Nelumbo nucifera

11 Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi


Notas iniciais
Olá, leitores queridos, tudo bem? Capítulo novo pra vocês. Infelizmente, ainda não respondemos todas as reviews do capítulo passado, a Lua porque está muito ocupada, e eu porque estou novamente com um problema no pulso, que me impediu de fazer isso antes de postar o capítulo novo, mas prometo responder todas em breve. Espero que gostem do capítulo e muito obrigada a todos que estão acompanhando: Lanny, Miyu, Virgo, DCC, Mya. Obrigada pelas carinhosas palavras no capítulo anterior, em breve estaremos respondendo a todos. Boa leitura! Sion Neblina

Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi

Chapter XXI

De volta à residência, Ikki não perguntou por Shaka a Khan. Teoricamente, ele deveria ouvir um relatório das ações do loiro no dia, mas, embora não quisesse admitir, estava cansando daquilo. Realmente, "ele" o havia mudado. Felizmente, essa seria a última vez que teria de fazer tudo isso. Internamente, pensava na bronca que recebera. Não deveria usar de violência física. Quando muito, poderia ameaçar. Sempre fizera isso e muito bem. Sempre o temeram e nunca precisara tocar neles de forma a machucar qualquer um dos que já esteve sob seu poder na mansão. Mas isso era fruto de uma certa violência psicológica, exatamente o que A Sociedade esperava que fizesse. E, nesse momento, riu irônico de si mesmo. Dizem para Ikki não cometer violência física e esperam que execute a violência psicológica muito bem. Como se uma fosse melhor que a outra... Ikki suspirou; quando muito, era tão ruim quanto... Talvez pior. Sacudiu a cabeça, já sabia muito bem que certas coisas não deveriam ser questionadas. Respirou fundo. Tinha um papel a desempenhar, um personagem a incorporar. Aliás, já fazia isso há tanto tempo que nem sabia mais se conseguiria reconhecer seu verdadeiro eu dentro de si.

Abriram a porta da sala de TV para que entrasse. Assim que se viu dentro do ambiente, nem disse qualquer palavra ao advogado. Dirigiu-se prontamente à TV e colocou um DVD no aparelho de última geração. Tomou o controle remoto e disse, olhando para a tela em que a imagem da película começava a ser transmitida:

– Eu trouxe para você algo de que vai gostar. É aquele drama europeu que você queria ter assistido com o seu namorado, em vez do filme de ação americano que ele escolheu e que acabaram vendo, no final das contas...

Shaka passara o dia entediado, pensando, pensando muito. Pensando exageradamente em tudo e em todos. Tentava encontrar alguma ligação daquela nova situação com os vários casos que assumira nos últimos anos. Tentava pensar em quem seria poderoso e ousado o suficiente para sequestrar o futuro promotor daquela cidade. Ouvira muitas vezes que agia como um paladino da justiça, mas isso eram ironias ingênuas ditas por amigos e companheiros de trabalho. Quem ele poderia ter incomodado o suficiente para ser sequestrado? Talvez a única coisa que quisessem fosse intimidá-lo e talvez fosse mais esperto fazer-se de intimidado naquele momento. Por isso, quando Ikki entrou no quarto, ele mal se moveu. Já estava banhado, vestido e cheiroso como Khan lhe advertia que deveria estar sempre na presença do patrão. Não entendia aquilo, aquela necessidade de vê-lo elegante, não como nada mais do que delírios de uma mente doentia, mas ele não resistiria, não por enquanto. Estava vestido numa calça bege e uma camisa branca justa de mangas e calçado em sapatos marrons elegantes. Prendera os cabelos e usava seus óculos, que pedira que o mordomo lhe levasse. Não enxergava muito bem sem eles, tinha certo grau de miopia.

Quando Ikki entrou, lhe dizendo aquilo, embora sua expressão não houvesse mudado, ele se animou. Aquilo tiraria um pouco seu tédio.

– Há quanto tempo estou aqui? Isso era pra ainda estar em cartaz... – indagou, pensando que se Ikki conseguiu aquele DVD tão facilmente. Bem, havia a pirataria, embora não parecesse uma falsificação, e havia também a influência e o dinheiro. Aquilo era fácil para homens como ele, foi um pensamento tolo. Chegou à conclusão. – Obrigado, embora seja uma surpresa saber que alguém da sua gangue esteve perto de nós enquanto discutíamos na fila do cinema. Em início, pensei que vocês simplesmente apareceram e me sequestraram, mas pelo que vejo a coisa é bem maior que isso. – Suspirou, desanimado. – Obrigado, mesmo assim – e esboçou um sorriso vazio.

Ikki tentou esboçar aquele sorriso que o fazia parecer acima de tudo e de todos, mas estava ficando cada vez mais difícil. A conversa que tivera com os membros d' A Sociedade na parte da manhã ainda o atingia de algum modo. Antigamente conseguiria dissipar essas impressões com mais facilidade, mas hoje não era mais assim. Incorporar o personagem predador-sedutor que nunca é atingido por qualquer coisa estava se tornando mais difícil; esconder seu lado humano estava mais difícil. E não tinha mais tanto controle sobre todas aquelas situações, embora tivesse alegado isso com veemência de manhã. A verdade é que não estava pronto para admitir nem para si mesmo. O problema é que, enquanto se enganava, agindo como se ainda fosse o mesmo de antigamente, problemas iam se acumulando. Certamente não estava sendo bem sucedido no seu papel; em vez de conseguir seduzir Shaka, estava afastando-o de si. Mas também como ser de outro modo?... – Esse filme ainda está em cartaz. – foi só o que disse. Sentou-se no sofá e, em outros tempos, teria sentado mais próximo de sua vítima, faria uma troca de olhares acontecer, saberia criar o clima necessário para propiciar suas ações. Porém, não se sentiu à vontade para isso. Na verdade, nem sabia se conseguia esconder seu tremendo desconforto ali. Sentiu raiva de si mesmo, parecia um principiante assim. Então começou a falar, tentando disfarçar tudo isso – Nos últimos dias antes de ser trazido para cá, o cerco em torno de você foi maior que nunca. Cada frase sua, cada conversa de que participou... tenho tudo documentado por escrito.

– Interessante... – Shaka deixou escapar sem nenhum entusiasmo. Sabia que seria em vão perguntar o porquê daquelas ações. Com certeza seu raptor ainda não achava que era a hora de ele saber de tudo. – Tem pipoca? – indagou, lançando um olhar para o filme e depois para o moreno, um olhar que perguntava se ele não iria colocar aquele bendito filme no DVD de uma vez por todas.

Ikki ergueu uma mão e foi rapidamente compreendido por um de seus homens, que deixou a sala no mesmo instante. Ele estava sentado em um canto do sofá, de uma forma que demonstrava muita contradição. Sentava como se dominasse o espaço, mas, ao mesmo tempo, parecia oferecer, dessa vez, algum espaço para Shaka. Ainda sem dizer palavra, acionou o controle remoto para iniciar o filme. Enquanto arrumava as configurações relacionadas à legenda, som e imagem, a porta da sala se abriu e um criado entrou por ela, trazendo, sobre uma bandeja de prata, uma elegante vasilha de cristal repleta de pipocas e uma jarra com limonada para acompanhar. Ikki nada disse, sequer olhou para o criado. Apenas apontou com a mão para Shaka, indicando que era para levar a bandeja ao loiro.

Shaka assentiu com a cabeça para o criado e pegou o suco que vinha na jarra, acompanhado por grandes copos com canudo e a bandeja e, sentando-se em posição de lótus, colocou-a no colo, fixando os olhos na tela, também sem dizer nada. Queria sondar, perguntar alguma coisa, mas não sabia bem o que, então perguntou algo muito óbvio:

– Por quanto tempo terei que me comportar bem para sair do meu castigo? – indagou, tentando esconder o sarcasmo que era tão estritamente natural para si, que ficava difícil afastá-lo da sua personalidade e manter a amabilidade que seu sequestrador queria.

Ikki suspirou, parecendo contrariado. Mas esse advogado não facilitava as coisas! Eles o queriam dócil, amável... manipulável. Sua função era deixá-lo assim. Mas toda vez que achava estar se aproximando de seu objetivo, o loiro demonstrava novamente sua impertinência.

– Pelo tempo que eu achar necessário. – respondeu tentando fazer uso de sua voz mais autoritária. Entretanto, sentiu um certo desespero ao perceber que aquilo estava virando um padrão. Usava da figura mais autoritária que conseguisse incorporar, com o objetivo de se fazer temido e, em consequência disso, obedecido. Em um primeiro momento, parecia alcançar seu objetivo e Shaka dava a entender que finalmente dançaria conforme a música. No entanto, não muito tempo depois, ele mostrava todo o seu jeito altivo outra vez, quase parecendo que não houve progresso algum! Pareciam estar andando em círculos e Ikki já tinha jogado com várias cartas. Já fizera o tipo ameaçador violento – que não deveria concretizar as ameaças e onde ele já havia pisado na bola. Evitaria um pouco incorporar esse tipo novamente, pois além de ser o mais desagradável de encenar, era também um que poderia sair do controle devido ao último caso que pegou, antes de Shaka. Já fizera também o tipo sedutor, não obtivera resultado. Mandão, sedutor, insensível... nada de resultados. Na verdade, a única vez em que conseguiu o mínimo da colaboração de Shaka foi quando deixou entrever um pouco de preocupação real da sua parte, quando o loiro quis fazer greve de fome. Talvez, com esse advogado, tivesse que mudar um pouco o jogo. Era perigoso se aventurar num território que não estava acostumado a percorrer, porém não via outra saída.

– Será que é muito difícil para você entender que eu não quero ter de castigá-lo? – perguntou, voltando-se para o outro finalmente o encarando – Se está achando que essa situação me agrada, está muito enganado! – soltou, sendo mais sincero que o devido. Mas não se importou; enfim começava a se sentir um pouco melhor.

– Eu sei que não o agrada – Shaka o encarou nos olhos, mas sem nenhuma expressão no rosto. Sabia daquilo mais por sua perspicácia do que propriamente pelas ações do moreno, mas precisaria jogar ali. As regras estavam mudando e ele precisava manipulá-las a seu favor. – Você queria que tudo fosse muito fácil e descobriu que não sou fácil. Seus espiões devem ter dito que eu era um homem muito equilibrado, tranquilo, que nunca gritava ou se exasperava, estou certo? – Ikki não respondeu, então Shaka riu de leve, levando uma pipoca a boca, comendo-a antes de continuar. – É que de fato, Ikki, por mais próxima que seja a pessoa que colocou perto de mim, há coisas de mim que ninguém sabe. Não sou uma pessoa muito aberta, não tenho amigos, não falo com meu pai há mais de seis meses. Enfim, você sabe de tudo isso, mas não sabe quem eu sou de verdade. – Suspirou e voltou a prestar atenção ao filme. Não era um desafio que fazia com aquelas palavras, na verdade ele apenas constatava um fato e o estava dividindo com o moreno. Precisava que ele entendesse que iria colaborar por inteligência e não por medo das ameaças. Não podia perder o mínimo respeito que o outro lhe dedicava, mas ao mesmo tempo queria manter um diálogo, precisava que ele abrisse mais a guarda e lhe desse mais pistas do que pretendia. Era assim que sua mente trabalhava ou tentava trabalhar.

– É; bando de imprestáveis. Não fazem a parte deles direito, aí sobra para mim. – falou sincero, em um tom de voz não trabalhado. Antigamente, ficaria preocupado com isso, porque significaria que estava baixando a guarda... Porém, no presente momento, não é como se ele estivesse com tudo sob controle, portanto aventurar-se e agir mais naturalmente poderia trazer algum resultado. – De fato, sei que você não é a pessoa mais sociável do mundo e sei que está sem falar com seu pai. Nos relatórios que me passaram, havia até mesmo alguns motivos listados para isso. Contudo, já não acredito em mais nada do que li e queria saber sua versão. Por que não estão se falando? – a pergunta ainda se enquadrava no que buscava, mas o tom em que fez a pergunta era inteiramente novo. Demonstrava genuína curiosidade e parecia que Ikki falava como se estivesse em uma conversa normal, sem usar a desagradável autoridade que sempre tivera de representar nas outras conversas. Ele quase parecia... uma pessoa como outra qualquer no momento.

– Meu pai sempre quis decidir meu futuro. Nunca nos entendemos muito bem e a coisa piorou nos últimos anos. Deve saber que ele é um homem influente. John Phalke me conhece muito bem e gostaria que eu fosse diplomata e não promotor e tentou usar sua influência para evitar minha candidatura à promotoria – contou a verdade, sem preocupação, aquilo não era um segredo e o relatório de Ikki deveria trazer exatamente isso. – Ele acha a promotoria perigosa para pessoas como eu, me acha ingênuo e incauto e parece que tem razão, não é? – voltou a encarar o moreno, curioso. – Foi devido a minha candidatura à promotoria que eu estou aqui. Eu sempre tive uma capacidade estranha de fazer inimigos, por algumas habilidades bem peculiares minhas, Ikki – havia retirado o tratamento senhor – , acabo incomodando as pessoas. Por exemplo, não adianta mentir pra mim, eu saberei quando estiver mentindo. Não sou o melhor advogado do mundo à toa – sorriu de leve, recordando-se que a arrogância era seu pior defeito, segundo alguns, e se voltou para a tela, provando novamente a pipoca e suco.

Ikki manteve seu olhar firme em Shaka enquanto ele falava. Não mudou o semblante sério e, quando o loiro terminou de falar, abriu um breve sorriso, voltando os olhos para a TV. Seu sorriso não era sarcástico; quando muito, poderia ser descrito como algo triste. O motivo que Shaka alegou para não falar com o pai era o que constava mesmo nos relatos. Ao menos, nesse ponto, haviam acertado.

– Então você está há meses sem falar com o seu pai por causa disso? – Ikki começou a falar, com os olhos presos ao filme que se desenrolava na tela de plasma – Sua negação em falar com ele é porque ele se preocupa com você. E, como você mesmo reconheceu, ele estava certo. – o moreno suspirou, parecendo cansado com alguma coisa – O mundo é cheio de pessoas que não sabem valorizar o que têm. Você não sabe o dia de amanhã, loiro. Deveria falar com seu pai e agradecer por ele estar ali para você. – o dono da mansão disparou, sem pensar muito. Esse era o problema de baixar a guarda. Tornava-se vulnerável. Acabava de mostrar um lado seu, verdadeiramente seu. Mesmo assim, mesmo percebendo o que acabara de fazer, não retirou o que disse. Preferiu apenas permanecer em silêncio depois disso.

– Não estou zangado com ele. Ele não me procurou mais e eu também não o procurei, foi algo circunstancial. – Shaka respondeu simplesmente, percebendo aquele tom mais natural do moreno, tom que ele não costumava usar e também certa censura. Não entendeu também porque estava se explicando, mas estava, estranhamente, quando não costumava se explicar a ninguém. – Se ele me ligar, falarei com ele normalmente, somos pai e filho, isso é imutável e eu o amo. E brigamos porque ele é muito difícil de convencer, só isso. E como deve perceber, não sou bom em receber ordens – sorriu de leve e ainda sem olhar o moreno, perguntou: – Você tem pai, Ikki? Quero dizer, seus pais estão vivos ou você é órfão? É que pela forma que fala, parece que me julga um ingrato por estar possivelmente desprezando o que você perdeu. – Sim, era muito astuto e atento, mas só depois de falar, deu-se conta que não deveria expor tanto suas análises do outro, isso faria Ikki se retrair. Mordeu a língua com raiva de si mesmo, mas continuou vendo o filme e comendo pipoca, como quem não houvesse dito nada demais.

Quando Shaka lhe respondeu, os olhos de Ikki estavam fixos na tela da TV. Seu semblante permaneceu imutável diante de cada palavra pronunciada pelo loiro, até o momento em que o advogado perguntou por seu pai. Nesse momento, o moreno baixou um pouco os olhos azuis, que se tornaram mais profundos nesse instante. Ikki chegou a respirar fundo, como se fosse tomar fôlego para responder ao outro. Não era a primeira vez que um de seus cativos lhe fazia essa pergunta. Mas era a primeira vez que sentia dificuldades em responder da maneira apropriada. Estava realmente mudado. E a pressão que A Sociedade vinha fazendo, todos os últimos acontecimentos, tudo aquilo estava perturbando Ikki consideravelmente, a ponto de ele sentir que perdia as rédeas da situação. Não queria acreditar que estivesse assim tão fraco, mas teve a certeza agora, quando não conseguiu enterrar seus sentimentos lá no fundo, como sempre fazia, para apresentar uma resposta debochada, como deveria ser. Engoliu em seco. Seu olhar perdeu-se em algum ponto, possivelmente dentro de si mesmo, em alguma memória distante. Ikki cerrou o punho direito, como se essa lembrança lhe causasse dor, revolta, angústia... ódio. Ódio pareceu flamejar nos olhos azuis escuros. Por mais que Ikki incorporasse sempre uma figura odiável diante dos prisioneiros que já estiveram naquela mansão, seu olhar nunca apresentava um ódio assim. Esse ódio era verdadeiro, era real, era quase palpável.

– Não gostei desse filme. — mentiu e se levantou do sofá, sem olhar para Shaka — Divirta-se com ele. Eu tenho mais o que fazer. — disse e saiu dali, quase às pressas.

Shaka se surpreendeu com aquilo. Esperava uma resposta, algum sarcasmo ou mesmo um ríspido “minha vida não lhe diz respeito”, mas não aquilo. Não estava olhando diretamente para o moreno, mas sua reação diante daquela simples pergunta não lhe passou despercebida. Suspirou, pensativo, não conseguindo se concentrar nem minimamente no filme. Ikki era um sociopata, sem dúvidas, mas algo aconteceu para torná-lo isso e se descobrisse o que foi, talvez conseguisse saber exatamente por que estava naquele lugar.

Ergueu-se do sofá e desligou a TV. Apertou o botão da campainha que chamaria Khan. Embora ele não pudesse ouvir nenhum som saindo daquela máquina, sabia que o mordomo escutaria. Alguns minutos depois, ele entrou no quarto com o mesmo jeito frio e solícito de sempre.

– Pode me trazer mais lençóis? Está ficando frio. – Pediu, como quem não queria nada muito importante e realmente não era. Ele queria pedir outra coisa, mas sabia que aquele velho desgraçado não lhe ajudaria. – E traga antiácido também, por favor, meu estômago está irritado, e traga também... Aspirinas! Isso, aspirinas, minha cabeça também está doendo. – Falou e sorriu de leve. Não podia confrontar Ikki, mas faria da vida de Khan um inferno. Não pararia de apertar aquela campainha o dia inteiro, enquanto estivesse sozinho, e enquanto isso, tentaria pensar em seus próximos passos com o moreno. Era quase infantil, mas não tinha nada melhor mesmo a fazer para passar o tempo e como não poderia atingir quem realmente interessava, chutaria seu cão até deixá-lo tonto.

Voltou a se sentar na poltrona para assistir o filme, que realmente era muito bom, enquanto apertava a campainha de 10 e 10 minutos. Passou o dia assim, tirando o momento das refeições feitas na companhia do moreno, que estava estranhamente calado, sem provocações e sarcasmo. Ele também procurou não provocar, sondava a situação.

No dia seguinte, tudo se repetiu. Passara o dia chamando Khan o tempo todo, por cada mínima coisa. Pensou em socar os seguranças que o acompanhavam para ver se eles reagiam, mas mudou de ideia, não gostaria nada se aqueles armários reagissem, então o melhor era infernizar o maldito do mordomo.

Ikki estava em seu escritório, e nem viu o tempo passar. Depois de deixar Shaka na sala de TV depois do almoço, foi se enclausurar ali. Não havia palavra melhor para descrever, era exatamente isso. Ele quis, sim, esconder-se um pouco do mundo e da sua própria vida. Ficou ali, refletindo sobre tudo e sobre nada e nem viu que as horas iam passando assim. Somente foi se dar conta disso quando Khan entrou no local, embora não tivesse sido chamado.

– Senhor... Perdoe-me interromper. Sei perfeitamente que, quando se fecha aqui, é porque não deseja ser incomodado...

– Se sabe disso, o que está fazendo aqui, Khan? – indagou Ikki, com o semblante fechado, sentado em sua cadeira presidencial e com um copo de uísque na mão.

– É que... acredito que o senhor Phalke esteja querendo chamar alguma atenção. Ele não me deu folga o dia inteiro. Não vejo, obviamente, problema nenhum em atender a ele, senhor... Mas creio que essa seja a forma de ele dizer algo.

Ikki analisou as feições de seu mordomo e notou que, embora suas palavras não dissessem, ele estava cansado e algo revoltado com a atitude do loiro.

– Parece que o advogado conseguiu cansar você, Khan. – Ikki riu.

– Eu não diria bem assim, senhor. Diria apenas que ele está sendo inadequado. – respondeu o mordomo – Ele não teme você? Acredito que ele precise receber um susto ou algo do tipo, porque, do modo como age, ele parece se sentir à vontade demais nessa casa...

Ikki refletiu um pouco. Se Khan estava tendo essa visão da situação, isso não poderia ser bom. A Sociedade poderia perguntar ao mordomo como as coisas seguiam e não seria nada interessante que ouvissem esse parecer dele. O moreno então se levantou e, sem dizer mais nada a Khan, deixou o aposento.

Encaminhou-se até a sala de TV. Seu homem deixou que passasse e, assim que entrou na sala, Ikki disse:

– Muito bem, senhor Phalke. Está liberado do seu castigo. Agora pare de perturbar o pobre mordomo, sim? Está livre para voltar a circular pela casa. – essa não era a saída ideal. Shaka estava obviamente criando um jogo de medir forças e esse era o momento ideal para Ikki provar que era mais forte. Pelo menos, assim deveria ser. Mas, no momento, o moreno não estava com vontade de fazer o jogo do outro e optou pelo caminho mais fácil. Agora, precisava apenas fazer com que Khan não se desgastasse demais com Shaka. Do contrário, o mordomo poderia acabar indo atrás d' A Sociedade e Ikki não queria isso. No final, convenceu-se de que cedia, mas que era pouca coisa, nada que fosse comprometer o sucesso de sua missão. Podia se dar essa brecha. Queria acreditar que sim. E então, tentando não pensar mais nisso, deu o recado ao loiro e fez menção de que sairia dali, deixando claro que não tinha mais nada a falar com o advogado.

Shaka sorriu satisfeito, mas tentou esconder essa satisfação o máximo que pôde, não queria demonstrar que estava jogando com as poucas armas que tinha, preferia fazer-se de desentendido. – E quanto a lá fora? – indagou timidamente, antes que Ikki saísse de vez, mantendo certo ar humilde, o que não combinava nada consigo. Passou a mão nos cabelos fartos, coçando-os um pouco, sem olhar diretamente para o moreno, não querendo um confronto naquele momento.

Ikki parou a dois passos da porta. Deixou que o ar de seus pulmões o abandonasse pesadamente. De imediato, quis responder logo que "sim", para poder sair dali. Mas isso representaria que estava mesmo enfraquecendo? Pensou então que não, porque Shaka lhe perguntara sem sua arrogância usual. Talvez isso fosse um progresso. Talvez, com esse advogado, o melhor fosse mesmo ceder um pouco, quem sabe desse modo, conseguisse maior cooperação e obediência dele? Por mais que essa lógica não fosse das melhores, Ikki resolveu se apegar a ela. Às vezes, quando a mente se vê muito cansada e sobrecarregada, acreditamos no que queremos acreditar.

– Pode ir lá fora. Mas esse será seu limite até que aprenda a obedecer. – quis falar com autoridade, mas falhou. Nem tinha como. Seu tom de ameaça nunca foi tão risível quanto agora. Envergonhado de si mesmo, por agir de maneira tão distinta do que estava habituado, Ikki aprumou o peito e perguntou, em um tom mais sério, mais firme, mais forte e fazendo questão de olhar nos olhos do loiro: – Isso é só? Deseja algo mais? – impressionante como era capaz de contradições. Dessa vez, a contradição era do tipo que usava bastante. Suas palavras indicavam uma falsa gentileza, porque seu tom de voz e postura explicitavam que a pergunta era cheia de limites e restrições, deixando claro quem deveria mandar na situação. Assim, o moreno tentava recobrar o controle de uma situação em que quase não se reconhecia mais.

– Não, nada mais por hora. – Shaka disse, tentando não sorrir. Queria muito sair um pouco e naquele momento não seria inteligente aborrecer o moreno. Então ele apenas assentiu e passou rápido por ele, quase como um raio, correndo como uma criança fugitiva em direção à porta. Esperou um pouco, pois sabia que o moreno daria um jeito de informar aos seguranças de que ele estava autorizado a sair e então passou sem nenhum problema por eles e foi para o jardim.

Titulo: Vão as leis onde querem os reis.

Notas finais
OBRIGADA A TODOS QUE PASSARAM POR AQUI. BEIJOS E ATÉ A PRÓXIMA! SION NEBLINA