisas, como sair de dentro desta mansão. Como eu disse, tenho tempo. Já você... Se eu fosse você, começava a repensar suas atitudes. Seu namoradinho, o Kanon, pode acabar pagando se você continuar me fazendo perder o meu tempo.
Shaka entreabriu os lábios, surpreso com aquela ameaça.
— Você não teria coragem... – murmurou entre dentes, tomado pela revolta. – Se tocar nele eu te mato! Entendeu? – deu mais dois passos para trás e passou as mãos nos cabelos. – Mas que diabos você quer comigo? – fechou os olhos com força, respirando fundo para conter a vontade insana de esmurrar aquele homem. – Eu vou fazer o que você quer, mas se você chegar perto dele, se eu souber... – Não completou a frase porque agora ele sabia que não havia jeito; teria que se dobrar aos caprichos daquele louco para que outras pessoas não fossem machucadas. Kanon era um homem experiente, forte, mas ainda assim, estava vulnerável, já que não deveria ter ideia do que estava acontecendo, imaginava que ele devesse estar louco com seu sequestro. – O que você quer? – indagou. – Diga-me e eu farei.
— Eu já disse. Quero que você me obedeça, só isso. Mas eu vou ter que acreditar, ou seja, não vai adiantar nada fazer o que eu peço de cara fechada. Procure sorrir e se fazer agradável. É isso o que eu quero. Agora, por exemplo... Você precisa se alimentar. Mandei prepararem sua refeição. Como eu disse, você fará suas refeições sempre na minha presença. — cruzou os braços, com certo ar desafiador — Pode ser?
— É humanamente impossível sorrir ao seu lado – revidou Shaka, voltando a encarar Ikki. – Você sequestrou um advogado e não um ator, senhor Ikki. Será que não percebe que nunca poderei sorrir de verdade em sua companhia? Agora se quiser um sorriso mentiroso... Bem, mesmo assim, tenho minhas dúvidas se conseguirei... – Completou derrotado. – Mas eu vou tentar, para garantir que não faça mal às pessoas que amo. Não é isso? Não é esse tipo de poder que você tem? O poder de coagir e de conseguir o que quer pela força? Eu farei, mas direi uma última vez: isso não é poder! Isso é fraqueza e a pior das fraquezas, e eu o desprezo por isso. Mas farei o que quer. – Sorriu como o outro pediu, lutando para não cair em prantos de tanta raiva que sentia. – Vamos comer então?
Ikki olhou muito sério para Shaka, por alguns instantes. Era perceptível que havia muito que ele não dizia naqueles olhos azuis. Depois, desviou o olhar e caminhou na frente, indicando com isso que era para o loiro segui-lo. Conforme o esperado, Shaka foi com ele até a sala de jantar e, tão logo os criados o serviram, começou a comer, ainda em silêncio. Ficaram apenas os dois na sala, quando Ikki fez sua voz grave ser nitidamente ouvida no local:
— Então... Kanon. Esse é o namorado, não é? Deve gostar muito dele, porque só agora estou conseguindo fazer você me obedecer do jeito como era para ser desde o início. – Ikki começou a falar, servindo-se apenas de outro copo de uísque. Já havia almoçado e dedicava-se a observar atentamente o outro.
— Faz parte de minhas obrigações responder perguntas pessoais, senhor? – indagou de forma baixa e fria, contida como costumava ser sua voz, enquanto mexia com o talher na comida, mas sem a levar à boca.
— Faz. – Ikki respondeu com certa agressividade – Você deve fazer o que eu mandar, isso inclui responder a tudo o que eu perguntar. – colocou o copo na mesa, e sua impaciência era notável. – Quero saber: Quem é o tal Kanon para você? – era óbvio que Ikki sabia muito bem quem era Kanon, porque não apenas mandaram investigar tudo sobre o loiro, como também de todos os que eram próximos dele. Entretanto, ficou curioso sobre a visão desse tal Kanon a partir da perspectiva do advogado. Shaka tinha uma personalidade intragável, já sabia e estava vendo na prática como ele era difícil, contudo foi com alguma facilidade que conseguiu que ele modificasse seu temperamento ao simples mencionar do nome do namorado. Teve uma verdadeira curiosidade para enxergar as coisas pela ótica do aspirante a promotor. Claro que isso faria parte do jogo, de qualquer forma, mas a curiosidade era genuína.
— Meu namorado, como você sabe – respondeu ainda com o olho no prato, embora não visse nada enquanto mexia nas folhas da salada, sentindo a garganta se fechar para qualquer possibilidade de engoli-las, embora soubesse que aquilo era extremamente necessário.
— Não brinque comigo, loiro. – Ikki foi mais incisivo – Eu quero saber mais do seu namorado. O que ele faz, como ele é... Pode ser? Ou eu vou precisar descobrir por conta própria? Tomou um gole da bebida, com os olhos fixos em Shaka. – E você sabe que, quando eu resolvo fazer as coisas ao meu modo, as pessoas podem não gostar.
Shaka parou de mexer na comida e soltou o garfo, olhando para o moreno.
— Eu não estou brincando. Você me perguntou quem ele era e eu respondi. Você deve saber o que ele faz e quem ele é, mas já que insiste em ouvir minha voz, eu direi: o nome dele é Kanon Vaskália, filho de Nikolai Vaskália, um rico industrial grego, irmão de Saga Vaskália, que é um dos maiores criminalistas do país. Kanon é arquiteto, como você já sabe. Estamos juntos há um ano e meio, como você também já sabe. Ele é alguém honesto, divertido, inteligente. Ele me faz rir e é um ótimo amante! – tentou manter o tom de voz calmo, mas ela estava um pouco trêmula. – O que mais quer saber?
Ikki sorveu sua bebida, ficou olhando para o loiro, depois inclinou a cabeça para trás, observando o lustre do salão, e então voltou à posição inicial. Pegou um guardanapo, começou a fazer um origami com ele, para finalmente falou:
— Que namorado perfeito. Faz sentido, dentro da sua vida perfeita, em que tudo dá certo e todo tipo de sucesso pode ser alcançado, não é? Você cresceu com essa visão de que você pode alcançar tudo o que quiser, contanto que batalhe para isso, não é mesmo? – ele mantinha-se no seu trabalho de fazer o origami, enquanto falava pausadamente – E como era ter uma vida assim? Você e seu adorável namorado pensavam em juntar duas existências perfeitas para ficarem ainda mais felizes e perfeitos juntos? – a última fala foi dita em um tom extremamente sarcástico.
— Nunca falamos disso. – Respondeu ignorando o tom dele. Queria manter-se neutro, indiferente como sempre foi com as pessoas que não possuíam relevância para si. Era assim que deveria se comportar. Responderia tudo que ele quisesse, mas de maneira fria e impessoal, até por isso, ignorou as perguntas anteriores e limitou-se a comer agora, forçando-se a engolir a comida, embora achasse, em alguns momentos, que iria vomitá-la encima do moreno, se ele continuasse a falar daquela forma perto de si.
— Nunca? E por que não? – terminou de montar um tsuru e voltou a olhar para Shaka – Ele não é um namorado perfeito? Como pode um assunto tão óbvio nunca ter vindo à tona? Certamente, algo não estava certo. Com certeza, ele não é tão perfeito assim. Talvez, tenha traído você alguma vez e não conseguiu recuperar a confiança. Vamos lá, senhor Phalke! Conte-me. Quais eram os defeitos do seu namorado? Quais eram os problemas da relação de vocês dois?
Shaka encarou o moreno seriamente por um tempo e depois voltou a desviar o olhar para o prato.
— Não havia problemas. – Respondeu. – Nós só não precisamos disso. Simples, não precisamos morar juntos ou estar o tempo inteiro juntos para que nossos sentimentos sejam verdadeiros. Não estamos acorrentados um ao outro. E sim, ele é perfeito, lindo, sexy, me satisfaz em todos os sentidos – nesse momento sua voz se tornou mais suave. – Ainda assim, não tenho a necessidade de acordar todos os dias ao lado dele e nem de ninguém.
— Hum. – Ikki murmurou, analisando aquelas palavras – Como você é independente. Não gosta de ter ninguém por perto. Vive completamente sozinho e isolado. Não sabe o quanto isso é ridículo? – Ikki riu, levantando-se da sua cadeira. – Todo mundo precisa de um pouco de afeto. E você acha que eu não posso falar a respeito, porque dentro da sua visão, sou odioso. Mas, ao menos, eu tenho companhia. Enquanto o seu namorado, tão perfeito, não conseguiu que você quisesse ficar ao lado dele, debaixo do mesmo teto, eu posso dizer o contrário. – o moreno sorriu, de canto, usando de seu lado tão irritante quanto charmoso.
Shaka riu debochado, não conseguiu se segurar, mas respirou fundo e quando falou, sua voz estava seca.
— Será mesmo, senhor Ikki? Suas atitudes dizem o contrário, afinal, eu não vi ninguém aqui além de uma corja de subalternos temerosos e, creio eu, até mesmo eles só estão aqui porque não possuem muita opção, como eu. Se o senhor tem alguma companhia, deve ser companhias fugazes de uma noite só, interessadas no seu pseudo poder e dinheiro, porque o senhor não tem nada que possa realmente interessar a alguém fora isso. Não ouse se comparar a um homem inteligente, forte e decente como Kanon, o senhor e ele não têm nada em comum. E sim, eu sou realmente independente, mas isso não tem nada a ver com ele e sim com meu modo de ver a vida. Kanon é ótimo – sorriu de lado. – Em todos os sentidos. – Voltou a levar o garfo aos lábios, ainda olhando para o outro com ironia.
Ikki abriu um sorriso mais largo diante do ar incrédulo de Shaka. Como se esperasse por isso, fez um sinal para seu mordomo, que sequer estava na sala, mas que tão logo viu o sinal, provavelmente graças a uma câmera, adentrou o cômodo. Ikki chamou Khan para mais perto, cochichou algo em seu ouvido e viu o mordomo sair às pressas. Assim que voltaram a ficar a sós, Ikki disse:
— Você acha mesmo que eu penso estar recebendo afeto de quem trabalha para mim? É claro que não, senhor Phalke. Não tenho essa ilusão. Meus homens trabalham para mim porque recebem para isso. É uma troca, como quase tudo na vida. Quando falo de afeto, eu falo de afeto real. – Nesse instante, o mordomo voltou ao salão e trazia consigo um grande labrador cor de caramelo. O cão vinha preso por uma correia que o mordomo segurava, mas tão logo o animal viu Ikki, correu na direção dele, de modo que o mordomo não conseguiu contê-lo.
— Pode deixar, Khan. Não tem problema. – falou Ikki, com um bonito sorriso no rosto, abaixando-se para receber o cachorro que vinha todo animado para cima dele – Ei, calma, amigão! Calma, garoto! – Ikki acariciou vigorosamente o pelo do animal, sorridente. – Eu sei, fiquei fora o dia inteiro. Mas daqui a pouco eu ia ver você, eu juro! – o moreno falava em tom de brincadeira, enquanto o cachorro o lambia animado. Então Ikki levantou o olhar para Shaka – Era disso que eu estava falando. Quer afeto mais verdadeiro do que esse? – Ikki voltou a olhar para o cachorro, com um sorriso bonito e um olhar carinhoso – O nome dele é Falcon. Você o teria conhecido, se pudesse sair. Ele fica lá fora. – o moreno voltou a olhar para o cachorro com ar mais ou menos sério – Porque, aqui dentro, você não se comporta, não é? – Falcon abanava a cauda e ficava agitado, parecendo querer subir nas cadeiras. O mordomo estava prestes a ter um ataque de nervos com isso e Ikki, notando o nervosismo de Khan, riu: – Pode levá-lo para fora, Khan. Daqui a pouco eu vou até lá, para alimentá-lo. – o mordomo acenou com a cabeça e, não sem algum esforço, levou o cachorro dali. Quando se viu sozinho com Shaka, Ikki ainda olhava na direção por onde o mordomo saiu com seu cachorro – Ele é muito bonito, não? Eu o tenho desde que nasceu. Ele tem quatro anos e todos acham que é um desastre ambulante... – o moreno riu, cruzando os braços – Mas eu gosto dele.
Shaka sorriu com visível sarcasmo e balançou a cabeça incrédulo.
— É isso o que você considera afeto? – riu sem conseguir se conter. – Ora, senhor Ikki, ele seria afetuoso com qualquer um que lhe desse comida e lhe afagasse o pelo. Eu já sabia que você não era muito inteligente, mas me trazer um cão para rebater minhas afirmações foi patético, ah... desculpe-me a sinceridade, eu me esqueço que tenho que ser um ator aqui. – Sorriu fingindo amabilidade.
— Não, não foi. – Ikki olhou com um semblante mais tranquilo para Shaka – Sabe, você fala do seu namorado perfeito, que você tem na sua vida perfeita, mas não sente qualquer necessidade de tê-lo por perto. Bem, não é exatamente uma questão de necessidade. É uma questão de querer, senhor Phalke. E você não quer. Eu sei que não precisa, mas não quer. As pessoas são realmente muito estranhas. Você fala de mim, apenas porque eu explicito muito do que existe nas relações humanas. Acredite, eu conheço muito bem como se dão essas relações. No fundo, todos querem algo. Até nesse namoro perfeito entre vocês. Vocês estão juntos apenas porque um tem algo que interessa ao outro. Se é material, intelectual, sexual... isso é o de menos. Tudo é uma troca. O ser humano é incrivelmente pobre, nesse aspecto. Por esse motivo, eu não faço questão de ter o afeto de qualquer uma dessas pessoas. Não seria real. Nunca é. Lealdade, fidelidade, esses sentimentos não existem entre pessoas. Já o Falcon... É como você disse. Ele não exige muito de mim. Em troca, me dá muito mais do que eu peço. É por isso que tenho por ele um apreço que não tenho por mais ninguém. É por isso que, ao contrário de você, que se diz tão independente, e que não quer viver junto do namorado... É por isso que eu digo que somos diferentes. Eu não poderia viver sem o Falcon. Ou melhor, conseguiria, assim como ele também. Mas eu não quero. A meu ver, quando existe esse tipo de afeto, quando existe... amor; você quer estar com aquele que ama. Não por necessidade, não porque precise. Simplesmente porque queira.
— Quanta bobagem – Shaka riu. – Ao contrário do que pensa, você não conhece nada das pessoas e muito menos das relações humanas. Não me espantaria se fosse um zoófilo – riu mais um pouco. – Eu realmente não sinto necessidade de estar ao lado de Kanon, porque necessidade não é amor. É carência, é apego, não é amor. Você deve saber que sou budista, então o desapego é parte inerente de tudo que acredito e isso independe de eu amar ou não alguém. Não venha com essa estupidez à Pequeno príncipe, porque quem é pobre de afetividade aqui é você que precisa conviver com bichos por ser incapaz de enfrentar alguém que simplesmente não fará o que você quer. Não há trocas entre Kanon e eu, há afetividade verdadeira, mas claro, para alguém que só lida com cães, isso é impossível de se entender. Eu não preciso dele, ele não precisa de mim, mas queremos um ao outro, sem correntes. – sorriu com ironia novamente – Tente tirar a coleira do seu amado Falcon e veja se ele volta, senhor Ikki. Ah, ele deve voltar, é um cão, não pensa, e age como um cão. Talvez por isso o senhor prefira ele... Cães sempre voltam por mais que não mereçamos.
Ikki ficou encarando Shaka por alguns instantes. Parecia ponderar sobre alguma resposta a dar a ele, mas ao que parecia, nenhuma era boa o bastante. Bufou e passou reto por ele, dizendo a ele, de forma ríspida, no caminho:
— Faça o que quiser durante essa tarde, contanto que não saia da mansão. Vejo você na hora do jantar. – e encaminhou-se para fora da mansão. O mordomo tentou interceptá-lo no caminho, para falar alguma coisa, mas Ikki fez um sinal de que não queria papo. Deixou a mansão e, do lado de fora, foi ficar com o cachorro. É, numa coisa Shaka tinha razão: o desapego é a melhor coisa a se fazer. É muito dolorido quando se perde alguém que se ama. Na verdade, mais que dolorido, havia um sentimento de impotência. Pois que fosse: se não podia trazer a pessoa de volta, faria com que os responsáveis pagassem. E pagariam caro, todos eles. Olhou para Falcon, que brincava correndo ao seu redor, enquanto ele caminhava pensativo pelo jardim. Só lhe havia sobrado o cachorro. Era sua única família. Não tinha mais ninguém, mas não precisava de mais ninguém. O afeto de Falcon lhe bastava. Era só disso que vivia: do afeto do cachorro e da sede de vingança.
Shaka ficou muito satisfeito por perceber que atingira o moreno de alguma forma, então assim que ele saiu, ele também deixou a sala de jantar e foi para a grande sala cheia de empregados. Ele poderia fazer o que quisesse, contanto que não saísse da casa?Ótimo! ele tentaria descobrir mais sobre aquele lugar.
Título: A melhor vingança é o desprezo.
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