Nelumbo nucifera

23 De nihilo nihil


Notas iniciais
Boa noite, meus queridos! Obrigada a todos que estão acompanhado, em especial aos que deixaram reviews no último capítulo: YurikoLaKa, Mya Zurck, Demi Sculley, kiaramcg. Uma ótima leitura! Sion Neblina

De nihilo nihil

Chapter XXIII

Ikki permaneceu sentado à mesa por longos minutos. Tentava limpar a mente de qualquer dúvida, qualquer questionamento moral ou emocional que ameaçasse um projeto tão detalhadamente arquitetado durante tanto tempo. Contudo, mesmo com esses pensamentos, ele levantou-se da cadeira onde estava. Não tinha como mudar, não podia. Devia seguir com o planejado. Mas começou a andar pelo corredor que o levaria ao quarto onde estava Shaka. Não poderia fazer nada, mudar agora era impossível. Ainda assim, seus passos eram resolutos. Seguia firme na direção do quarto. Alcançou a porta, que estava apenas encostada. Não havia nada que pudesse fazer. A situação era essa; era preciso aceitá-la. Mesmo assim...

Mesmo assim, bateu de leve na porta e, abrindo-a devagar, falou com um tom mais gentil, deixando transparecer uma honestidade que não deveria existir agora.

Não deveria.

Não poderia.

Mas...

— Shaka? Está confortável? — indagou, demonstrando verdadeira preocupação com essas palavras.

Shaka estava deitado de costa na cama, a melhor posição no seu atual estado físico. Tudo doía ainda, mas a dor era até boa, fazia com que se concentrasse nela e esquecesse todo o resto. Era isso que deveria fazer, concentrar-se na dor que sentia e esquecer todo o resto. Precisava perdoar-se. Sabia que aquele não era o melhor momento para querer de si racionalidade. Estava fragilizado e assustado. Era natural que confundisse as coisas. Lógico! Era apenas isso. Confundia as coisas.

Quando Ikki apareceu no quarto, ele não conseguiu evitar o leve estremecimento que sentiu. Levou as mãos aos olhos, coçando-os e tentou responder com firmeza: — Sim. — Era mentira, sentia muita dor, mas não queria tomar nenhum analgésico. A dor lembrava-o do que aconteceu, de quem era, e do porquê de estar ali. Não suportaria sem ela. A dor lembrava-o de quem era. E de quem Ikki era. A dor lembrava-o de toda sua situação.

Não deveria. Não deveria. Era o que a voz da razão lhe gritava. Mas Ikki não parecia muito interessado em querer ouvir isso agora — Você já é muito forte naturalmente, Shaka. — Ele entrou no quarto e, sem pedir permissão, foi sentar-se na beirada da cama onde estava o loiro. — Não precisa se fazer de forte quando não for necessário. Depois de tudo pelo que passou, você com certeza deve estar muito dolorido. E... — Nesse momento, sabia muito bem que deveria se calar, esse era o limite. Se o ultrapassasse, não teria mais volta. Mesmo assim, Ikki não quis retroceder — Eu queria... — Precisou juntar forças para conseguir falar — Shaka, eu queria pedir desculpas. Por ter partido daquele jeito. Por ter deixado você à mercê de todas aquelas pessoas. Não era para você ter passado por tudo isso. Eu... Eu sinto muito. Foi minha culpa. Se... Se eu não tivesse deixado você... Se eu tivesse ficado... Eu... — Faltavam-lhe as palavras — Enfim. Eu realmente sinto muito por tudo. — Ikki falou tudo isso de uma vez, quase atropeladamente. Ficou olhando para as próprias mãos, que se apertavam uma à outra, por não saberem o que fazer.

Shaka não soube o que responder. Ficou um bom tempo calado, um silêncio tenso entre eles. — Não importa mais. Eu estou vivo, não estou? — Seus lábios tremeram e ele os mordeu para evitar isso. — Eu quero ir embora... Por que não me deixa ir agora? Já está claro que não vai conseguir nada comigo! Eu estou cansado... — Shaka deixava as palavras fluírem sem muito monitoramento. Sua razão dizia que aquilo era exatamente o que Ikki queria, vê-lo exposto, frágil, mas seu emocional não o ouvia muito. Havia uma necessidade intensa de desabar, de cair como ele fazia agora, abrindo-se demais, expondo-se demais, mas não achando forças para parar com isso. — Cheguei a pensar que você... — riu — Até o mais inteligente dos homens pode se tornar um imbecil diante da dor — calou-se, virando a cabeça para o lado oposto do moreno. Não conseguia encará-lo depois daquelas palavras.

— Eu sinto muito por isso também, Shaka. Mas não posso deixar você ir agora. Se eu o libertar agora... Eles irão atrás de você de novo. E vai acabar sendo pior. É bem possível que coloquem você com o desgraçado do Marduk mais uma vez, porque eles não devem estar muito felizes de eu ter quebrado as regras. Então... eu queria que me ajudasse, que... colaborasse. É o único jeito, Shaka... — Ikki falou, tentando não ser agressivo com palavras, embora conseguisse denotar sua preocupação — Eu juro que se tivesse alguma outra forma... Eu tentaria. Mas, nesse momento, essa possibilidade não existe... — olhou para um dos hematomas que estava visível no braços de Shaka. Por instinto, levou os dedos à região arroxeada e, só com um toque leve, Shaka se contraiu um pouco de dor — É, está bem feio.

O loiro não soube se o estremecimento se deu por causa do toque dolorido ou pelas palavras do moreno. Sentou-se na cama com algum esforço, olhando-o, tentando conter o pânico que tomava conta de si. — Não, não! Eu prefiro morrer que voltar para as mãos daquele homem. Você... Você faria isso? Você me entregaria a ele se... Se seu grupo pedisse? — a respiração do loiro estava agitada, era visível que ele estava apavorado, embora tentasse controlar isso. Marduk o apavorava. Shaka não estava mentindo ao dizer que preferia a morte. Não suportaria ficar na companhia daquele homem novamente. Mas não sabia se poderia ter esperanças de que isso não acontecesse. Como Ikki dissera, ele era apenas uma peça, uma peça fundamental para algo que ele nem sabia direito o que era e se recusava a cooperar. Mas que saída tinha? Escapar. Única chance. Como? Não fazia ideia. Suas mãos tremiam, e ele não sabia o que fazer com aquela sensação sufocante causada pelo pânico que a simples possibilidade de ir parar nas mãos de Marduk criava. Afastou-se abruptamente do moreno. — Se eu não cooperar, vai me entregar a ele? — Seus olhos brilhavam, escuros, aterrados.

— Calma, Shaka! Calma! — Ikki precisou se aproximar e envolvê-lo nos braços, com delicadeza, a fim de conter a reação do advogado — Eu NÃO vou deixar que volte para as mãos do Marduk, entendeu? NUNCA! Eu prometo! Vou cuidar de você e não deixarei que Marduk chegue perto de você nunca mais, está bem? Está bem, Shaka? — repetiu a pergunta, para se assegurar de que ele o estivesse ouvindo. — Agora se acalma, por favor. — Ver o pânico que o loiro foi incapaz de esconder mexeu profundamente com Ikki. Segurou-o assim nos braços por um tempo que não soube definir bem. Quando enfim o advogado pareceu um pouco mais calmo, Ikki se deu conta de que estava inteiramente abraçado a ele. O moreno o havia abraçado pelas costas e agora se sentia tão confortável ali, que não quis desfazer o contato. Resolveu então abrir a gaveta da cômoda que ficava na cabeceira da cama e retirou dali uma pomada. Sem dizer uma palavra, retirou a tampa e começou a esfregar o creme nas regiões que estavam com hematomas, delicadamente, como se estivesse fazendo uma cuidadosa massagem no outro. — Se eu machucá-lo, é só falar, que suavizo o toque...

Shaka não pensava. Não conseguia. A única coisa que queria naquele momento era sentir a segurança dos braços de Ikki, e agora pouco importava que ele fosse seu sequestrador. Acredita nele, naquele momento. Ele era alguém que o protegeria de Marduk, que o manteria longe daquele animal perverso, que o cuidaria, por mais estranha e obtusa que fosse a relação dos dois. Abraçou-se ao corpo dele de forma intensa, entregue, sem objeções, descansando a cabeça em seu ombro e respirando fundo, o coração batendo forte. Serenou aos poucos, sentindo-se relativamente calmo. Ouvir as palavras de Ikki o confortou, entretanto, estava tão cansado, tão terrivelmente esgotado, que isso, aliado à dor, o deprimia. Quando o moreno começou a deslizar a mão sobre seus machucados, Shaka suspirou, ajeitando-se melhor nos braços dele, sem pensar em sair dali. Estava confortável agora, podia dormir daquele jeito e já sentia suas pálpebras pesarem. Soltava gemidos contidos, os que não conseguia evitar, quando os dedos do moreno tocavam áreas mais doloridas, mas no geral, ele suportou bem, apenas o apertava com um pouco de força, quando a dor era mais forte, sentindo a rigidez do corpo dele contra o seu e sentindo-se confuso, mesmo que confortável.

Ikki se demorou nessa tarefa por mais tempo que o necessário. Entretanto, o pretexto usado para essa proximidade, que Ikki não queria desfazer, já estava chegando ao fim. Precisaria de algo mais que uma simples pomada, se quisesse continuar ali, vivenciando um momento que nem ele sabia explicar o que significava. Súbito, sem nem pensar se era boa ideia, começou a falar, agora apenas massageando os braços do loiro, sem se preocupar em passar a pomada propriamente:

— Shaka... Como foi a sua infância? Você sempre gostou de cachorros? — embora pudesse parecer uma pergunta investigativa, o tom de voz de Ikki demonstrava que ele queria conversar, e não fazer um inquérito ali.

Shaka suspirou. Também estava desarmado naquele momento. A fragilidade da situação entre os dois não era maior do que a fragilidade do seu emocional, e ele falaria tudo que Ikki quisesse saber, sem pensar muito sobre o assunto.

—Sim, sempre gostei. Mas nunca pude ter um. Minha infância foi solitária — respondeu e suspirou. — E a sua, como foi?

— Nada solitária. Quando se tem um irmão pequeno, que fica correndo atrás de você para todo canto, é meio difícil encontrar momentos de solidão. — Ikki riu um pouco com a lembrança, mas logo sua expressão ficou um pouco sombria. Sacudiu a cabeça de leve para espantar certos pensamentos. — Eu sempre gostei de cachorros. Não digo que eu tinha um, porque não é como se eu os levasse para casa... Mas eu brincava com eles na rua. Eu dava nomes para todos. São excelentes companheiros... — Suspirou e fitou o loiro. — O que você gostava de fazer quando era criança? Seu pai não deixava você sair para a rua, não é?

Shaka negou com um leve aceno de cabeça. — Eu morava numa casa enorme. Enquanto minha mãe era viva, vivíamos no jardim e até passeávamos pela vizinhança. Eu era muito pequeno, mas me lembro disso. Mas depois que ela morreu... — Engoliu a angústia que essa lembrança lhe causava. — Depois disso, não houve mais passeios. Eu ficava a maior parte do tempo em meu quarto, às vezes ia ao jardim, mas não tinha ninguém para brincar comigo, então inventei um mundo imaginário meu e só saía dele para brincar na chuva quando os adultos não estavam vendo. Mas nem meu mundo imaginário era muito colorido, eu sempre fui... Não sei... Triste não seria a palavra, acho que... melancólico. Sempre soube que esse mundo não era bonito, mesmo quando tinha sete anos. — Sorriu, afastando-se um pouco para mirar o moreno, um podia sentir a respiração do outro de tão perto que estavam. — Mas a sua infância parece ter sido legal como devem ser a infância de qualquer pessoa, não é?

Ikki estava ouvindo a história de Shaka, bastante compenetrado. Fazia muita diferença ouvi-la vindo da boca do próprio advogado. Conhecia, de certa forma, tudo o que o loiro estava dizendo, mas era como se escutasse tudo aquilo pela primeira vez. Estava envolvido em devaneios, imaginando como seria a vida de uma criança como Shaka, quando o escutou perguntar. Sorriu brevemente — Minha infância? Legal? Não, não... O meu irmão e os meus cachorros foram a única memória positiva que tenho dessa época. De resto... foi tudo muito... desagradável. Eu perdi meus pais muito cedo e tive que me virar para me criar e também cuidar do meu irmão. Morávamos a maior parte do tempo na rua, porque eu não gostava de dividir espaço com homens adultos, que, de uma forma ou de outra, poderiam nos fazer mal. Eu sentia muita raiva do mundo, isso sim. Por toda a desigualdade. Mas o meu sentimento era mais generalizado, eu não odiava as pessoas que tinham mais que eu, especificamente. Meu ódio era direcionado a todo um sistema que, desde cedo, vi que era corrupto e cruel. Porém, ódio das pessoas... Não. Por isso, nunca roubei. Quero dizer... houve um tempo em que roubei. Mas isso mudou quando, num dia, eu estava correndo pelas ruas, depois de ter roubado umas maçãs, e acabei esbarrando em um menino muito rico. Dava pra ver pelas roupas que ele usava... Eu trombei nele, achei que ele fosse chorar ou mandar alguém me dar alguma lição, algo assim. Ele caiu, e eu... Bem, não tive coragem de deixa-lo no chão. Ajudei-o a levantar, então ele viu como eu segurava o saco com maçãs contra o peito: afoito; desesperado. Aí, ele me sorriu de um modo tão angelical, que mexeu profundamente comigo. Ele trazia um lanche em uma sacola dessas lanchonetes famosas. Entregou o lanche para mim e levou o dedo aos lábios, como quem pede para que aquilo fosse um segredo. Uma promessa de segredo entre nós. Ele piscou para mim e foi embora; um carro importado o esperava. Depois disso, nunca mais roubei...Vi que... mesmo os afortunados, algumas pessoas... podem ser bondosas. Simplesmente bondosas como aquele menino.

Shaka ficou pensativo com aquelas palavras. Pensou que Ikki também era uma das pessoas que ele considerava de certa forma vítimas. Vítimas de uma humanidade cruel. Contudo, não as perdoava por cometerem atos ilícitos. Shaka sempre se considerou impiedoso com falhas, mas agora, perguntava-se se poderia continuar pensando assim porque... também estava falhando, fraquejando. Por mais que tentasse se manter de pé, algo dentro de si estava se partindo como uma vidraça que leva pequenos golpes rotineiramente, e não sabia o que sobraria depois. Até quando continuaria a ser quem era?

— Onde está seu irmão? — ele perguntou, ainda olhando para Ikki, querendo entender as emoções daquele homem tão intrigante à sua frente.

— Meu irmão morreu — falou secamente. — Não fui capaz de protegê-lo como gostaria. O mundo acabou tirando-o de mim cedo demais... — Ikki remexeu-se; essas lembranças mexiam demais com ele — Há muitas injustiças nesse mundo. E infelizmente nem sempre é fácil fazer justiça por aqueles que a merecem— pontuou, assertivo.

— Eu sei disso. Sei muito bem. Passei a vida tentando fazer justiça. Cada dia da minha vida, tentei evitar que acontecesse com outras pessoas o que aconteceu à minha mãe. E todos os dias eu sofri por saber que no exato momento em que eu respirava, alguém era assassinado nessa cidade. E vivi para combater isso, não como um vigilante, mas pela lei. Eu acredito que só a lei pode mudar de verdade esse mundo. Apenas ela pode garantir uma sociedade justa. Entendo seu ódio... Mas não posso compactuar com ele. — Shaka fechou os olhos por um tempo e respirou fundo. As lembranças do passado o invadindo. — Talvez esse passado seja a minha verdadeira fraqueza nessa vida... Ainda não consegui superar aquilo, mas vou. Um dia.

Ikki acabou abrindo um sorriso sarcástico. — A lei não é de muita ajuda. Não quando você está do lado dos oprimidos. Se você não estiver do lado que é visto pela sociedade, então a injustiça sofrida por você é a mesma coisa que nada. Meu irmão morreu. Meus pais morreram. E você acha que justiça foi feita por eles? Você acha que alguém se importou? Ninguém deu a mínima! A lei é só um engodo. Ela é usada por quem tem poder, para se manter no poder, beneficiando apenas quem está no poder. Não, advogado. Você não sabe como é estar do outro lado. Não pra valer.

Shaka ficou calado por um longo tempo, examinando aquela afirmação.

— Eu tento entender pelo menos, mas sei que não é a mesma coisa — disse, enfim, compreendendo que por mais que se esforçasse, simplesmente não fazia parte daquela realidade e não podia dizer que sabia. — Sempre tentei ajudar. No entanto, sei que minha busca é egoísta. Mas ainda credito que apenas a lei pode garantir a justiça. O que você busca não é justiça, é revanche. E vingança não leva a nada... — Shaka o encarou. — Estou cansado... Quero... dormir agora... — desviou o olhar, um tanto incomodado com o teor daquela conversa. Parecia que eles pertenciam a mundos distintos, impossíveis de se encontrarem de forma pacífica. Mundos que simplesmente colidiram.

— Claro. — Ikki atenuou o tom de voz. Costumava ficar um pouco alterado quando conversava sobre esse assunto. Inclusive, a proximidade de seus corpos, tão íntimos há alguns minutos, havia quase desaparecido. Embora ainda estivessem relativamente perto um do outro, fisicamente, o diálogo trocado entre eles pareceu escavar um abismo que os separava agora. Por um lado, Ikki se sentiu frustrado com isso. Por outro, compreendeu que havia outras prioridades no momento. — Você precisa mesmo descansar. Até porque amanhã será um longo dia... — suspirou. Pensava até quando poderia ignorar o fato de que Mu tentava falar consigo desesperadamente desde que levara Shaka embora da mansão.

Levantou-se da cama, enquanto deitava gentilmente o corpo cansado do loiro sobre o colchão macio, com todo o cuidado. — Espero que esteja confortável. — falou, já de pé, em tom suave, com um olhar profundo para o advogado.

Shaka assentiu com a cabeça, aconchegando-se na cama e fechando os olhos. Não queria pensar, pois sabia que deveria evitar a fadiga. Aquele era o momento de limpar a mente, equilibrar-se para se recuperar rapidamente e tentar encontrar uma forma de sair daquela situação.

— Boa noite, Shaka. Se precisar, estou no quarto ao lado.

— Certo. Boa noite — o loiro murmurou, e o moreno deixou o quarto. Também estava cansado e pareceu ficar ainda mais com aquela conversa.

Ikki não se enganara. Mu estava a ponto de sair à caça dele. Embora não fizesse ideia de onde o cavaleiro estava, pensava que não seria impossível rastreá-lo. Estava sendo pressionado a saber o que acontecia. Sabia que Marduk havia sido afastado. Segundo soube, ele passara dos limites, mas isso era algo tão óbvio, que quando Hades foi punido pela escolha, e Marduk afastado definitivamente da operação, Mu sentiu vontade de perguntar ao Círculo se eles eram um bando de idiotas que não sabiam que aquilo aconteceria? Agora estava feito, e Phalke talvez estivesse perdido para sempre. Contava com Ikki para reverter aquela situação e salvar tudo que eles sempre sonharam. Aquela operação era valiosa e eles precisavam do advogado. Se Phalke não servisse mais... quem serviria?

Suspirou, e isso chamou a atenção de Afrodite, que estava examinando escutas naquele momento. O belo cavaleiro havia sido reintegrado. De certa forma, os desmandos de Marduk serviram para encobrir as falhas da equipe. Agora, o Círculo o estava caçando, e Mu pensava que isso daria tempo para resolver as coisas com Ikki. O sumiço de Marduk e seus homens era preocupante, mas o silêncio do cavaleiro era ainda mais.

— Ele não atendeu de novo? — Afrodite perguntou.

— Vamos esperar até amanhã.

— Mu, você confia mesmo no Ikki? Confia que ele não esteja...

— O quê?

— Envolvido... — Afrodite desviou o olhar. — Já pensou que Shaka pode... lembrar o irmão morto? Ser um gatilho, algo assim?

Mu riu. — Acha que após o treinamento sobrou alguma arma em nós para que tenhamos gatilhos, Afrodite? Esqueceu tudo que passamos para estar aqui?

— Você mesmo disse: Phalke é diferente — Afrodite replicou. — Você esteve cara a cara com ele, sabe que ele é capaz de abalar até o mais forte de nós. Ele é esperto, sagaz, e sabe manipular.

— Não a um de nós. Vamos esperar — Mu disse, pensativo. — Se Ikki não se comunicar até amanhã, então...

— Então?

— Você lidera a caçada. Não é isso que quer?

Afrodite sorriu do seu mesmo jeito charmoso e cruel de sempre. A adrenalina era o seu combustível.— Ótimo!

— Sabe se Aiolia continua rastreando o namorado?

— Provável. Mas... O que está pensando? Acha que o Ikki seria capaz de deixar Phalke escapar?

— Não, Christen. Isso é apenas precaução. Onde Aiolia está?

— Acho que em casa com a mulher e o filho! Alguém aqui precisa ter uma vida — Afrodite riu, debochado, e Mu suspirou, voltando a olhar para o celular, mas parando de insistir. Confiava em Ikki, esperaria um pouco mais.

Na cabana, Shaka tinha um sono agitado. Assim que o quarto mergulhou na escuridão e apenas a luz do corredor ficou acesa, ele sentiu como se estivesse de volta à sala de tortura. Sentiu uma sensação de sufocamento e acordou, sentando-se na cama, acuado, o corpo trêmulo; tentava controlar aquela sensação horrorosa. Era uma crise de pânico que ele tentava vencer entonando um mantra baixinho. Não era a primeira vez. Durante a infância tivera várias, na adolescência, algumas, na vida adulta, as crises haviam cessado completamente. Completamente até aquela noite. Um suor frio cobria seu corpo. Ele fechou os olhos, aumentando o tom do mantra que entoava. Não esmoreceria, não se entregaria, continuaria até que vencesse. Mas as lembranças da tortura mesclavam-se às lembranças da infância, do assalto, do assassinato da mãe, do garotinho da rua para quem ele sorriu, do homem que saía do carro em um terno elegante, o saco do lanche, as maçãs no chão, os olhos azuis úmidos, as armas automáticas contra sua cabeça...

Shaka passou a mão no rosto suado, continuando o mantra, mas as imagens, as vozes, os choques, estavam todos ali. Ali! Ali!

— Pare! Pare!

Ergueu-se da cama, cambaleante, indo até o banheiro do outro lado do corredor. Sentia-se nauseado, e acabou vomitando na privada. Depois da crise, permaneceu sentado no chão do banheiro, sem pensar em nada, longe da realidade e ao mesmo tempo com esta martelando o fundo do seu consciente. Ficou ali sentado e percebia que o dia clareava lentamente. Já estava bem claro quando ele finalmente se ergueu e foi até um armário, verificando-o e achando uma escova de dente ainda na embalagem, aliás ele achou tudo que precisava. Olhou-se no espelho, vendo o hematoma no olho esquerdo, o corte no nariz e nos lábios, as escoriações e a barba por fazer. Lavou o rosto com cuidado e escovou os dentes, pegando depois creme de barbear, lâmina e fazendo a barba com cuidado, pois tudo ainda doía. Penteou os cabelos, prendendo-os em um nó descuidado, mas se tornando minimamente apresentável naquele momento. Depois ficou mirando o espelho, mirando aquele homem no espelho, aquele homem que não era mais ele, mas de certo modo ainda era exatamente tudo que ele foi. Ainda era Shaka Phalke. Esse era o mantra que deveria entoar. Erguer-se-ia novamente.

Saiu do quarto, os primeiros raios da manhã rompiam pelas copas das árvores altas e os pássaros já começavam a cantar. O advogado abriu a porta com cuidado e respirou o ar frio e orvalhado do amanhecer. Havia tanto verde, tanta paz. Saiu do chalé para a pequena varanda, sentando-se num banco de madeira que ali havia e ficando a observar a paisagem. Parecia que estavam numa floresta, tudo era mata, mas mesmo selvagem havia algo de acolhedor naquele lugar. Estava frio, e ele usava roupas finas, mas não sentia incômodo. Era acolhedor, calmo, manso, como um bom café numa manhã de inverno. Havia a calmaria que precisava.

Ikki o vira sair, mas achou melhor deixa-lo sozinho naquele momento. Contudo, aproximou-se da janela ficou ali parado, observando os passos do loiro. Ainda recriminava-se por tudo que havia acontecido e, sobretudo, pelas palavras ditas. Sabia que precisava manter Shaka seguro e equilibrado, não apenas pela missão, mas...

— Senhor, o café está servido. Deseja que eu chame o hóspede?

A voz de Khan chamou-lhe a atenção. Ikki suspirou e voltou-se para ele. Hóspede. Aquela palavra era tão impessoal, tão cruel. Ele tentava se convencer de que Shaka era apenas isso: hóspede nos termos d’A sociedade. Tentava? Não. Já não tentava mais se convencer, tentava apenas convencer os outros.

— Não. Deixe que eu mesmo o chamo — Ikki disse, adiantando-se, abrindo a porta e caminhando até onde o loiro estava. Parou atrás dele, em silêncio, mirando a sua nuca, cujos cabelos presos deixavam ver um pouco da tatuagem que ele tinha ali: uma flor de lótus. O moreno lambeu os lábios. Ele já sabia daquela tatuagem, mas vê-la agora lhe lembrou algo que pareceu extremamente estranho. Quando houve uma citação ao lótus há muito tempo, ele não tinha feito nenhuma associação, mas agora, olhando aquele desenho em contornos negros e azuis na nuca de Shaka...

— Não é possível... — murmurou inconscientemente, mas isso fez o advogado voltar-se em sua direção.

Shaka ergueu-se do banco. — Oi, eu... — quase disse que não pretendia fugir, mas lembrou-se de que não estava mais na mansão. Fugir? Fugir para onde?

— Faustine já preparou o café. Ela sabe dos seus hábitos, então não se preocupe —Ikki falou, os pensamentos ainda vagando por aquela desconfiança que o fazia arrepiar-se.

— Certo. Tem algum problema se eu ficar mais um pouco aqui? — Shaka perguntou, ainda observando a mata.

— Não. Mas está um tanto frio e você ainda não está recuperado totalmente. Tem certeza?

— Estou bem — Shaka afirmou.

Ikki assentiu com a cabeça e voltou para dentro do chalé. Pegou o celular descartável com o qual falava com Mu. Sabia que se ligasse poderia ser rastreado, mas não sabia até quando seguraria aquilo. Escolheu por ligar o celular e aguentar as consequências.

— Oi, Mu — ele disse, ao ouvir a voz do companheiro.

— Ikki, onde você está?

— Isso não importa muito agora, Mu. Preste atenção — pediu, sem fazer rodeios. — Estou com Phalke num lugar seguro. Ele está muito machucado e precisa de um tempo para se recuperar...

— Ikki, a mansão é o lugar ideal...

— Quer calar a merda da boca e me ouvir?! — irritou-se o moreno, mas respirou fundo, tentando manter a frieza. — A mansão agora não é uma opção. Marduk sabe onde ela fica e se ele desconfiar que estamos lá, pode resolver voltar. Sabe do que ele é capaz.

— O Círculo quer notícias de Phalke, Ikki, o que digo?

— Diga que retomamos os planos iniciais, que ele está comigo e que eu cuidarei de tudo. Diga que garanto que dessa vez não haverá falhas.

Mu guardou silêncio por um tempo, analisando o que o cavaleiro dizia.

— Ikki, o que está tramando?

— Mu, esses merdas jogaram Shaka nas mãos daquele psicopata! Você acha que eu vou entregá-lo ao Círculo? Acha que vou deixá-lo de qualquer forma nas mãos desses escrotos?! Eles poucos se importam com a integridade física dele, pouco se importam com ele ou qualquer pessoa.

— Você não tem autoridade para decidir isso...

— Eu tenho toda autoridade, Mu! Se não fosse por mim, Shaka estaria morto ou tão perturbado que não conseguiria ser um terço do homem que ele é. Você realmente espera que eu o entregue? Vocês fizeram isso com ele! O Círculo fez isso com ele e vocês apoiaram no meio de uma burocracia indecente! Você também é culpado, Mu! Então não me diga que não tenho autoridade. Apenas eu tenho autoridade no que diz respeito a Phalke agora, entendeu bem?!

O líder dos cavaleiros ouviu aquelas palavras e as sentiu de forma profunda. Sabia que o companheiro tinha razão, entretanto...

Mu suspirou. — Isso terá consequências.

— Dê um jeito. Eu vou me apresentar no momento que você me garantir que O Círculo concorda com meus termos. No mais, não tente me rastrear. Sabe que sei como sumir do mapa, e vou levar Phalke comigo.

Ikki desligou o celular. Ali, dificilmente poderia ser rastreado, mas não era impossível, não para A sociedade. Aguardaria Shaka ficar um pouco melhor e então mandaria Khan e Faustine para a mansão e seguiria com o advogado para outro local, esse sim, imperturbável, até descobrir o que faria com ele. De algo, todavia, Ikki tinha certeza: Shaka estava completamente preso agora. Não havia chance de ele sair.

Título: Nada vem do nada.

Notas finais
Beijos a todos que leram! Sion Neblina