Nelumbo nucifera

7 Mites possident terram


Notas iniciais
Olá, leitores, tudo bem? Agradecemos muito a presença de todos e os comentários recebidos. Beijo no coração e boa leitura! Sion e Lua

Mites possident terram

Capítulo 7

O advogado sondou todos os cantos possíveis daquela mansão, mas ela era enorme e havia muitas portas trancadas. Não quis pedir ajuda aos empregados, sabia que lhe seria negada, então apenas observou por um longo tempo, tomando algumas decisões. Uma mudança de atitude era necessária naquele momento.

Na hora do jantar, Ikki apareceu com um semblante revigorado. Estar com Falcon sempre fazia com que se sentisse melhor; aliás, ajudava-o a esvaziar a mente e isso sempre fazia com que se esquecesse do fardo que insistia em carregar nesta vida. Brincou com seu cachorro por um tempo, depois deixou-o livre para correr pela área verde de sua propriedade. Ikki então sentou-se debaixo de uma árvore, recostando seu corpo cansado no tronco dela. Sim, estava cansado. Mas não era cansaço meramente físico. Mais que isso; era um cansaço espiritual. Cada vez mais, sentia sua alma cansada.

Contudo, não podia parar. Não ainda. Não enquanto não houvesse terminado de fato.

Abandonou esses pensamento enquanto observava Falcon correndo atrás de algumas borboletas. Essa simples imagem arrancava um sorriso mais bonito de sua parte. Um sorriso quase puro, se é que ainda se poderia encontrar alguma pureza em si. Nesses parcos instantes, em que ficava apenas na companhia do seu cão, Ikki se sentia mais leve. Era quando a existência tornava-se quase realmente agradável. Seria ótimo se pudesse se sentir assim mais vezes...

Com a leveza trazendo-lhe uma sensação rara de bem-estar, mandou que um empregado lhe trouxesse o livro que nunca abandonava e dedicou-se à sua leitura naquele local, olhando de vez em quando para Falcon, que também vinha sempre atrás de algum carinho de seu dono, em meio às brincadeiras em que se via.

Permaneceu na leitura por um bom tempo e, quando deu por si, já era noite. O sol já havia se posto e o cachorro dormia a seus pés. Não estivera o tempo todo por conta do livro; na verdade, em dado momento, não estava mais lendo aquelas páginas e sim, relendo alguns capítulos negros de sua vida, guardados dentro de si.

Perdeu-se nessas reflexões internas por um bom tempo e agora que despertava desse momento, considerou que era hora de regressar à mansão para jantar com o advogado. Afinal, o plano em curso tinha de ser levado adiante.

Shaka estava calmo, muito calmo quando foi novamente chamado por Khan para se juntar ao moreno na sala de jantar. Nada era diferente de todas as outras vezes, a não ser que naquela ocasião em especial, ele obedecia a todos os critérios do outro: estava muito bem vestido, perfumado e penteado, como lhe dissera que deveria ser o homem que o conduzia. O moreno já estava lá com o mesmo semblante sério e leve de sempre, como se jantar com ele, seu prisioneiro, fosse algo bem natural e até agradável. Daquela vez, o advogado resolveu que faria um jogo diferente. Não seria mais agressivo, ao contrário, seria de uma passividade desconcertante para qualquer um, mas ele tinha um truque na manga que não estava a fim de revelar. Bem, se o seu sequestrador percebesse, ele não teria muito poder para forçá-lo a obedecer, ainda assim, ele faria tudo que fora feito por Gandhi: uma resistência sábia e pacífica, sem grandes alardes ou demonstrações de raiva.

Sentou-se ao lado do outro sem dizer uma palavra, sem nem mesmo olhá-lo. Estava cansado das táticas de intimidação dele e de suas reações apaixonadas. Não. Aquele não era Shaka Phalke, o equilibrado e metódico defensor. Estivera se perdendo de si mesmo naqueles dias e não mais permitiria isso. Não permitiria que ninguém fizesse isso consigo.

A refeição foi servida com a mesma perfeição e capricho que determinava tudo naquela casa. Ele segurou os talheres com a mesma elegância e começou a mexer no prato, mas sem de fato comer, intercalando isso, com provar a água em seu copo, como se realmente comesse, mas não levou nenhuma porção à boca.

Ikki, como sempre, observava atento a figura do loiro, mesmo quando não parecia fazê-lo. Se tinha algo que o dono daquela mansão sabia fazer bem era ver tudo o que se passava ao redor, mesmo que com o canto dos olhos. Não demorou a perceber que Shaka enrolava e não comia:

– Fico satisfeito em ver que está acatando bem as minhas ordens. Vestiu-se adequadamente, apareceu para o jantar no horário determinado... – enquanto fazia tais comentários, Ikki mexia também na comida em seu prato, sem de fato levar qualquer porção à boca – Falta apenas um detalhe para esse quadro ficar do jeito que eu quero. Que tal parar de brincar com a comida e comer de verdade? – um olhar sério foi lançado para Shaka, demonstrando que Ikki não estava aberto para discussões quanto a isso.

Shaka sabia que ele perceberia aquilo e já estava preparado para isso: uma ordem para que comesse. Não seria insolente, apenas falaria algo que talvez, somente talvez, o outro fosse capaz de acreditar, mesmo que não por muito tempo.

– Desculpe, meu senhor, mas eu... não consigo. – Falou sem encarar o outro, num contraste tão gritante com suas atitudes até ali que tardiamente ele percebeu que foi uma falha em seu plano de fingida submissão. Deveria ter sido mais enérgico para não parecer cínico, mas não tinha mais volta, tentaria ao menos uma emenda mais convincente. – Eu perco o apetite em situações de muito estresse – disse numa voz mais firme. – Não consigo comer. – Sentenciou, soltando os talheres e finalmente encarando o moreno.

Tão logo ouviu a primeira frase vinda de Shaka, Ikki cerrou o punho da mão direita. Era provável que fosse logo rebater o que julgou uma atitude de novamente contrariá-lo. A raiva que viria proveniente dessa situação não chegou a se concretizar, porque, ao ouvir o restante da justificativa do seu prisioneiro, Ikki compreendeu que um novo elemento era trazido à tona. Estava preparado para lidar com a negação teimosa de Shaka... mas não estava esperando dele uma negativa que apresentasse certa... fragilidade.Ikki remexeu-se um pouco em sua cadeira, como se tentasse ganhar tempo para decidir que reação tomar. Terminou por apenas repetir o que o outro disse:

– Não consegue comer? Como assim? É só enfiar essas folhas goela abaixo. – disse, tendo plena consciência de que essa não havia sido uma boa resposta.

– Não é tão fácil... – Shaka disse suavemente. – Deve saber que eu já tive uma úlcera... Meu sistema digestivo é frágil e eu simplesmente não consigo comer quando estou... sob muita pressão e nesse momento eu estou sob muita pressão como deve imaginar. – Falou, na verdade foi uma gastrite nervosa, e Ikki deveria saber disso, já que parecia saber de tudo, mas talvez ele não se preocupasse com um detalhe tão ínfimo da sua vida, mas aquela era uma boa desculpa para o que estava fazendo. Dessa vez estava falando tudo de maneira objetiva, mas sem agressividade, uma total mudança de comportamento, uma tática que poderia dar mais certo dessa vez.

O moreno não respondeu nada inicialmente. Os olhos, mais analíticos do que nunca, pareciam escanear a pessoa de Shaka, de cima a baixo. Era como se Ikki fosse capaz de farejar que algo ali estava muito errado, mas não encontrasse exatamente onde. O poderoso homem bufou, contrariado com algo que nem ele sabia definir o que seria.

– Você é um homem racional. Essa é uma característica sua que admiro. Faça, portanto, bom uso dela. Você sabe que precisa comer. É uma necessidade física. Então, use esse controle de mente do qual tanto se orgulha e obrigue seu corpo a comer. Você SABE que tem de se alimentar. SABE que é uma necessidade e SABE que não tem escolha. Então, obrigue seu corpo a obedecer às suas ordens. – tentou ser incisivo, mas seu próprio tom denunciava que não estava conseguindo passar toda a autoridade desejada.

– Eu simplesmente... Não posso. – Disse, encarando o homem com uma fingida subserviência – Meu senhor.

Já havia se decidido, faria greve de fome, obrigaria aquele homem odioso a libertá-lo ou no mínimo tirá-lo daquele lugar, caso ele ficasse doente demais e ele ainda o quisesse vivo, ou mesmo morreria, não se importava tanto com a própria vida a ponto de preferir viver como um escravo.

Ikki abriu a boca para dizer algo, mas não lhe veio qualquer palavra. Largou os talheres sobre a mesa e ergueu uma mão, em um gesto que indicava que algo seria dito, mas novamente o ato não se concretizou. Obviamente, o moreno pensava em dar a ordem mais uma vez, porém encontrou dificuldades em fazê-lo. Shaka estava submisso, conforme o desejado. Entretanto, em meio a essa submissão, negava-se a fazer o que lhe era ordenado. Ou melhor, não é que se negasse, pois o loiro não parecia agir por vontade própria. Parecia haver aí um verdadeiro obstáculo, um obstáculo fisiológico. Ikki suspirou; como obrigar o advogado a fazer algo que ele parecia agora realmente incapaz de fazer?

– Está bem. Não precisa comer. – determinou, ao cabo de alguns instantes. – Compreendo que esteja tenso. Seus primeiros momentos nesta mansão não ajudaram muito. Vá descansar então, está precisando. Tenha uma boa noite de sono. Amanhã, mandarei que preparem um farto desjejum para você. Assim poderá recobrar as energias devidamente. – Ikki considerou que, se não o forçasse a se alimentar agora e permitisse que fosse direto para seu quarto relaxar um pouco, que a tensão desaparecesse e as coisas voltassem ao eixo.

Shaka não agradeceu, achou que isso seria muito forçado, simplesmente se ergueu, com o estômago roncando de fome, era verdade, e esperou que Khan aparecesse para levá-lo ao quarto. Em seu semblante nada demonstrava que estivesse mentindo. Subiu para o quarto e assim que entrou, retirou aquelas roupas e se pôs em posição de lótus sobre a cama mesmo, começando a meditar, concentrando-se ao ponto de tudo ao redor desaparecer e cada um dos seus músculos relaxarem. Daquela forma a fome iria embora e ele poderia resistir muito até realmente precisar de ajuda médica.

No dia seguinte, conforme havia dito, Ikki ordenou que um farto café da manhã fosse preparado. Assim que a mesa terminou de ser posta, o poderoso homem se sentou à cabeceira e disse a Khan que fosse buscar Shaka para acompanhá-lo na refeição. O mordomo acenou com a cabeça e retirou-se.

Chegando ao quarto que fora designado ao loiro, Khan deu três batidas de leve anunciando sua chegada e entrou, sem que precisasse receber permissão. Afinal, Shaka poderia ter muita liberdade na mansão, mas não poderia usufruir de qualquer privacidade:

– Senhor Phalke, está vestido? Meu senhor o aguarda para o desjejum.

Sim, Shaka já estava vestido, elegante como sempre em um terno acinzentado e uma camisa azul-safira, os cabelos dessa vez estavam soltos e embora tenha dormido pouco naquela noite, por ter passado muito tempo analisando seus próximos passos, não exibia olheiras, talvez um leve cansaço, mas que era atenuado pelo equilíbrio adquirido e a meditação tão benéfica, além de ter feito alguns exercícios de ioga. Estava relativamente bem, seu corpo ainda não sentia pesadamente os efeitos da falta de alimento.

– Estou. – Respondeu, altivo como sempre. – Vamos. – E passou pelo mordomo, dirigindo-se à sala de jantar, já conhecia o caminho muito bem, mas aproveitava para observar ao redor com atenção, talvez encontrasse algo que pudesse ajudá-lo em sua fuga.

Chegou à sala e fez o percurso até a cadeira determinada como sempre, sem dizer uma palavra e sem olhar seu sequestrador em nenhum momento. Talvez se olhasse para ele, seus olhos traíssem sua vontade de perfurar-lhe o pescoço com um daqueles talheres.

– Ótimo, você está com uma aparência relativamente boa. Fico satisfeito. – Ikki abriu um guardanapo com uma mão e, com a outra, apontou para a mesa farta – Sirva-se. Você precisa repor suas energias. – sua fala não era simpática, mas não chegava a ser mecânica. De algum modo, era quase cordial, como um anfitrião que cumpre bem sua tarefa de receber visitas.

Shaka observou toda aquela comida e seu estômago pediu o alimento, mas ele estava determinado. Pegou uma fatia de pão e começou a passar geleia, sentindo o aroma gostoso da maçã. Levou-o ao seu prato e simulou que levaria aos lábios, mas voltou no meio do caminho, o recolocando no lugar e agarrando o copo d’água, bebendo num único gole e levando a mão ao rosto.

– Eu não posso. – Falou, deixando o copo no lugar e ficando parado, olhar para a fatia de pão com geleia. Sua mão tremia levemente, e ele tentava ser o melhor ator que pudesse naquele momento.

Ikki, que levava uma xícara de café à boca, interrompeu a trajetória, mantendo o braço erguido, estático. Seu único movimento foi um franzir de cenho, que demonstrava claramente que ele não havia gostado do que acabava de ouvir:

– Como assim, não pode? – indagou, em um tom de voz que deixava claro seu descontentamento – É claro que pode! Enfiar comida goela abaixo não é tão difícil! E você precisa comer, então deixe de frescura! – finalizou Ikki, já demonstrando sua característica impaciência.

Shaka lançou um olhar plácido a ele e depois baixou um olhar com um meio sorriso, um sorriso bem mínimo, quase imperceptível. – Sinto muito. – Ele disse, e obviamente ele sentia muito não poder gargalhar na cara do moreno.

Ikki não soube como reagir. Shaka o estava desconcertando. Isso era enervante, mas não sentia que poderia confrontar o loiro, uma vez que, pelo visto, a culpa daquela situação estar assim não era exatamente dele. O moreno bufou, deslizou os dedos pelos cabelos negros, como se pensasse no que fazer. Terminou perguntando:

– Não consegue comer nada? – questionou no tom mais neutro que conseguiu utilizar.

– Nada. Parece que... Eu não sei, simplesmente não consigo – tentou ser o mais convincente possível, ao menos se manteria assim enquanto o moreno se mostrasse confuso como estava com suas atitudes. Poderia mudá-las quando fosse necessário.

– Então eu... – Ikki começou a dizer, acostumado como estava a sempre tomar decisões. Entretanto, deu-se conta de que não tinha ideia de que ordens dar agora. Estava decididamente fora de sua zona de conforto – Bem, eu... – pigarreou, tentando ganhar tempo. Acabou desistindo. – O que você sugere que eu faça então? Que deixe você ficar sem mais uma refeição? – perguntou, percebendo que, apesar do tom de intimidação, estava dando algum poder ao outro com essa pergunta.

– Talvez se não me forçar... – Shaka começou, meio hesitante – Eu me sinto tenso perto de você... Se me deixasse comer sozinho, não sei... Nunca aconteceu de uma forma tão... drástica... – Falou como alguém que está assustado. Quem disse que não conseguia ser ator? A necessidade faz coisas bem estranhas com as pessoas mesmo. Não sabia até quando iria com aquele teatro, mas talvez conseguisse ganhar alguma coisa com aquela falsa docilidade que demonstrava. Aquele homem gostava de ter o poder, pois bem, deixaria que achasse que tinha por enquanto.

– Sozinho? Não. Você não vai comer sozinho. – Ikki foi categórico – Eu já disse; você fará suas refeições na minha presença. Sempre. – nesse ponto, o moreno não mudaria. Havia muito em jogo. Se ele cedesse logo em algo tão importante quanto a questão das refeições, Shaka teria uma noção errada de como as coisas deveriam funcionar – Você terá de aprender a lidar com sua tensão. Afinal, que grande diferença faz eu estar aqui ou não? No final das contas, você continuará aqui, nesta mansão, sob meu poder. Então... Deixe de frescura e coma algo! – finalizou nervoso.

Shaka suspirou, derrotado. Aquilo não seria fácil. Mas olhou calmamente para o outro, olhando-o em seus profundos olhos escuros. Os olhos dele pareciam abismos, abismos que o tragariam se não tivesse cuidado com suas atitudes. Já perdera a cabeça muitas vezes com ele, já fora imprudente. Dessa vez seria mais pacífico, como o budismo dizia que deveria ser. Sim, tentaria a resistência pacífica que tanto admirava.

– Não. – Foi somente o que disse, enquanto encarava o outro.

– "Não"? – Ikki falou, por entre os dentes – Não vai comer? Está se negando a me obedecer, loiro? – o moreno agora deixou transparecer sua agressividade em cada palavra, pronunciada de modo a permitir que um tom de ameaça fosse notada em cada sílaba.

– Sinto muito por aborrecê-lo. – Shaka falou e baixou o olhar, mostrando-se humilde, controlando a vontade de rir do moreno e cuspir na cara dele. Não era isso que o budismo mandava. Seja pacífico, humilde, mas resista. Tentaria. Ame seu inimigo, achava que isso já era demais, mas respiraria fundo e tentaria ao menos não odiá-lo.

A respiração de Ikki estava agitada. Jogou o guardanapo com força sobre seu próprio prato e se levantou da cadeira, estupefato. Deu alguns passos na direção de Shaka, retrocedeu, não estava muito certo de como agir. Mas uma coisa ele sabia; essa submissão de Shaka, embora fosse o que ele teoricamente buscava, começou a revoltá-lo.

– Saia daqui. – Ikki disse, por fim – Se não quer comer, então não vai comer. – com um movimento, chamou por Khan, que logo adentrou a sala – O senhor Phalke não deseja comer agora. Como bom anfitrião que sou, vou atender o seu pedido. – sorriu cinicamente na direção do loiro – Acompanhe-o até seu quarto. E ele só sairá de lá quando estiver com fome e disposto a comer comigo. Entendido?

– Sim, senhor. – respondeu o mordomo.

Shaka se ergueu e acompanhou o mordomo em silêncio, novamente observando ao redor, tentando perceber cada detalhe daquele ambiente, mais uma vez.

– Quantos cômodos tem essa casa? – indagou como quem não queria nada, enquanto subia as escadas.

Khan, de seu modo sempre impassível, respondeu com a usual voz pausada:

– A mansão possui mais de 100 cômodos, sendo 23 suítes, 39 banheiros, três cozinhas, cinema com 50 lugares, teatro para apresentações privadas, duas pistas de boliche, cinco piscinas, sendo duas internas, uma sauna, uma quadra de squash, uma quadra de tênis iluminada, um ringue de patinação, uma adega, uma imensa biblioteca com mais de três mil volumes e uma sala de pânico em caso de um ataque terrorista. A casa levou cinco anos para ser construída. Não é à toa, pois tudo aqui é grandioso, de acordo com o gosto do nosso senhor. A sala de jantar, como deve ter percebido, é gigantesca. Tem 91 metros de comprimento...

Khan falava de todos aqueles números com precisão, demonstrando profundo conhecimento da mansão e, de algum modo, de Ikki. O mordomo parecia conhecer bem seu senhor e seus gostos.

– Tudo isso para aprisionar pessoas, que fantástico. – riu, sarcástico, mas continuou acompanhando o homem. – Para manter um lugar como esse deve haver muitos empregados, imagino, já que a casa parece sempre vazia. Bem não é importante. Obrigado pelas informações.

Eles seguiram em silêncio até o grandioso quarto. Assim que Khan o deixou, Shaka resolveu explorar tudo que havia ali dentro mais uma vez. Olhou o closet inteiro e se surpreendeu com a semelhança de como tudo era arrumado como o seu próprio closet. Alguém que trabalhara em sua casa passara aquelas informações tão detalhas. Só podia ser Antonia, a empregada recém contratada, ela era mesmo uma mulher misteriosa, mas tivera tão boas referências, como podia ser?

Livrou-se do terno e da camisa, pendurando-os, assim como a camisa,calças, sapatos, ficou apenas com a cueca e procurou uma calça. Achou exatamente o que queria, a calça branca e leve, idêntica algumas que possuía. Fez um coque com os cabelos, no alto da cabeça, desleixado, e foi para a imensa varanda. Fazia um dia bonito lá fora e ele ficou admirando o sol um pouco, mirando o jardim abaixo. Sentou-se em posição de lótus e fechou os olhos para meditar, limpando a mente e esquecendo aquela estranha situação temporariamente. Abriu os olhos muitas horas depois, sentindo o corpo suado. Mexeu os próprios pés, olhando a tatuagem que havia neles: era uma flor de lótus em tons dourado e azul, cada pé abrigava uma parte da flor e unidos eles a formava, aberta, grade e opulenta. Ele gostava daquele símbolo. Possuía também no cóccix um desenho de Buda naquela posição de meditação, saindo de uma daquelas flores. Era um símbolo do budismo, filosofia que sempre tentou seguir durante toda sua vida. Poucas vezes desviou-se de seus ensinamentos, mas reconhecia que não poucas vezes foi incapaz de domar seu próprio gênio arrogante e agressivo.

Ergueu-se e sentiu-se tonto, aquilo era estranho já que estava somente há 48 horas sem alimento. Seu corpo estava perdendo açúcar muito rápido, sabia. Para seu desespero, seu metabolismo era perfeito; perdia peso com muita facilidade e ganhava com muita dificuldade, não demoraria a estar magro, abatido e doente. Mas para intensificar isso, ele precisava também parar de beber água, isso sim faria seu corpo entrar em colapso numa velocidade absurda. Era uma jogada perigosa, sabia, mas veria até onde poderia ir com ela.

Título: Os mansos herdarão a terra.

Notas finais
OBRIGADA A TODOS QUE LERAM E, EM ESPECIAL, AOS QUE COMENTAM E COMENTARÃO ;) ATÉ MAIS! SION NEBLINA