Nelumbo nucifera
25 Audacem reddit felis absentia murem
Notas iniciais
Audacem reddit felis absentia murem
Chapter XXV
—Enlouqueceu? Me disse que não tentaria esse tipo de abordagem com ele! Não depois de tudo que ele passou!
Faustine e Ikki conversavam na cozinha depois que deixaram o quarto de Shaka. Ikki não quis revidar. O que poderia dizer, que aquilo não era uma abordagem? Que nada fora pensado? Que Shaka novamente o desviava dos seus objetivos? Não. Precisava que poucos soubessem dos seus sentimentos e, assim, da sua fraqueza.
— Sei o que estou fazendo, Faustine. Não se meta. Sua função aqui é cuidar dele, mantê-lo confortável e não se meter em meus assuntos. — A máscara precisava ser mantida. Ele precisava dela.
— Olhe como fala comigo, pirralho! Esqueceu quem foi que limpou sua bunda branca?! — a mulher ralhou.
Ikki riu com o canto dos lábios. De certa forma, aquele comentário desaforado lhe lembrava coisas boas, coisas extremamente raras em sua vida.
— Agora você é uma agente d’A sociedade, entenda isso de uma vez por todas. Você não é minha babá, você é alguém que deve obediência irrestrita.
— Ikki, você sabe por que estou aqui.
— Isso não importa agora, Faustine. Cuide de Shaka até eu voltar, entendeu?
— Sim. Quando volta?
— Não sei — Ikki respirou fundo antes de fazer a segunda e mais importante parte das suas recomendações. — Se eu não voltar, provavelmente eles mandarão outras pessoas atrás de vocês.
— O que devo fazer?
— Khan sabe. Há um carro escondido no bosque atrás da cabana, vocês vão tirar Shaka daqui. Khan sabe de tudo.
— Khan é fiel À sociedade mais que a você! Cuidado, Ikki.
— Não é verdade. Tenho total confiança nele. Eu preciso ir agora.
— Não vai se despedir dele?
A pergunta pareceu por demais descabida a Ikki e ele riu com incredulidade.
— Não, Faustine. Cuide dele. Mantenha-o seguro.
— Sim — ela concordou contrafeita.
Ikki foi para o seu quarto, terminou de vestir-se com uma jaqueta de couro e calçou coturnos negros. Pegou a sua bolsa, onde havia vários equipamentos, inclusive armas, os óculos escuros e saiu. Khan o aguardava fora da cabana.
— Torço que logo retorne, senhor.
— Já tem minhas instruções, Khan. Não se desvie delas — o olhar que Ikki lançou ao homem foi de advertência.
— Ofende-me que o senhor pense que posso me desviar por qualquer motivo.
— Não penso, Khan. Não penso.
Ikki passou por ele e entrou novamente no carro blindado que os levaram até ali. O caminho para chegar àquela cabana era difícil e o local era muito distante de qualquer lugar, como ele queria. Precisava voltar à cidade para tomar providência e encontrar-se com Mu. Teria também que se reportar ao círculo, e esse era o primeiro passo. Todos os projetos e mesmo o bem-estar de Shaka dependiam isso. Não seria confortável, talvez não viesse a ser nem mesmo saudável. Contudo, ele tinha que fazer. Não tinha escapatória se quisesse manter Shaka seguro.
E havia aquele beijo. Aquele beijo que ainda fazia seu corpo e mente queimarem. Por que fez aquilo? Por que cometer o mesmo erro? Sabia bem os motivos, mas esperava de si mais autocontrole, mais razão. Não queria entrar naquele jogo perigoso desarmado como estava. Shaka era um risco aos seus objetivos, aos objetivos d’A sociedade, e Shaka era alguém que ele precisava proteger. Não tinha o direito de entregar-se aos sentimentos e, inferno, não conseguia lutar contra eles. Nunca conseguiu! A verdade era que tudo em sua vida, inclusive se unir À Sociedade foi uma decisão emocional.
Ikki dirigiu durante cinco quilômetros até chegar à pista de decolagem onde um jato o esperava. Não negava estar apreensivo, embora a frieza e a análise nunca o deixassem. Precisava disso naquela situação: ser frio e analítico. Estar pronto não somente para reagir, mas agir.
O jato fez uma viagem de uma hora até que ele chegou ao castelo, a sede secreta d’A sociedade. Poucos sabiam da existência e localização daquele lugar, apenas o alto escalão, do qual ele fazia parte. Melhor operador de campo, melhor cavaleiro, o homem encarregado da missão mais importante do grupo, e que falhara vergonhosamente.
Desceu do avião por volta do meio dia e foi direcionado ao restaurante da propriedade. Comeu pouco, só havia ele no restaurante, fora os funcionários silenciosos e respeitosos. Quando terminou a refeição que era de um basicalismo constrangedor diante de tanta fartura, um homem muito bem vestido num terno escuro aproximou-se de sua mesa.
— Senhor Ikki, sou Valentine. Devo conduzi-lo ao porto. A reunião será lá. O senhor tem três minutos para ir ao banheiro.
Ikki não respondeu, ergueu-se e foi ao banheiro como orientado. Urinou, lavou o rosto e a boca, mirou-se no espelho e viu um homem diferente do que sempre foi: uma águia, a fênix. Ali, ele parecia mais um pássaro perdido no próprio voo.
Checou a arma automática que levava escondida na parte de trás da calça. Sabia que ali não teria possibilidade de usá-la. Aquela arma não era para A sociedade, era para Marduk. Acompanhou Valentine até um jipe e em alguns minutos eles atravessavam a imensa área do castelo até “o porto”, um grande bunker à margem de um lago cercado de residências suntuosas. O nome de “porto” fora dado porque era ali que deveriam ficar confinados os colaboradores feridos, fora de ação ou suspeitos de ações que contrariavam os interesses do grupo. Ikki já estivera ali, não para ser interrogado como agora, mas liderando interrogatórios. Ele estivera ali com Marduk, quanto este matara um dos hóspedes, ele estivera ali com os agentes descuidados que infiltraram Hank na organização.
Tomaram uma lancha e atravessaram o lago, chegando à outra margem. O local era de um bucolismo sofisticado, mas Ikki não teve tempo de admirá-lo, logo ele descia a escada que os levariam ao subterrâneo em direção à grande sala de reuniões. O jovem cavaleiro observava as portas, as celas, o símbolo impresso na madeira de lei: a águia romana.
Ikki empurrou a porta principal, Valentine já o havia deixado sozinho. As pessoas que ali deveriam estar já o esperavam em seus postos. Não havia o clima sombrio dos interrogatórios a inimigos. A sala era clara, bem decorada e um perfume adocicado pairava soturnamente no ar. Shion ergueu-se e o abraçou, batendo amigavelmente em seu ombro, Minos foi o segundo a cumprimentá-lo, apertando-lhe a mão de forma muito mais amigável que no último encontro. O terceiro homem era alguém que ele não via há muito tempo, e para ele estar ali, Ikki sabia que o assunto era gravíssimo. Ainda assim, Dohko também o abraçou e solicitou que ele se sentasse no lugar determinado. Embora houvesse atitudes afáveis, a tensão era muito bem percebida.
— Ikki, sabe por que está aqui — Shion começou. — Você desrespeitou uma ordem direta do alto-comando. Uma ordem minha.
O sorriso de canto de boca que Ikki deixou escapar deu a Shion a certeza de que o cavaleiro sabia que ele mentia. Ikki não seria o melhor deles se não soubesse que todos os movimentos dos últimos dias aconteceram aquém dos interesses de Shion.
— Surpreende-me saber que foi você a autorizar a tortura de um hóspede, Shion. Achei que depois do acontecido no caso Kappa, A Sociedade houvesse aprendido. Lembro-me que um dos regimentos diz que a tortura de inocentes é incompatível com as ideias do grupo.
Minos tamborilou na madeira da mesa e lançou um olhar rápido a Shion.
— O círculo autorizou que Phalke fosse posto na geladeira, contanto que a integridade física dele fosse garantida. Por isso ele ficou sob a tutela de Mu, mesmo que Hades coordenasse a operação, a pedido de Shion.
Ikki riu dessa vez, entendendo mais que nunca a rápida troca de olhares entre os dois homens.
— Shion nunca pediria isso a Hades. Por que não param com a encenação? Eu sei que a operação Nelumbo Nucífera foi extirpada de suas mãos, Shion. Sei que o meu alerta vermelho foi o motivo. Sei que O Círculo e o Alto-comando acharam que se o melhor de nós não conseguiu, precisavam de atitudes mais drásticas, e com isso eles e vocês jogaram na lama todos os ideais pelo qual lutamos, tudo! — O ódio e o desprezo se tornaram evidentes na voz do cavaleiro, mesmo que ela permanecesse tranquila como uma manhã de neve.
— Ikki, isso não é verdade — Shion tentou, mas a resposta foi um soco na mesa.
— Parem de mentir pra mim — Ikki disse entre dentes. — Nós deveríamos salvar pessoas e não torturar inocentes…. Eu me sinto cada vez mais enojado com as atitudes de vocês!
— Talvez Phalke não seja tão limpo e inocente quanto pense — Minos replicou.
— Nem tente — Ikki o encarou, feroz. — Eu o rastreei, o estudei, eu sei que ele é limpo. Limpo como nenhum de nós nunca será.
— Sim, ele é limpo — Dohko falou pela primeira vez. — Nós o sujamos. Nós devemos garantir que ele permaneça limpo. Ikki, nós podemos garantir que a partir de agora as coisas corram como deveriam. Foi um erro sem procedentes a volta de Marduk, foi um erro sem procedentes que Phalke tenha sido torturado e ferido. Entretanto, agora não podemos voltar atrás. Agora é mais do que crucial que Phalke esteja com a gente. Não sei o que poderá acontecer se ele não aceitar.
— Por isso precisamos de você — Shion disse, desviando o olhar para um papel à sua frente.
— Precisam de mim? Achei que estava aqui para ser desligado ou….
— Não — Minos o interrompeu. — Precisamos usar o vínculo emocional que você tem com Phalke — o espectro sorriu. — Ou você achou mesmo que conseguiu me enganar naquele interrogatório?
Dessa vez Ikki não achou palavras para contradizer aquela afirmação. Ajeitou-se na cadeira de forma cuidada, tentando não demonstrar o quanto aquelas palavras o deixaram desconfortável.
— O que chama de vínculo emocional?
— Creio que um beijo é um vínculo emocional muito forte.
— Estava fazendo o meu papel. Eu não estava livre para tentar seduzi-lo se fosse possível? — a voz era fria, mas ele inteiro tremia por dentro numa raiva que não identificava seu direcionamento, se era aos outros a si mesmo.
— Não acreditamos que fosse uma encenação. Você invadiu uma fortaleza guardada por 30 homens para resgatá-lo.
— Porque vocês o colocaram nas mãos de um psicopata, e eu não sou um monstro para ficar parado enquanto ele morria! O que esperavam que eu fizesse?!
— Esperávamos que você fizesse exatamente o que fez. Exatamente o que fez, Ikki. — Minos falou muito tranquilamente.
Ikki deu-se conta de que havia caído na cilada. Uma cilada. Shaka foi espancado, torturado e quase estuprado para que A Sociedade tivesse a certeza de que ele se importava? Chegar a essa conclusão fez com que Ikki tivesse vontade de sacar sua pistola e matar aqueles três homens. Sua raiva só não era maior que a sua decepção e isso pareceu estampar-se em seu rosto, pois Dohko e Shion trocaram olhares nervosos.
— Não foi dessa forma, Ikki. Minos fez parecer pior do que foi — Dohko tentou. — Não tínhamos ideia de que Hades chamaria Marduk. Nossa estratégia resumia-se à geladeira, o que já consideramos bem extrema.
— E fizemos com muito pesar — completou Shion. — Acredite quando dizemos que nunca tivemos a intenção de ferir Phalke.
— Não? Pois ao que me parece é que estavam muito mais preocupados com os resultados da missão do que com a integridade física dele. Vocês permitiram que um inocente morresse uma vez, por que não permitiriam uma segunda?
— Seria burrice. Investimos muito tempo em Phalke para descartá-lo — Minos replicou. — Não queremos que ele se machuque, Ikki, mas isso vai depender de você. Acredito que nessa altura dos acontecimentos, apenas você tem o poder de convencê-lo.
— Manipulá-lo, você quer dizer.
— Semântica — Minos sorriu sarcástico.
— Vocês não conhecem Phalke. Ninguém é capaz de manipulá-lo. Será que não leem relatórios? Foi por causa disso que ele foi escolhido, quero dizer…. Era o que eu achava, porque agora não sei mais.
— O que quer dizer?
— Nelumbo nucífera — Ikki falou muito calmamente, ajeitando-se na poltrona e cruzando os braços. — Acho que antes de prosseguirmos preciso de algumas explicações.
….
Shaka dormiu o resto do dia. Estranhamente, ele estava muito cansado e indagava-se se não havia contraído alguma virose durante aqueles dias. Acordara somente no meio da tarde, pegara um livro para ler e enquanto tentava se distrair, Faustine entrou no quarto com um lanche.
— Tem que comer, rapaz, ou não vai se recuperar. Como está se sentindo?
Shaka percebeu que as perguntas eram mais mecânicas que o normal, e ele sabia o motivo.
— Me sinto cansado.
— Precisa comer mais. Você não come o suficiente. Ikki pediu para que tomasse algumas vitaminas, estão aqui.
Shaka apenas pegou os comprimidos e virou nos lábios, sorvendo o copo de suco em seguida.
— Faustine, eu sei que viu…. Bem, o que acha que viu mais cedo não foi….
— Foi. E advirto, não faça isso, garoto. Não seria bom para nenhum dos dois.
— Como não foi pro Hank.
— Não se compare a Hank! Ele estava aqui com um propósito, seduzir Ikki! Você não é como ele, mas é ainda mais bonito e mais tolo. Ikki está fascinado por você, não porque você o lembre o Hank, mas porque você lembra tudo que Hank nunca foi e nunca será. E também tudo que o Ikki nunca foi e nunca será. Foi arrancado dele.
— Como assim? Onde está esse Hank? Ele foi morto? Ikki o matou? — a voz de Shaka soou um tanto assustada.
— Hank morto? Não. Ele está muito bem. Ele é parte. Um elo fraco, mas com garantia de que jamais abrirá a boca. Eternamente vigiado, eternamente inseguro. Uma sombra do jovem astuto e ambicioso que foi um dia.
— Então é isso que acontece com as pessoas que não aceitam seguir o que querem? São ameaçadas pelos restos de suas vidas? Destroem suas vidas? Como pode fazer parte disso? — Shaka sentia-se cada vez pior e indignado.
— Você não entende. Eu sei muito pouco, mas sei que isso que há entre vocês dois precisa parar, antes que eles descubram.
— Não há nada entre nós dois, Faustine. O que viu foi um momento, apenas um momento — Shaka falou, tentando manter a calma. — Se teme que eles me descartem por isso, e eu gostaria muito que isso acontecesse, não vai acontecer.
Faustine o encarou como se Shaka fosse a pessoa mais estúpida da face da terra, o que fez o advogado franzir a testa.
— Descartar você? Não. Descartar Ikki.
O advogado sentiu um frio na boca do estômago e não conseguiu evitar que a sensação ruim que sentiu escapasse por seus olhos.
— Creio que não haja mesmo com o que se preocupar — a voz de Shaka baixou dois tons. — Repito, foi apenas um momento.
Faustine ergueu-se da cadeira e deixaria o quarto, mas antes voltou-se mais uma vez para Shaka.
— Sabe o que Ikki fez com Hank quando descobriu as suas verdadeiras intenções? Ele o tratou como o pior dos seres, muito pior do que se trata um cão. Ele pôs uma coleira nele. Literalmente.
Shaka não respondeu, deixou que a mulher se fosse e terminou a refeição pensando naquilo. Faustine não era ingênua, ela percebia claramente que não havia nenhuma possibilidade de Ikki conseguir seu intento com ele. Obviamente, ela achava que, como Hank, Shaka estava jogando e, sendo assim, não demoraria a Ikki perceber isso. O advogado perguntava-se até que ponto ela teria razão, até que ponto ele estava disposto a ir naquele jogo perigoso. “Ninguém vai me colocar numa coleira…. Nunca!”. Deixou a bandeja na cômoda ao lado da cama, tentando precisar o horário. Pela altura do sol logo anoiteceria, mas ali não tinha relógios, rádios ou televisão.
Abriu o guarda-roupa e vestiu-se com o primeiro casaco que encontrou e saiu sorrateiramente do quarto. Ouvia as vozes de Faustine e Khan na cozinha, eles pareciam discutir, o que deu tempo para que Shaka vasculhasse as gavetas e locais próximos à procura de algo que ele sabia existir naquela cabana. Mas não achou o que queria, mas achou uma agenda em um dos quartos, ele pensou que deveria pertencer ao mordomo. Passou rapidamente as páginas e arrancou algumas, escondendo-as na roupa, depois deixou o quarto com cuidado, em direção à sala.
— O que está fazendo? — foi surpreendido quando abria alguns livros sobre uma prateleira.
Ele virou-se e encarou Khan.
— Procurando algo para ler, não posso?
O mordomo o encarou, desconfiado.
— Advirto, rapaz, que se está pensando em fugir, deixar essa cabana por essa mata fechada é suicídio. Nunca conseguiríamos encontrá-lo.
— Não pensei nisso —Shaka sorriu com ironia. — Mas preciso sair um pouco, tomar um ar.
— Tenho ordens do senhor Ikki para não o deixar sair sozinho.
— Então acompanhe-me. Preciso caminhar um pouco.
Khan bufou, tirou um relógio do bolso, consultou e só depois assentiu com a cabeça, saindo com Shaka pela porta central da cabana.
A mata cantava no final da tarde e a brisa se tornava cada vez mais fria. O céu carregado anunciava uma tempestade. Shaka observou a clareira por onde caminhava. Não seria possível escapar por ela, era uma mata muito fechada e provavelmente ele teria que caminhar quilômetros até encontrar uma estrada.
— Há alguma chance daquele homem nos localizar aqui? — indagou, olhando ao redor.
— Marduk? Não. Só o senhor Ikki sabe a localização dessa cabana.
— E como pode ter tanta certeza assim? Pelo que percebi, vocês têm muito recursos.
— Marduk não é um membro d’A Sociedade, senhor Phalke. Embora eu acredite que ele tenha algum recurso, não são como os nossos.
— Nossos? — Shaka riu. — Você se acha mesmo parte disso, não é? Será que não percebe que é apenas um fantoche?
— Suas ofensas não me dizem respeito — Khan riu. — Já terminou o passeio? Está frio, devemos voltar.
— Já, sim — Shaka sorriu. O homem permaneceu parado, esperando que ele prosseguisse, coisa que o jovem advogado demorou um pouco a fazer, observando o local.
— Senhor Khan, há mesmo um carro preparado para uma possível fuga, caso o Marduk ou qualquer pessoa indesejada apareça?
— Como sabe disso? Andou nos espionando?
— Investigando, é o meu trabalho.
— Senhor Phalke, advirto….
Antes que Khan pudesse concluir, Shaka, que andava lentamente, tropeçou e caiu com tudo ao chão. O mordomo rapidamente se agachou para ajudá-lo, grande erro, em resposta, recebeu um golpe na cabeça, golpe com uma pedra grande e eficiente, a qual Shaka já estava de olho desde que ali chegou.
Khan caiu, gemendo, Shaka rapidamente o golpeou novamente, com toda sua força, fazendo-o desmaiar, o sangue que verteu do ferimento espirrando no rosto claro do advogado. Quando o outro finalmente mostrou-se desacordado, ele o examinou à procura do que queria.
— Velho idiota! — Shaka resmungou, pegou as chaves do carro de dentro da roupa do homem desmaiado e começou uma corrida insana em direção ao outro lado da cabana, parando no píer e observando o lago. A água deveria estar a baixo de 12 graus, mas ele não tinha escolha, o carro estava estrategicamente parado na outra margem e Shaka não enxergava nenhum bote.
— Merda! — praguejou, tirando a jaqueta e os tênis que usava, mergulhando nas águas geladas em seguida.
Shaka era muito bom nadador, mas a margem não era próxima e mais uma vez ele estava debilitado. Todavia, a necessidade de fugir quando finalmente achava uma rota de fuga era maior que qualquer problema que enfrentava. Maior que a água gelada, maior que sua fraqueza física, maior que a dificuldade de respirar com aquela chave na boca. E ele nadou, nadou o mais rápido que pôde até chegar a outra margem e deixar-se cair sobre a terra fresca, retirando a chave da boca e arfando, puxando o ar desesperado para os pulmões. Pensou que não conseguiria, mas sua força de espírito não estava combalida como se supunha. Ninguém conseguiria quebrá-lo. Nem mesmo Marduk e toda sua torpeza e violência conseguiria quebrá-lo, e pensar nisso o fez mais forte e ele riu, ele riu porque finalmente sairia das mãos daquele grupo degradado e depois o caçaria até que todos estivessem atrás das grades.
Ergueu-se rapidamente e procurou o carro com os olhos. Ele estava muito bem escondido e protegido em um pequeno galpão de madeira entre as árvores, um galpão que à primeira vista seria entendido como uma simples casinha de materiais de pesca. Não havia tranca, então ele apenas empurrou o portão e ele se abriu, revelando o jipe blindado, Shaka sorriu, comemorando, abrindo a porta.
— Pare!
O barulho do engatilhar da arma fora ouvido antes do comando imponente. Shaka estava com a mão na chave, abrindo a porta, e seu cérebro demorou a entender que fora surpreendido em sua fuga e que agora tinha uma arma apontada para si. Virou o pescoço lentamente e seus olhos se prenderam aos de Ikki que apontava a arma para ele.
— Não vai atirar — Shaka disse, ainda com a mão na chave.
— Não seja estúpido, Shaka. Estará em perigo se sair daqui — o moreno declarou, a voz muito séria e inflexível. — Eu pedi para que não tentasse fugir, que diabos há de errado com você?! Será que é impossível seguir uma ordem!
Shaka não respondeu, sentia a respiração acelerada e as mãos trêmulas. A certeza de que Ikki não atiraria o levou a agir rápido, terminou de abrir o carro e precipitou-se a entrar nele.
— Mas…. que…. porra! — Ikki jogou a arma no chão e correu até o loiro, abrindo a porta e o puxando da direção antes que ele conseguisse dar a partida. Shaka foi jogado ao chão, e o carro fechado, logo que o moreno esteva com a chave no bolso. — Shaka, não…. Que merda, pare! — Ikki rosnou quando viu o advogado levantar e sair correndo em fuga. Ele o seguiu e não foi difícil alcançá-lo e derrubá-lo.
Shaka golpeava e se debatia, desesperado para tentar fugir dos braços de Ikki, lutava como um tigre enjaulado para fugir das mãos que o prendiam.
— Já chega, eu não quero machucar você! — Ikki gritou, prendendo os braços dele contra o chão. Fora uma sorte ele ter ido pelo lado oposto da cabana, simplesmente porque queria averiguar se estava tudo bem antes de simplesmente aparecer. Ikki tinha a posição e o respeito que tinha dentro do grupo exatamente por ser frio e prudente e nunca deixar as emoções interferirem de forma efetiva no trabalho. Nos últimos tempos, no entanto, todo o seu trabalho parecia ruir, o respeito, a posição e sua própria confiança. Shaka o estava derrubando, quando deveria ser o contrário. Shaka surpreendia-o a todo instante, Shaka guiava suas ações que passaram a ser meras reações a ele.
— Chega! — ele vociferou e nesse momento não sabia muito bem ao que dava um basta, se as ações momentâneas de Phalke ou se a tudo que ele representou até ali: sua queda.
Mirou-o com um olhar extremamente decepcionado, mesmo ferido.
— Não posso confiar em você. Não posso.
Havia uma dor genuína nas palavras. Dor que Ikki foi incapaz de conter. Era como se um abismo intransponível estivesse entre eles agora. Não havia mais chances de pontes, nenhuma.
Shaka o encarava com os olhos azuis ainda escurecidos pela adrenalina, o peito ofegante subindo e descendo, o rosto afogueado.
— O que espera de mim?! — ele indagou entre os intervalos de respiração. — Não vou ficar passivo enquanto decidem o que fazer da minha vida! Nunca! Nunca! Eu vou tentar, Ikki, e vou tentar até que vocês percam todos os motivos para achar que podem me controlar! Eu vou tentar até que vocês duvidem de todos os seus métodos e então me matem!
— É isso que quer?! Morrer?! — o moreno rosnou, sacando a arma que havia recuperado e colocando-a sob o queixo do advogado, que arregalou os olhos ao sentir o metal frio contra sua pele quente. — É o que quer, Shaka?! Quer que eu faça isso agora?! Quer?! Por que eu estou lutando feito um louco para mantê-lo vivo, seu filho da puta! Estou me entregando de bandeja aos abutres por você, por sua vida! Acha que eles vão deixá-lo escapar?! Acha que eles vão esquecê-lo?! Idiota arrogante!
Shaka crispou os lábios e segurou a mão de Ikki que segurava a arma, apertando-a.
— Atira! — demandou, entre dentes. — Atira, Ikki. Acabe com isso.
A expressão que tomou o rosto do moreno foi de terror e ele ficou encarando os olhos flamejantes de Shaka por um longo tempo, antes de recolher a mão com a arma e voltar a guardá-la.
— Não — disse com a voz vazia. — Eu vou defender sua vida, mesmo contra sua vontade. —Ikki ergueu-se e puxou Shaka pelo braço, empurrando-o a sua frente. — Não tente nada. Eu não vou matá-lo, mas um braço ou perna quebrados não serão problema pra mim. — A voz do moreno agora era dura e fria. Seu rosto sangrava, vítima dos socos e arranhões do advogado, mas ele nem sequer sentia isso; o abismo também estava em sua alma. Ele tinha uma missão ali. A Sociedade perdoou seus atos, mas queria resultados. Resultados que ele precisava obter logo. Não havia mais espaço para seus sentimentos ou de Shaka. Eles precisavam estar prontos.
Demorou uns vinte minutos e eles chegaram até uma parte do lago onde havia um pequeno barco a motor. Eles entraram e não demorou muito para chegarem ao píer da cabana. Ikki ajudou Shaka a subir e mais uma vez ele foi conduzido ao seu cativeiro.
— Eu matei o Khan — Shaka informou com a voz vazia, fazendo o moreno arregalar os olhos e segurá-lo pelo braço com força, forçando-o a encará-lo.
— Você o quê?
— Bati na cabeça dele com uma pedra, várias e várias vezes. Acho que ele morreu — A voz de Shaka era totalmente desprovida de emoção. Ele estava completamente vazio.
Ikki o arrastou pelo braço para dentro da casa, quase correndo. Empurrou a porta e a cena que viu o paralisou, mas também aliviou, era Khan sentado no sofá com uma toalha ensopada de sangue sobre a cabeça, enquanto Faustine tentava ajudá-lo.
— Graças a deus que chegou, Ikki, ele precisa de um médico, urgente! — a mulher disse, aflita, e então mirou Ikki e depois Shaka. — Parece que todos precisam….
Ikki finalmente deixou o braço de Shaka e se aproximou do mordomo, agachando-se ao lado dele.
— Khan, como se sente? Está tonto? Vomitou? — ele perguntava tudo com uma voz mansa, quase carinhosa.
— Não, senhor. Senhor, me perdoe, ele me enganou, ele….
— Não fale. Temos que cuidar disso. Você vai a um hospital. — Ikki pegou o celular descartável recém-comprado e mandou coordenadas para Aldebaran. — Vou levá-lo até a estrada mais próxima. O grupo mandará um carro para levá-lo a um hospital. Você vai ficar bem.
— Me desculpe, senhor, me desculpe — era a única coisa que Khan repetia.
Ikki afastou-se do mordomo e então voltou-se para Shaka, seus olhos mostravam uma fúria nova, e ele ergueu o punho.
— Não, Ikki! Não! — Faustine gritou, e ele recolheu o punho, não ousaria fazer o que tinha vontade, mesmo se ela não houvesse intervindo, pegando Shaka pelo braço e o empurrando em direção ao quarto.
— Ele vai ficar trancado, Faustine. Não quero que fale com ele, ninguém abre aquela porta a não ser eu! — ele ordenou.
— Ikki…
— Não ouse a me desobedecer — ele advertiu, empurrando Shaka para dentro do quarto. O olhar que lançou a ele levava uma mágoa tão profunda, que o advogado o evitou. — Eu não posso mais, Shaka. Se você não cooperar, as consequências não serão boas... — “Nem para mim e nem para você”, Ikki pensou cansado e trancando a porta, deixando o advogado no escuro.
Shaka sentou-se na cama. Sentia-se frustrado e vazio. Talvez houvesse perdido a sua última chance de libertação e qualquer paz que ele ousou sentir na presença de Ikki. Talvez houvesse partido um elo muito importante, mas estava seguro de que precisava tentar. Precisava continuar tentando.
Título: Quando o gato não está em casa, o rato passeia por cima da mesa.
Fale com o autor