Nelumbo nucifera
21 Amicum certum in re incerta cerni
Notas iniciais
Amicum certum in re incerta cerni
Chapter XXI
Shaka debateu-se, e Marduk riu por finalmente sentir o desespero nele. — Me solta! Eu vou matá-lo! — o advogado retorcia-se, tentando fugir das mãos de Marduk, mas era impossível. — Pare! — pediu, sentindo o corpo estremecer e não conseguindo controlar. Mas precisava, não podia entrar em pânico. Era isso que aquele homem queria. Precisava manter-se no controle. — Olha... Vamos negociar, certo? — gaguejou, tentando fugir da mão dele, sentindo que iria vomitar, tamanho era o mal-estar que sentia. — Eu faço o que você quiser! Você ganhou! Ganhou, Marduk!
O homem riu. — Muito tarde para blefes, bonitinho.
— Não é blefe, estou falando a verdade, pare de me... tocar! — Shaka grunhiu, entre dentes.
— Eu não vou. Você pediu por isso — Marduk riu, continuando as tentativas de despir o advogado, mas Shaka lutava, não permitindo. Agora ele grunhia, ameaçando seu carrasco de todas as maldições possíveis.
Do lado de fora, Angelo sentiu o coração falhar. Era sério aquilo? Marduk seria capaz? Não queria acreditar naquilo, não podia permitir! O cavaleiro começou a esmurrar a porta, o que fez Marduk interromper o que fazia e se afastar de Shaka, respirando pesadamente. Abriu a porta e encarou Angelo:
— Disse que não deveria me atrapalhar — ele falou entredentes.
— Não vou permitir isso! — Angelo disse. — O Círculo nunca permitiria isso! E...
— Sabe, cansei de você! — Marduk puxou um revólver de dentro do casaco e disparou, vendo o cavaleiro cair aos seus pés. Como se não houvesse feito nada, voltou para dentro da sala, fechando a porta e mirando Shaka, que se debatia para se soltar — Onde estávamos mesmo, bonitinho?
...
— Finalmente ele ligou! —Mu pegou o celular e se afastou do grupo, com um suspiro pesado. — Ikki, que bom que ligou... — ele disse e sorriu. — Acabei de receber um fax do Círculo, pedindo detalhes da intervenção. Marduk será afastado, só precisamos agora receber o sinal verde, mas... — pigarreou. — Ikki... 48 horas. Estou preocupado. Seriamente preocupado.
— O Círculo que se dane. — Ikki falava baixo, mas audível o suficiente para Mu. — Se eu ficar esperando um sinal verde, não vai sobrar nada do Shaka para tirar de lá. Agora escuta: estou entrando na mansão. E nem perca seu tempo tentando me convencer a mudar de ideia. Já estou aqui. Passei do primeiro quadrante de segurança. São cinco. Vou precisar da sua ajuda para passar pelo segundo e pelo quinto, entendeu? E você não vai falar a respeito com ninguém, Mu. Não até eu atingir o meu objetivo, está bem? — suspirou fundo — Olha, eu confio em você. Por favor, faça valer essa confiança — olhou no relógio; teria a brecha para ajudá-lo a passar pelo segundo quadrante agora. Começou a se arrastar pelo chão, indo na direção desejada — Estou diante de uma forte cerca eletrificada, alta demais para escalar sem ser visto e profunda demais para que eu possa escavar a terra para tentar passar por baixo. Sei disso porque eu mesmo estipulei essas características para a cerca. Assim como desenhei o modelo e propositalmente criei uma falha nela, que apenas eu conheço. Sou precavido e sei que poderia um dia querer entrar ou sair daqui sem ser visto. Então, o que eu quero que me faça é simples: aí na sede existe um controle de alguns comandos da mansão. Obviamente, você não pode mexer em nenhum controle muito importante. Por isso, você vai procurar pelo controle da luz da piscina e vai desligá-lo. Ninguém se importará com isso, vai parecer que queimou alguma coisa ali e só, e com isso você vai desativar uma parte da cerca que só eu conheço. Tem uma barra solta ali, que serrei pessoalmente há alguns anos. Só preciso retirá-la para entrar. Vá agora, Mu. E me avise assim que eu puder tocar na barra.
— Certo, vou fazer isso — Mu disse, já se movimentando, saindo de onde estava para procurar o painel de controle, bem distante de onde estava, próximo à cozinha da sede. Ele nunca imaginaria que um controle ali desligaria algo na mansão há quilômetros de distância. Aquilo era mesmo genial. — Encontrei. Vou desativar. Ikki, só mais uma coisa: Angelo está na casa. Vou tentar tirá-lo do seu caminho, mas tente não chamar muita atenção. Pegue Phalke, saia da forma mais discreta que puder. Quando eu tiver o sinal verde, dou um jeito de avisar. Agora vou ligar pro Angelo. E, Ikki... Tenha cuidado com Marduk.
— Eu posso prometer que vou tirar o Phalke dessa casa... Agradeço se colocar o Máscara fora do meu caminho... mas não posso prometer ser muito discreto. — a essa altura, Ikki demonstrava que já havia decidido seguir um caminho próprio, não se importando muito com o julgamento acerca de suas atitudes. Aproximou-se da barra e contou alguns segundos. O controle via satélite não lhe permitia a rapidez ansiada, mas precisava se conter, ao menos agora. Finalmente, viu que se passaram os segundos necessários e então, com cautela, experimentou tocar na barra. Havia funcionado. Suspirou levemente de alívio, era a primeira vez que testava esse sistema de fuga — Ok, Mu. Estou entrando. Fique com o celular em mãos. Eu volto a ligar. — dito isso, encerrou a ligação.
Passado o segundo quadrante, correu para perto de uma pequena base, onde se agrupavam os soldados que faziam rondas no perímetro. Ikki conhecia pontos estratégicos ali, de forma que conseguiu, sem ser visto, abduzir um dos homens e roubar seu uniforme. O motivo não era simplesmente usar a farda que identificava os soldados que garantiam a proteção do local como forma de disfarce... A razão principal é que essas fardas eram revestidas de um material que seria o único permitido na transição do segundo para o terceiro quadrante. Agora, depois do enorme muro de concreto e da cerca eletrificada, o terceiro quadrante era constituído de uma "parede invisível", que captava, por meio de sensores estrategicamente posicionados, qualquer um que passasse por lá com quaisquer outros tipos de vestimentas.
Agora, Ikki imaginava que precisaria usar arma de fogo. Havia trazido duas pistolas, porque sabia que o quarto quadrante seria humano. O plano era bater de frente com alguns homens; seria impossível evitar todos eles. Tentaria, no entanto, ser o mais discreto possível. E aí, voltaria a falar com Mu, pedindo que ele desligasse inteiramente a energia que envolvia a casa da piscina. Enquanto todos deduzissem que haveria algum curto-circuito naquele local específico da mansão, Ikki se aproveitaria das sombras para entrar na casa da piscina. Lá dentro, na sauna, havia alguns azulejos soltos que davam caminho para uma passagem secreta, até o sótão da mansão. Era por ali que planejava entrar.
Contudo, Ikki não esperava que o quarto quadrante estivesse assim, tão mais difícil de ultrapassar do que o imaginado. O número de homens que havia ali era bem maior. Nos últimos dias, tinha conseguido apenas chegar até o segundo quadrante, mas estudara muito a segurança a partir disso. Acreditava que os próximos quadrantes seriam de uma determinada forma, baseado na sua experiência e em seus conhecimentos. Porém Marduk, pelo visto, gostava de excessos. O número de homens que estavam ali fazia o quarto quadrante parecer uma muralha! Ikki não conseguiria simplesmente dar cabo de alguns deles, a fim de conseguir chegar à casa da piscina! Todo o terreno estava igualmente protegido! O moreno bufou, voltando a ligar para o companheiro:
— Mu, quantos homens tem na casa? — indagou, avançando. — Há muito mais que na minha época.
— Marduk, exigiu que A Sociedade deixasse que ele trouxesse mais homens. — Mu respondeu. — Camus vai fazer um rastreamento via satélite da mansão, através dos sensores, ele vai dizer quantos...
— 25 homens no total — Camus disse. — Dez no primeiro quadrante, cinco na ala sul, cinco dentro da mansão, fora Angelo, e cinco no quinto quadrante.
Ikki ouviu. Seria difícil passar. E então... lançou seus olhos para o canil, onde antes ficava Falcon. Percebeu que Marduk levou para lá seus próprios cães. O canil era enorme, se fosse para apenas um cachorro. Marduk, no entanto, colocou uma dezena de cães ali, que pareciam agitados, estressados.
— Mu, estou falando com Angelo — Milo disse, nervoso. — Marduk atirou nele e está trancado com Phalke, a situação é crítica, estou mandando uma equipe pra lá agora!
— Não há tempo! — Mu disse e voltou a falar com Ikki. — Ikki! — exclamou nervoso. — Estamos... às suas ordens. E, pelos deuses, seja breve. Angelo informou que as coisas não estão bem lá dentro, Marduk atirou nele porque ele tentou intervir, estamos mandando uma equipe, mas precisa se apressar!
Ikki sentiu o sangue gelar. Angelo poderia ser considerado o mais sádicos dos cavaleiros, se ele achou que Marduk passou dos limites, era porque ele havia passado de todos os limites possíveis.
— Mu, procure no painel o controle do canil. Dê o comando para abrir as portas. — Ikki não esperou retorno; desligou a chamada e se posicionou. Teria que ser rápido. Ficou escondido em meio àquelas árvores, tão bem conhecidas por ele, e aguardou. Logo, as portas do canil se abriram, os cães logo se deram conta e saíram do espaço a que estavam confinados, avançando para cima dos homens que faziam a guarda. Uma confusão se montou e Ikki sabia que agora não podia mesmo ser discreto; não demoraria quase nada para entenderem que havia um intruso ali. Mas até que fossem capazes de se organizar o suficiente para encontrá-lo, ele já teria pegado Shaka e o levado para longe.
Aproveitando a confusão, embrenhou-se na multidão e entrou na casa, que estava com a porta aberta por conta de alguns homens que vieram ver o que estava acontecendo do lado de fora.
Angelo estava no corredor da sala de tortura sob a mansão. Ao contrário de Ikki, ele não sabia que havia uma entrada secreta ali e por mais que tenha batido na porta, a maldita porta era blindada. Marduk atirou na sua perna. Aquele filho da puta atirou na sua perna! Ele pagaria por isso. Mas agora o importante era tirar Phalke dali, mas ele não conseguia, teria que esperar a equipe de resgate. Mu dissera que Ikki estava chegando, Ikki conhecia aquela casa, então ele resolveu facilitar a entrada do companheiro, livrando-se do máximo de seguranças que conseguia. Quando A sociedade quisesse saber o que aconteceu ali, seria fácil, conhecendo o gênio e os métodos de Marduk, que eles acreditassem que os homens dele haviam se matado entre si. No que pudesse, Angelo faria uma verdadeira chacina. Assim pensando, ele avançou para o térreo, desarmando quem podia e eliminando quem resistia. Era simples para ele.
Dentro da sala de tortura, Shaka lutava para se libertar das mãos do seu odioso algoz. Marduk agora estava sozinho com ele, e embora fosse mais alto e mais forte e Shaka estivesse visivelmente debilitado e preso pelos braços, não era fácil subjugar o loiro. Shaka gritava, chutava, contorcia-se, em pânico, pela primeira vez durante todos aqueles dias, ele estava apavorado e o pânico o fazia reagir como uma fera acuada.
— Fica quieto, loirinho, ou eu vou cortar sua garganta! — Marduk ameaçou, sem paciência, puxando-o pelos cabelos, batendo a cabeça do loiro contra o pau de arara, e colocando uma faca contra o pescoço de Shaka. — Está com medo? — ele riu. — Agora você está com medo, não é? Eu bem sabia que haveria uma forma de fazê-lo cooperar...
Tudo ficou turvo ao redor do advogado, ele lutou para continuar consciente, mas a pancada em sua cabeça foi forte e seu corpo amoleceu completamente, embora ele não houvesse desmaiado. Não conseguia mais lutar. A respiração ofegante era quase que seu único sinal de vida, e saía ruidosa por suas narinas e boca. Havia lágrimas nos seus olhos, embora ele não quisesse chorar, não mesmo.
— Pare... Não faça isso... — pediu, sem forças, sentindo a primeira lágrima descer por seu rosto, sem que pudesse sequer se mover.
— Fique quietinho — Marduk disse, adorando ver o outro subjugado pela primeira vez. Ele adorava o aroma do medo. Adorava destroçar a alma das suas vítimas. Deslizou as mãos pela cintura do advogado de forma obscena, rindo — E agora, loirinho? Vai me obedecer, não é? Agora você pertence a Marduk.
Shaka não respondeu, fechou os olhos e rezou para que aquilo acabasse logo. Que morresse logo.
As paredes da sala de tortura eram de ferro e aço galvanizado. Atirar ali dentro era loucura, porque se corria o sério risco da bala ricochetear e ir parar onde menos se esperava. Não, o prudente ali não era usar uma arma de fogo. Ikki já imaginava que era para lá que Marduk teria levado Shaka, por isso carregara consigo uma grande e afiada faca. Depois da confusão com os cachorros, não teve grandes dificuldades para entrar na casa da piscina, ou de acessar a passagem secreta. Chegou por meio do duto de ventilação, que ficava na parede atrás de Marduk. Ikki conseguiu ouviu as últimas palavras trocadas pelos dois. Isso fez seu sangue ferver e precisou respirar fundo para não agir por mero impulso. Desrosqueou alguns parafusos e já estava pronto para entrar. Marduk começava a se inclinar por sobre o corpo de Shaka, quando Ikki, vindo por trás, colocou sua faca no pescoço dele: — Não se mova nem mais um centímetro, Marduk, guarde seu instrumento e se afaste dele. — falou Ikki, com a voz carregada de um tom ameaçador, enquanto seus olhos flamejavam de raiva — Acabou pra você.
Marduk imediatamente, mas com uma calma desconcertante ergueu os braços, deixando a faca que pressionava contra Shaka cair. Lentamente, fechou a calça e o cinto, quase não movendo o corpo. Ele agora estava confuso, e tentava achar uma explicação para estar ouvindo a voz de Ikki, pois ainda não o via, e estar sentindo aquela faca em seu pescoço.
— Ora, ora, que surpresa — ele disse. — O que o meu mais honorável discípulo faz aqui? Não se conformou com a derrota, Ikki? O que acha que está fazendo? Quando A sociedade descobrir que está misturando questões pessoais nos negócios... — riu.
Shaka, por sua vez, moveu o corpo, tentando se afastar de Marduk o máximo possível, confuso ainda com o que estava acontecendo. Moveu a cabeça, e seus olhos nublados não conseguiram reconhecer Ikki, mas ele reconhecia a voz dele, e isso lhe causou um estranho alívio, que o fez respirar fundo e lutar para se mover. — Me ajude... Por favor... — ele pediu num sussurro cansado e frágil, quase desfalecido.
Marduk ergueu as mãos, esperando algum momento oportuno para agir, em meio a sua confusão. Sabia que Ikki não o prezava, mas até então pensava que fosse apenas ele a odiar naquela relação. O que estaria acontecendo?
Ikki sabia que não poderia retirar os olhos de Marduk nem por um segundo, grandes vantagens eram perdidas por menos que isso. Entretanto, não pôde evitar e olhou para o loiro ao ouvir a sua voz tão débil quanto suplicante. O moreno afrouxou a guarda por um instante ao fazer isso e foi bastante para que Marduk, percebendo essa falha, desse uma cotovelada no peito de Ikki, que precisou dar alguns passos para trás, a fim de se recuperar do golpe. Marduk então pegou a faca que havia jogado no chão e os dois começaram a se estudar. Como Shaka, ainda atordoado, estava no meio deles, Ikki precisou partir para uma ofensiva um tanto perigosa; colocou-se à frente do loiro de uma vez, o que o obrigava a baixar a guarda e permitiu que Marduk lhe acertasse na cabeça, abrindo um corte em sua testa. O sangue que passou a escorrer dali atrapalhava a sua visão e a desvantagem do moreno, tanto física quanto psicológica, ia se acentuando. Shaka estava muito debilitado, visivelmente ferido e Ikki não estava conseguindo se manter muito concentrado diante desse quadro. Porém, não precisou pensar muito. Marduk notou sua desconcentração e resolveu atacar, partiu para cima do moreno com a faca em sua mão direita e Ikki, por reflexo, conseguiu desviar-se desse ataque impensado. Dessa forma, quem se colocou em posição vulnerável foi Marduk e Ikki não perdeu a oportunidade: puxou o seu antigo "mestre" pelo braço e, empurrando-o contra a parede de aço, encontrou apoio necessário para lhe cortar a mão direita. Marduk gritou ensandecido e começou a esmurrar e socar tudo o que estivesse ao seu alcance. Ikki não esperou para ver o desenrolar disso; livrou Shaka das cordas e o pegou nos braços, voltando com ele para dentro do duto, que era grande o suficiente para que os dois passassem. Marduk parecia desesperado demais para ir atrás deles e Ikki aproveitou para ganhar algum espaço assim. Conseguiu, não sem esforço, levar Shaka pela passagem secreta até a casa da piscina, de onde saíram. A essa altura, Marduk já tinha dado o alerta e os homens começavam a se espalhar atrás de Ikki. O moreno, contudo, sabia que haveria lugares para onde os soldados de Marduk iriam se concentrar e tomou o caminho oposto. Quando chegaram ao quadrante três, Ikki pegou a farda de um outro soldado que deixara ali para esse momento; pediu a Shaka que vestisse aquelas roupas por cima das suas mesmo. O advogado estava em um estado deplorável, mas a adrenalina do momento deve tê-lo ajudado a permanecer razoavelmente sóbrio. Enquanto Shaka colocava aquelas vestes, Ikki rasgava um pedaço de sua camisa para enfaixar a testa; aquele sangue que não parava de escorrer já o estava enfurecendo. Então, quando se viram prontos, passaram escondidos pelo terceiro quadrante e o antigo dono da mansão sabia bem que os homens de Marduk não imaginavam que estivesse tão longe. Assim, conseguiu levar Shaka até o segundo quadrante, passando pela mesma barra solta. Por fim, chegaram ao muro de concreto que os separava da liberdade. Ikki precisou ainda esperar cinco minutos, pois tinha anotado todos os horários em que as rondas passavam por lá e tinha notado algumas brechas ao longo do dia, permitindo a ele o tempo de um minutos e doze segundos para escalar o paredão de pedra sem ser visto.
— Segure-se em mim, Shaka — disse, olhando sempre para os lados, a fim de verificar se havia alguém por ali. — Eu preciso escalar esse paredão e preciso que seja forte, só mais um pouco, está bem? — falou, no tom mais gentil que lhe foi possível naquele momento. — Eu juro. Vai acabar logo. Confia em mim, certo?
Shaka não conseguia entender tudo que ele dizia. Sentia-se fraco, sonolento, nauseado e era como se houvesse um relógio cuco na sua cabeça.
— Não me deixe aqui, por favor — suplicou, tentando fazer o que o outro dizia, agarrando-se às costas dele como faria uma criança.
— Não vou deixar. Nunca mais, eu prometo — Ikki disse, consternado.
O loiro agarrou-se ao moreno, enquanto ele tentava escalar aquele muro enorme. Pensava que Ikki não conseguiria, não tendo que levá-lo junto, e o simples pensamento de voltar para aquele lugar o enlouquecia. Por isso, Shaka achou que deveria se mover, tentar escalar sozinho, mas simplesmente não tinha forças nos braços e pernas. Seus membros pareciam inertes, pesados, ele estava excessivamente esgotado. Agarrou-se ao moreno o máximo que podia e deixou que ele subisse o paredão de pedra com o apoio de uma corda. Esperava que ele conseguisse.
Não foi fácil carregar Shaka consigo, mas também não era uma tarefa impossível. Em seus tempos de treinamento já carregara mais peso; estava apenas um pouco enferrujado. Assim, quando conseguiu chegar do outro lado, ligou para Khan. Se Ikki deixasse um carro ali parado, seria muito suspeito, então Khan havia ficado de sobreaviso e, tão logo o moreno o chamou, em poucos instantes o jipe parava ali, próximo deles. A essa altura, Shaka estava praticamente desacordado. Com muito cuidado, instalou o loiro dentro do veículo. Khan ajudou o moreno, sem esconder uma expressão de assombro: — Senhor... Marduk... extrapolou com ele...
— Sim. Aquele desgraçado... — Ikki não finalizou a frase, que falou por entre os dentes. Preferiu arrancar com o carro dali, o quanto antes. E guiou não para a cabana onde antes estava se instalando para sua próxima missão. Não, Ikki não era tolo. Sabia perfeitamente que seria ali o primeiro lugar onde A Sociedade o procuraria. Por isso, já tinha arranjado um local para onde levaria o advogado, desconhecido de todos. Demoraram quase uma hora até chegar ao local e isso porque Ikki acelerou bem durante todo o percurso. Quando enfim parou o carro, retirou o loiro dali, ainda adormecido, com todo o cuidado. Khan se adiantou, já entrando na pequena casa embrenhada naquela mata, chamando Faustine e dando a ela algumas ordens, para que pudessem receber Shaka de forma adequada.
Na sede d’A sociedade, Máscara da morte terminava de relatar a Mu o acontecido na mansão, depois de ser tratado por um médico. Dizia inclusive que Marduk quase tivera a mão decepada por Ikki, e o italiano ria ao dizer aquilo. Estava com tanto ódio de Marduk, que o mataria sem titubear se o visse, mas ele havia sumido quando a equipe d’A Sociedade chegara. Quando cada um deles chegou ao grupo, foram treinados arduamente, e Marduk era um dos líderes de campo. A maioria deles foi treinada de maneira desumana por ele. Até mesmo entre os espectros, a parte mais sombria d’A sociedade, ele era temido ou desprezado.
Enquanto Mu conversava com Angelo, os outros cavaleiros prestavam atenção a tudo. Sabiam que aquilo teria consequências dentro da hierarquia do grupo. Estavam apreensivos, mas não arrependidos. Se A sociedade queria Phalke como um cavaleiro, não poderia ter feito o que fez. Entregá-lo a Marduk foi uma estratégia mais que desesperada, e agora tudo parecia ruir.
— Vou tentar me manter informado sobre os passos de Marduk e seus homens, Angelo. Ikki deve entrar em contato em breve, O Círculo também. Acredito que Marduk vá pra geladeira de novo ou coisa pior — ele disse com um meio sorriso, e o grupo comemorou isso, cada um a seu modo.
— Não o quero na geladeira, o quero morto! — Angelo grunhiu.
— Nesse momento não podemos pensar nisso. Melhore. — Mu desligou o celular e respirou fundo. Esperaria até o dia seguinte para falar com Ikki, com certeza ele estava muito ocupado agora.
...
Longe dali, Shaka oscilava entre momentos de sono e consciência. Sempre que acordava sentia todo o corpo doer, mas ao contrário dos três dias que passara em companhia de Marduk, ele se sentia seguro agora, aliviado.
— Estou com sede... — murmurou, seus olhos estavam inchados, um deles muito roxo ainda, sem contar os pequenos cortes que tinha na boca e no nariz que incomodavam. Ele não queria ficar deitado, mas se sentia completamente sem forças. — Ikki? É você? — indagou ao vulto que andava no quarto meio escurecido, ele não sabia se por ser noite ou se eram seus olhos que não conseguiam enxergar direito. — Onde estou?
Ikki estava relendo algumas anotações, notas soltas que fizera sobre Marduk desde sua época de treinamento. Estava um tanto apreensivo; não se arrependida nem um pouco do que fizera, mas tentava prever os próximos passos de Marduk e d'A Sociedade. Caminhava de um lado para o outro no quarto destinado a Shaka naquele pequeno chalé. Não tinha saído dali nem por um segundo, porque queria estar presente quando o advogado despertasse. Não que Ikki fosse a melhor pessoa para oferecer palavras macias ou suaves, como o loiro certamente precisaria agora, mas independente disso, o moreno queria estar lá, sentia a necessidade de se manter presente, como se sua simples presença já pudesse proteger o loiro de uma forma mais eficaz. Por isso, assim que ouviu a voz de Shaka, abandonou suas anotações sobre uma mesinha que ficava próxima à janela e correu até a cama. Ajoelhou-se para ficar mais à altura do outro — Sim, sou eu. Está seguro, Shaka — sua voz saiu em um tom raríssimo de se ver nele. Gentil, quase doce. E então pegou o copo que Faustine deixara sobre a mesinha de cabeceira e encheu com água fresca — Aqui. Beba um pouco de água. — Levou seu braço por trás do loiro, para ajudá-lo a se erguer um pouco, a fim de conseguir beber a água. Enquanto Shaka saciava sua sede, Ikki se permitia observar ainda mais detidamente o estado dele. Não pôde ocultar um suspiro. Tinha cometido um erro grave ao partir da mansão e deixar Shaka vulnerável daquele jeito. Era claro que Ikki não esperava que Marduk fosse acionado... Porém, o moreno sabia que Shaka não era fácil, que daria trabalho. Ele deveria ter imaginado que algo assim acabaria acontecendo. Tinha sido culpa sua. — Eu sinto muito. — Acabou falando, em voz baixa.
Shaka terminou de beber a água e soltou um gemido leve de dor. Tentou focar o rosto do moreno e deixou escapar um meio sorriso nos lábios machucados. — Você me salvou — talvez em um momento de mais lucidez e menos fragilidade, ele fosse ver o quão estranha era aquela frase, tendo em vista que Ikki era um dos seus sequestradores, mas agora não conseguia pensar e nem sentir nada que não fosse a gratidão por ele lhe ter livrado das mãos asquerosas daquele homem. — Obrigado... — Shaka disse e cobriu os olhos machucados com uma mão, como se assim pudesse ocultar que estava chorando, numa mistura de desespero e alívio, coisa que o leve tremer do seu corpo e o ofegar da sua respiração em soluços fracos deixavam vergonhosamente evidente. Todavia, naquele momento, chorar era tudo que conseguia. Poucas vezes na sua vida sentiu medo ou desespero, e em nenhuma delas sentiu medo e desespero como sentiu naquele dia.
Quando percebeu que Shaka estava chorando, Ikki não parou para pensar: tratou de logo aninhar o loiro nos braços, envolvendo-o assim em um abraço protetor e cálido. Sentiu o coração apertar de uma forma como não estava acostumado a ver acontecer consigo. Naquele momento, Ikki quis dizer muitas coisas e, ao mesmo tempo, queria permanecer apenas daquele modo, calado, protegendo o advogado, que parecia absurdamente frágil agora. O curioso é que o trabalho de Ikki era esse, deixar seus "hóspedes" vulneráveis, frágeis e, de certa forma, dependentes dele. Entretanto, nunca deixara ninguém naquele estado. Não gostava dos métodos de Marduk, por isso se esforçara para mudar a forma de agir d'A Sociedade. E agora, justamente Shaka passava por isso. Um lado de Ikki queria perguntar exatamente o que tinha acontecido. Outro, no entanto, percebia como o loiro estava abatido e preferiu deixar para entrar nesse assunto em momento mais apropriado. Por ora, deixaria que ele chorasse quantas lágrimas fossem necessárias. E, com seus braços fortes, tentava demonstrar que estava ali por ele.
Título: O amigo certo nas horas incertas.
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