Notas iniciais
Olá, queridos leitores, tudo bem? Capítulo novo! Obrigada a Lanny Missmuse e Cici pelos comentários no capítulo anterior. Beijo no core, queridas, e obrigada pelo carinho! Senti falta dos demais, não sejam fantasminhas, façam duas autoras felizes! Obrigada a todos que estão acompanhado e boa leitura! Sion e Lua

Bona fides

Capítulo 8

Mais tarde, Ikki estava em sua biblioteca, pensativo. Acabara de se reunir com os outros homens envolvidos naquele perigoso jogo e julgou que muitas coisas não caminhavam conforme o devido. Enervou-se com algumas opiniões, alegou que não gostava de trabalhar naquelas condições... Enfim, foi um dia desgastante. Depois que todos foram embora, ele fechou-se na biblioteca. Em seu semblante, seria impossível desvendar o que se passava em seu interior. O moreno permaneceu assim por um bom tempo, até notar que o ambiente escurecia. Olhou pela janela do grande aposento e viu que o sol começava a se pôr. Mandou que chamassem por Khan e, quando o mordomo apareceu, perguntou-lhe logo:

– E então? Ele sentiu fome?

– Não sei, meu senhor. O rapaz sequer mandou me chamar. Aliás, não chamou por ninguém. Ficou meditando por todo esse tempo.

– Meditando? Ele ficou meditando o dia inteiro??

– Sim, senhor.

– Mas não é possível! Esse loiro se alimenta de quê? De vento? – Ikki soltou, furioso. Levantou-se da poltrona em que estava sentado e se encaminhou para sair da biblioteca.

– Vai confrontá-lo, senhor? – Khan apressou o passo para acompanhar o moreno.

– Vou. Alguém precisa colocar juízo na cabeça desse advogado sem noção.

– Mas... tem certeza de que é uma boa ideia? O senhor Phalke definitivamente não parece alguém que ceda diante de imposições e...

– Khan, quando eu quiser sua opinião, eu peço! Agora, vá mandar os criados servirem o jantar! – bradou Ikki, já subindo a longa escadaria.

Andou a passos rápidos e decididos pelo corredor que levaria ao quarto de Shaka. Porém, quando se via diante da grande porta de madeira, hesitou. Não sabia se bateria ou entraria de uma vez. Obviamente nunca se importou com essas coisas e aquela era sua casa, mas lembrou-se de Khan ter lhe dito que Shaka meditara por todo o dia... Preocupou-se em retirá-lo desse estado subitamente e, considerando que seu corpo estivesse fraco, isso poderia causar-lhe algum mal ou algo assim...

Contudo, Ikki logo foi tomado pela revolta de se ver em tal situação e optou pelo seu jeito de ser; abriu a porta de supetão e entrou por ela como um furacão.

Shaka estava alongando os músculos quando ouviu a porta. Ainda estava na parte externa, na bonita varanda com um belo jardim em estilo oriental e uma banheira de hidromassagem que mais parecia uma piscina de tão grande. Era um lugar bonito, um lugar que o deixava em paz, apesar das circunstâncias, pois, embora não pudesse sair, dali dava para ver toda a extensão verde daquele imenso lugar e ele percebia, desanimado, que fora da propriedade – o que era até difícil de alcançar pela visão; ele só via a linha dos blocos que compunha o muro, uma linha branca distante – havia uma densa mata. Não havia sinal de estrada, de cidade, de nada. Tudo era verde.

Suspirou desanimado, continuando a olhar o local. Não se deu ao trabalho de se virar para ver quem entrava, mas sabia quem era, podia sentir. Apoiou os cotovelos na mureta trabalhada num mármore bege trabalhado e assim ficou, respirando profundamente. Esperando qual seria a primeira tacada daquele jogo de sinuca.

Ikki logo percebeu que Shaka não estava dentro do quarto, e sim na varanda. Com as mesmas passadas vigorosas, ele alcançou a parte externa, mas parou tão logo seus olhos encontraram a figura do loiro. Ele estava de costas, com um coque que permitia ver parte da nuca e o pescoço esguio do aspirante a promotor. As costas nuas, muito pálidas, quase se confundiam com a calça branca que esvoaçava de leve por conta da brisa noturna que soprava. Talvez por isso mesmo tenha conseguido enxergar parcialmente uma tatuagem que ficava ali, no limite da cintura daquela calça... Ikki sacudiu a cabeça, controlando-se para não prosseguir com aquela trajetória que seus olhos famintos desejavam percorrer. Cerrou seus punhos com força, como se assim pudesse se recordar do que tinha de fazer:

– O jantar está sendo servido. Já está pronto para me acompanhar nessa refeição? – a voz de Ikki saiu mais rouca que o normal, provavelmente devido ao fato de sua garganta encontrar-se agora bastante seca.

Shaka se virou devagar, sem nenhuma ansiedade. Tentava controlar todas as suas reações naquele momento. Seus olhos claros, tão límpidos quanto um dia bonito, encararam os olhos escuros e tempestuosos do moreno.

– Não. – Ele negou. – Não posso.

– Vai continuar com esse argumento ridículo? "Não posso"? É tudo o que tem a dizer? – por mais controlado que desejasse parecer, Ikki não estava sendo bem sucedido – Você não entende que seu corpo precisa de alimentos para sobreviver? Então não me venha com esse papo, é claro que você pode! – ele se aproximou mais dois passos, buscando causar maior intimidação – Agora chega disso. Vamos.

Shaka o encarou, mas o seu olhar não possuía a velha petulância e rebeldia que tanto marcaram a relação dos dois. Agora havia somente uma determinação férrea, uma chama que demonstrava que ninguém poderia quebrar seu espírito por mais que tentasse com ameaças. Estava disposto a chegar até o fim naquilo. Não tinha medo de morrer, essa era apenas mais uma etapa da vida, tinha certeza. De sofrer? Também não, já tinha ultrapassado essa esfera. Sua resistência pacífica continuaria, independente de qualquer coisa.

– Sinto muito. Independente dos danos que isso possa causar ao meu corpo, não me sinto inclinado a comer. Não enquanto eu for tratado como um escravo, Não enquanto você achar que pode determinar meu ir e vir. Simplesmente... Prefiro morrer de fome.

– Ah! – Ikki soltou a interjeição, como se houvesse acabado de fazer uma grande descoberta – Eu sabia que tinha algo por trás disso tudo! Sabia!!! Isso tudo é um grande teatro, é mais uma tentativa ridícula sua de me confrontar! Acontece, meu caro, que não é assim que as coisas funcionam. Você não vai conseguir me fazer modificar minhas atitudes por meio de birra. Então, vamos parar com essa infantilidade de "não quero comer", "não consigo comer". Entenda de uma vez por todas: Você É meu escravo e vai continuar sendo, até que eu resolva mudar de ideia. E, no momento, estou longe disso. Portanto, chega dessa frescura toda, porque odeio isso. Vamos comer. E vamos AGORA. – finalizou o moreno, categórico.

– Já disse que eu não consigo. – Shaka continuou, decidido. – E a culpa é sua, sua simplesmente. Não consigo comer numa situação como essa, me sinto tenso e deprimido. – Tentou consertar ao máximo o discurso inicial. Mantinha certa ambiguidade nas próprias atitudes com o intuito de confundir aquele homem. Era melhor mentir uma postura mais pacífica, embora não propriamente submissa. Mirou o moreno nos olhos de forma direta, objetiva, mas não arrogante. – Acabarei morrendo se não me libertar. A escravidão não é uma opção para mim, senhor Ikki.

Ikki bufou uma, duas, três vezes. Era visível o quanto ele estava revoltado com essa situação e indignado com a postura de Shaka.

– Eu vou te jogar nas minhas costas e te levar na marra para sentar à mesa. E, se for preciso, eu abro a sua boca e enfio a comida à força ali. – ameaçou. No fundo, ele sentia o quanto sua ameaça era quase ridícula. Mesmo que levasse adiante esse quadro bizarro que acabava de pintar, o que faria depois? Do jeito que esse loiro parecia teimoso, não duvidava que ele permanecesse ali, com a boca aberta e a comida repousando inerte em sua língua. Contudo, precisava crer que seria capaz de intimidar o advogado com essas palavras, até porque, já não encontrava outras que pudessem surtir algum efeito.

Shaka deixou escapar um meio sorriso que tentava disfarçar a sua descrença naquela afirmação. – Não vai adiantar. Mas talvez eu acabe engasgando e morrendo e tudo isso acabe. De todo jeito, não é uma má ideia – falou com paciência e a mesma docilidade fingida diante da nova situação que impunha ao outro. – Ou você pode me levar lá fora, quem sabe a noite não me ajude a melhorar? – e sorriu de forma quase charmosa, se é que não totalmente. Não sabia muito bem suas intenções ao dizer aquilo, talvez quisesse checar a extensão da mansão e a muralha que parecia tão distante do seu quarto, mas isso ainda não estava muito claro para si. Também não podia negar que finalmente, diante daquela nova atitude sua, sentia que a guarda do moreno estava um tanto baixa e com isso tentava obter algum tipo de controle sobre ele, alguma forma de manipulá-lo, fosse com sua fingida fragilidade, fosse com suas estratégias de sedução aprendidas na advocacia.

Por mais que tivesse certeza de que o loiro tentava manipulá-lo (porque, para Ikki, era isso que todos faziam, era esse o jogo que todos engendravam), o moreno teve dificuldades de ser racional. Precisou se lembrar de usar a razão e calar o que é que fosse que parecia despertar diante daquele meio sorriso. "É falso, é tudo falso, é um sorriso completamente falso", fez questão de se repetir mentalmente, até como forma de autoproteção. Ikki sabia muito bem aonde poderia parar se desse vazão ao seu lado menos racional. Então, depois de conseguir assumir pleno controle sobre suas ações, o moreno respirou fundo até para dar às suas palavras o tom desejado: mais frio, mais cruel.

– Você não vai sair daqui. – conseguiu falar pausadamente – Você não vai conseguir nada do que me pede. Aliás, o simples fato de ousar me confrontar fez com que regredisse na escala que eu utilizo para medir seus progressos nessa mansão. Saiba, portanto, que qualquer coisa que pedir, pelo simples ato de ser você a pedir, não lhe será dado. – o moreno então deu as costas para o rapaz loiro – Não quer comer, então? Quer permanecer nesse joguinho? Está bem. Eu lhe mostro que também sou capaz de jogar. E saiba que, quando eu jogo, jogo para ganhar. – passando pelo batente da porta, Ikki falou para Khan em alto e bom tom, de modo que Shaka pudesse ouvi-lo – Ele não poderá deixar este quarto enquanto não decidir comer. E não se preocupe em pressioná-lo, Khan. Não precisa ser hoje, ou amanhã. Não me importa. – Ikki parou e lançou um olhar desafiante para o advogado, junto de um sorriso tão irritante quanto charmoso – Uma hora, ele vai comer. – dito isso, deixou o quarto, com a grande porta de madeira se fechando atrás de si.

Shaka sorriu de volta quando o moreno lhe sorriu de forma provocativa. Ele também era determinado. Não estava decepcionado, óbvio que sabia que não seria seu lindo sorriso que ludibriaria aquele homem diabólico. Já esperava aquela reação e uma das suas características era exatamente prever a reação das pessoas. Nunca era surpreendido, melhor, quase nunca.

Sentou-se na cama e tentou achar alguma coisa que pudesse fazer. Abriu algumas gavetas, mas não encontrou nada que pudesse ajudá-lo, então foi para o banheiro e tomou um banho, vestiu um pijama e se cobriu com o grosso edredom, dormindo.

O dia seguinte foi a mesma coisa. Passou todo o tempo trancado no quarto, entre meditação, banho, deitar-se na cama, fitar o teto, meditar novamente, sentir sede, meditar para esquecer a sede, mirar a paisagem do lado de fora. Não sabia até quando resistiria. Era o quinto dia sem comer, o segundo sem beber água e ele já começava a sentir os efeitos, pois não possuía uma reserva significativa de gordura no corpo, mas precisava continuar.

Na biblioteca, Ikki mantinha um livro aberto diante dos olhos, mas seu pensamento estava longe dali. Em seu semblante, era notável uma impaciência crescente. Assim, quando Khan adentrou o aposento a fim de entregar algumas correspondências para o mestre da casa, o moreno fez menção de que iria perguntar algo, mas calou-se no último instante. Virou o rosto para o lado oposto em que estava o mordomo, como se buscasse assim vencer alguma tentação e fingiu não dar pela presença do homem grisalho ali.

– Sabe, senhor... Perguntar pelo senhor Phalke não demonstra fraqueza; mostra apenas curiosidade quanto ao estado do nosso hóspede. – disse o mordomo, em um tom neutro, sem qualquer acento de ironia.

– Não estou curioso. – Ikki respondeu de imediato – Só estava pensando em quanto tempo faz que aquele loiro teimoso não se alimenta.

– Faz cinco dias, senhor. – disse Khan, no mesmo tom de sempre.

– Ah, sim. – Ikki falou, como se não já soubesse a resposta à pergunta feita. A verdade é que ele sabia muito bem quantos dias, horas e talvez até os minutos desde que mandara deixar o loiro trancado em seu quarto. – Quer dizer que já são cinco dias? – o moreno indagou, tentando demonstrar despreocupação – Ele é teimoso. E... nem sinal de que ele vá ceder?

– Não que eu tenha percebido, senhor. A rotina dele tem se mantido e ele parece decidido a continuar assim.

– Sei. – o poderoso homem, com um olhar enigmático, levantou-se repentinamente de sua cadeira – Vamos ver quanto a isso.

– Pretende ameaçá-lo novamente, senhor?

– Não, Khan. Quero apenas descobrir até onde ele está disposto a ir. – Ikki respondeu sem parecer nervoso e se encaminhou até o quarto de onde havia evitado se aproximar nos últimos dias.

Lá chegando, mandou com um gesto que os homens que guardavam a porta como ferozes cães de guarda se retirassem. Em seguida, abriu a porta e entrou, sem fazer questão de se anunciar.

Shaka estava deitado, jogado na cama. Sentia-se cansado, fatigado pela escassez de água e comida em seu corpo. Seus reflexos estavam lentos, sua visão turva e ele percebia a realidade de forma diferente naquele momento. Por diversas vezes sentiu-se tentado a beber água, até mesmo a da pia do banheiro, pois imaginava que ali poderia não ter câmeras, mas não se atreveu. Se seu objetivo era ficar mal, e rápido, ele precisava parar com a água também. E sim, ele já estava mal, depois de cinco dias de jejum extremo. Não demoraria a entrar em estado de choque.

Quando ouviu a porta se abrir, sentou-se tão rápido na cama que se sentiu tonto e resolveu ficar ali mesmo, com medo de cair. Vestia apenas outra calça branca e seus cabelos estavam soltos, meio desalinhados e sua aparência era extremamente abatida.

Sorriu um tanto irônico, embora estivesse tonto, nauseado e fraco.

– Ah, senhor Ikki, a que devo a visita? Desculpe não está vestido adequadamente dessa vez, mas você me pegou de surpresa. – o encarava sem medo ou hostilidade.

Ikki entrou no quarto e parou próximo da cama. Viu o loiro se levantar com alguma dificuldade e nada disse. Observou a figura dele; estava mesmo magra. Era impressionante como, em cinco dias, ele havia mudado. Não que Shaka tivesse um porte físico incrivelmente robusto, mas ele era dono de um corpo saudável e razoavelmente atlético. E agora era uma cena quase deplorável a que tinha diante de si.

– Shaka, aonde pretende chegar com isso? – disse Ikki, em um tom quase conciliatório – Se continuar nesse ritmo, seu corpo irá definhar de tal modo que você não conseguirá se recuperar.

– E por que eu deveria querer me recuperar? Pra ficar aqui? Pra me tornar seu cachorro pra sempre ou até quando você ache que eu deva ir? Não! Eu prefiro morrer e pelos deuses, morrer parece o mais suave nesse momento. – Shaka agora estava trêmulo, a debilidade física não combinava muito com autocontrole, embora ele quisesse. Afastou-se dele novamente, voltando a se sentar na cama. – Sai daqui... – disse quase num sussurro. Envergonhou-se. Aquilo não deveria o estar afetando tanto, não ainda. Precisava ter mais controle de si, precisava ir até o fim com aquilo.

Ikki agora demonstrava alguma preocupação em seu olhar. E foi com esse olhar que ele fez uma análise rápida do quadro do loiro.

– Você está realmente mal. Mas não vou permitir que morra; isso não está nos planos. Entenda, senhor Phalke, você não é mais senhor de sua vida ou destino. Tudo isso agora ME pertence. EU decido se você vai viver ou morrer. Neste caso, está decidido que você deve viver. Então, continue me afrontando o quanto quiser. No momento em que eu perceber que as coisas estão indo longe demais – e acredite-me, já estamos quase lá –, eu faço você se alimentar nem que seja por uma sonda! Entendeu?

Shaka sorriu levemente. – Nada vai adiantar, senhor Ikki, eu não vou seguir suas ordens! Não vou! E se você diz que não é louco, não fará nada contra mim, não pode! – ergueu-se novamente. Estava confuso, sentia-se tonto, não queria falar mais com aquele homem. Sabia que ele podia, sabia que ele podia muitas coisas e no fundo sentia medo. – Deixe-me em paz!Vai embora daqui, seu demônio!

Ikki percebeu que Shaka estava profundamente alterado. Viu então como o outro se levantava tropegamente e não permitiu que ele prosseguisse. Aproximou-se a tempo, apesar de o loiro continuar proferindo palavras de expulsão. Ikki tomou o advogado nos braços e sinalizou com os olhos para Khan, que compreendeu rapidamente o que era para fazer. Shaka ainda parecia desperto, embora seu estado denunciasse que ele não deveria estar muito consciente do que se passava. Ikki caminhou a passos rápidos, atravessando corredores pela mansão, até chegar a uma sala que lembraria um centro clínico de saúde. Depositou Shaka sobre uma das camas ali e logo alguns homens, a seu chamado, estavam ao seu redor, para tomarem os devidos cuidados com o loiro.

Tudo parecia perdido num sonho, sua cabeça rodava e ele via tudo de forma lenta. Sua consciência só voltou completamente quando ele foi posto em cima de uma maca em algo que parecia ser o quarto de uma clínica. Ele olhou para Ikki, alterado, e tentou se erguer, mas acabou sendo detido pelos homens estranhos que entravam naquele lugar.

– O que-... O que vai fazer comigo? Me soltem! – debatia-se, mas não tinha forças para ir contra aquilo. – O que vai fazer?... – Seus olhos agora estavam diretamente no moreno e ele sentia um medo profundo o tomar, um medo como nunca pensou que sentiria. Medo de morrer. Na verdade, nunca achou que chegaria àquele ponto, pensava em dobrar o moreno por sua determinação, mas não queria a morte, como todo ser humano possuía um instinto de sobrevivência e este agora estava mais alerta que nunca. Seu lado primitivo não o deixaria morrer tão passivamente – O que vai fazer comigo?... – sua voz foi um sussurro que tentava conter o pavor que sentia. – Manda eles me soltarem...! Pare com isso!... – dizia, olhando para o moreno. “Por favor, pare com isso...” implorou em pensamentos, mas seus lábios apenas se crisparam e ele grunhiu, lutando para se libertar novamente, debatendo-se, dando cabo das últimas energias que seu corpo tinha.

Ikki observou como Shaka se debatia, mas não interveio. Deixou que seus homens cuidassem de amarrá-lo junto à cama, a fim de imobilizá-lo. Ikki sabia que, quando fosse necessário, teria de machucar Shaka fisicamente, porém preferia evitar esses momentos ao máximo, até que não houvesse outra saída.

Assim que os homens terminaram de executar suas tarefas, Ikki fez um sinal para que deixassem o local, de modo que logo todos se retiraram e ficaram apenas os dois ali. O dono da mansão então se aproximou e disse, com uma expressão vazia e uma voz que parecia desprovida de qualquer sentimento:

– Agora chega; pare de se mexer desse jeito. Só vai conseguir se machucar se continuar assim. E, apesar do que pensa, esse não é o meu objetivo. Entretanto, sou obrigado a tomar atitudes nesse sentido se você não segue as ordens conforme lhe são passadas. – o moreno soltou um suspiro que, longe de ser teatral, demonstrava verdadeira chateação com algo – Entenda, senhor Phalke. Eu realmente não quero machucá-lo. Contudo, se precisar, eu vou TER que agir assim. Compreende? – Ikki falava, com as mãos cruzadas atrás e os olhos fixos no loiro – Agora mesmo, estou agindo para evitar que você se prejudique. EU quis permitir que você tomasse a decisão correta por conta própria, mas quando notei que não o faria, tive de me intrometer. Você está muito fraco e para se restabelecer será alimentado por meio dessa sonda. Depois, se resolver se comportar, poderá regressar ao seu quarto.

Finalizou o que disse e silenciou por alguns instantes. Não é que estivesse esperando por uma resposta, parecia mais que estava se certificando de que, a partir de agora, Shaka ficaria bem. Assim, estando assegurado disso, deu meia volta e dirigiu-se para a saída, proferindo a seguinte frase:

– Agora descanse, senhor Phalke. Você vai precisar.

– Não! – Shaka não deixou que ele saísse, estava apavorado em ficar ali, imobilizado daquele jeito, ainda mais prisioneiro das vontades dos outros. – Me tire daqui, eu-... Eu prometo que vou colaborar, eu prometo! Não me deixe preso aqui! – seus olhos expressavam o pânico que tinha daquilo, de ficar a mercê de qualquer pessoa. Por que aquilo estava acontecendo consigo? Era um pesadelo, seu pior pesadelo. – Eu prometo colaborar... – a voz foi um fio quase inaudível — Por favor... – fechou os olhos com força, tomado por extrema humilhação naquele momento. Não queria ter que implorar, mas também não queria ter que ficar preso àquela cama.

Ikki parou imediatamente, não só por causa do que ouviu, mas em especial pelo modo como aquelas palavras foram ditas. Sem responder ao loiro verbalmente, ele regressou para junto da cama. Seu semblante continuava indecifrável. Começou a desamarrar o advogado, sem dizer qualquer coisa. Em seguida, tomou o loiro nos braços e, ainda sem dizer uma palavra, levou-o de volta aos seus aposentos. Havia uma cadeira de rodas junto à porta, provavelmente estacionada ali para ser usada em momentos assim, porém Ikki demonstrou preferir levar Shaka ao seu modo. Passou reto pela cadeira e seguiu ininterruptamente, de modo que somente parou quando estava já diante da grande e confortável cama destinada a Shaka. Colocou o loiro ali, com cuidado. Continuava calado e depois de deixar o outro bem aninhado em seu leito, abandonou o quarto, mas não se ausentou por muito tempo; logo já estava de volta. E regressou segurando uma bandeja de prata, sobre a qual se via um prato com sopa e um copo com água. Depôs a bandeja sobre a cama, transformando-a em uma espécie de pequena mesa a se usar no leito e se sentou em uma cadeira que colocou ao lado da cama.

– Você disse que ia colaborar e eu acredito. Porém, é como eu disse. Você deverá fazer todas as suas refeições na minha presença, a começar por essa. – cruzou os braços e recostou-se mais na cadeira.

Shaka olhou para a sopa que tinha um ótimo aspecto e cheirava maravilhosamente bem. Porém, para ele, ela teria somente o sabor da derrota. Sem olhar para o moreno pegou a colher, mas sua mão tremia tanto que ele a colocou dentro do prato, mas não conseguia levantá-la com medo de deixar a sopa cair e tornar aquilo ainda mais patético. Estranhamente, sua mão parecia perder toda a firmeza naquele momento, talvez pela fraqueza, pela desidratação extrema, ele não sabia.

– Eu... – não continuou, continuou com esforço, vacilante, levando a colher trêmula aos lábios e sorvendo a sopa, sentindo o metal bater em seus dentes, de tanto que tremia. Sentia-se extremamente miserável naquele momento e já não conseguia encarar Ikki. Perdera aquela batalha e isso o humilhava.

Ikki notou a forma como Shaka demonstrava dificuldades em tomar sua sopa. Como se fosse o gesto mais usual e natural naquele momento, ele levantou-se da sua cadeira, sentou-se na beirada da cama, tomou a colher das mãos do loiro com delicadeza e ele mesmo levou a colher à sopa, direcionando-a em seguida aos lábios do advogado.

Ikki sabia muito bem que poderia tripudiar e humilhar o outro naquele momento, mas não era essa sua intenção. Contudo, também não era parte de seu trabalho facilitar as coisas para ele. Mesmo assim, por algum motivo, preferiu não dizer nada, amenizando, ainda que pouco, a difícil situação em que se via o jovem aspirante a promotor.

O primeiro reflexo de Shaka foi recuar o corpo por instinto, erguendo os olhos pasmados finalmente para o moreno. Entretanto, ao perceber a real intenção dele, acabou por baixar os olhos novamente e aceitar a ajuda que, por mais estranho que parecesse, não aumentou seu mal-estar, ao contrário, lhe deu até um pouco de alívio, já que suas mãos não tinham a firmeza que geralmente mantinham.

Comeu em silêncio, sem olhar para o outro, mas percebendo a mão dele indo em direção aos seus lábios, e como a mão dele era a única coisa que conseguia ver de forma concreta, do jeito que estava, ele prestava especial atenção a ela, notando algumas cicatrizes pequenas e uma um pouco maior. Era uma mão grande, mas não grosseira, mesmo com esses detalhes. Shaka maneou levemente a cabeça, pensando que deveria achar algo melhor a fazer ali do que ficar olhando a mão daquele homem.

– Eu... não quero mais... – ele murmurou quando Ikki afastou a colher dos seus lábios, não tinha comido muito, mas seu estômago parecia incrivelmente cheio naquele momento.

O poderoso magnata não retrucou; repousou a colher sobre o prato e pegou o copo com água.

– Beba. — ele se limitou a dizer, em um tom quase suave. Depois, pegou a bandeja e se levantou para deixar o quarto. Antes de sair, no entanto, falou o seguinte:

– Vou deixá-lo descansar. Ainda hoje, virá um médico para examiná-lo apropriadamente. E... – o olhar tornou-se um pouco nebuloso nesse instante – Procure não me confrontar mais. Eu não quero que algo desse tipo se repita. – essas palavras não soaram como um sermão, elas mais pareciam um pedido genuíno, como se para Ikki toda essa situação também houvesse sido bastante desagradável.

Shaka segurou o copo com as duas mãos, como se assim pudesse ter mais firmeza, tomando todo o conteúdo dele. Em momento algum olhou o moreno, embora ouvisse tudo que ele dizia. Sentia-se patético, fraco naquele momento e não queria um confronto naquele momento. Não respondeu, seu silêncio era sua única defesa contra a humilhação total.

Título: Bona fides. Bona fides são credenciais que demonstram boa-fé ou honestidade.

Notas finais
OBRIGADA A TODOS QUE LERAM. BEIJOS, ATÉ UM PRÓXIMO CAPÍTULO! SION E LUA