Nelumbo nucifera
20 Temulentus dormiens non est excitandus.
Notas iniciais
Temulentus dormiens non est excitandus.
Chapter XX
Marduk tinha sido banido d'A Sociedade, justamente porque seus métodos eram inaceitáveis! Era o que Ikki pensava, tomado de aflição, andado de um lado a outro dentro da cabana. Sim, por um tempo, ele parecia ser o único que conseguia dobrar os tipos mais difíceis, mas por meio de uma violência que beirava o sadismo em seu grau mais elevado. O que fazia de Marduk um dos agentes mais utilizados n'A Sociedade era seu alto rendimento, mas a que custo ele alcançava 100% de sucesso em seus casos! Ele torturava, chegava a quase matar os hóspedes, que, naquela época, eram verdadeiramente prisioneiros. Ikki, desde que entrara n'A Sociedade, agira diferente. Preferiu criar outro caminho, algo mais trabalhoso, mas foi provando que conseguia ser tão bem sucedido quanto Marduk. E Ikki ganhando espaço, foi fazendo seu nome no círculo maior... Até que bateu de frente com Marduk. Deram a Ikki a chance de agir a seu modo e ele provou que conseguia até mesmo dobrar os tipos mais difíceis em menos tempo que Marduk, e sem ter de feri-los. Devido a isso, Ikki tomou o lugar de Marduk, que, recusando-se a ocupar um posto inferior, abandonou A Sociedade, tornando-se assim, um cavaleiro bastardo. Antes de sair, contudo, Marduk deixou claro que não era uma decisão amigável e direcionou todo seu insucesso àquele que foi, de certa forma, seu discípulo: Ikki. Ele culpava Ikki por seu fracasso, culpava Ikki por ter sido “convidado a mudar ou a sair”, e o jovem cavaleiro, naquele momento, soube que tinha um inimigo. Ele saiu, e Ikki tomou o lugar de senhor da mansão do bosque e mais importante operador de campo. Durante muito tempo fora Marduk o senhor daquela mansão, mas seus prisioneiros jamais usufruíram do luxo do lugar. Tudo aquilo havia sido construído para atender aos caprichos de Marduk que, sendo tão bem sucedido, dava-se ao luxo de pedir extravagâncias. E era sempre atendido. A Sociedade não gostava dele, mas o aturava pelos bons resultados. No entanto, tão logo se puderam livrar dele, assim o fizeram.
Ikki nunca mais tinha ouvido falar de Marduk. Não que tivesse medo dele, porque não era de seu feitio se acovardar diante de qualquer coisa. Porém, gostava de estar a par de tudo o que o rodeava, especialmente quando um sádico o ameaçava. E nunca ouvira falar que Marduk estivesse à espreita. Com o passar do tempo, foi se despreocupando e começou a achar que Marduk tivesse blefado ao ameaçá-lo... Ou então, louco como ele era, provavelmente tinha se envolvido com quem não devia e, quem sabe, já estaria morto a essa altura.
Assim pensou Ikki por muito tempo... Até ouvir de Khan não só que Marduk estava vivo... Como também que ele estava sendo acionado para lidar com Shaka.
Aquilo era loucura. Alguém n’A sociedade estava perdendo as estribeiras e ele precisava intervir de alguma forma, pois a culpa era sua. Não devia ter abandonado o caso, não devia.
Pegou o celular e imediatamente ligou para Mu, mas ele não atendeu. Ikki pensava que a operação estava completamente ferrada agora, mas ele só conseguia pensar em uma pessoa, apenas nela... Precisava fazer alguma coisa e com urgência.
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Shaka foi arrastado escada abaixo, chegando à sala e depois sendo conduzido por um corredor longo e chegado a mais um lance de escadas que os levariam ao subsolo, mais exatamente para uma sala antidistúrbio que parecia uma prisão.
— Perdão. Acho que você não conheceu essa parte da casa. Duvido que o marica do Ikki tenha tido coragem de usar — ele acendeu uma lâmpada amarelada, mostrando o lugar.
Shaka engoliu em seco. Era uma sala de torturas. O advogado sentiu o sangue gelar nas veias, mas não demonstrou isso. Até aquele momento, a tortura foi psicológica, o que já o havia atingido bastante, mas parecia que as coisas mudariam naquele momento.
— Bem, loirinho – a voz arrastada disse. – Podemos nem começar, se você resolver seguir o nosso acordo. Mas se você não quiser cooperar...
— Eu vou cooperar – Shaka mentiu. Era uma questão de mentir. Dizer que faria o que eles queriam, ser solto e depois acionar a polícia. – Não precisa fazer isso.
— Ah, eu sei que você vai. Mas... preciso me certificar de que saiba do que eu sou capaz — a voz do homem era calma, quase carinhosa, e ele falava enquanto deslizava uma faca comprida por uma mesa de madeira rústica. — Infelizmente, parece que você dá muito trabalho, não é uma questão apenas de acreditar em sua palavra.
Ele encarou o tal de Marduk. Era um homem grande e corpulento de meia idade, com cabelos cacheados levemente crespos, uma barba descuidada e olhos esticados, negros e frios. Enfim, era um homem de aparência rude e desagradável, diferente de todos que ele havia visto até então.
— Estou falando a verdade... — Shaka insistiu, engolindo em seco. — Não precisa usar isso...
Marduk soltou uma gargalhada como se o que o advogado tivesse dito fosse muito engraçado. Aproximou-se de Shaka, que continuava preso pelos dois seguranças e falou bem perto ao rosto dele.
— Sabia que eu sei ler mentes, bonitinho? – sorriu, exibindo dentes amarelados pela nicotina que era evidente em seu hálito. – Sei o que pensa em fazer: fingir. Já me disseram que é um excelente advogado e advogados mentem, eu sei. E sei também que não vai cooperar, então eu preciso te dar uma amostra grátis do que farei com você, seu namoradinho rico, seu pai, qualquer pessoa que você ame, caso traia A sociedade. Caso não faça o que A Sociedade quer... Phalke... — o nome foi dito de forma lenta, com um sorriso no rosto. — Você é um homem de fibra, eu sei... Mas eu, eu sou um homem sem alma, ou seja, gritos ou lágrimas, ou palavras, e até mesmo se você borrar as calças, não vai me fazer parar... No último caso, eu vou retalhar essa sua cara bonitinha de forma que ficará irreconhecível até para seus familiares. Tem certeza que quer jogar comigo...Bonitinho?
Shaka estremeceu e respirou fundo, tentando controlar o pânico. Encarou o homem de maneira feroz e sorriu como um lobo encurralado.
— Jogar? Já estamos jogando, Marduk... Vá pro inferno! Pode me matar, eu ainda não farei o que querem.
Marduk se afastou ainda com o sorriso nos lábios. — Matar? Não... Mas garanto que você vai querer morrer. Eu tenho 72 horas para tentar...fazê-lo mudar de ideia, criança. E você não tem ideia do que posso fazer com o seu espírito em 72 horas... — ele encarou os olhos desafiadores do promotor com todo o seu sadismo. — Se eu não conseguir dobrá-lo... Irei quebrá-lo... Prenda-o... — disse, e os seguranças levaram Shaka até uma cadeira de madeira rústica e prenderam seus braços em correias de couro. O advogado sentiu-se gelar, sabia o que viria. O tal Marduk se aproximou novamente, agora com uma espécie de mordaça que possuía um protetor de língua, que ele enfiou na boca de Shaka. — Não quero que arranque a própria língua, bonitinho... Está vendo? Não sou tão cruel, não serei até que ache necessário...
Nesse momento, ele se afastou, aproximou-se de uma pequena mesa, onde havia um aparelho cheio de alavancas e botões, e acionou uma das alavancas, que despejou um jato de água fria sobre Shaka. O susto o fez estremecer, e Marduk riu.
— Está cedo para sustos, querido — ele disse e seus dedos deslizaram por outra alavanca sobre a mesa.
Shaka tentou gritar com o forte choque que recebeu, mas sua boca estava coberta, e ele só sentia como se seu corpo estivesse queimando. Morreria ali, tinha certeza.
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Ikki não era senhor de si naquele momento, disso ele já sabia muito bem. Já até começava a admitir para si mesmo que no que dissesse respeito a Shaka, ele nunca conseguiria prever os próprios atos. Já nem se zangava mais tanto com isso. Era preciso aceitar, resignar-se. Por algum motivo, aquele loiro arrogante mexia consigo. Ikki não compreendia ao certo o porquê, mas ele mexia, e não estava sendo capaz de lutar contra isso. E agora não era a hora de tentar descobrir a razão; agora era a hora de salvar a vida do advogado. Do contrário, Ikki jamais teria a chance de saber o que acontecia ali, de fato, entre eles...
Foi com esses pensamentos que ele chegou de frente à sede dos cavaleiros, onde sabia que poderia encontrar Mu. Tinha ido ali pessoalmente. Não mandaria recados. Não telefonaria. Não queria ser rastreado. Sabia que conseguiria encontrar Mu a sós. Conhecia alguns dos seus hábitos. Sabia, por exemplo, que Mu não era o tipo de pessoa que gostasse de ficar tanto tempo fechado em um escritório. Sabia que, eventualmente, ele saía de sua sala e descia até um bonito parque que havia ali perto. Não havia hora definida para isso, mas Ikki saberia ser paciente agora. Era preciso. Qualquer passo em falso nesse momento poderia colocar tudo a perder e piorar ainda mais a situação de Shaka. Fazia muito tempo que Ikki não se preocupava dessa forma com alguém. E saber que o loiro estava agora nas mãos de Marduk... Isso fazia o seu sangue ferver! Porém, era preciso cautela agora.
Finalmente, depois de mais ou menos uns trinta minutos, viu seu alvo deixando o prédio. Mu saía respirando o ar de fora, como quem estivesse com falta de oxigênio. Alargou discretamente o colarinho de sua gravata, desconfortável. Era perceptível que ele estava sob forte tensão.
Ikki se aproximou sorrateiramente, de forma a não ser visto. Quando Mu se sentou em um banco, que ficava à sombra de uma frondosa árvore, Ikki aproveitou para se colocar ao seu lado, tão discretamente quanto possível, longe da mira de qualquer câmera ali perto. A única câmera que talvez pudesse alcançá-lo, não conseguiria uma visão nítida, por causa do ângulo em que o moreno se colocara propositalmente, além da sombra local.
— Mu. — ele disse, em voz baixa — Não olhe para o meu lado. Disfarce. Finja que não estou aqui. — falou em tom calmo, para não sobressaltar o outro — Não vou me demorar aqui. Mas preciso de respostas. Urgentes. — fez questão de ressaltar.
Mu seguiu o que ele disse, olhou para frente, em direção à câmera, depois tirou tranquilamente um livro do bolso de um casaco e fingiu ler.
— O que faz aqui, Ikki? Pelo que me lembro, deveria estar na cabana — o líder disse, tentando demonstrar uma tranquilidade que não tinha naquele momento. Todas as ações dos cavaleiros estavam sendo monitoradas. Ikki estragara tudo com o alerta vermelho, e ele não estava muito feliz com o companheiro, embora sua lealdade ao grupo o fizesse defendê-lo diante de qualquer um dos líderes d’A sociedade. Lealdade era o lema dos “cavaleiros”. Os outros membros do grupo muitas vezes os chamavam de mosqueteiros, devido a isso, e embora eles falassem isso com deboche, Mu não achava ofensivo. Era exatamente assim que se comportavam, que aprenderam no treinamento ainda na adolescência. Antes de serem uma equipe, eram uma família. – Quais as respostas que deseja – completou, ainda fingindo olhar o livro.
— Eu quero saber quem foi o imbecil que teve a brilhante ideia de trazer o Marduk de volta! E ainda mais para essa missão! — precisou se conter, pois já começava a elevar um pouco o tom de voz. Respirou muito, muito fundo — Mu, eu vou direto ao assunto, está bem. Você não é estúpido, é um dos poucos que eu respeito nessa organização e é também um dos poucos que consegue ver além do que eu aparento. Então, eu sei que você percebeu que a minha preocupação com Shaka está além do normal. Não fui muito bem em disfarçar e você sempre consegue ver as coisas. Normalmente eu te odeio por ver demais, mas agora... Isso vai ser útil. — suspirou profundamente — Realmente houve algo mais entre mim e Shaka e isso estava comprometendo a missão. Mas, dane-se, isso agora é o que menos importa! O que interessa aqui é que eu conheço sim aquele advogado metido e arrogante! E você tem que confiar em mim quando eu digo que chamar Marduk para essa missão foi a maior loucura que vocês engendraram até agora! Não é assim que se lida com Phalke! Ele vai morrer desse jeito, Mu!
— Eu sei! — Mu exclamou, mas logo conteve a voz, respirando fundo e continuando quase num sussurro. — Não foi coisa minha, nem de Shion. O próprio Círculo está ditando as regras agora. Não estou mais na liderança da operação Phalke por causa do seu maldito alerta vermelho! E sabe quem está na liderança agora? Hades. Ele mesmo, e a equipe Espectro. Você sair da operação foi um duro golpe para A sociedade, eles acharam que Phalke, além de uma peça importante, tornou-se também uma ameaça. Precisam contê-lo, domá-lo. E sem você... Quem poderia fazer isso? — Mu respirou fundo mais uma vez. — Angelo está vigiando Marduk, mas... Você conhece Marduk mais que qualquer um de nós. Eu não confio nele e não confio no rumo que isso está tomando. O Círculo impôs limites às ações dele, mas... Sabemos quem é Marduk.
Ikki riu sarcástico — Alguém ali realmente acha que é capaz de controlar Marduk? O Angelo perto dele é mesmo um anjo! Marduk não conhece limites! Sim, é verdade, ele chegou a matou um dos prisioneiros... E deixou outros em estado tão deplorável, que alguns se suicidaram! Alguns deles nunca conseguiram voltar a ser o que eram! Marduk é capaz de matar o espírito de uma pessoa... além de deixar também muitos... danos físicos... — essa última frase saiu trêmula — Não podemos deixar que ele prossiga, Mu. Marduk inspira medo nos seus prisioneiros, essa sempre foi a tática dele, medo pela violência. Os homens que ficaram sob seus cuidados terminaram por lhe obedecer por medo, apenas isso! Tornaram-se fantoches e... Mu, você sabe tão bem quanto eu que não é disso que A Sociedade precisa! Shaka foi escolhido não apenas por causa de um cargo que virá a ocupar, mas pela pessoa que ele é, pela força que representa, pelo espírito de justiça que parece estar impresso na cara dele! Se... Shaka passar por Marduk... ele irá morrer. Talvez não fisicamente, mas... o espírito dele, certamente, não suportará. Ele nunca mais será o mesmo. E toda essa missão irá por água abaixo! Acredito que você, assim como eu, não queira ver isso, não é? Então, você vai me ajudar, Mu. — discretamente, enfiou no bolso do paletó do companheiro um aparelho celular bastante simplório — É só para ligações. Não tem como ser rastreado. Entrarei em contato com você por meio dele. — Ikki começou a olhar ao redor, em gesto que indicava que se preparava para sair — Eu vou dar um jeito nessa situação. Você me diz que Hades e os espectros estão envolvidos agora? Ótimo. Vai me manter a par do que eles disserem e fizerem. No mais... Seja discreto. — tendo dito essa última frase, Ikki ergueu-se e embrenhou-se pelo meio das árvores ali perto e desapareceu.
Mu levou a mão ao bolso, fingindo colocar o livro de volta, mas ajeitando o celular deixado por Ikki. Ele tinha razão, precisavam fazer alguma coisa. Precisavam salvar Phalke. Entraria em contato com Shion, tentaria, ao menos. Ele precisava interceder junto ao Círculo. Precisavam de tempo, só de um pouco mais de tempo e de Marduk fora. Ergueu-se e voltou para o prédio. Esperava que Ikki tivesse algum plano. Um plano que de preferência salvasse a todos, não apenas Phalke. Agora todos os cavaleiros estavam em risco. Tinha certeza.
24 horas...
Marduk moveu a alavanca encerrando a sessão de eletrochoques, sem que conseguisse arrancar o desespero que esperava do advogado, o que o irritava profundamente, mas ele precisava se conter, ao menos por enquanto.
— Acho que por hoje chega — ele disse e com um gesto de mão, pediu que os seguranças soltassem Shaka. Observou o loiro, verificando se ele estava muito machucado. Não. Usou uma carga aceitável, havia recebido ordens, coisa que sempre odiou n’A sociedade, de que não deveria machucá-lo gravemente. O advogado precisava sair ileso ao final. Não entendia tanta preocupação com aquele almofadinha, mas sabia que ele estava sendo difícil o suficiente para que A sociedade o chamasse de volta. Estava feliz com isso. Ikki, o menino de ouro, o prodígio que o substituíra, falhara... Ele falhara!! E agora Marduk tinha a chance de provar que sempre foi melhor, e ele faria tudo para voltar, dobrar Phalke, e chutar Ikki d’A sociedade custasse o que custasse. Estava de volta ao jogo e no caso mais importante da história do grupo!
Shaka estava lúcido, embora se sentisse incapaz de se mover. Tudo doía, tudo. Achava que ia morrer. Devia ter queimaduras por seu corpo e sua garganta ardia demais. Moveu os punhos presos nas tiras de couro. Passara a noite sendo torturado, pelo que percebia. Calcular o tempo era uma estratégia para não enlouquecer. Marduk disse que ele tinha 72 horas para destruí-lo. Shaka contaria o tempo para resistir. Devia ser manhã já... Ou mais tarde... Mas devia estar perto das primeiras 24 horas...
— Me tirem daqui... — pediu, sentindo-se exausto, mas não teve resposta. — Me tirem aqui! — gritou, movendo-se nervoso, mas seus carrascos apenas deram-lhe as costas e deixaram a sala, batendo a pesada porta.
Shaka achou que deveria ter ficado sozinho por uns trinta minutos e então Marduk voltou. Aproximou-se dele, analisando-o.
— Me tire aqui, seu lunático — Shaka disse, entredentes.
Marduk tocou-o nos cabelos, fazendo o loiro imediatamente recuar em alerta.
— Calma — ele disse. — Você está bem? — Marduk perguntou. Ele tentava, mas não sabia fazer aquilo. Aquele era o método de Ikki, método que A sociedade queria que ele utilizasse para não extrapolar na violência. Mas ele não sabia ser assim. Tentava, mas era evidente seu desconforto.
— Vai pro inferno... — Shaka murmurou. Sentia gosto de sangue na boca, e muita sede.
— Não está pronto pra colaborar? — Marduk riu. — Bonitinho, você só precisa dizer que vai fazer, dar sua palavra e vamos acreditar. Apenas isso. Mas precisa ser de verdade. Não adianta fingir. Eu preciso de você dócil. Será que não percebe que queremos a mesma coisa? Justiça?
— Isso não é justiça... — Shaka murmurou. — Não farei o que querem... Não farei!
Shaka pensava que sua negativa resultaria em algo: sua morte. Isso o tranquilizava, porque se estivesse morto, as pessoas ao seu redor estariam seguras. Então, melhor que fingir aceitar, seria permitir que eles o matassem. Não queria morrer de verdade, mas não via solução. Aquele homem não queria uma palavra, isso era mentira! Ele queria ver o medo em seus olhos.
Marduk ficou encarando-o por um longo tempo, depois se afastou.
— Vou deixar que pense um pouco. Volto em 10 minutos. Espero que tenha mudado de ideia.
Ele deixou a sala. Shaka tentou se mover, mas sentiu mais dor e gemeu, permanecendo largando na cadeira.
Fora da câmara de tortura, Afrodite e Máscara da morte aguardavam nervosos, revoltados, mas mudos, impassíveis. Depois que Marduk apareceu, Angelo foi o primeiro a ir até ele.
— Como ele está? — indagou. Estava ali para supervisionar as ações de Marduk.
— Bem — o homem o encarou com deboche. — Eu estou seguindo as regras, cavaleiro, não vou matá-lo, fique tranquilo. O olhar de Marduk caiu sobre Afrodite. — Não deveria estar aqui.
— Já estou de saída —Afrodite disse, mirando o homem mais velho com profundo asco. — Sabe que não deve machucar, Phalke. Se você o machucar mais...
— Eu sei até onde posso ir, bonitinho — Marduk sorriu e levou a mão ao queixo de Afrodite, que afastou seus dedos com um safanão. — A sociedade colhe realmente as mais belas flores, da rosa à lótus.
— Não exagere, Marduk. Ele será um dos nossos e estou aqui para garantir que ele sobreviva inteiro — advertiu Angelo, pondo-se entre o homem e Afrodite, lançando um olhar não menos letal a Marduk.
— Sim, ele será. Eu farei dele um cavaleiro. Eu! — Marduk ressaltou. — Então não se meta em meu trabalho. Vou tomar um café e volto para o buraco em 10 minutos. Tenho certeza que ele estará mansinho depois disso.
Marduk se afastou tranquilamente. Afrodite mirou as costas dele, enquanto ele se afastava.
— Não acredito que colocaram Phalke nas mãos desse psicopata. Como querem que ele aceite ser um de nós depois disso?! Angelo... — Afrodite encarou o moreno, que apoiou a mão no ombro dele —, isso... isso é errado...
— Não podemos questionar O Círculo, Afrodite. — Angelo replicou, mas deixando claro que não gostava daquilo.
— E se ele matar Phalke? E se ele quebrá-lo em cacos tão pequenos que seja impossível colar, Angelo?! Não me juntei À sociedade para matar alguém inocente!
— Você tem que ir agora, Afrodite — Angelo retorquiu, mirando os olhos chocado do parceiro.
— Você concorda com isso?
— Não importa o que penso e nem o que você pensa. Eu vou ficar aqui, cuidando para que Marduk não extrapole. Vá pra casa e descanse.
— Angelo... Às vezes eu me pergunto se o que estamos fazendo é mesmo certo... Será que é dessa forma, torturando e matando, que conseguiremos higienizar o mundo? Acha que conseguiremos isso trabalhando com psicopatas como Marduk?!
Angelo franziu a testa e segurou o companheiro pelos ombros.
— Lembre-se de quem são essas pessoas, Di! Lembre-se que os homens que torturamos e matamos são os mesmos que o sequestraram e antes estupraram e mataram sua mãe!
— Não Phalke! Ele é inocente! Ele é um bom garoto...
— Ele é uma peça! — Máscara da morte quase gritou. — Uma peça num tabuleiro mais complexo do que você e eu conseguimos imaginar. Precisamos dele! Precisamos dele para continuar tirando esses canalhas da rua e salvando garotinhos e mães de garotinhos como você foi, Di! Como ninguém conseguiu te salvar!
Afrodite respirou fundo, mas socou uma parede por duas vezes, e só não continuou porque o companheiro segurou-lhe os braços e depois o abraçou.
— Vai ficar tudo bem... — Angelo disse, acariciando-o nos cabelos.
Afrodite relaxou os músculos e afastou-se, um pouco envergonhado daquela demonstração de descontrole. Aquilo não era permitido a cavaleiros.
— Odeio essa missão! — ele resmungou, antes de se afastar do companheiro. Iria embora daquele lugar.
48 horas...
Marduk orgulhara-se a Hades quando retornara de que conseguiria dobrar Phalke com 24 horas. Hades lhe dera 72 horas. Mas ainda não havia conseguido nada de produtivo, o que o deixava mais frustrado e com isso o índice de violência crescia consideravelmente.
Shaka agora estava com os pulsos presos por cordas, pendurado no meio da sala, a corda presa em um gancho no teto. Mal conseguia respirar. Já havia sido afogado, e acabara de passar por uma sessão de espancamento que o fizera cuspir sangue. Tinha um olho fechado e sentia alguns dentes quebrados na lateral da boca. Ele riu, idiotamente pensando que era um privilegiado por não ter ficado sem os dentes da frente. Marduk não o tinha socado com vontade, verdade fosse dita, talvez não pudesse. Começou a rir desse pensamento e logo estava num riso tão histérico que chamou a atenção do seu torturador, que o mirou com mais raiva.
— O que é tão engraçado, bonitinho? Está zombando de mim?
Mas Shaka não respondeu, continuou rindo. Morreria naquele porão maldito. Morreria, mas não deixaria que morresse sua dignidade. Nunca.
— Já cansou? — ele perguntou rindo, rindo de perder o fôlego.
Longe dali, Mu mandava mais um fax para O Círculo, pedindo imediatamente o afastamento de Marduk e a reintegração de Ikki ao caso Phalke. Explicava didaticamente por que Marduk era inadequado para o que eles queriam, e como a decisão de Hades era equivocada. Mandara fotos e relatórios de todos os casos do passado em que Marduk estava envolvido, provando que Phalke não teria serventia alguma para A sociedade se ele conseguisse acabar com a segurança dele. Afrodite, agora também afastado do caso, observava as ações do líder sem nada dizer. Todos pareciam cansados e desanimados naquele momento.
Camus era quem recebia as mensagens d’O Círculo em tempo real, ele era o “navegador” da equipe, responsável por rastrear alvos e ficar em contato com outras células. Mu esperava que a autorização para afastar Marduk chegasse através dele, e todos cercavam o Hacker, parecendo aflitos, menos ele. O ruivo permanecia com seus olhos castanhos voltados para a tela, entre mapas e dados.
— Aqui o mapa da mansão. Há... 14 câmaras subterrâneas — Camus informava. — Onde ele está?
— Embaixo desse corredor — Afrodite apontou no mapa. — Marduk está grampeado, é só segui-lo.
— Você acredita mesmo que ele ainda está com o rastreador? — Aiolia riu, mostrando algo na tela do seu laptop para o companheiro. — Só se ele está dormindo por 10 horas, porque o rastreador não se move tem mais ou menos esse tempo.
— Filho da puta — Milo resmungou. — Eu vou pra lá. Não é seguro deixar Angelo sozinho.
— Angelo não está sozinho, os seguranças estão com ele — Mu replicou. — Liga pro Angelo e vê como estão as coisas e principalmente como está Phalke. Temos que esperar.
Os demais aceitaram frustrado, e Mu esperava que Ikki ligasse. Talvez, pela primeira vez e apenas talvez, ele tivesse que agir diferente do que A sociedade mandava. Talvez.
— Nada ainda, Camus? — Aiolia insistiu.
— Acho que se chegasse uma mensagem d’O Círculo, eu perceberia — o hacker disse tranquilamente.
Mu passou as mãos nos cabelos. Não conseguia falar com Shion e nem com O Círculo. Ele teria que tomar uma decisão. Uma difícil decisão.
— Milo — chamou o companheiro, que pousou a mão em seu ombro, olhando-o nos olhos. — Eu preciso que esteja pronto para liderar os cavaleiros...
Milo franziu as sobrancelhas. — Por que está dizendo isso?
— Talvez eu não cumpra as determinações dessa vez — ele falou em um tom mais baixo para que os outros não escutassem. — Confio em todos, mas você é quem eu quero que segure a onda, caso alguma coisa dê errado.
— Não vai dar — Milo disse com um sorriso de lado. — Se você cair, eu estarei com você, assim como todos, Mu. Não é por isso que nos chamam de mosqueteiros?
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Finalmente havia anoitecido. Ikki estava observando a movimentação acerca da mansão. Havia uma ou outra mudança no corpo de guarda que a protegia, mas nada que Ikki já não tivesse avaliado nos dias em que vigiara o local. Vinha montando todo um plano de estratégia. Enfim, tinha chegado o momento de agir.
Sabia que agora teria uma brecha de um minuto e doze segundos. Olhou no relógio. Tempo cronometrado. O lado positivo disso tudo era que conhecia aquele lugar como ninguém, como a palma da sua mão. E agora que sabia como funcionava o esquema de segurança, nada o impediria. Entraria na maldita mansão e tiraria Shaka de lá. Ikki sabia muito bem que de nada adiantaria esperar que O Círculo fizesse algo agora. Se fosse para fazer, já teria feito. O moreno chegou a ficar em alerta nas primeiras 24 horas, na expectativa de que talvez Shaka fosse libertado. Ledo engano. E Ikki não iria aguardar para se enganar de novo. Tomara sua decisão. Mas ainda precisaria da ajuda de Mu.
Conseguiu passar do primeiro quadrante de segurança. Extremamente bem sucedido. Sorriu, orgulhoso. Entretanto, sabia que essa tinha sido apenas a parte mais fácil. Por isso mesmo, agora necessitava de Mu. Escondido em meio a alguns arbustos, de olho na movimentação dos seguranças, alcançou o celular e discou o número do aparelho que deu para Mu, voltando a guarda-lo e ajeitando o fone de ouvido, não podia estar com as mãos ocupadas.
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Marduk girou a alavanca e a corda desceu pelo carretel, deixando Shaka no chão. Contudo, ele continuou com os braços presos sobre a cabeça. Seus pulsos estavam em carne viva e sangravam com a pressão das cordas.
— Preciso confessar que você é durão, bonitinho — ele disse, observando o rosto machucado do loiro. — Eu admiro isso. Sério, realmente admiro, mas... Eu preciso garantir meu lugar n’A sociedade. E para isso, preciso de você mansinho. Sabe o que é isso?
— Você não vai conseguir... — Shaka murmurou, estava cansado, ficar de pé era difícil.
— Bem, eu vou. Podia ser mais fácil... Menos doloroso pra você, mas... — ele se aproximou de Shaka e tocou-lhe o queixo — não me deixa outra escolha.
Dizendo isso, ele virou o corpo de Shaka com a mão, fazendo que ele batesse com o peito no pau de arara atrás de si. Chutou uma das pernas de Shaka, forçando-o a abri-las por reflexo. Em seguida, Marduk o prendeu contra seu corpo, pela cintura, deslizando a mão sobre o botão da calça do advogado.
— O que...? — Shaka começaria a protestar, mas se calou. Seu sangue agora estava gelado nas veias.
— Sabe, Phalke... — Marduk disse suavemente ao ouvido do advogado. — Sou uma pessoa que trabalha com algo muito específico, o medo. Infringir medo é uma arte, uma arte bastante pitoresca, devo admitir, e que muito me diverte. Então, eu leio e aprendo tudo sobre ele, tudo mesmo. Leio todos os artigos, todos os estudos... Entenda que se eu não consigo despertar medo, eu falho. Falho em meu trabalho.
— Foda-se! — Shaka disse entre dentes, um suor frio escapando dos seus poros. Aquilo era pânico, sabia, e tentava não sucumbir.
Marduk riu.
— Chegaremos lá. Bem, eu percebo que você é uma pessoa que controla bem seu medo. Mas você sente... Aliás, eu posso sentir o cheiro de medo em você agora, bonitinho... — riu baixo —Afinal, um garoto tão bem cuidado, tão superprotegido, não deve conviver bem com situações em que não está no controle... Mas o que eu dizia? Ah, sim, o medo. Sabe o que descobri nos meus estudos? Descobri que tem algo que apavora um homem. Sim, apavora de forma a fazê-lo molhar as calças, não importa quem ele seja: jovem, velho, ateu, cristão, hetero ou homossexual, é algo que o apavora sempre e sempre, e sabe o motivo? Homens não são criados para serem subjugados, forçados... Homens são criados para serem leões, o grande predador na savana da vida... Foi assim que você foi criado, não foi? Você, o poderoso criminalista Shaka Phalke, senhor dos tribunais e paladino da justiça. O novo Dom Quixote. Puro. Limpo. Inalcançável. O homem que vai higienizar essa cidade. Mas agora, Phalke, você é minha presa. Agora você é meu... Todo meu...
— Não... Não! Me solta! — o pânico agora era evidente na voz e nos olhos do advogado. — Sai de perto de mim, seu lunático! Socorro! Socorro!
Marduk riu, saboreando o prazer de vê-lo em pânico pela primeira vez. Estalou a língua numa negativa provocadora, deslizando a mão grande e calejada pela barriga do advogado. — Não, não, não, bonitinho... — continuou abrindo a calça dele — Eu tenho muitas coisas aqui com as quais podemos brincar a noite toda... E Eu... prometo fazê-lo gritar. Mas não será de prazer.
Shaka sentiu-se morrer naquele momento, o pânico agora o sufocava. Estava perdido e só poderia gritar. E foi o que fez.
Título: Ninguém acorde o cão que está dormindo.
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