Nelumbo nucifera

22 Naturae sequitur semina quisquis suae


Notas iniciais
Olá, leitores lindos, tudo bem? Eu tardo mais não falho hehehehe! Obrigada a todos que leram e comentaram no último capítulo: YurikoLaKa, Mya Zurck, Nikaaa, Demi Sculley, kiaramcg. O incentivo de vocês é o meu combustível! ♥ A todos boa leitura! Sion Neblina

Naturae sequitur semina quisquis suae

Chapter XXII

Shaka ficou preso naquele choro contido por um tempo. Não tinha equilíbrio naquele momento nem mesmo para envergonhar-se, coisa que sempre acontecia quando demonstrava o mínimo de fragilidade. Deixou-se acolher pelos braços do moreno e depois de um tempo de pranto, que lhe levou um alívio estranho e nunca antes sentido, ele tentou enxugar o rosto com as costas das mãos, afastando-se levemente de Ikki e aprumando-se, numa postura menos fragilizada, embora sentisse muita dor, procurando sentar de uma maneira mais digna.

— Eu vou ficar bem — disse, fugando e pigarreando, erguendo o queixo para mostrar-se forte, mas seu teatro parecia incrivelmente evidente. Afastou os cabelos do rosto, pigarreando novamente. — Preciso de um banho. Não tomo banho há... dois dias — riu de leve, e tudo isso era uma máscara para esconder o quanto se sentia no fundo do poço, na lama do fundo do lago, como um broto de lótus.

— Dois dias... — Ikki repetiu, com a voz nuviosa. 48 horas que Shaka ficou sob o poder daquele lunático! Ainda não conseguia digerir isso. Na verdade, nem sabia se algum dia seria capaz disso. — Você quer tomar um banho, claro. — sacudiu a cabeça para espantar esses pensamentos e voltou a falar, tentando não se mostrar abalado. — Vou pedir a Khan que prepare um banho para você. Não se preocupe com mais nada agora, está bem? Estamos em segurança. Esse chalé é meu, mas ninguém sabe da existência dele. E estamos apenas nós quatro aqui: eu, você, Faustine e Khan. Sei que não gosta muito deles, mas não são apenas meus "serviçais", como aparentava ser naquela mansão. Eles são mais como uma espécie de... família para mim. — bufou; não gostava de se recordar de certas coisas. — Enfim. Muito do que você viu naquela mansão não passava de teatro, então permita-se conhecê-los agora sem preconceitos. Verá que eles merecerão sua confiança. — dito isso, começou a se levantar da cama — Vou pedir para Faustine lhe preparar algo para comer. Imagino que não tenha se alimentado bem...

— Espera... — Shaka apertou o braço de Ikki, quase como num reflexo — Eu posso ir com você? Eu... — Ao perceber suas ações, o advogado pigarreou, envergonhado, e soltou lentamente o braço do moreno. — Você pode acender a luz? — pediu. Sentia-se tão confuso. Tao perdido. Khan... Quase sentiu saudades dele durante aqueles dias, quantos dias? Uns 10 entre a geladeira da tortura psicológica e a sala abafada de torturas físicas, mas parecia anos. Dentro de si, Shaka sabia que nunca mais seria o mesmo. Um homem que passa pelo que ele passou acaba deixando morrer alguma coisa. Alguma coisa sua devia ter morrido naquela sala, ele ainda não sabia o que era, mas quase podia sentir algo seu indo embora, escapando. Talvez alguma crença ingênua. Talvez um pedaço tão grande que ainda não conseguisse mensurar. Justo ele, ele que sempre defendeu a lei, os direitos humanos, a vida... Por quê? Apertou as mãos uma nas outras, tentando não pensar em nada daquilo, temia enlouquecer.

Ikki ficou alguns segundos sem reação, em um primeiro momento. Seus olhos escuros ficaram fixos em Shaka, como se o analisassem mais a fundo. Finalmente, reagiu. Sem dizer uma palavra, pegou Shaka nos braços, com todo o cuidado possível, e foi caminhando com ele pelo corredor. O chalé era pequeno, mas muito confortável. Tinha um clima acolhedor. Com o loiro nos braços, Ikki chegou à sala, onde Khan lia um livro e Faustine se ocupava de acariciar o pelo de um sonolento Falcon, que estava deitado próximo à lareira.

— Khan, eu vou ajudar Shaka com o banho. Você pode pegar roupas confortáveis para ele?

Khan levantou-se no mesmo instante, enquanto Faustine, com um sorriso no rosto faceiro, já se dirigiu para a cozinha — E esse rapazinho deve estar com fome! Vou fazer uma sopa bem encorpada para ele!

Falcon, por sua vez, ao ver o dono aparecer, esqueceu-se do sono e correu alegre para ele — Agora não, Falcon. — Ikki falou, com a voz terna que sempre usava com seu cachorro — Precisamos cuidar do senhor Phalke primeiro, está bem? — o labrador, como se entendesse muito bem as palavras do dono, ficou menos alvoroçado, mas continuou seguindo Ikki pelo corredor que levaria ao banheiro. Lá chegando, Ikki sentou Shaka sobre uma cadeira e Falcon deitou aos seus pés, com os olhos carinhosos no loiro. Enquanto isso, o moreno abriu as torneiras que encheriam a banheira, experimentando a temperatura da água com todo o cuidado. Uma vez satisfeito, deixou que a água fosse caindo e enchendo a banheira, para então se voltar para o loiro. Somente aí pareceu hesitar — Eu não quero que se sinta desconfortável... Mas acredito que precisará de ajuda para tomar seu banho. Se não quiser que eu fique aqui, eu peço para Khan ou Faustine ajudarem você. — Na verdade, o plano inicial era que um dos dois auxiliassem Shaka no banho. Contudo, quando o loiro chamou por ele, no momento em que deixava o quarto, Ikki foi tomado de um sentimento que ele não compreendeu, mas que lhe dizia que cabia a ele, e somente a ele, cuidar do advogado agora. Porém, toda essa certeza se enfraqueceu no momento em que percebeu que isso significaria desnudar o loiro ali. Obviamente, não havia qualquer malícia de sua parte em um momento como esse, mas sentiu que Shaka poderia se sentir mal, por conta de tudo o que tinha passado enquanto esteve em poder de Marduk... e sob seu poder também.

— Eu não me importo. Acho que... conheço você um pouco melhor... — Shaka disse, sem saber exatamente o que aquilo significava. O certo era que nunca foi homem de afetações e tirar a roupa nunca foi difícil. Não sentia vergonha disso, mas... certa tensão. Era isso. Entretanto, pensava que sentiria a mesma tensão com qualquer pessoa naquele momento. Sentia que sempre que fosse tirar a roupa se lembraria de Marduk, e não queria pensar nele. Não podia dar àquele canalha a vitória de marcá-lo fosse de qualquer forma.

Ergueu-se com cuidado e começou a desabotoar a camisa, que já estava rasgada, suja de suor e sangue. Livrou-se dela com cuidado, sentindo os músculos reclamarem. Havia vários hematomas no seu abdômen devido aos golpes que recebeu ali, e como aquilo doía! Mas ele resistia a gemer. Abriu a calça e começou a descer o tecido, mas parou por um tempo, os olhos perdidos, em lugar nenhum, mergulhando nos acontecimentos passados.

— Acho que prefiro ficar sozinho... — murmurou, os olhos ainda em lugar algum, a mente escura demais para que ele continuasse.

Quando Shaka foi retirando aquelas peças lentamente, Ikki sentiu o ódio despertar-se dentro de si com força. Observou cada hematoma, cada ferida, cada marca deixada ali. Precisou se conter com muito esforço para não sair dali enlouquecido atrás de Marduk. Entretanto, quando ouviu que Shaka preferiu ficar sozinho, algo dentro do moreno pareceu murchar subitamente. Por um momento, uma parte sua quis acreditar que não existia todo aquele terrível histórico entre eles, mas a realidade era bem distinta. Não forçaria Shaka a aceitar sua presença, no entanto. Sem dizer uma palavra, encaminhou-se para fora do banheiro. Antes, porém, de deixar o recinto, fez um afago na cabeça de Falcon e disse: — Cuida bem dele, garotão. E qualquer coisa, venha me chamar, ok? — falou em um tom de voz perfeitamente audível para que o loiro também o ouvisse. Depois saiu, mas deixou a porta meio aberta.

Fora do banheiro, sentiu que o coração estava acelerado. Eram muitos sentimentos contraditórios. Deixou a cabana sem avisar Khan ou Faustine, até porque não planejava ir a lugar algum. Apenas precisava descarregar sua raiva. E foi o que fez, saindo do chalé e indo de encontro a uma árvore, que socou com uma raiva intensa. Manteve-se ali, golpeando a gigantesca árvore, até cansar e enfim voltar para dentro da casa.

Quando ele saiu, Shaka respirou fundo e encolheu os ombros. Ao contrário do que pensava Ikki, o que o motivou a ficar sozinho foi unicamente o orgulho. Preferia desmoronar sozinho. Sempre foi assim. Em toda sua vida, ele preferiu sofrer escondido das pessoas, nunca demonstrar fragilidade. Sempre teve em mente que não apenas deveria ser forte, mas parecer forte. Contudo, Shaka sabia bem o motivo para isso: sua alma extremamente sensível. Sua alma que sentia profundamente todas as dores do mundo. Sempre precisou de uma couraça para proteger esse outro Shaka, esse Shaka que ficava sob a armadura do Shaka que era geralmente, do doutor Phalke.

Tirou a calça e a cueca com cuidado, sentindo muita dor a cada movimento, e entrou na banheira, sentando-se com dificuldade, trincando os dentes para conter a dor intensa. A água morna o fez suspirar, os músculos tensos relaxando um pouco com o tempo. Permitiu-se olhar ao redor, estava vendo com mais clareza agora. O lugar era aconchegante, transmitia paz e calor, e ele gostou dali e ali ele pôde desabar sozinho, chorar e gritar abafado contra o próprio punho, porque estava salvo, seguro e ao mesmo tempo estava destruído. E ele chorou mais, mergulhando na água como se ela pudesse protegê-lo daquele mundo doente, e o rosto de sua mãe apareceu para ele. Ela sorria, o acalmava... Ela estava ali com ele, depois de 21 anos...

Falcon continuou no banheiro com ele, observando-o como se obedecesse ao dono. Shaka sorriu de leve para o cão enquanto passava a esponja com o sabonete delicadamente pelo corpo machucado. Passou quase meia hora na tarefe de limpar o corpo e divagar sobre tudo e nada. Quando se ergueu, a água já estava um tanto fria. Ele pegou a toalha branca que estava pendurada num gancho. Khan devia ter deixado suas roupas no quarto, por isso ele envolveu o quadril com a toalha e saiu, procurando o quarto onde esteve até então. Seu corpo ainda doía muito, mas se sentia melhor com o banho, talvez por um efeito psicológico.

Acabou encontrando Ikki no corredor e o encarou confuso, pois ele parecia agitado, diferente do Ikki de alguns minutos atrás.

— Aconteceu alguma coisa? — Shaka indagou, passando a mão nos cabelos molhados e encarando o moreno.

Ikki havia conseguido colocar um pouco de sua raiva para fora, mas agora seu corpo inteiro transmitia toda a sua agitação. Estava indo atrás de Khan, para perguntar onde ele havia colocado o estojo de primeiros socorros que usaram para fazer o curativo em sua testa. A sessão de descarregar a raiva deixou consequências; suas mãos estavam bastante feridas e sangravam. O moreno, instintivamente, ocultou as mãos, levando-as para trás de si.

— Shaka? Já terminou o banho? — perguntou, para logo perceber que tinha sido uma pergunta ridícula — Não se preocupe, não aconteceu nada. Você precisa se alimentar! — falou de supetão — Quer comer no quarto ou prefere ir à cozinha? — perguntava com alguma pressa. Assim que o loiro lhe respondesse, sinalizaria a direção para ele seguir e então iria atrás da caixa de primeiros socorros. Acabava de se lembrar: estava em um armário dentro do banheiro.

Shaka franziu a testa e mordeu os lábios. Agora estava mais confuso ainda. Aproximou-se do moreno e sem pensar muito puxou os braços dele, pois havia notado que ele ocultara as mãos. Puxou-lhe os braços e segurou-lhe as mãos, observando os nós dos dedos esfolados. Encarou o moreno, interrogador. — Você está machucado... — murmurou, observando o curativo na testa dele, tocando-o no rosto, mas recuando em seguida, dando um passo para trás, sem jeito. – Precisa de um curativo nas mãos — completou. — Eu vou me trocar. Como na cozinha — falou, indo em direção ao quarto, tentando controlar a agitação que o tomou naquele momento.

Ikki ficou com as mãos paradas no ar, exatamente como Shaka as deixara antes de se retirar. Ficou com o olhar perdido na direção de onde o loiro saiu e sentia ainda o calor daquele toque em seu rosto. Quando a imagem de Shaka sumiu de seu campo de visão, o moreno pareceu despertar. Olhou para as próprias mãos e um sorriso que ele não sabia bem de onde vinha surgiu em sua face, agora mais relaxada — É, eu preciso de um curativo. — falou para si mesmo, sentindo-se, estranhamente, um pouco mais leve. No banheiro, não se demorou fazendo seu curativo. Falcon apareceu de novo, chamando sua atenção. Em resposta, Ikki fez-lhe uma carícia vigorosa, antes de deixar o banheiro e ir até o quarto. A porta estava encostada, então o moreno bateu de leve: — Está pronto? Faustine já deve ter feito um prato para você. Mas se estiver cansado, eu trago aqui e você pode comer na cama...

Shaka já estava vestido na calça azul de tecido fino e na camiseta branca. O perfume dos tecidos fez com que se sentisse bem. Ele ainda estava enxugando os cabelos quando abriu a porta com um meio sorriso. — Alguém vai comer comigo? — perguntou. — Não quero ficar sozinho. Fiquei sozinho todos esses dias, menos quando... — engoliu em seco, não conseguindo manter o sorriso. — Eu não quero ficar sozinho agora — declarou, desconfortável, colocando uma mecha dos cabelos atrás da orelha, uma mania quando ficava nervoso.

Ao ver a imagem de um Shaka mais parecido com o que se lembrava, Ikki abriu um sorriso maior. Todavia, ele sabia muito bem que o loiro não era mais o mesmo. Isso era notável no modo como as barreiras do advogado pareciam realmente ter sido vencidas. E Ikki odiava imaginar como Marduk teria conseguido isso... — Eu vou comer com você. Estou faminto. — era mentira, mas o moreno achou que deveria facilitar um pouco as coisas para Shaka. Além disso, Ikki precisava agora obter algumas informações. Não forçaria a barra, mas estavam correndo contra o tempo, e o loiro parecia razoavelmente melhor, podendo suportar uma ou outra pergunta. E Ikki prometia a si mesmo que, se sentisse que estava indo mais que o devido, recuaria.

Shaka assentiu com a cabeça e seguiu o moreno para a cozinha. Um cheiro maravilhoso invadiu suas narinas e pela primeira vez ele percebeu que estava com fome, o que tornava a comida e seu aroma ainda mais apetitosos. A cozinha era simples, bem diferente da mansão em que ficara nos últimos meses, mas era bem decorada e organizada, um lugar agradável. Viu a mulher mexendo nas panelas e sorriu para ela, um sorriso verdadeiro de alguém que encontra um conhecido.

— Olá, Faustine — Shaka disse, aproximando-se. A mulher o encarou com um olhar tão consternado que o deixou sem jeito. — Estou bem — ele apressou-se a responder qualquer que fosse a pergunta dela antes que ela a fizesse — e faminto — sorriu.

Faustine não foi indiscreta, percebeu que não era esse um momento muito apropriado para qualquer pergunta. Sorriu de forma maternal e encheu uma grande tigela de sopa para o "rapazinho", como ela gostava de chamar Shaka. Em seguida, com um olhar gentil, fez um gesto para que Ikki se alimentasse também — afinal, nos últimos dias, ele praticamente se recusava a comer, obstinado como estava com a ideia de tirar Shaka da mansão. Depois, chamou Falcon para fora da cozinha, deixando apenas os dois ali.

Ikki sentou-se à mesa, diante de Shaka, sem se preocupar em fazer um prato para si. Estava agora tão concentrado no que tinha de fazer que não se preocupou em fingir que estava realmente com fome: — Shaka... Me desculpe entrar nesse assunto agora... Eu preciso que acredite em mim quando digo que não tenho muita escolha. Se pudesse, eu iria poupá-lo agora, mas... não posso. Não ainda. — essa última frase, falou sem olhar para ele — Eu preciso saber... o que aconteceu. Quando eu saí, você ficou aos cuidados de dois membros d'A Sociedade. Angelo e Afrodite, não foi isso?...

—Temos mesmo que fazer isso agora? — o loiro indagou, baixando o olhar e respirando fundo.

— É importante para eu saber o que faremos daqui para frente. Acredite, eu tenho que fazer isso.

Shaka encarou o moreno e assentiu com a cabeça. Começara a comer com apetite, mas devagar, pois seu maxilar doía. A sopa estava deliciosa, o que ajudava e muito que esquecesse o incômodo que sentia, mas aquela pergunta o deixara um tanto tenso. Não sabia onde Ikki queria chegar ou o que queria saber exatamente, mas falaria a verdade, não tinha mais nada a perder ali, achava.

— Sim, eu acho que esses eram os nomes deles... Afrodite, eu me lembro bem, mas do outro babaca... Ele dizia que o seu nome era Máscara da morte — Shaka declarou entre colheradas da sopa. — Acho que queria me assustar.

— Máscara da Morte. Isso mesmo. — Ikki não deixava passar nem um detalhe. Observava cada gesto, cada movimento de Shaka que demonstrava que ele sentia dor. Era como se o moreno quisesse memorizar tudo isso, remoer o ódio que sentia diante desse quadro, para depois se vingar apropriadamente. — Esses dois não chegaram a machucar você, certo? Quero dizer... fisicamente. — sentia-se um grande idiota por fazer essas perguntas, mas precisava seguir com elas.

Shaka negou com a cabeça — Eles só me deixaram trancado e sem dormir por cinco dias — sorriu sarcástico. — Foi horrível, mas não saí com nenhum hematoma. O tal Máscara da Morte me socou, mas... eu provoquei, não foi nada demais. Só queria me intimidar — Shaka respondeu, agora brincando com a colher no prato.

— O Máscara te socou? — Ikki quase se levantou da cadeira, indignado, saber daquilo agora pelo próprio Shaka o deixava ainda mais revoltado, mas conteve-se porque, em primeiro lugar, aquele não era o momento para isso. E, em segundo lugar... porque isso seria uma grande hipocrisia da sua parte. Certo; Angelo tinha perdido a paciência com Shaka. Isso era de se esperar. E quem era ele para criticá-lo por ter se excedido? Também ele não se excedera, a princípio? Era certo que nunca antes havia incorrido em violência física contra qualquer um de seus hóspedes; Shaka tinha sido o primeiro a sofrer esse infortúnio. Era verdade também que isso acontecera porque Ikki ainda estava abalado por conta de Hank. E era correto, principalmente, perceber que a indignação que sentia não tinha espaço nesse jogo que já estava arquitetado há tanto tempo e no qual ambos eram peças fundamentais. No final das contas, ele não tinha o direito de se sentir muito superior a Angelo. Estavam atrás de um mesmo objetivo, não era assim? Bem, na realidade... Ikki já não tinha mais tanta certeza.

— Não foi nada demais... — Shaka observou a reação do moreno com a colher suspensa, meio sem entendê-la. Sem seguida voltou a comer, querendo ignorá-la. — Aquele lugar... ficou estranho sem você... Parecia que... —Voltou a comer — Bem, tudo ficou diferente lá... — desconversou, tentando concentrar-se em se alimentar e ficar mais forte. — Como estão seus punhos? — indagou, olhando os curativos nas mãos do moreno e tentando mudar de assunto.

Ikki suspirou, percebendo o incomodo do outro. — Está bem, então ele... bateu em você — insistiu, precisava. — Deve ser por isso que A Sociedade se desesperou, a ponto de trazer aquele maldito — então sorriu de leve, sem nem perceber, ao se dar conta de algo que Shaka disse. — Você disse que a mansão ficou estranha sem mim? Estranha como?... — e sentiu o coração bater mais rápido, embora nem soubesse o que desejava ouvir em resposta.

Shaka o encarou, mas seus olhos machucados não diziam muito. Ele sorriu com o canto dos lábios: — Vazia — respondeu. — Mais sombria. Tudo ficou quieto e silencioso demais, ainda mais. Senti sua falta... — essa última declaração foi quase um balbuciar, e então Shaka retomou a tarefa de tomar a sopa, sem mais encarar o moreno.

Ikki manteve o sorriso por alguns segundos mais, porém ele logo se desfez. Saber que Shaka tinha sentido sua falta aqueceu seu coração, porém isso não deveria fazer diferença. Não era o que sempre acontecia? Estabelecia um canal de confiança e certa dependência que seus "hóspedes" passavam a nutrir por ele. Era um jogo. Por que se sentia diferente agora? E, além disso... Shaka apenas sentira sua falta porque, em contraste com Marduk, era óbvio que o loiro preferiria o menos pior. Ou seja, isso não significava tanto e Ikki se sentia um tolo por ter, mesmo que sem querer, se emocionado com isso. Pelo menos, isso o ajudou a recuperar o foco — Shaka, eu preciso perguntar... O que Marduk fez com você naquela casa?

A mão do advogado tremeu e ele apertou a colher com mais força. — Isso é importante por quê? — Shaka sentia o estômago se contrair como se quisesse expulsar o alimento recém-ingerido. — Ele me machucou... Me socou, me deu choques! Ele... Eu vou matar aquele porco! — Shaka explodiu e depois respirou fundo. — Até hoje eu não sei o que ele queria de mim. Eu disse que faria o que ele queria, mas ele continuou me torturando. Ele... Ele gostava do que fazia... — Shaka concluiu, encarando Ikki, a mente ficando mais lúcida. — Não existia um propósito naquilo.

Ikki cerrou os punhos com tanta força que quase abriu novas feridas na mão. Porém, precisou respirar fundo. Havia muito em jogo. E tudo pelo que Shaka havia passado não podia ser em vão agora. — Na verdade, existia sim. Mas... o Marduk tem uma forma doentia de alcançar suas... metas. — era odioso, mas parecia até mesmo que Ikki estava defendendo o maldito Marduk — Ele precisava... subjugar você. Não adiantaria que apenas dissesse que colaboraria, Marduk sabe farejar quando suas vítimas estão realmente dispostas a colaborar ou não. E, quando não acredita..., ele usa de métodos cruéis para quebrar a pessoa. E eu preciso saber... quero dizer, eu sei, eu sei que ele te machucou muito, demais, absurdamente! — falou, deixando sua raiva transparecer — Mas, ainda assim... eu preciso saber... até onde... ele foi com você... — Ikki precisava mesmo saber, para ter noção do estrago feito à missão. Mas estava se odiando por falar assim com Shaka, como se ele não tivesse emoções.

Shaka mordeu os lábios para que eles parassem de tremer.

— Ele... Ele... tocou meu corpo... — Shaka disse com uma expressão de asco. — Ele iria... Ele ameaçou... — Shaka engoliu em seco — Mas não fez. — Ele fechou os olhos, respirando fundo novamente — Não deu tempo... — e ele voltou a encarar Ikki, uma gratidão genuína e profundamente emocional, totalmente longe do crivo da razão, brilhando em seus olhos marejados por lágrimas de humilhação e alívio. — Você me salvou... Você não permitiu que ele fizesse... Você apareceu — sorriu e esticou a mão sobre a mesa, tocando os dedos do moreno. Shaka não pensava, apenas agia como mandavam suas emoções. — Obrigado...

Ikki sentiu o toque de Shaka sobre suas mãos e seu coração pareceu falhar uma batida. O moreno levantou os olhos e notou a forma como o loiro o fitava. Nunca tinha visto Shaka sorrir dessa maneira. Era um sorriso genuíno, luminoso e puro. Não era uma máscara, não era um jogo, era Shaka se abrindo, desnudando sua alma. Ikki ficou tão perdido com os sentimentos despertados por tudo isso, que teve de se lembrar de respirar. Respirou profundamente e então, devagar, retirou sua mão de baixo dos dedos do advogado. Ikki sentiu-se péssimo, como nunca antes. Shaka estava ali, sendo sincero e profundamente honesto com seus gestos e palavras, enquanto ele estava ainda tentando salvar a maldita missão! Odiou-se muito nesse momento, mas não conseguia ver de que outro modo agir agora. Tinham chegado até ali, não poderia ser em vão. Tudo pelo que Shaka passara não poderia ser em vão. Tentava se convencer disso, mas se encontrava bastante dividido. De todo modo, precisava das respostas, até porque tinha de oferecer algumas a Mu. Não sabia quanto tempo teria. Pigarreou e, como se nada tivesse se passado, recomeçou a falar: — É, que bom que nada muito grave aconteceu. Você é uma peça muito importante em tudo o que tem acontecido. Se Marduk extrapolasse, não sei se conseguiríamos ainda obter sucesso em toda essa empreitada. — com as mãos livres, ficou brincando com um copo que estava sobre a mesa, enquanto fazia esse discurso com palavras vazias, em que nem ele conseguia acreditar direito. Por isso não olhava para Shaka enquanto falava, não se sentia digno de encará-lo enquanto dizia essas coisas.

A decepção que sentiu com o afastamento do moreno não foi tão grande como a que sentiu com suas palavras. Durante um tempo, Shaka ficou imóvel, encarando o homem que já não o encarava. Seus olhos tentavam buscar algo nele, algo que desmentisse o que ele dizia, algo que colocasse aquele calor humano que sentiu quando ele o tomou nos braços novamente entre os dois, mas parecia não haver nada. Shaka sentiu-se estúpido, foi como se recebesse um golpe no coração. Tal fez Ikki, ele respirou fundo, mesmo que aquilo fizesse suas costelas doerem. Seus olhos estavam úmidos, mas ele não permitiu que passassem disso. Como pôde ser tão tolo? Como pôde acreditar que por alguma razão seria para Ikki mais do que sempre foi: um joguete. Uma peça.

— Claro — tentou manter a voz firme, embora o pouco de segurança que construíra houvesse ruído completamente naquele momento. Não sabia mais o que fazer e nem em quem confiar. Melhor, agora sabia que não podia confiar em ninguém como sempre. — Estou cansado, vou pro quarto... — disse, erguendo-se e saindo dali o mais rápido que podia, o que não era muita coisa, pois mancava devido aos machucados.

Ikki não disse nada quando ouviu Shaka falar que iria para o seu quarto. Manteve os olhos fixos no copo que, na verdade, sequer enxergava. Ficou ainda um tempo ali, olhando para o nada, com a mente completamente vazia. Não queria pensar, evitava, porque no fundo sabia o que aconteceria se deixasse os pensamentos soltos. Iria se recriminar, iria mandar tudo se explodir e agir de acordo com seus impulsos. Queria fazer Shaka se sentir bem, e não o contrário. Queria cuidar dele. Queria que tudo fosse diferente! Subitamente, viu-se pensando em como seria sua vida se, por acaso do destino, não tivesse entrado para A Sociedade. Pensou se as coisas teriam sido muito distintas se houvesse conhecido Shaka em qualquer outra situação, que não fosse aquela... Suspirou triste. De que adiantava ficar nesses devaneios? A realidade era essa, não tinha como mudá-la. Era preciso seguir. Apenas continuar o que já tinha sido iniciado.

Título: Cada qual conforme o seu natural.

Notas finais
Puxa, Ikki! Puxa! Sniff! Hahahaha Beijos, pessoas, até o próximo! Sion Postado 15/06/17