Nelumbo nucifera
24 Amor tussisque non celantur
Notas iniciais
Amor tussisque non celantur
Chapter XXIV
Marduk havia se recolhido com seus homens para o covil, como ele mesmo gostava de chamar o barco velho ancorado no porto mais degradado da cidade. Há muito tempo, expulso d’A sociedade, ele mantinha negócios naquele lugar. Expulso? Sim, mesmo que com um convite educado para sair. Ele nunca aceitara aquilo muito bem. A sociedade lhe dera imunidade e até dinheiro para que ele desaparecesse, e havia um responsável por isso: Ikki, o seu mais talentoso discípulo. Fora ele quem ensinara tudo ao rapaz, ele o treinara e o transformara na águia que o grupo queria. Jovem, inteligente e ambicioso, Ikki foi a personificação da história do discípulo que supera o mestre. Contudo, havia uma diferença entre eles: Marduk gostava da sua função; Ikki apenas parecia uma máquina executora.
O luxo da mansão e o poder. O poder de ter uma vida a sua mercê sempre fascinou e envaideceu Marduk. Ele era um membro importante de algo grande: a higiene d’A Sociedade. Ele finalmente deixara de ser um mero traficante, gângster do porto, para ser um vigilante, membro de uma milícia poderosa e responsável, e mesmo não comungando dos ideais do grupo, o velho delinquente sentia-se envaidecido por ali estar. Estava satisfeito e o grupo parecia satisfeito. Marduk dava resultados, mesmo utilizando-se dos métodos mais baixos e cruéis. Contudo, A sociedade foi crescendo e atraindo mais pessoas poderosas, pessoas que tinham nomes a zelar e que não compactuavam com seu ideário, pessoas para as quais os fins não justificam os meios. A certo momento, alguns casos importantes foram tirados de suas mãos, usando como justificativa excesso de trabalho. E para quem esses casos foram passados? Para o seu melhor discípulo, obviamente. Assim começou a ascensão de Ikki, a fênix, dentro do grupo. Enquanto Marduk conseguia dobrar os hóspedes através de muito sangue, ameaça e ossos quebrados, Ikki conseguia isso de outra forma, de uma forma muito mais sutil e que, ainda assim, transformava homens em seus cães fiéis. Isso chamou a atenção do que Marduk chamava de A diretoria e outros de O círculo. Casos maiores começaram a ser passados para o garoto, e Marduk foi perdendo poder de uma forma que o irritou e fez confrontar Ikki. A gota d’água para o seu afastamento foi quase ter matado um dos hóspedes. Estava irritado e bateu tanto no infeliz que o deixou em coma. Acabou sendo convidado a deixar o grupo, e Ikki assumiu o seu lugar. O que A sociedade não sabia era que cada vez que Marduk socou aquele infeliz, era o rosto de Ikki que ele socava. Seu ódio por aquele a quem havia treinado e que lhe tirava o prestígio chegou a uma forma tão pura que culminou na sua destruição.
Marduk trocava o curativo que tinha na mão. A raiva bramia dentro dele. Novamente Ikki estava em seu caminho, novamente ele tirava algo importante de si: a chance de ser aquele que dobraria o futuro promotor. Quando Hades o chamara, ele pensou que teria a chance de finalmente mostrar que era melhor que Ikki. Ikki. Fênix. O prodígio d’A sociedade. O homem que destruiu suas ambições e o jogou na sarjeta. Sabia que o próprio Ikki havia rejeitado o caso, então... Não entendia! Não entendia!
Socou um armário com a mão boa e depois terminou o curativo. Chamá-lo de volta custou muito a Hades. A sociedade não o queria perto de Phalke. O círculo quase teve um colapso quando soube... Marduk riu. Queria vingança contra todos, queria fazer aquele grupo ruir de dentro para fora, mas Ikki novamente frustrara suas ambições. Maldito moleque. Se bem que agora ele era um homem e não o garoto do passado. Estava mais ousado e mais capaz. Precisava destruí-lo, achar uma brecha na armadura tão bem construída daquele rapaz. Armadura que ele ajudara a construir.
O gângster respirou fundo e afagou a barba rude, pensativo. Havia entrado em contato com Hades e soube que ele estava temporariamente afastado. Não teve notícias de Phalke, mas lhe foi comunicado que seria chamado para esclarecimentos. A sociedade era rígida com condutas e preocupada com possíveis vazamentos. O círculo não o considerava confiável e com certeza o líder da operação espectro cairia por tê-lo chamado. Alguém tinha que levar a culpa, obviamente. Mas, segundo Hades, Ikki não estava autorizado a se envolver. Ele pedira afastamento, ele deflagrara o vexatório código vermelho, então...?
“Ikki estava fora. Não sei quem o autorizou a se envolver ou por que. Pelo que sei, Os cavaleiros esperavam uma autorização d’O Círculo para libertar Phalke, mas Ikki estava ‘na reserva’. Não sei o que houve...”
Estas foram as palavras confusas de Hades. Ikki estava “na reserva”, ou seja, fora de qualquer operação grande, cuidando de algo pouco significante para o grupo. Uma missão dada apenas para manter o moral do rapaz estável. Então por quê? Tinha que haver um motivo, e a cada momento que se interrogava sobre isso, Marduk pensava que o motivo poderia ser um; um tão insólito que era difícil para ele acreditar; tão fantástico dentro das perspectivas daquele grupo, que ele ria sempre que sua mente depravada, mas inteligente, pensava a respeito...
Não. Qualquer um, menos Ikki. Ikki, não. Mas havia existido um rapaz. O tal Hank. Ele fora atrás de Hank. Ele ajudou-o em sua infiltração. Ele havia participado de algo grande contra seu grande inimigo. Descobrira quem ele era e sabia quem ele seria. Hank era esperto, ambicioso e tinha poucos escrúpulos. Aceitou o personagem que era necessário para ser infiltrado n’A sociedade e quebrá-la de dentro para fora. Hank tinha sido sua melhor arma, mas ele falhara. Assim como A sociedade fazia aos seus hóspedes, ele dera a Hank tudo que ele tinha que saber para dobrar Ikki e em seguida se infiltrar no grupo como um membro. O advogado era ardiloso e gostou do jogo. Os olhos castanhos e doces de Hank, os cabelos cacheados de querubim, a voz meiga, o jeito altivo e arrogante. Marduk sabia que ele impressionaria Ikki e por isso construiu com o rapaz uma personalidade que nunca existiu.
“Então eu só preciso seduzi-lo?”, ele havia perguntado com deboche.
“Será mais difícil do que pensa, bonitinho.”, Marduk advertira, mas o rapaz confiava muito em si mesmo. Talvez esse tenha sido o seu erro. Em algum momento, Ikki conseguiu derrubar sua máscara. Hank ficou vulnerável e caiu de forma humilhante. Pelo que soubera depois, pelo próprio rapaz, ao saber que ele era um espião, que estava tentando usá-lo, Ikki mudou. A queda de Hank foi mortificadora. Ikki o humilhou, massacrou, sem precisar quebrar um dedo dele. Ao final, o rapaz estava tão partido, tão derrotado, tão apático, que foi incapaz de fazer qualquer coisa contra o grupo, e pior, se tornou um cão fiel do seu algoz como era o esperado. Hank não serviu a seus propósitos, Hank foi destruído por Ikki, como todos. Mas Hank também não mais servia À sociedade, não da forma que se pretendia.
Sua participação na infiltração do espião, todavia, ficara nas sombras. Hank nunca soube seu nome. Marduk foi ardiloso o suficiente para que o rapaz nunca pudesse ligá-lo à sua infiltração. Dessa forma, ele estava limpo para novamente servir À sociedade, quando fosse preciso.
Já Shaka era diferente. Ele era o alfa e o ômega. Marduk sabia disso muito bem. O grande projeto civilizatório para aquela cidade degradada. O homem. Aquele que finalmente concluiria tudo que o grande líder pensava para o grupo. Aquela cidade finalmente teria paz, e isso seria apenas o começo. Phalke seria o grande cordão higiênico d’A Sociedade. Mas ele se mostrara mais obstinado do que o grupo esperava; inquebrável, íntegro, forte demais. Demais...
Marduk pensava, pensava, e não chegava a uma conclusão. Ikki estava há meses com Phalke. Meses! E parecia não ter conseguido arranhar em nada a armadura do advogado. Phalke parecia uma fortaleza infringível, um homem sem paixões e sem medo. Phalke era a joia perfeita para o grupo, um homem cuja força de caráter era solene e imperturbável. Tudo que A sociedade sonhava encontrar dentro do campo jurídico para fazer a real justiça. No entanto, a mesma força que despertou o interesse do grupo era o que o fazia resistir até as últimas consequências. Marduk iria até o fim para provar que era o melhor: torturaria Phalke até o limite da morte, até que ele dissesse o verdadeiro, quebrantado e apavorado sim. Aquele que vem de uma alma que já não tem forças para lutar. Mas Ikki o impediu. Por quê?
Por quê?!
Marduk já tinha a resposta. Mas era difícil acreditar que a máquina executora d’A sociedade houvesse sucumbido aos sentimentos. Hank havia arranhado, fragilizado a armadura, ao que parecia. Mas Phalke, ah, Phalke a havia destruído!
Ao chegar a esta conclusão, Marduk começou a rir sozinho, gargalhar, pular como um louco dentro da sua cabine, com uma alegria tão desmedida, que um dos seus homens abriu a porta para checar se estava tudo bem. Ele estava feliz, completamente feliz por saber exatamente onde tocar para fazer não apenas A sociedade, mas também seu grande inimigo, ruir completamente. Sua vingança seria arrasadora.
...
Fazia oito dias desde que Ikki levara Shaka para aquela cabana. Ainda não havia saído dali em momento algum, mas sentia que necessitava fazer isso o mais breve possível. Por mais que tentasse evitar, precisava se apresentar À sociedade. E precisava pensar em seu depoimento. O Círculo exigiria que fosse detalhista, mas ainda não estava forte e preparado para isso. Na verdade, não sabia se realmente queria voltar. Decepcionara-se com o grupo de uma maneira profunda, embora, no fundo de sua alma, tentasse acreditar que eles não estavam cientes das ações de Marduk, que a escolha por aquele psicopata fora apenas um erro de avaliação de Hades e não algo pensado. Um imperdoável erro de avaliação que ele cobraria do Espectro na hora certa, mas, ainda assim, um erro de avaliação. Não que Ikki quisesse perdoar. Não, ele não perdoaria. Esperava pacientemente para beber o sangue de alguém, tamanha era sua indignação. Entretanto, ele ainda esperava que os companheiros respeitassem o código de conduta que A sociedade estipulava. E neste código, por mais que eles buscassem os fins, tortura física, estupro e qualquer tipo de agressão a inocentes estavam proibidas. No fundo de sua mente algo martelava: a culpa era sua. A sociedade enlouqueceu porque ele havia fraquejado. Se Shaka fora ferido a culpa era apenas sua.
Isso era o que mais doía. Ele perdera o controle da situação com Shaka e isso pôs o advogado em risco. Entregou-o àqueles canalhas desumanos. Não repetiria o mesmo erro.
Ikki estava na parte de trás da cabana. Havia um lago, onde fora construída uma ponte de madeira bastante larga. Ali era o melhor lugar do mundo para pensar em qualquer coisa, e ele pensava, esmurrando um saco de areia. Precisava movimentar-se. Movimentar-se o ajudava a pensar.
Ele socava o saco com muita força, extravasando a raiva que era obrigado a conter. Este era um hábito aprendido nas ruas, quando morava nas ruas, quando era um Ikki muito diferente do homem de agora. Na época era um adolescente rebelde, incapaz de seguir ordens e ainda mais cheio de raiva. Na época, era alguém que conseguia ir contra A sociedade e seus ideais... Mas isso lhe custou tanto...
Voltou a socar o saco com toda a sua força. O suor escorria por seu corpo, seus punhos envoltos em bandagens doíam, mas ele não parou até que estivesse completamente exausto.
Ikki ficou parado por um tempo, respirando pesado, sentindo os braços doerem. Viu Shaka sair da casa, acompanhado por Falcon, seu cão agora adquirira a estranha mania de seguir o advogado para todo o lugar que ele ia. Certo, havia pedido para que ele cuidasse do loiro, e o labrador parecia ter tomado aquilo como real responsabilidade.
Ele suprimiu a vontade de sorrir ao olhar para Shaka. O advogado parecia bem melhor, os hematomas começavam a sumir, deixando apenas vestígios azulados em seu rosto e ele já não mancava. Isso deixava Ikki aliviado, ao mesmo tempo que o lembrava de que o tempo estava passando. Não tinha como demorar muito ali. Precisava tomar providências e tais providências o deixariam exposto.
— Bom dia — Ikki aproximou-se do advogado. Sua expressão era suave, quase sorridente, embora ele não sorrisse. — Dormiu melhor essa noite?
— Um pouco melhor — Shaka respondeu também suavemente. Durante vários dias, ele teve pesadelos e síndrome do pânico. Nesses momentos, Ikki estava lá. Ficava ao seu lado até que ele se acalmasse e conseguisse voltar a dormir, ou levava-o ao banheiro e o apoiava quando ele sentia náusea, ou seja, o moreno sempre estava lá com ele, para servi-lo, o que pareceu demolir algumas barreiras entre os dois.— Gostaria de me exercitar um pouco... — o advogado falou, mirando o saco de areia.
— Ah, sim. Você faz boxe tailandês — Ikki observou. — Fique à vontade — Apontou para o saco.
Shaka mirou o saco e depois voltou a olhar o moreno. — Talvez você quisesse lutar comigo...
Ikki riu, levando a mão aos cabelos molhados de suor. Era um riso incomodado. Não queria aquilo novamente. Não depois da piscina, e ele tinha consciência de que Shaka estava igualmente frágil naquele momento. Contudo, pensava se o loiro se sentiria muito mal caso ele se negasse. Shaka era orgulhoso e toda a fragilidade demonstrada naqueles dias cobrava um preço alto ao ego dele. Ikki sabia disso e gostaria sinceramente de ajuda-lo a recuperar a confiança. Mas não daquela forma arriscada.
— Não acho que esteja forte o suficiente para um corpo a corpo, Shaka — ele falou o mais brandamente que conseguiu. — Sem contar que temos pesos diferentes. Não seria uma luta justa.
Shaka o encarou de cima a baixo. — Sim, você é mais forte, e eu não estou na minha melhor forma, reconheço. Não precisamos de um combate, apenas de um... treino.
— Certo — Ikki deu de ombros, vencido. — Bandagens. — Apontou para uma mochila sobre uma pequena mesa. Era ali que ele deixava seus acessórios de luta.
Shaka tirou a camisa, ficando apenas com a calça folgada preta que vestia, pegou as bandagens e começou a enrolar nas mãos. Seu corpo ainda não estava completamente recuperado, mas ele achava que exercitar-se um pouco o ajudaria a melhorar.
Ikki prendeu a respiração por alguns segundos quando o loiro tirou a camisa. O torso magro e definido ainda exibia as marcas das agressões sofridas. Seus olhos ficaram examinando o corpo do advogado por um longo tempo enquanto ele enrolava as bandagens nas mãos. Todavia, Ikki deu-se conta que aquele exame estava mudando de intenção e por isso resolveu afastar-se e direcionar o olhar para o lago. Lutando contra as sensações do próprio corpo.
Shaka terminou de prender as bandagens e se alongou. Ikki voltou a observar o corpo em forma dele, embora fosse magro com envergadura menor que a sua, o advogado possuía músculos evidentes, demonstrando a prática constante de esportes.
— Está pronto? Comece — Ikki falou, erguendo as mãos para que Shaka golpeasse.
Shaka começou a socar o moreno, que apenas se defendia, movimentando-se, forçando Shaka a se movimentar também, mas mantendo-se na posição de defesa.
Shaka batia com a energia que as dores em seu corpo permitia e, paradoxalmente, sentir aquela dor ao descarregar cada golpe fazia com que se sentisse vivo, pronto para continuar. Ajudava a sua recuperação psicológica. Nos últimos dias ele pensara muito sobre a situação que vivia. Sabia que precisava compreender melhor toda aquela situação. Já entendia o que a tal Sociedade queria dele, entretanto, precisava de detalhes. Detalhes que Ikki, sabia, não lhe forneceria antes da hora. Outra coisa que sabia era que embora Ikki não concordasse com os novos métodos dos seus compassas, ele não estava do seu lado. Ele nunca o libertaria se o grupo não quisesse. Durante aqueles dias, o moreno se mostrou solícito, amigável e até carinhoso. Cuidou dele com toda atenção e dedicação, mas fez questão de deixar claro que cedo ou tarde, eles teriam que retornar ao antigo plano.
Shaka não queria voltar ao antigo plano. Ele queria voltar para a sua vida. Voltar a ser advogado e, quem sabe, tornar-se promotor público, como sempre quis. Era um cargo ambicioso para alguém que ainda não tinha míseros 30 anos. Contudo, Phalke e toda a comunidade jurídica sabiam que ele era apto. Aliás, pensando agora, após saber dos planos d’A sociedade, ele percebia o quanto sua possível candidatura ao cargo de promotor causou frenesi na comunidade. Shaka havia deixado a universidade de direito mais prestigiada do país aos 22 anos. Começou a advogar de imediato, contratado pelo maior escritório, e especializou-se em Direito criminal aos 24. Três anos passados, era um forte nome, um dos maiores criminalistas do país. Um prodígio, como muitos gostavam de chamá-lo. Agora estava ali; vítima do próprio sucesso e ambição. Não chegara a tal patamar sendo afoito e impulsivo, entretanto. Precisava encontrar uma maneira de vencer A sociedade. Uma maneira de apanhá-la em sua própria armadilha.
— Quando... vamos embora? — Shaka perguntou enquanto golpeava, a respiração ofegante. — Porque... vamos embora... Não?
Ikki crispou os lábios. Não queria falar daquilo, mas pelo que conhecia de Shaka, sabia que ele não desistiria de ter uma resposta. Nunca. Um pequeno príncipe adulto. Sorriu com esse pensamento, e então se recordou da pergunta incômoda.
— Não sei ainda — respondeu contra a vontade. — E não quero pensar nisso — completou, movendo os pés, esquivando-se dos golpes do advogado, que se tornavam cada vez mais vigorosos.
— Está esperando o próximo comando como um bom cão? — Shaka indagou, agora dando ganchos na linha de cintura do moreno, que apenas descia a guarda para se proteger.
Ikki sorriu com o canto dos lábios. Sabia que Shaka estava tentando provocá-lo. Só não conseguia entender ainda qual era a sua intenção com isso. Durante aquele tempo que estavam ali, o loiro estava manso demais. Pudera, depois de tudo que ele havia passado, seu emocional estava fragilizado. Todavia, junto com a recuperação retornavam a confiança e suas famosas habilidades. E, dessas habilidades, a que Ikki menos gostava era exatamente a que ele utilizava agora.
— Um apertar de botão, como a melhor das engrenagens — Ikki devolveu, esquivando-se dos golpes dele, o que dava trabalho. Além de potentes, Shaka era muito rápido, coisa que o moreno atribuía ao pouco peso do adversário.
— Boa analogia... — Shaka observou. — Quão boas são as outras peças da máquina? Ao que entendi... de vez em quando... vocês precisam de... ferramentas extras...
Aquelas palavras levaram um mal-estar aos dois, mas Shaka não recuou e nem Ikki o deixaria sem resposta.
— Não precisamos — o moreno respondeu. — A não ser quando um engenheiro... comete algum erro de avaliação.
— Ou uma das engrenagens resolve... falhar...
Ikki engoliu o descontentamento e apenas riu de leve, lançando um olhar de advertência ao outro.
— Phalke... Ainda não aprendeu que não devo ser provocado, não é?
Shaka riu. — Deveria saber que a provocação... faz parte... da minha natureza — dizia enquanto golpeava, começando a utilizar os pés e joelhos, mas Ikki apenas se esquivava e defendia-se. Não estava pronto para uma nova cena como a da piscina, então tomava todo o cuidado possível com Shaka naquele momento. Não o machucaria, por mais que o loiro o provocasse, e ele poderia levar aquela provocação ao limite, Ikki sabia.
— Nenhuma engrenagem é perfeita, embora sejam eficientes — Ikki replicou com calma. — Creio que nem mesmo as engrenagem douradas.
— Hum... Isso me lembra algo... — Shaka falou, movendo os pés em posição de combate. — Já houve outro parafuso como eu, não é verdade?
Ikki franziu as sobrancelhas, quase parando de se mover. — O que quer dizer?
— Houve outro parafuso que não se encaixou muito bem. No começo ele pareceu encaixar-se perfeitamente à engrenagem, mas depois...
Ikki lançou a ele um olhar de advertência e continuou a desviar-se e defender-se dos golpes. Sabia aonde Shaka queria chegar e não permitiria, então achou melhor mover-se e concentrar-se no treinamento. Era um exercício difícil, o loiro era rápido e habilidoso. Contudo, devido ao histórico, ele também se cansava mais rapidamente, e foi assim que o moreno o surpreendeu, segurando-lhe o pulso e torcendo o braço dele atrás do corpo, mas sem forçar.
Rapidamente, Shaka utilizou a perna para golpear o adversário, Ikki, no entanto, esquivou-se e o prendeu contra o seu corpo, de costa, segurando-o com uma das mãos pelo pulso, o outro braço prendendo o pescoço do advogado.
— Você fala demais... — ele murmurou contra a orelha dele.
— Sou advogado... Preciso de retórica... — Shaka devolveu, não menos ofegante. Ele sentia o corpo do moreno contra o seu, a respiração ofegante dele em sua nuca. Ficaram nessa posição por alguns segundos e então Ikki o libertou, empurrando-o levemente.
— Chega. Já percebi que está bem melhor. Isso é bom — ele falou, afastando-se em direção à cabana. Seu coração estava acelerado, reagindo ao loiro, assim como outras partes do seu corpo. Era melhor parar aquilo.
— Hank.
Aquela simples palavra foi suficiente para que Ikki parasse e seu corpo inteiro recebesse uma descarga gelada. Ele voltou-se para Shaka lentamente, olhando-o com um olhar tão duro que intimidaria qualquer pessoa.
Não Shaka. — Esse era o nome do parafuso que também não se encaixou, não é? Ao que parece, ele foi muito importante para você. Por que não me fala um pouco mais dele?
Ikki virou-se completamente para o loiro agora. Seus olhos ardiam como chamas frias. Aproximou-se de Shaka até estar a centímetros do corpo ofegante do advogado.
— Onde ouviu esse nome? — a pergunta foi séria, dura, e ele olhava diretamente nos olhos claros de Shaka de uma forma que não permitia que o outro fugisse.
Shaka não desviou o olhar em nenhum momento. Até sorriu de maneira sarcástica.
— Dos seus próprios lábios. De uma maneira tão profunda e inconsciente que acredito que nem percebeu. Vamos lá, Ikki, já que agora eu estou completamente envolvido em isso tudo, por que não me fala um pouco mais desse Hank?
— Não fale esse nome. Nunca mais fale esse nome, Shaka — ele advertiu. A voz muito baixa e rouca, ameaçadora.
— Sabe que vou descobrir, você queira ou não.
— Não brinque comigo! — Ikki elevou um pouco mais a voz, um tom mais nervoso e autoritário. — Não se engane, advogado. Se começar a jogar comigo, eu vou voltar a jogar com você.
— E paramos de jogar em algum momento? — Shaka indagou com o mesmo sorriso arrogante e debochado. Ele e Ikki estavam tão próximos que um podia sentir a respiração do outro. — Sou uma peça muito cara para que fosse estragada, apenas isso, não é? — e ele acabou dizendo o que queimava sua garganta durante todos aqueles dias. — Então seja sincero comigo, Ikki. Diga: quem é Hank...? — as palavras foram ditas lentamente, de forma segura e provocativa.
Ikki sentiu todos os músculos do seu corpo ficarem tensos. Sua vontade foi socar o advogado, mas ele apenas fechou os punhos com força para se controlar. Não estava acostumado a ser tão diretamente desafiado, mas isso era tudo o que aquele loiro fazia desde que o conhecera. Por um momento, Ikki pensou que a experiência traumática com Marduk o deixaria mais manso, mas estava enganado. A fragilidade sentida em Shaka nos primeiros dias ali desaparecia como desapareciam seus hematomas e... Ali estava ele! Disposto a desafiá-lo como sempre.
— Nunca mais, escute, Phalke, nunca mais, fale esse nome. Não avisarei novamente.
— Ele ainda o afeta assim? — Shaka desafiou. — O que ele fez que...
— Cala a boca! — Ikki disse entredentes.
— Calo. É só me dizer e... — ele interrompeu-se quando o moreno levou a mão à sua nuca, segurando-o com força.
— Por que diabos simplesmente não obedece?!
Não foi uma agressão. Ikki o segurou pela nuca apenas para que o advogado o encarasse de forma mais contundente. Mas de forma automática, Shaka tentou golpeá-lo com o joelho. Ikki, automaticamente também, esquivou-se e segurou a perna dele por baixo, girando o corpo do loiro, soltando-lhe o pescoço e prendendo os braços dele contra a própria nuca.
— Não direi nada e você vai fazer o que digo e pronto! Não queira ver meu pior lado, loiro. Se eu pareço ruim, tenha certeza que ainda não viu um terço do quanto posso ser ruim.
Shaka forcejou para se soltar, tentando golpeá-lo com o pé, mas a única coisa que conseguiu foi que Ikki o forçasse a ficar apoiado num dos joelhos. O moreno forçou seu corpo até que estivessem ambos ajoelhados.
— Chega disso, Phalke. Pare, estou avisando! — “Estou pedindo”, Ikki falou para si mentalmente, sentindo-se derrotado, mas aquela não era hora de demonstrar condescendência. Shaka estava sendo impertinente de novo e com um assunto que nem de longe lhe era agradável. Precisava encerrar aquilo naquele momento.
Shaka ficou calado. Não respondeu, mas parou de resistir, relaxando os músculos. Ikki também relaxou. Lentamente, deixou de apertar o braço do loiro, levando-o delicadamente para o lado do corpo do advogado, mas sem soltar-lhe o pulso. Ambos estavam ofegantes e, embora livres, permaneceram na mesma posição, o corpo de Shaka contra o de Ikki.
O moreno umedeceu os lábios, observando a curva do pescoço do outro e o início daquela tatuagem que o perturbava tanto. Ikki respirou fundo, mas isso fez aquele cheiro peculiar do advogado adentrar suas narinas e perturbar seus pensamentos. Ele deslizou as mãos pelos braços de Shaka. A intenção era ajudá-lo a erguer-se pelos cotovelos, mas acabou prolongando aquela carícia por um tempo além do previsto, ele tinha consciência que aquele contato já não se fazia necessário. Não havia necessidade de sedução, de manipulação. Shaka já estava em um patamar diferente, muito diferente do que os outros hóspedes chegaram. Ele agora sabia, estava dentro, mesmo contra a vontade e, acima de tudo, foi capaz de resistir a todas as investidas e tentativas de Ikki. Devido a isso, o cavaleiro não tinha por que tentar qualquer aproximação afetiva. Não havia mais espaço para isso, e Ikki sabia que se desse vazão aos próprios sentimentos, a situação ficaria muito mais descontrolada.
Ikki respirou fundo e, segurando o advogado pela cintura, o trouxe para cima. Voltaram a ficar de pé.
Shaka afastou-se alguns centímetros, sentindo a pulsação acelerada. Ele não disse uma palavra, marchou para dentro da casa, indo para o quarto. Seu corpo estava coberto de suor, trêmulo e ele quis tomar um banho. Talvez isso resolvesse.
Várias questões ocupavam sua mente naquele momento. A primeira dela, e não deveria, era o fato de ele e Ikki terem retrocedido na relação frágil que começavam a construir. Durante aqueles dias na cabana, o moreno se mostrou gentil, atencioso, embora também fizesse questão de manter certa distância e um comprometimento profissional inegável. Todavia, não havia confrontos. Eles até foram capazes de conversar como pessoas normais, civilizadas, às vezes até como amigos. Aquele embate matutino pareceu destruir tudo isso.
Shaka foi para o banheiro e tomou um banho demorado. A água dali não era muito quente, pois dependia de energia solar e por isso ele sentiu muito frio quando deixou o banheiro. Voltou para o quarto, tremendo, e vestiu um conjunto de moletom esverdeado, correndo em seguida para baixo do edredom. Acabou adormecendo, e ainda era muito cedo. Quando abriu os olhos novamente, assustou-se: na penumbra do quarto, Ikki o observava, sentado numa cadeira ao seu lado.
Era evidente que o moreno também havia tomado um banho recente, pois seus cabelos estavam úmidos e um cheiro agradável de sabonete emanava do corpo dele. Ikki o encarava sério, mas sem agressividade. Na verdade não estava pensando em nada muito específico, só estava ali, observando o outro.
— Não quis te machucar.
— Não me machucou.
O moreno mirou a mão magra do loiro que repousava sobre a cama. Quis segurá-la, mas não sabia se devia. Sentia o abismo novamente entre os dois.
— Hank foi um erro. O meu pior erro. É tudo que precisa saber.
Ikki não contaria a Shaka o que havia acontecido em seu passado. Seu orgulho não permitia. Sentia-se envergonhado com aquela história, e por motivos muitos dicotómicos dos motivos d’A sociedade.
—Shaka, eu vou precisar ficar um dia fora, mas tudo que precisar será providenciado por Khan e Faustine. Mantenha-se seguro. — Havia uma real advertência naquelas palavras. Ikki dizia para Shaka não tentar fugir para sua própria segurança.
Shaka não gostou daquela informação, mas apenas assentiu com a cabeça. Não era o momento de forçar. Sabia recuar quando preciso. Então foi ele que teve a iniciativa de segurar a mão de Ikki, que estava pousada perto da sua. Não disse nada.
Ikki apertou a mão dele, prendendo a respiração por um tempo. Seu coração batia forte e ele não soube o motivo, ou simplesmente não houve motivo fora tudo, mudou-se da cadeira para a beira da cama do loiro e com a mão livre voltou a segurar-lhe o pescoço, mas dessa vez com a única intenção de puxá-lo para um beijo, um beijo profundo, quente, cheio de sentimentos que o deixavam exposto. Excessivamente exposto.
Shaka fechou os olhos e também se entregou. Lábios e língua buscaram-se com a mesma vontade. O desejo, tão arduamente refreado, demoliu a represa e deixou que o rio de sensações, enfim, invadisse corpos e mentes.
Não foi um beijo calmo, ao contrário disso, foi um beijo de um ardor tão intenso que os deixava sem fôlego. As mãos de Shaka se emaranharam nos cabelos de Ikki, assim como o moreno soltou-lhe a mão para trazê-lo a si pela cintura, procurando por mais contato, deixando que a vontade falasse mais alto naquele momento.
Eles ouviram um barulho, um som de alerta, mas parecia tão distante que ambos preferiram ignorar. O barulho, entretanto, retornou, fazendo-os lentamente escaparem daquele luxurioso e momentâneo sonho. Era Faustine que batia à porta do quarto, que estava aberta. A mulher os olhava com um tanto de constrangimento e reprovação.
— O almoço está na mesa — ela disse, e seus olhos interrogavam Ikki, que não teve reação além de desviar os seus para qualquer ponto que não fosse a mulher, concentrando-se no braço que ainda segurava a cintura de Shaka, mas que se afastou lentamente, tal qual o encanto do momento.
—Eu não... Eu não vou almoçar com vocês. Tenho coisas a resolver — ele se ergueu da cama, lambendo os lábios. Também não encarava Shaka. — Shaka... Eu...Eu... Volto em breve — Completou, retirando-se do quarto.
Faustine lançou um olhar interrogatório a Shaka e depois o seguiu.
O advogado deixou-se cair na cama, sentindo o coração ainda batendo forte, o corpo excitado e um borrão na mente. Não queria pensar, na verdade não conseguia pensar naquele momento.
Título: Tosse, amor e febre ninguém esconde.
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