Nelumbo nucifera

10 Non fuit in solo Roma peracta die


Notas iniciais
Olá, pessoas! Muito obrigada pelos comentários! Esperamos que apreciem este capítulo. Boa leitura!

Non fuit in solo Roma peracta die

Capítulo X

A manhã seguinte, nublada e fria, estava bem de acordo com o mau humor em que Ikki se encontrava, tão logo levantou-se da cama. A cabeça latejava um pouco, piorando seu humor matinal, que nunca era dos melhores. O moreno não tinha o hábito de ficar se espreguiçando na cama; ele achava que não existia tempo a se perder com isso que algumas pessoas chamavam de "pequenos prazeres da vida". Oras, Ikki sequer acreditava em grandes prazeres, como ele poderia gastar seu precioso tempo com os "pequenos"? Não, tempo era um bem precioso demais. E ele era um homem cheio de afazeres; nunca poderia ter tempo para coisas pequenas assim.

Em seu banheiro, tomou algumas aspirinas para acabar com a dor de cabeça. Lavou o rosto, escovou os dentes, observou o reflexo no espelho. Estava com algumas olheiras. Balançou a cabeça negativamente; não podia se descuidar. Parte importante do papel que desempenhava era o de galã sedutor. Tinha que estar sempre muito apresentável. A aparência sempre bem cuidada era parte essencial desse quadro. Mesmo que estivesse um bagaço por dentro, mesmo que seu espírito estivesse destroçado... A aparência precisava estar perfeita. Sempre. Isso não era uma escolha, não era uma opção. Apenas... tinha de ser assim.

Fez a barba, depois foi para o chuveiro. Tomou uma ducha revigorante – precisava parecer sempre bem. Sua postura tinha de ser impecável, Ikki tinha de parecer estar sempre no controle de toda a situação. Para tanto, sua pessoa precisava exalar uma tranquilidade que ele não sentia. O banho foi de alguma serventia, ajudou a fazer com que parecesse mais desperto, ao menos.

Deixou seu banheiro com uma toalha enrolada em sua cintura. Dirigiu-se para o closet, onde já não havia mais qualquer resquício do espelho despedaçado por ele na véspera. Khan tinha cuidado disso e um novo espelho estava no lugar do antigo. Ikki procurou não dar atenção maior para esses detalhes. Escolheu uma roupa como sempre fazia. Era tudo premeditado. Tinha em mente os compromissos do dia, sabia exatamente o que precisava fazer, em que encontros aparecer e, para cada situação, uma roupa deveria ser meticulosamente escolhida para o sucesso da ocasião.

Pegou uma calça creme, um blazer azul marinho, uma camisa de seda branca. Vestiu-se mecanicamente, como sempre, e depois olhou para sua imagem refletida. Passou um pouco de gel nos cabelos, dando-lhes o aspecto jovial e, ao mesmo tempo, elegante, de um jeito que só ele conseguia fazer.

Observando sua própria figura, Ikki sorriu. Porém, não era um sorriso verdadeiro. Era quase um ensaio de sorriso, um treino, por assim dizer. Um sorriso vazio, pensado, treinado, devidamente preparado. Tinha a intensidade correta, para não parecer alegre demais, nem ranzinza em excesso.

Entretanto, esse sorriso rapidamente desvaneceu.

Ikki estava cansado. E sentia que era cada vez mais difícil continuar encenando esse papel.

Olhou para suas roupas. Finas, elegantes, caras, exclusivas. E... que não tinham absolutamente nada a ver com ele. As roupas, os sorrisos, tudo aquilo, toda aquela aparência... era tudo uma casca. Uma casca tão bem forjada que Ikki não sabia mais se sua verdadeira essência ainda persistia dentro dele, em algum lugar. Tinha algum medo de procurar por si e não se encontrar mais. Por isso, evitava dar espaço para pensamentos assim.

Contudo, estava ficando difícil. Já estava assim há algum tempo, mas tudo ainda permanecia sob controle. Porém, a chegada de Shaka Phalke àquela casa bagunçou tudo! O advogado não era o que lhe prometeram nos relatórios. Não havia se preparado devidamente para lidar com ele. E, no momento atual, isso era grave. Ikki precisava tomar cuidado para não se perder... E para não colocar tudo a perder.

Negou com a cabeça esse último pensamento. Não; não faria isso. Voltou a encarar seu reflexo, com mais assertividade. Seu olhar tornou-se poderoso e intimidador. No fundo, não era tão difícil incorporar esse personagem. Boa parte de sua personalidade casava bem com o que precisava ser agora. Dominador. Sedutor...

Seduzir não era difícil. Era quase um talento nato seu. E quando decidia que o faria com determinada presa... não havia como resistir. Ikki até mesmo se orgulhava dessa sua qualidade. Seduzia e tinha quem quisesse em suas mãos.

Com todos os outros, fora simples. Simples e fácil. O jogo de sedução nem se demorava muito. O talento de Ikki ia além do óbvio; sua conquista nunca dependia somente de fatores externos. Sim, a aparência contava nesse aspecto, mas seu grande trunfo estava no jogo psicológico. No quesito dominação, era esse o fator que fazia toda a diferença.

Todavia, nunca passou disso. Um jogo. Obviamente, Ikki não poderia dizer que conquistava suas presas pelo simples prazer de conquistar, porque havia algo muito mais importante em jogo. Mesmo assim, não passava disso.

Sabia qual era o seu valor para A Sociedade. Sabia que o queriam naquela posição, porque Ikki era capaz de coisas que nenhum outro membro se sentiria à vontade para fazer. Porém, não é que Ikki se sentisse à vontade. Na realidade, ele não ficava à vontade, mas também não se incomodava. Essa era sua grande qualidade. Ele não se importava.

Entretanto, isso não queria dizer que ele se deitasse com qualquer um. Quanto a isso, de forma até paradoxal, Ikki não considerava correto misturar essas coisas. Sexo não podia se misturar ao trabalho. E isso nunca acontecia. Ou melhor, quase nunca...

Os membros d' A Sociedade certamente acreditavam que Ikki não tinha esses pudores. Com toda a certeza, eles deveriam crer que Ikki levava seu jogo de sedução até as últimas consequências com as presas que lhe eram levadas até a mansão. E Ikki preferia permitir que eles continuassem acreditando nisso. Mas a verdade era bem outra... Ikki nunca precisava chegar a esse ponto. E não é que ele, na última hora, desistisse. Ele simplesmente nunca precisava ir às vias de fato com seus prisioneiros. Fazia parecer que sim, mas... nunca aconteceu, simplesmente. Antes desse momento, o moreno já tinha a presa em suas mãos, a seu dispor. O trabalho psicológico é que contava mais para o seu lado. O resto era consequência. Isso significava que todo aquele jogo de sedução não passava disso: apenas um jogo.

O dono da imponente mansão era senhor de si, controlava-se muito bem, tinha tudo em seu devido lugar. Estava sempre à frente dos outros, nunca era pego desprevenido. Ele criava as armadilhas; e orgulhava-se disso.

Um dia, porém... O jogo se inverteu. A caça virou caçador e ele... caiu em uma armadilha, tão bem traçada quanto as suas próprias. Quase pôs tudo a perder. O trabalho de uma vida... e quase acabou com tudo de uma vez só.

Aprendera bem a sua lição, no entanto. Não aconteceria de novo. Contudo, não podia mentir tão bem para si mesmo. Por mais que não quisesse admitir, precisava aceitar o fato. Esse acontecimento deixara marcas e mudara a pessoa que ele era, que ele conhecia. Agora, já não sentia que tinha todo o controle sobre si. Não como antes.

Era revoltante. Isso tinha que acontecer justo antes de finalmente ter Shaka em sua mansão? O momento mais esperado e quase é perdido, porque a investida anterior quase resultou em fracasso total. Ikki jurou aos membros d'A Sociedade que estava tudo bem. Que não ficara abalado, que tudo era como antes. Mentiu. Mentiu muito bem; tão bem que só agora parecia perceber que havia enganado a si mesmo. Mas não deixaria a situação se agravar. Respirou fundo. Um novo dia começava. Olhou novamente para o espelho. Vestiu sua máscara para aquela manhã. Em questão de segundos, conseguiu o que queria. Um sorriso devastador. Um olhar predador, devasso. Uma postura ofensiva. Tudo isso denotava exatamente o que ele precisava ser, e precisamente o contrário de quem ele era agora.

Naquele mesmo momento, Shaka abria os olhos e levava um susto, ao perceber onde estava. Demorou um pouco para sua mente lembrar-se das ocorrências da noite anterior. Os homens estavam ali ainda, pareciam estátuas, nenhum deles o olhava e daquela vez o advogado sentiu-se sozinho; sozinho no sentido pejorativo da palavra. Ergueu-se e percebeu que algumas roupas suas tinham sido deixadas num armário ao lado da pequena mesa. Não era um closet, na verdade nem um guarda-roupa, era um simples armário, uma espécie de cristaleira rústica. Suspirou, pegou algumas peças e foi para o banheiro que havia ali perto, logo ao lado da sala. Os homens não o impediram, pareciam já estar orientados a isso.

Shaka tomou um banho rápido, escovou os dentes –dentro do banheiro, tudo já estava arrumado para seu uso – e vestiu-se numa calça jeans, camisa azul e sapatos marrons. Peças de roupas extremamente parecidas com algumas que tinha. Prendeu os cabelos numa trança despenteada. Geralmente não usava o cabelo assim, parecia jovial demais para seu trabalho, embora fosse muito jovem ainda, mas ali ele não estava a trabalho, na verdade nem sabia por que estava ali.

Sentou-se na cama e tentou ligar a grande televisão de frente ao sofá, mas não conseguiu, então ficou como sempre: esperando que o velho cão de guarda do seu sequestrador aparecesse para buscá-lo.

— Khan, o café da manhã já está pronto? – indagou Ikki, enquanto seguia no corredor que o levaria à sala de TV.

— Sim, senhor. Conforme o orientado. – respondeu o prestativo mordomo, que vinha agora ao lado do moreno, carregando uma bandeja de prata – Fui informado de que ele já despertou.

— Ele tem o costume de acordar cedo. Pelo menos, nesse ponto, os relatórios acertaram. – Ikki parou, tomou a bandeja das mãos do mordomo e fez menção de seguir caminho.

— Senhor... – o mordomo, que ficava para trás, porque sabia exatamente que era assim que deveria agir no momento, levantou o dedo, como se pedisse a Ikki permissão para falar algo antes que ele se fosse dali.

— Pois não, Khan? – interrogou o moreno, virando o rosto para trás e demonstrando alguma impaciência nessa frase.

— Eu... queria apenas ter certeza de que está bem, senhor. Pela sua aparência, vejo que parece bem...

— Se eu pareço bem, então por que a pergunta, Khan? – bufou Ikki.

— Porque eu sei que, em se tratando do senhor, a aparência nunca quer dizer alguma coisa de verdade.

— Eu estou bem, Khan. – a voz agora era menos severa – Você sabe que eu sempre fico bem. – e, sem dar espaço para mais perguntas, o moreno se retirou dali.

Não foi preciso caminhar muito mais; logo já estava diante da grande porta da sala de TV. Com um simples olhar se fez entender e o homem que guardava a porta abriu-a para que Ikki pudesse passar.

— Bom dia. – o moreno anunciou sua presença por meio de uma frase comum, mas pronunciada com vigor, de forma a ressoar por todo o cômodo, como se assim, com apenas duas palavras, ele quisesse certificar ao outro do seu poder, do seu domínio e do controle que Shaka precisava crer que Ikki tinha sobre aquele lugar.

Encaminhou-se para a mesinha que ficava defronte o loiro e depositou ali a bandeja. Retirou do farto café da manhã lá servido uma maçã verde, sentou-se em uma cadeira que ficava de frente para o advogado e deu uma mordida generosa. Recostou-se mais ao assento, em uma posição despojada e, ao mesmo tempo, sedutora. Sorriu abertamente para o loiro, a fim de demonstrar-se tranquilo e dono da situação.

Entretanto, não sabia se estava sendo bem sucedido. O seu olhar deveria transparecer uma luxúria contida, mas não estava sendo fácil agir assim quando, na verdade, Ikki enxergava em Shaka algo muito distinto do que deveria. O homem a sua frente não estava previamente decifrado. Tudo o que estava naqueles papéis lidos e estudados não eram uma mentira total, mas revelavam muito pouco do verdadeiro homem a sua frente. Ikki sentia-se curioso, tentado a descobrir quem era, de fato, o advogado. Mas não podia demonstrar isso. Sua curiosidade seria uma fragilidade, que não era bem-vinda no momento. Tinha de parecer apenas um predador sexual agora; precisava exalar sensualidade, era necessário capturar Shaka em sua teia assim. Porém, estava difícil resistir ao que realmente queria fazer naquele momento. Sentia vontade de ser apenas um homem comum que, na companhia de alguém que lhe instiga tanto a curiosidade, possa travar uma conversa que lhe permita ir descobrindo aos poucos quem é essa pessoa... Por tanto tempo, estivera enredado em tantos jogos, que Ikki quase se esquecera de como era lidar com pessoas no mundo real, onde não existe um manual que guie cada fala e ato seu, com o objetivo de alcançar uma meta específica. E, depois de tanto tempo apenas encenando o mesmo papel, Ikki se viu atraído a não seguir um roteiro e a deixar que suas ações e falas fossem naturais, seguindo o rumo normal de uma conversa sem fins específicos.

Respirou fundo. Não podia acreditar que estava pensando nisso. Foi exatamente esse seu erro da outra vez. Não podia deixar acontecer de novo. Não podia se permitir. Precisava se segurar de forma mais eficaz:

— Espero que tenha dormido bem. – a frase foi pronunciada dentro do perfeito tom sarcástico e provocativo, como tinha de ser. Pronto; estava de volta ao seu papel – Tomara que não se importe em tomar seu café da manhã aqui mesmo. Tem de ser assim, pois eu lhe disse que não sairia desta sala tão cedo. Portanto, se não pode sair para tomar seu desjejum, eu o trago até você. E faço-lhe a devida companhia, como eu disse desde o início que é como deveria ser. – finalizou com um sorriso charmoso.

Shaka ficou um longo tempo o examinando sem dizer nada. Se Ikki sentia-se tentado a desvendá-lo, para o loiro, desvendar o moreno era vital para seus passos dali para frente. A greve de fome não deu certo, Ikki tinha mais recursos do que ele imaginara e ser agressivo seria uma tolice. Precisava encontrar um meio e, para isso, era necessário conhecer bem e muito bem seu inimigo. Piscou os cílios longos e escuros por um tempo, perdido nessas indagações, mas depois sorriu de lado de uma forma tão charmosa quanto sarcástica.

— Bom dia. Você sabe que não dormi bem. – Falou e adiantou-se a pegar uma torrada, sem cerimônias, passando geleia nela, servindo-se, disposto a comer muito bem. – E não me importo. Estou faminto – declarou, enchendo em seguida um copo com suco de laranja.

— Que bom. – Ikki observou como o advogado demonstrava apetite e achou que era um bom sinal – Tem algo planejado para hoje? – perguntou na maior cara-de-pau, em tom extremamente provocativo.

Shaka tomou o gole generoso do suco e depois levou o guardanapo aos lábios, olhando dentro dos olhos do moreno. Era um contraste de olhares, os olhos claros do advogado interpelavam os escuros e sarcásticos do homem à sua frente. Ele pousou o guardanapo e pegou uma torrada com geleia, sem deixar de encarar o moreno.

— Bem, meus planos dependem de você – disse em um tom conciliatório, mas não íntimo, nem muito menos vazio. Demonstrava a força de alguém determinado, que sabia agora que precisava mudar suas atitudes dali para frente. – Esqueceu que você manda e eu obedeço? – mordeu a torrada, mastigando de forma enérgica, voltando a provar o suco.

— Não me esqueci. Queria apenas me certificar de que você sabia disso. – respondeu, demonstrando satisfação em sua voz – Se continuar assim, poderá sair dessa sala em breve. Porém, não hoje. – levantou-se da cadeira e começou a andar a esmo pela sala – Eu vou ter de sair para cuidar de negócios, mas tentarei voltar para o almoço. Tente se ocupar vendo um filme ou algo assim até lá. Se precisar de qualquer coisa, chame por Khan. E esteja pronto; quando eu voltar, trarei uma surpresa comigo.

Shaka apenas assentiu com a cabeça, tratando de se alimentar sem dar muita atenção ao moreno, ao menos tentando não dar, mesmo que olhasse o que ele fazia pelo canto dos olhos; queria se mostrar mais leve e confiante. A tensão naquele momento seria sua pior inimiga. Saber que ele não tentaria matá-lo ou machucá-lo enquanto fizesse o jogo dele já era um alívio. Contudo, precisava descobrir que jogo era aquele e para isso precisava deixar aquela sala, depois a casa; conhecer o ambiente e as pessoas ali.

Ao longo do dia, Ikki deixou a mansão para ir se encontrar com A Sociedade. Estavam todos na cidade, mas ninguém ficaria hospedado na mansão. O ideal era que Shaka não tomasse conhecimento desses homens, a não ser que isso fosse estritamente necessário. Portanto, estavam todos próximos o bastante, mas não o suficiente a ponto de correrem o risco de serem vistos pelo advogado.

A reunião fora marcada em um lugar onde A Sociedade já se reunira algumas vezes. Por fora, pareceria uma casa comum, mas em seu subsolo havia um espaço digno de filmes de espionagem. Várias câmaras secretas e, em uma delas, uma longa mesa de reuniões para planejamentos. Para tal local é que Ikki se dirigiu.

Ali chegando, encontrou rapidamente todos os homens que faziam parte do grupo. Era o último a chegar. Porém, não estava atrasado. Os outros é que chegaram antes, porque provavelmente queriam conversar sobre assuntos referentes a Ikki, antes que ele chegasse. Assuntos sobre os quais não deveria tomar conhecimento. E, estando todos ali, a postos, no momento em que adentrasse a sala, fariam uma certa pressão psicológica sobre o moreno, como se demonstrassem assim suas posições acima de Ikki.

— Bom dia, Ikki. — cumprimentou Aldebaran.

— Bom dia. — ele respondeu em retorno, mas com uma expressão séria.

— E como estamos hoje? Progressos? — indagou Mu, com um tom tranquilo.

— De certa forma. Acredito que ele esteja começando a entender que sua rebeldia não irá lhe ajudar de nada.

— Ele está "começando a entender"? — falou Afrodite, em tom de provocação — Ikki, espero que esteja consciente de que esperávamos que fosse mais rápido. Aliás, mais do que nunca, precisamos de velocidade dessa vez. Camus não lhe disse que nosso tempo se tornou mais curto?

— Sim, eu fui devidamente informado. — respondeu Ikki, deixando claramente não ter gostado de ser chamado a atenção — Fui informado quando Shaka já havia sido deixado na mansão! Aí já não dava mais para voltar atrás! Vocês me falaram que eu teria de ser rápido, por causa do novo concorrente à promotoria, que surgiu sabe-se lá de onde, bagunçando os planos de vocês! Acontece que a culpa não é minha, se vocês não sabem se planejar direito! O meu trabalho não pode ser apressado! Não dá certo assim!

— Entendo que a informação veio em mau momento, Ikki. — retorquiu Camus — Entretanto, não deveria ser um problema, de fato. Você adora se gabar, dizendo que faz a sua parte com facilidade e destreza, de forma única e satisfatória... Sempre nos diz que é essencial e...

— Eu SOU essencial! — bradou Ikki, revoltado — Eu sou parte essencial nisso tudo e vocês sabem muito bem disso. Não me venham com esses joguinhos psicológicos para cima de mim; não vai colar! Eu não vou ficar em dúvida sobre meu papel ou importância dentro d' A Sociedade, ouviram bem? Então poupem seu tempo! Não adianta fazerem terrorismo para cima de mim. Eu vim aqui hoje apenas para dizer que continuo no controle sobre tudo. Continuo sabendo dominar a situação, apesar de os relatórios que me foram entregues serem absurdamente falhos! Mesmo assim, mesmo com vocês deixando a desejar na parte de vocês, eu estou sabendo fazer a minha muito bem!...

— Não tão bem! — interrompeu Máscara da Morte, agressivamente — Soubemos que torceu o pulso dele, Ikki! E a regra sempre foi muito clara! Não era para haver qualquer violência física! Você poderia ameaçar, mas nunca concretizar qualquer ato!

— Isso foi um lapso, Angelo. — Ikki sabia perfeitamente que iriam atacá-lo com isso — Foi um momento de fraqueza meu, que não irá se repetir.

— Como pode afirmar com tanta certeza? — foi a vez de Shura perguntar — E como podemos nos tranquilizar, tendo a certeza de que isso não ocorrerá novamente?

— Porque EU estou lhes dizendo que não vai acontecer de novo. Não confiam na minha palavra?

— Não é isso, Ikki. — Mu retomou a palavra — O problema é que todos nós sabemos muito bem o que lhe levou a perder o controle. E desconfiamos que possa acontecer de novo. Shaka tem agido de forma semelhante ao...

— Não ouse dizer o nome dele! — bradou Ikki.

Nesse instante, os homens d' A Sociedade silenciaram em absoluto. Milo foi quem voltou a falar:

— Ikki, a questão é que o modo como você se comporta, inclusive agora, prova apenas que você não está tão no controle assim. Não estamos questionando você ou seus métodos, sabemos muito bem que é eficaz e sempre cumpriu o que prometeu. Porém, por causa... ahn... "dele", você se tornou um pouco mais imprevisível. E tememos que isso possa prejudicar o trabalho de...

— Não vai prejudicar, Milo. Simplesmente não vai. Eu estou dizendo a vocês que não irá ocorrer de novo. Eu sei perfeitamente bem que não devo usar de violência física; e nunca usei, antes "daquele" caso. Mas o ocorrido com Shaka não tem nada a ver com isso. Eu me descontrolei com ele porque vocês tinham acabado de me informar da mudança de planos, alegando que eu teria de ser mais rápido, e esse tipo de pressão me fez agir daquele modo. Contudo, é como eu disse. Não vai ocorrer de novo.

— Ikki, tem certeza de que você não agiu desse modo porque Shaka lhe lembrou "dele" em demasia? — quis saber Afrodite.

— Tenho. — Ikki sabia que estava mentindo. Mas não admitiria essa fraqueza, não para aqueles homens — E agora, se já me disseram tudo o que queriam, eu preciso ir embora. Tenho de buscar algo na cidade e não devo me atrasar. Vocês querem que eu seja rápido, estou fazendo o meu melhor. Minha eficácia está sendo um tanto comprometida, porque todo esse jogo de sedução psicológica não se faz do dia para a noite. Estou tendo que forçar a barra e isso sim é que está me atrapalhando. Então, eu gostaria que, a partir de agora, não me importunassem mais. Se tem algo me atrapalhando, são vocês e essa pressão ridícula que estão me fazendo! O que era para acontecer de forma mais fluida e suave está sendo mais artificial que o devido. E a culpa é de vocês! Eu ainda vou conseguir alcançar meu intento, mas não questionem o fato de eu ter saído dos trilhos naquele momento! Vocês não ajudam em nada! Então, ao menos, não me atrapalhem!

Tendo dito isso, Ikki não esperou por resposta. Deixou a sala sem esconder que estava enfurecido. De lá, foi atrás do que buscava e, tão logo conseguiu, retornou à mansão.

Título: Roma não se fez num dia.

Notas finais
CONTINUEM ACOMPANHANDO! ATÉ A PRÓXIMA POSTAGEM! LUA E SION.