Nelumbo nucifera
9 Errare humanum est
Notas iniciais
Errare humanum est
Capítulo 9
Mais ou menos uma hora após ele ter se alimentado, o médico chegou para examinar Shaka. O diagnóstico foi obviamente desnutrição e desidratação. Uma bolsa de soro que foi trocada algumas vezes durante a noite ficou o tempo todo presa à sua mão por uma agulha que incomodava um pouco. Shaka dormiu, então não soube quem trocou o soro, mas sabia que as bolsas foram trocadas, pois viu três bolsas vazias dentro de um balde de lixo próximo a maca.
Tivera febre durante a noite, na verdade já estava febril há alguns dias, sinal da desidratação, além das náuseas constantes. A urina havia cessado completamente já havia três dias e agora, depois de tanto soro o que ele queria mesmo era ir ao banheiro, por isso se ergueu e foi direto para o banheiro, arrastando o cabide com o soro. Ainda sentia-se fraco, mas já não sentia tontura.
Já era madrugada, ele achava. Shaka voltou para a cama e fechou os olhos, adormecendo de imediato. Sonhou com Ikki, no sonho, o moreno o pegava nos braços novamente e o olhava daquele mesmo jeito que olhou naquela noite, só que dessa vez ele o levava para o jardim e o jardim era lindo e já era manhã, e de repente todos estavam lá Kanon, Saga, seu pai...
Estava escuro quando ele acordou novamente, apenas uma tênue luz passava pela cortina cerrada. Sentiu-se inquieto e retirou a bolsa de soro do braço, já era manhã. Shaka empurrou a porta e mirou o corredor vazio. Os seguranças não estavam ali, a casa parecia tranquila. Será que ainda estava sonhando?
Saiu na ponta dos pés, esperando contar com a escuridão e o silêncio da casa para poder andar mais livremente. Sabia que não poderia fugir, mas queria averiguar o lugar sozinho. Desceu as escadas devagar, estava escuro, e ele não estava bem, se tropeçasse, era capaz de quebrar todos os ossos numa queda daquela altura. Desceu às escadas e adentrou a grande sala que também estava deserta. A porta não deveria estar trancada, mas deveria haver seguranças perto dela, ele pensou, por isso, forçou uma janela que se abriu facilmente. Queria sair, simplesmente sair. Sentia-se fraco, debilitado demais para pensar direito.
A janela era baixa, não teve muita dificuldade em sair por ela, embora ainda tropeçasse um pouco. O frio da manhã o atingiu de forma cruel, mas a sensação de ar fresco foi melhor e ele sorriu, abrindo os braços. Convidando a natureza para revigorá-lo.
Ikki estava prestes a dormir, embora seu sono nunca fosse tranquilo e seu repouso, nunca pleno. O livro que carregava consigo para cima e para baixo estava sobre seu criado-mudo, aberto. Ele olhava fixamente para algum ponto invisível no teto de seu grande quarto. Milhares de pensamentos iam e vinham, desconexos, confusos e fazendo-se urgentes em sua turbulenta mente. Já era manhã, quando o dono da mansão pensou que iria finalmente adormecer – ele nunca dormia mais que umas poucas horas –; seus planos, porém, foram abreviados por uma leve batida em sua porta. Ikki ergueu-se rápido, tinha o sono leve, e logo se deparou com seu mordomo.
– Senhor, desculpe interromper, mas as ordens eram claras... Se o senhor Phalke deixasse o quarto...
– Ele saiu do quarto?!
– Sim, senhor... E... está saindo da casa. Seus homens estão todos de sobreaviso; cada passo dele está sendo monitorado, mas o senhor foi bem claro quando disse que não queria que ninguém se dirigisse ou se aproximasse dele quando ele estivesse finalmente em pé. Obviamente não esperávamos que o senhor Phalke se levantasse tão cedo, mas enfim... Não sei ao certo como proceder, senhor. Seus homens devem interceder?
– Não. – Ikki já havia se levantado e vestia um robe de seda preto. O peito estava nu e vestia uma calça do pijama de seda preta também – Eu cuido disso. Avise aos meus homens que continuem vigiando, mas ninguém deve se intrometer, a não ser que escute uma ordem expressa. – dito isso, o moreno saiu de seus aposentos às pressas. Informou-se rápido sobre o paradeiro de Shaka e um de seus homens indicou o exato caminho e localização do rapaz, que havia já ganhado o jardim. Ikki não disse nada; rumou para o lugar indicado e encontrou o loiro debaixo de uma frondosa cerejeira. O advogado não o viu e Ikki pensou em qual seria a melhor forma de fazer sua presença ser notada.
Shaka estava descalço e estava achando maravilhoso o contato com a grama molhada de orvalho. Sentia a brisa da manhã e observava as pequenas flores com admiração, como se elas fossem algo sagrado, tocou algumas pétalas, fechando os olhos. Sentia-se em paz naquele momento, mesmo que também percebesse o quanto estava debilitado, fisicamente debilitado. O clima estava fresco, não frio, mas vestia apenas a calça fina e sua pele se arrepiou, mas ele achou aquilo bom, se sentiu vivo. Deuses, o que estava fazendo? Aquele foi o ato mais desesperado da sua vida. Colocara-se em risco e perdera no final. Aprendizado, pensava. Ainda tinha muito que aprender.
Abriu os braços se alongando e virou-se, quase se chocando com o moreno e levando um susto tão grande que empalideceu como se visse um fantasma. Deu dois passos para trás com uma expressão assustada e ao mesmo tempo ameaçadora, como um gato que é encurralado em um beco.
– Eu não ia fugir – disse, mirando o outro, alerta, o coração batendo forte. Temia que ele se arrependesse de não tê-lo mantido preso à cama.
– Eu não temia isso. Mesmo que você quisesse, não obteria êxito. É impossível fugir daqui; simplesmente não há como deixar este lugar sem a minha permissão. – Ikki respondeu, com o rosto sério. Os braços fortes, cruzados sobre o peito, deram ainda mais intimidação ao seu semblante – Porém, você quebrou uma regra. Uma regra muito clara. Eu lhe disse que você não poderia deixar a casa, não ainda. E, como se minhas palavras nada significassem, você me desobedeceu. Isso logo depois de eu ter lhe oferecido um pouco de minha confiança, que, creio eu, deva ser-lhe retirada agora. – a voz foi um pouco dura – Por que me obriga a castigar-lhe, mesmo contra a minha vontade de fazê-lo? — perguntou, antes que pudesse se policiar e pesar corretamente as palavras que acabava de proferir.
– Até os ratos de laboratório tentarão obter a liberdade se acharem uma maneira... – Shaka disse, mas não de maneira hostil, na verdade havia mais amargura em sua voz que qualquer outra coisa. – Deve perceber que eu não o afrontei, saí num horário que pensei que não seria notado... Não quero brigar, senhor Ikki, não quero discutir, não tenho forças para isso... – respirou fundo, sentindo-se estremecer, talvez pela brisa fria que começava a soprar à medida que a noite avançava – A maior punição que pode me dar... é me deixar morrer... – Sim, naquele momento ele estava à beira da depressão. Todo o bem estar que sentia evaporou-se com a simples menção a uma nova punição, a um novo confinamento. Talvez fosse a debilidade física causada pelos dias em jejum, talvez ele apenas estivesse perdendo a esperança de sair dali. Chegou a ter alguns segundos de felicidade naquele jardim, como em seus sonhos, mas a presença do moreno trouxe com ela a realidade da sua situação.
Ikki escutou com atenção cada palavra do loiro. Tinha de fazê-lo, pois era necessário estar constantemente avaliando o estágio em que o advogado se encontrava. No momento, Ikki se via confuso. Antes de saber que ele saíra da mansão, o moreno havia acreditado ter conseguido um grande progresso com Shaka. Entretanto, entendia agora o quanto se enganara. A breve tentativa de fuga do loiro demonstrava que eles tinham regredido demais. E não havia tempo para isso. As cobranças eram crescentes e Ikki precisava mostrar serviço. O olhar analítico tinha a cor da madrugada e a profundeza do oceano. Era impossível ler qualquer pensamento naquele olhar. Assim, depois de considerar o que ouviu, Ikki se manifestou com uma voz impassível:
– Não me importa o que ratos fazem ou deixam de fazer. Você não é um animal irracional como eles. Ou, ao menos, não deveria ser. De todo modo, você me desobedeceu e eu simplesmente não posso deixar isso passar em branco. Simplesmente... não posso. – nem mesmo Ikki compreendia ao certo o que fazia agora. As palavras que usava pareciam se desculpar pelas suas atitudes. Era isso mesmo? Começava a sentir alguma humanidade diante do quadro fragilizado à sua frente? Ora, não era a primeira vez que enfrentava situação desse tipo. Porém, mesmo que o momento lhe fosse semelhante a tantos outros, era-lhe também tão distinto... Ikki fechou os olhos por um segundo, como se buscasse encontrar a razão dentro de si. Ao reabri-los, sentiu que havia alcançado seu objetivo. – Você tem de ser punido. Não é uma decisão minha; você é quem causa isso a si mesmo. Precisa compreender que sua estada nessa casa pode ser boa ou ruim. Só dependerá de você. Se colaborar, poderá voltar para seu lar, são e salvo, o quanto antes. Se continuar resistente, bem... Você irá regressar à sua vida, quanto a isso, não se preocupe. Contudo, esse regresso irá demorar e o processo até lá será bem mais sofrido. Como eu disse, só depende de você. – apesar de haver um tom ainda ameaçador nessas palavras, Ikki buscou apresentar para Shaka uma luz no fim do túnel. Falou de maneira assertiva, para que o loiro entendesse que não ficaria ali para sempre. Tinha notado o princípio de depressão do outro e, embora não tivesse de evitar esse estado no advogado, o moreno julgou que seria melhor se tentasse ajudá-lo a não entrar nessa condição. Obviamente, havia limites. Ikki faria o possível para evitar que Shaka entrasse nesse estado, mas só até certo ponto. De resto, dependeria do loiro. – Venha comigo. – com um gesto, indicou para que o loiro o seguisse. Era claro que a punição a Shaka viria agora. Era até mesmo cruel que Ikki ordenasse ao aspirante a promotor que o seguisse assim, espontaneamente. No entanto, era uma lição a ser aprendida. Independente do que fosse, Shaka tinha de aprender a obedecer sem questionar. O poderoso dono da mansão apenas poderia esperar que o loiro agisse de acordo; do contrário, teria de levá-lo consigo à força, com auxílio de seus homens.
Shaka suspirou cansado e deixou um sorriso amargo escapar. Estava exausto, na verdade nem sabia o que fazia ali fora, não conseguia pensar direito, era verdade, mas também não explicaria aquilo. Respirou fundo, ajeitou a postura, como uma última prova de que embora prisioneiro, ele continuava com a mesma dignidade de sempre, deu dois passos em direção ao outro, demonstrando que não resistiria e deixou que ele o guiasse, fosse lá para onde fosse.
No caminho de volta à mansão, nenhum dos homens de Ikki esteve à vista. Entretanto, tão logo adentraram a grande residência, o moreno fez um gesto rapidamente compreendido e diversos homens, todos vestidos de terno preto, obedeceram ao seu comando, seguindo em fila logo atrás do poderoso dono da casa e seu prisioneiro.
Ikki continuou guiando o loiro sem olhar para trás. Levou-o até a sala de TV, que era bastante ampla, e esperou que o advogado e seus homens – eram oito os homens que atenderam ao seu chamado – entrassem no local. Quando já estavam todos ali, o moreno cruzou seus braços sobre o peito forte e parcialmente desnudo e começou a dizer, em tom imperioso:
– O senhor Phalke desobedeceu à minha ordem. Dessa forma, ele perdeu um dos direitos que lhe foi dado desde que chegou – o direito à privacidade. Como ele não soube usufruir desse luxo... – como se soubesse que Shaka responderia a esse comentário de algum modo, fosse com palavras, fosse com algum gesto sarcástico, Ikki olhou de maneira cortante para o loiro, antecipando-se a ele – ... Sim, senhor Phalke, era um luxo. Ao menos, nesta casa. Enfim, como ele não soube fazer bom uso desse luxo – enfatizou –, tal direito foi perdido. A partir de agora o senhor Phalke tem sua liberdade reduzida. Não poderá sair desta sala. Perde, dessa forma, o direito de estar fora da casa, nem que fosse por uso de uma simples varanda. Agora, poderá apenas observar o mundo lá fora através de uma janela que não poderá abrir. Além disso, perdeu também o direito à privacidade. – a voz de Ikki estava um tanto cansada. Ele mesmo percebia isso, e tentava se corrigir, assumindo uma postura mais firme e imponente, que condissesse com a imagem que tinha de portar sempre – Estes oito homens ficarão aqui também. Não falarão com você nem ficarão no seu caminho, mas não irão desaparecer de seu campo de visão. Imagino que isso seja bastante desagradável, porém me parece que apenas à vista de limites físicos e palpáveis é que você aprenderá a se comportar como deve. Enfim, Khan logo irá preparar o sofá-cama para que possa dormir. Obviamente, não é confortável como a cama que lhe foi destinada, mas isso faz parte do pacote. Você precisa entender... perdeu esses direitos. – o moreno soltou um suspiro, que lhe escapou sem querer – Há um banheiro ali, somente para seu uso. E você tem todo esse espaço da sala de TV para si, mas apenas ele. Aqui... – apontou para a gigantesca porta de correr, que separava esse ambiente do restante da casa – ... é o seu limiar. Não poderá ultrapassar até que eu determine que sua punição possa ser retirada. – o moreno falava agora já com a voz em um tom quase robótico, como discurso repetido, nada cadenciado, sem vivacidade. E seus olhos não encaravam Shaka; passeavam dispersos pelo lugar, procurando por algo que nem mesmo o moreno saberia dizer o que seria – Lembre-se, senhor Phalke. Sua estada aqui e a forma como ela irá ocorrer só depende de você. Por favor, tenha isso em mente. – ainda sem dirigir o olhar para o loiro, deu meia-volta, acenou com a cabeça para seus homens e deixou a sala. Os oitos homens então, silenciosamente, posicionaram-se discretamente pelo local. Pareciam estátuas, mas suas posturas deixavam claro que estavam em alerta.
Shaka caminhou até o sofá e se sentou, recostando-se e fechando os olhos. Queria dormir e sonhar novamente, simplesmente esquecer aquela realidade, mesmo que momentaneamente. Ouviu tudo que o moreno dissera de forma apática e comparado a outras punições, pensou que aquela nem foi de toda ruim, então deixou-se ficar ali sentado e assim mesmo adormeceu.
Após deixar o ambiente, Ikki permitiu-se um suspiro mais profundo. Meneou a cabeça de leve. Sentia-se cansado. Aliás, nos últimos dias, esteve mais cansado do que nunca. Dirigiu-se para seu quarto, em silêncio. Enquanto subia a longa escadaria, seu olhar tornou-se mais profundo e obscuro. Subitamente, parou e olhou de onde estava para baixo. Estava ainda há alguns degraus do andar que desejava alcançar, mas ficou ali, parado, olhando para o vazio. Entretanto, se olhares pudessem ser lidos claramente, talvez fosse possível entrever algo ali. algo como uma lembrança. Uma lembrança dolorosa, uma terrível lição que foi aprendida de dura maneira... O sofrimento decorrente, a revolta... Ikki sacudiu a cabeça, nervoso. Queria que esses pensamentos, que não era capaz de controlar, desaparecessem assim. Como seria bom se eles pudessem esvanecer dessa forma. Bufou, contrariado. Terminou de subir os últimos degraus com pressa e, também com passos mais acelerados, terminou o trajeto que o levava a seus aposentos.
Ali chegando, Ikki entrou, fechou a imensa porta atrás de si e respirou fundo. Respirou como se tentasse encontrar no ar que inalava a sensação que pudesse afastar-lhe da impressão de estar sufocando. Passou a mão pelos cabelos negros, deixando-os ainda mais revoltos. Foi até sua simplória escrivaninha. Sentou-se diante dela e, por algum tempo, permaneceu ali, apenas assim, passando a mão sobre sua superfície lisa. Por alguns poucos instantes, sua expressão facial, sempre tão dura, suavizou-se um pouco. A mesma lembrança de agora há pouco, que viera lhe assombrar na escadaria, acometeu-o novamente. Todavia, o simples fato de a lembrança vir a ele diante da escrivaninha, e não mais no meio da escadaria, fazia o efeito da recordação ser incrivelmente distinto. Um sorriso discreto se desenhou em seus lábios, porém tornando-se logo um sorriso triste.
– Não era para ser assim. – falou para si mesmo, em voz baixa. E, em seguida, soltou um riso amargo – Que situação patética, Ikki! Então é assim? Todo esse trabalho, tudo o que foi construído, para chegar à reta final e... – interrompeu a frase, porque nem ele mesmo sabia como prosseguir com ela – E... – Ikki procurava as palavras corretas. Indignava-se por não encontrar as que pudessem dar significado ao que sentia agora – Estúpido!!! Que ridículo!!! – riu ainda mais alto, mas de forma mais dolorosa – Então é assim? Não é tão forte quanto pensava? – perguntava para si mesmo. Levantou-se da cadeira de supetão e encaminhou-se ao seu closet, com passos ligeiros. Parou apenas quando se viu diante de um grande espelho. Encarou a imagem à sua frente e seu rosto distorceu-se em uma expressão de desprezo – Vamos lá. Seja sincero. Quando é que vai parar com esse teatro? Quando é que será capaz de admitir para si mesmo que está mudado? Você não é mais o mesmo, Ikki. – falou por entre os dentes, com os olhos flamejando de raiva – "Ele" mudou você. Independente do que diga, do que faça... "Ele" conseguiu mexer com você, "ele" mudou você!!! Raios!!!! – bradou, agora realmente furioso – Como pôde se deixar enganar? "Ele" quase fez com que colocasse tudo a perder! Tanto trabalho, tanto esforço, e você quase coloca tudo a perder??? Não!!! Eu me recuso!!! – e, como se a simples visão de sua imagem fosse provocante o suficiente, Ikki deu um soco no espelho, partindo-o em pedaços. Naquele momento, parecia que ele buscava a dor. Por sinal, uma tática que ele vinha usando muito nos últimos tempos, como forma de extravasar um sentimento com o qual não sabia lidar. Agora, parecendo mais calmo, ao menos exteriormente, Ikki olhou para os cacos de vidro no chão, depois para o sangue que pingava de sua mão e permitiu que o ar preso em seus pulmões ganhasse liberdade. – Não. Chega. "Ele" quase fez com que botasse tudo a perder uma vez. Mas agora será diferente. Shaka finalmente está aqui. É o último passo, Ikki. É o último passo. – sua voz agora tinha um tom conciliador, como se o moreno precisasse lembrar a si mesmo a importância de estar calmo no momento — "Ele" não pode atrapalhar. O foco agora é Shaka. Tenho de me concentrar no advogado e me esquecer "dele" definitivamente... Vamos lá, Ikki. Você consegue. Não permita que "ele" atrapalhe seu trabalho com Shaka...
– Senhor, deseja que eu venha acordá-lo a que horas e... – Khan acabava de entrar no quarto e, ao encontrar Ikki no closet, rodeado pelo espelho estilhaçado no chão, esqueceu-se do que dizia – Senhor, está tudo bem?
– Sim. – Ikki respondeu, em tom mais ameno – Está tudo bem. Já preparou o sofá-cama para o senhor Phalke poder dormir? – indagou o moreno, com os olhos presos ao vidro que cintilava no chão negro.
– Sim, senhor.
– Ele parecia muito contrariado?
– Ele me pareceu com o mesmo rosto de sempre, senhor. Ou seja, contrariado como de costume, só mais cansado.
Ikki riu de leve. Mas era um sorriso cansado também.
– Senhor... Se me permite a ousadia de perguntar... Por acaso...
– Sim. – Ikki apressou-se em responder – Sim, eu estou sendo fraco o bastante para confundir as coisas, Khan.
– Eu compreendo, meu senhor. Era o que eu temia. Afinal, houve semelhanças que devem ter feito o senhor se lembrar do...
– Não foram tantas assim. – Ikki interrompeu o mordomo, falando com altivez, como se quisesse negar algo a si mesmo – E eu já me repreendi, Khan. – o dono da mansão passou por cima dos cacos e foi para o banheiro, a fim de lavar seu ferimento na mão.
– Decerto que sim, meu senhor. – Khan respondeu, com algum ar de preocupação, observando o vidro espalhado pelo chão – Espero, no entanto, que futuramente não se repreenda de forma tão violenta...
– Não haverá necessidade. – Ikki ligou a torneira da pia e deixou que a água lavasse o sangue de sua ferida — Isso não vai acontecer de novo.
– Mas, caso aconteça, senhor... Se precisar que eu lhe ajude a...
– Não, Khan. – Ikki foi enfático – "Ele" não irá atrapalhar dessa vez. A situação pode ser semelhante, mas são pessoas distintas. Shaka não é como "ele". São pessoas inteiramente diferentes. – enquanto falava, Ikki encarava friamente seu reflexo no espelho do banheiro.
– Claro que sim, meu senhor. Mas o senhor Phalke parece seguir o mesmo caminho, ainda que inconsciente do ocorrido com "ele". E, se assim continuar, não seria melhor chamarmos ajuda? A Sociedade talvez deva ser avisada...
– NÃO, Khan!!! – Ikki deixou o banheiro enfurecido e foi até seu mordomo, que empalideceu no mesmo instante – Ninguém precisa saber disso! Fui claro?!
– Certamente, senhor. – o velho homem balbuciou.
– Ótimo. E não toque mais nesse assunto. Afinal, para todos os efeitos... "Ele" está morto para mim.
– Sim, senhor.
Shaka dormiu praticamente o dia todo, acordando somente para se alimentar e voltando a dormir. Era como se seu corpo necessitasse do sono para recuperar as funções. Quando despertou de verdade, já estava escuro, mas os seguranças permaneciam lá, como estátuas. Ele então resolveu conhecer sua nova cela. Aquele lugar mais parecia um cinema. Era enorme, mas não tinha muito que fazer ou o que ver. A janela também era ampla e possuía cortinas negras e pesadas, mas era noite e ele não conseguiria ver nada. Sentou-se derrotado no sofá-cama. Apesar de grande, sabia que aquele não era o anfiteatro que tinha naquela mansão, era menor, mais íntima, embora muito luxuosa. O médico havia voltado naquele dia, lhe receitou alguma ração protéica que foi adicionada à sua comida e pediu para que ele se hidratasse o dia inteiro, por isso as empregadas lhe levaram sucos de fruta e bebidas energéticas e ele tratou de comer e beber bem entre os intervalos do sono. Assim, ao cair da noite, ele já se sentia bem melhor, realmente, Ikki era cercado por pessoas eficientes.
Shaka estava decidido a mudar de estratégia. Fora tolo e imprudente, sabia, e estava pagando por isso. Precisava ser mais racional, mas agora não tinha mais o que ser feito; perdera “seu quarto”, sua privacidade, se é que possuía alguma naquela casa cheia de câmeras. Precisava ser mais cuidadoso ou não conseguiria progredir muito. Mas precisou chegar ao fundo do poço para descobrir que seu orgulho era um mal. Mudaria, mas não abandonaria sua dignidade, isso nunca.
Sede d' A Sociedade... Noite
Eles estavam reunidos em torno da grande mesa. Todos pareciam tensos, alguns já estavam de pé, mirando a noite pela janela.
– Será que temos motivos reais para preocupação? – Camus foi quem interrogou, e a pergunta era dirigida ao homem que sentava à cabeceira da mesa, embora ele continuasse olhando o relatório que tinha em mãos.
– E não? – Afrodite que observava um mapa num laptop indagou. Eles não se olhavam, cada um sabia exatamente quando o outro falava consigo.
– Creio que Ikki tem tudo sob controle. Ainda não é hora de uma intervenção. Eu confio no trabalho dele. – Mu, o homem sentado à cabeceira da mesa, falou sem se abalar.
– Pelo que sei, ele já perdeu as estribeiras com o doutor Phalke por duas vezes... – foi Aldebaran quem disse, visivelmente preocupado.
– Numa delas, machucou o pulso dele. Está sendo muito mais duro e impositivo do que geralmente é. Não vejo como alcançarmos nossos objetivos dessa forma – Aiolia que também examinava dados num laptop, mas ouvia com atenção tudo que era falado ali, foi quem disse. – E agora o rapaz quase se matou...
Mu finalmente ergueu os olhos para mirar os sócios, cada um deles, com atenção.
– Estão espionando as ações de Ikki? – indagou, mas sem demonstrar surpresa.
– Fazemos mal? – Aldebaran encarou-o, confuso. – Pensei que depois do último caso...
– Aquilo foi um acidente. – Mu tratou de falar. – Ikki nunca falhou e conhecemos seus métodos. Aliás, eu o escolhi para os trabalhos mais difíceis exatamente por ele ser o mais apto a conseguir o que queremos sem que sejam necessárias medidas mais drásticas.
– Não foi assim da última vez... – Máscara da morte disse com um sorrisinho cínico.
– 99% de eficiência. – Milo que estava parado próximo a uma janela com os braços cruzados disse. – Confio em Ikki. Ele vai conseguir.
– Shaka Phalke está surpreendendo – Camus voltou a falar, franzindo a testa, uma mostra de preocupação. – Ele não é o homem tranquilo e de temperamento controlado que achávamos. Ikki não esperava por isso.
– Pode ser apenas a pressão do começo. Ele é um homem forte, poderoso, e está se vendo acuado. Logo ele vai se equilibrar. Ikki está lidando relativamente bem com isso. – Mu retorquiu, paciente.
– Relativamente bem? – Afrodite riu. – Mu, eu sei que você está no comando dessa operação, mas eu acho que preciso lembrar-lhe do que aconteceu no outro caso... Ele perdeu o controle e acho que está perdendo de novo.
– Uma única vez – foi Milo quem replicou. – Ikki preparou o caminho até Phalke, não é justo que sua lealdade e eficiência sejam questionadas agora.
– Ele quase pôs tudo a perder! – Volveu Máscara da morte e encarou Mu – E definitivamente não podemos perder Phalke, ele é a peça mais importante, ele é a peça fundamental nisso tudo!
– Por favor, senhores, vamos manter a calma. – Mu suspirou, enfadado. – Acompanhamos Phalke desde que... Ele tinha dezesseis anos? Não há possibilidade de o perdermos. Ikki está fazendo um bom trabalho. Não acho saudável tantas dúvidas referente a lealdade e eficiência de um membro tão importante do grupo.
– Ikki é eficiente e de forma alguma questionamos sua lealdade. – Afrodite disse depois de um suspiro. – Mas ele é humano e é ele quem fica sempre com a parte mais difícil, isso pode o estar afetando.
– Exatamente por ele ser o único capaz de fazer isso sem se envolver. – Milo falou, afastando-se da janela. – Ele é frio, é sagaz, e sabemos o quanto ele odeia a lei, a moral fingida e tudo que ela representa. Um pequeno deslize, um deslize que aconteceu em uma situação única, não pode fazer com que questionemos seu valor.
– Ikki continua com Phalke – Mu sentenciou. – Vocês podem continuar o acompanhando, mas não deixem que ele saiba disso.
Os demais concordaram mudamente.
Título: “Errar é humano”.
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