Nelumbo nucifera

26 Res ab exitu spectanda et dirigenda est.


Notas iniciais
Olá, leitores queridos, tudo bem? Algumas palavras: Quando comecei essa história, a escrevia em parceria com a Lua Prateada que, infelizmente, não pôde continuar o projeto. Desde o capítulo 15, eu estou sozinha na missão de continuar a história. Não sou uma adolescente, tenho uma vida pessoal e profissional para cuidar, por isso nem sempre dá pra atualizar com a frequência que gostaria. Gostaria que vocês, leitores amados, entendessem que isso não é desrespeito ou falta de interesse por vocês. Fanfic apenas não paga salário e eu tenho que sobreviver. Conto com a compreensão de vocês. No mais, boa leitura e espero que deixem ao menos um review para essa autora que, acreditem, se esforça muito para não desistir desse hobby. Um grande abraço! Sion

Res ab exitu spectanda et dirigenda est.

Chapter XXVI

Shaka tomou banho depois que Ikki o deixou sozinho. Um banho demorado. Faustine ficou parada atrás da porta o tempo inteiro em silêncio. Ele sabia que ela o vigiava, afinal estava descumprindo uma ordem do chefe ao deixa-lo sair para tomar banho. Ikki havia sido categórico em dizer que ela não deveria abrir a porta. Com certeza, pensava que ele seria uma ameaça para a mulher, depois do que ele fizera com Khan. Shaka perguntava-se em que momento se tornara tão frio. Ser capaz de deixar um homem velho naquela situação, agora, após a adrenalina baixar os níveis em seu corpo, deixava-o chocado. Completamente chocado com as próprias atitudes.

Durante toda a sua vida, Shaka foi adepto de reações pacíficas para resolver as situações. Conhecia-se muito bem, sabia que tinha uma personalidade agressiva e até por isso trabalhara a vida inteira para controlar seus instintos. Na escola, por exemplo, ele era o garoto rico, popular e brilhante, e enquanto muitos dos colegas usavam isso para tirar proveito de outras pessoas e mesmo promover bullying, ele defendia os mais fracos. Todos amavam Shaka Phalke, todos esperavam que ele realmente se tornasse um astro. Bom nos estudos, bom nos esportes, confiante e generoso, Shaka era antes de tudo um solitário. Entre tantos vínculos que tinha, nenhum ultrapassava a superficialidade. Ele venceu a vida escolar sem romances ou grandes amizades. Talvez porque no fundo sentisse medo que as pessoas vissem aquele outro lado dele; percebessem que o garoto brilhante e bem ajustado tinha um monstro feroz e primitivo dentro de si.

Ele terminou o banho e voltou para o quarto sob o olhar atento de Faustine. Ela voltou a trancar a porta, deixando-o sozinho. Na mente de Shaka, as imagens dos acontecimentos recentes se repetiam. Ele vestiu-se numa regata, uma camiseta, uma calça de moletom e meias. Os cabelos úmidos espalhavam-se por suas costas e faziam com que sentisse frio.

A lembrança da sua mão segurando a pesada pedra, a lembrança do sangue espirrando em seu rosto. A lembrança do prazer sádico que sentiu. Nenhum arrependimento. Nenhum choque. Fechou os olhos para fugir daquelas lembranças, mas elas não estavam em seus olhos. No que ele estava se transformando? Ele mataria um homem! Ele seria um assassino!

Shaka queria dormir, mas não conseguia. Envolveu-se no edredom e encolheu-se na cama. Precisava dormir.

Era tarde quando Faustine bateu à porta e entrou com uma bandeja.

— Não estou com fome — ele disse, baixo.

— Precisa comer, rapazinho. — A mulher insistiu. — É coisa pouca, um caldo e um chá, venha, por favor. Se vou ouvir do Ikki por ter aberto essa porta, que pelo menos isso valha a pena.

Shaka sentou-se na cama e resolveu comer, mesmo que não sentisse fome.

— Quando terminar, me chame — Faustine disse e sairia se Shaka não a interpelasse.

— Acha que sou um monstro? Um monstro, pelo o que fiz? — Ele perguntou, angustiado. — Eu... Eu não sei no que estou me transformando, Faustine... Estou com medo de ser... de...

A mulher se voltou para ele, séria.

— De ser como nós? — Faustine sorriu. — Está com medo de pensar que os fins justificam os meios como boa parte d’A Sociedade pensa? Mas você não é assim, rapaz. Quem agiria diferente na sua situação? Estava tentando sobreviver. Como todos nós. Eu só quero que saiba que, aqui, você é mais que um prisioneiro, Shaka. Aqui está seguro.

— Mais que um prisioneiro? — Shaka riu. — Não.

— Ikki realmente se preocupa com você. De verdade. Não sei o que seria de você se ele não se preocupasse.

— Sou um meio, Faustine. Apenas um meio. Não sou uma... pessoa pra ele.

— Como você pode ser tão inteligente e tão cego? — Faustine riu. — Ele arriscou a cabeça dele por você. Não tem noção do quanto ele está arriscando por você. — A voz de Faustine soou um tanto irritada. — Quando terminar, me chame. — Ela saiu, fechando a porta.

Shaka respirou fundo. Tinha vontade de gritar, de jogar aquela louça na parede. Contudo, reconhecia que precisava de calma, muita calma para seguir a partir dali. Mas para onde seguiria? Não sabia mais o que fazer, não sabia como agir a partir daquele ponto. Perdera a pouca confiança que Ikki nutria. Agora o outro o veria como um inimigo, e Shaka não fazia ideia de como resolver isso. Fugir, ao que parecia, não era uma opção. Estava total e completamente ferrado.

Era muito tarde, ele resolveu dormir, mas não conseguia. Os únicos barulhos ouvidos eram os da mata e algum latido de Falcon, que se distraía com os insetos que via pela tela da janela. Ele rolava de um lado a outro da cama. Precisava, deuses, como ele precisava dormir! Mas não conseguia.

Ergueu-se da cama e começou a andar pelo quarto, tentava descarregar a tensão. Foi quando viu uma luz passar ao lado da sua janela. Shaka ficou alerta, escondendo-se no escuro. Ele podia perceber que pessoas cercavam a casa.

De repente, a porta do seu quarto foi aberta e uma Faustine armada com um revólver, completamente descabelada e trêmula entrou no quarto.

— Eles estão aqui! Eles estão aqui! — Ela sussurrava, aflita.

Shaka não entendeu de quem ela falava. Eles quem?

— Precisamos fugir! — A mulher dizia quando a porta foi arrombada e quatro homens armados com rifles e lanternas adentraram o quarto.

Faustine apontava a arma de um para o outro, apavorada.

Os homens miraram nela. Shaka percebeu que Faustine seria facilmente eliminada ali.

— Parem! Deixem-na! Eu vou com vocês! — ele disse, desesperado, tomando a frente da mulher. — Mandaram me levar, não foi isso? Eu vou. Deixem-na.

— Não, não vai! — Faustine ainda tentou, as mãos trêmulas segurando a arma.

— Largue a arma, Faustine! — Shaka aproximou-se dela e abaixou a arma lentamente, depois tomou a arma da mão dela com cuidado e apontou para a própria cabeça. — Não a matem e eu vou com vocês, se fizerem mal a ela, eu me mato. Sei que A Sociedade me quer vivo, não é?

Os quatro homens se entreolharam. Shaka não sabia quem eles eram, nunca os tinha visto antes. Perguntava-se se eram mais homens daquela estranha organização chamada de A Sociedade. Eles eram sutis e bem treinados ao que parecia.

— Eles não pertencem À Sociedade, Shaka — Faustine murmurou, vencida. Mas os homens já haviam dominado o advogado.

— Entregue isso ao seu chefe — Um deles jogou um papel para ela, antes de fazer um sinal para que os outros saíssem, levando Shaka.

Faustine pegou o papel e o apertou com força nas mãos. Shaka passou pela mulher que estava desolada. Ainda mantinha a arma na própria cabeça e a manteria ali até que os homens estivessem longe. Não arriscaria a vida de Faustine. Se fora capaz de quase matar Khan, era um alívio pensar que poderia ser altruísta e salvar alguém.

Os homens não pareciam mesmo interessados em Faustine. Eles andaram com Shaka por uma trilha recém-feita na mata, já a certa distância da cabana.

— Estamos longe o suficiente, me dê a arma — um dos homens disse, ele mesmo retirando o capuz, contudo, era impossível ver-lhe o rosto.

Shaka mirou o caminho, a respiração alterada pelo nervosismo. Entregou a arma a ele, devagar. Com a mesma arma, o homem o atingiu na cabeça e Shaka apagou.

Quando o advogado enfim despertou, estava em um quarto sujo, escuro e não era possível saber se a escuridão era proveniente de um aposento sem janelas ou se ainda estava numa mata fechada. Homens, que pareciam aguardar que ele acordasse, assim que o notaram desperto, pegaram-no pelos braços e o arrastaram para fora dali.

Era uma casa muito rústica, suja e escura. Levaram-no por um corredor cujo chão era revestido de madeira podre até chegarem a uma espécie de sala principal, iluminada basicamente por uma lareira velha. Havia muitos homens ali, alguns bem grosseiros e outros mais parecidos com soldados profissionais. Jogaram Shaka frente a quem parecia ser o líder do bando.

Imediatamente, mesmo na pouca luminosidade, Shaka o reconheceu; mais velho que os demais, de cabelo e barba prateados, forte e cheio de cicatrizes, com uma em especial chamando mais a atenção, que cruzava praticamente seu rosto inteiro.

— Olá, bonitinho, sentiu minha falta? — Marduk começou a falar com uma voz nauseante — Seja bem-vindo. — Sorriu com seus dentes amarelos.

Shaka fechou os punhos, os olhos azuis completamente arregalados, o coração parecendo que sairia pela boca. Estava em total horror agora. Ele ficou sem voz de tão apavorado com as lembranças da tortura que inundavam a sua mente.

— Vejo que ainda não superou nosso último encontro — Marduk disse, devagar. — Perdoe-me, mas naquele momento, eu precisava de uma atitude drástica. Agora... Bem, acho que agora podemos ir com mais calma. Vamos conversar, bonitinho.

Ele avançou e Shaka recuou, mas dois homens o empurraram em direção a Marduk. Ele então ficou parado, trêmulo, completamente gelado naquele momento.

Marduk parecia avaliar Shaka da cabeça aos pés, sempre com um sorriso desagradável no rosto.

— Ikki já deve ter falado sobre mim, não é? Quem eu sou pra ele. Como nossos caminhos se cruzaram. Saiba que é por causa dele que está aqui.

— Não. Ele não me disse nada sobre você — Shaka falou, tentando manter o mínimo de firmeza na voz.

— Interessante. Então Ikki nunca falou de mim para você? Nem depois de tudo? — Ele olhou para o bando ao redor e esbravejou — Eu não devo ser importante o suficiente para ele sequer comentar a meu respeito para o namoradinho. Mas tudo bem, você vai saber o quanto eu sou importante. Ele pode não me achar importante suficiente para dizer ao namoradinho que fui eu quem ensinou tudo para ele, mas você vai saber, ele queira ou não. É a segunda vez que ele atrapalha meus planos. Mas agora eu tenho algo dele. Algo que, ao que parece, é muito valioso para ele... — Marduk sorriu, aproximou-se de Shaka e tocou-o no rosto. — Como eu não percebi que você... Ah, você... Como não percebi que era você que ele queria e não a mim? Que aquela visitinha que tanto me atrapalhou tinha outros propósitos? Ah, bonitinho, você conquistou a minha pequena máquina executora...

Shaka estava estático e gelado. Seus instintos todos lhe diziam para sair correndo, lutar, morder, fazer qualquer coisa para aquele homem parar de tocá-lo, mas ele não conseguia nem se mexer.

— Diga-me, bonitinho... O que Ikki irá pensar se eu resolver ultrajar o namoradinho dele? — Marduk sacou uma enorme faca afiada da calça e começou a exibi-la para Shaka. — Ele me atrapalhou pela última vez...

— Você está errado. Eu não sou o namoradinho dele, eu sou um prisioneiro. Ele me sequestrou e me mantêm preso. Eu não tenho nenhum valor sentimental para ele. Eu só quero ir embora... Você sabe que eu só quero ir embora! Sabe que sou um prisioneiro! — Shaka começava a entrar em pânico. — Você sabe! Eles mandaram que me torturasse! Eu não sou namoradinho de ninguém!

Marduk o examinava atentamente; bonito, cheiroso, altivo, todo dono de si. Parecia ser o tipo exato de homem que Ikki escolheria para se relacionar. “Águias não caçam moscas”, ele ensinara aquele ditado ao jovem Ikki, quando ele ainda estava aos seus cuidados, e quanto mais Shaka negava, mais certeza ele tinha de que ele era amante do seu pupilo rebelde. Ou poderia ser ainda melhor que isso; ele era o homem por quem Ikki estava apaixonado, mesmo que não soubesse.

— Bonitinho, não negue. Eu conheço Ikki. Ele não se arriscaria do jeito que se arriscou para salvar um mero hóspede. — Riu. — Ele não desafiaria as ordens d’A Sociedade por qualquer um. Você deve ser bem especial para ele. E infelizmente hoje você irá descobrir o preço de ser esse alguém especial para o homem que eu mais detesto nesse mundo. Seu namoradinho achou que conseguiria se esconder de mim para sempre? Ele se enganou. Ele feriu o meu orgulho, feriu a minha mão... Mas ele vai receber uma dura lição hoje. Olho por olho, dente por dente. Eu vou ferir o orgulho dele também. Vou tomar para mim o namoradinho dele, tão bem tratado, e vou marcá-lo para sempre. — O homem alisou a faca e lambeu os beiços — O que pensa disso, bonitinho?

Shaka mordeu os lábios que tremiam horrivelmente.

— Está cometendo um erro. Sou importante para A Sociedade e não para Ikki. Eu posso provar. Eu conto tudo, tudo que sei, se você... Se você... Me deixar ir... Se prometer que não vai me machucar... — Shaka fechou os olhos com força, sentindo-se extremamente humilhado e apavorado naquele momento.

Marduk franziu as sobrancelhas. Na verdade, ele pouco sabia sobre quem era Shaka, não era homem de ficar pesquisando nada, mas sabia que ele era muito, muito importante dentro do esquema d’A Sociedade. Fora readmitido por Hades para fazer um trabalho; convencer aquele homem a servir, nada mais que isso. Pouco se importava em saber quem era Phalke, embora o seu informante lhe tenha dado detalhes sobre ele e sua importância. Marduk estava na mansão novamente, e não pretendia sair dela sem a vitória, sem voltar a ser senhor daquele lugar. Mas Ikki o atrapalhou mais uma vez, e ele passou dias perguntando-se o porquê. A Sociedade o havia dispensado novamente, ameaçado, coagido. A Sociedade novamente lhe virava as costas. Agora ele tinha uma arma contra ela e contra Ikki. Queria provar que era o melhor. Queria voltar para aquela mansão.

Marduk, contudo, era um homem grosseiro e vingativo, que muitas vezes se rendia mais às emoções que a razão. Ele queria uma vantagem sobre A Sociedade, mas ele também queria Ikki. Queria ferir Ikki como Ikki o feriu por diversas vezes. Queria a queda de Ikki e nada seria melhor que foder o amorzinho dele, ultrajá-lo, destruí-lo e jogar os pedaços nos braços do seu inimigo.

Ele riu, olhando para Shaka.

— Você vai me contar tudo. Contar tudo, enquanto eu te fodo como uma cadela e te furo com a minha faca tantas vezes que não vai restar nada de você.

— Não... não... — Shaka balbuciou, sentindo-se mergulhar em desespero.

— Marduk! — a voz autoritária de Ikki ressoou na casa velha.

O cavaleiro havia voltado com Khan para a cabana e encontrara Faustine aos prantos. A mulher lhe entregou o bilhete com o endereço, e ali estava ele. Faustine e Kahn estavam retornando à mansão, depois do seu acordo com A Sociedade, se é que poderia chamar aquilo de acordo, e ele estava ali para buscar o seu hóspede, houvesse o que houvesse.

Ikki era escoltado por dois homens. Marduk o queria vivo e desarmado. Ele vinha desacompanhado de seus usuais seguranças, como fora exigido, mas não vinha amarrado ou amordaçado. Caminhava livre, com suas roupas elegantes de antes, as mãos nos bolsos da calça. Toda a velha imagem de poder sendo necessária para intimidar o inimigo. A imagem do homem que A Sociedade fabricara.

— Sabe que ele é importante para A Sociedade. — Ikki falou sério e autoritário. — Trago um recado d’O círculo; se o machucar, eles vão caçá-lo. Você quer se vingar de mim, não atrapalhe os planos d’A Sociedade por isso.

Marduk sorriu assim que viu o outro aparecer.

— Ah, Ikki... O filho pródigo à casa retorna... Quero dizer, não à nossa casa, porque nossa antiga sede, você destruiu... Como foi mesmo? — O homem coçou o queixo com a ponta da faca. — Ah, sim! Você incendiou tudo! Achou que acabaria comigo, não? Acontece, garoto, que se hoje você tem fama de renascer das cinzas, se hoje é temido por tantos inimigos, que há quem pense que você seja imortal, porque nunca conseguem dar um fim em você... Não se esqueça... Você aprendeu tudo comigo! Eu também sei voltar dos mortos... Eu também quero minha vingança.

Ikki olhava sério para Marduk.

— Eu não sou mais um garoto. E nunca tive medo de você, Marduk. Quer resolver nossas diferenças? Ótimo. Mas vou repetir, deixe o advogado ir embora. Ele está sobrando aqui. Eu estou aqui, desarmado, seus capangas podem confirmar. Mas A Sociedade quer Phalke. Um cavaleiro pode ser substituído, ele, não. Acho que isso mostra a briga que vai comprar se o ferir. Por que você acha que eles me autorizaram a destruir sua operação louca?

Marduk demonstrou certa dúvida. A Sociedade era poderosa demais para que ele comprasse uma briga direita. Ele queria se vingar dela também, mas Ikki ainda era o seu alvo principal. Ele lançou um olhar analítico para Shaka, desconfiado.

— Não sei... Por que eu faria algo que você está me mandando fazer? É de se desconfiar... e você, bonitinho... Eu sei do seu valor para A Sociedade. — Tocou o rosto de Shaka com os dedos calejados e voltou a encarar Ikki. — Assim como sei que foi A Sociedade que mandou que incendiasse nossa sede e tentasse me matar, Ikki. — Sorriu com os dentes amarelados e quebrados para Shaka novamente. — Ele te contou isso, bonitinho? Contou que tentou matar o próprio mestre? A pessoa que o ensinou, o resgatou?

— Não conte mentiras estúpidas, Marduk. — Ikki riu. — Hades te contou muitas mentiras, já sabemos disso. Saiba que ele está preso e que eu estou reassumindo a operação. Se tocar em um fio de cabelo de Phalke ou no meu, O círculo irá caçá-lo. Quer arriscar?

Marduk sabia que não deveria comprar briga com A Sociedade. O grupo era perigoso, articulado, uma ameaça para ele e seus negócios. No passado, entrar para A Sociedade era uma forma de manter seus negócios escusos protegidos e ter todo o luxo e prestígio que sua posição lhe proporcionava. Agora, voltou por um pedido de Hades, alguém com quem nunca deixou de manter certo contato. Hades deixava claro o desprezo que sentia por ele, mas o considerava um mal necessário. Marduk preferia confiar mil vezes nas palavras de Hades que na de Ikki.

— É mesmo, Ikki? — falou Marduk, em um tom desconfiado — Essa história está muito mal contada. Você insiste para que eu o liberte, entretanto afirma que ele não representa nada para você. É isso mesmo?

— É, sim. — Reafirmou Ikki, encarando os olhos negros de Marduk. — Você conhece as regras que sigo, Marduk. Acha mesmo que eu repetiria um erro? — Ikki sorriu. — Acredita mesmo nisso?

Marduk sorriu mais abertamente.

— Então, Ikki..., você não se importa se eu fizer algumas coisas com ele. Importa-se? Eu posso devolvê-lo inteiro para O Círculo, mas antes disso, posso brincar com ele, você sabe, as tarântulas gostam de brincar com suas presas... Envolvê-las lentamente em sua teia... Provar...

Ikki hesitou um momento antes de responder.

— Não me importo. Mas é perda de tempo. Sem contar que você sabe as regras d’A Sociedade para esse tipo de coisa. É melhor que deixe Phalke ir sem tocá-lo.

Marduk colocou a faca no pescoço de Shaka, ainda olhando para Ikki.

— Sabe que eu pouco me fodo para os princípios d’A Sociedade — ele disse e voltou-se para Shaka. — Não se mexa, bonitinho... Essa faca é bem afiada...— e segurando rudemente Shaka pela nuca, lambeu o rosto dele, de forma voluptuosa, para depois lamber também o pescoço e tentar tomar o outro em um beijo forçado e hostil, com sua língua forçando para invadir violentamente a boca do advogado.

Shaka quase vomitou ao sentir o hálito fétido do homem e moveu o pescoço de um lado a outro para se livrar dele o que fez a ponta de lâmina afiada ferir seu pescoço. Ele não conseguia parar de se debater e tentar lutar, mas estava fortemente preso. Marduk era muito forte.

Shaka gritava: Não! Não! mas suas súplicas eram abafadas pela boca rude de Marduk. Ele grunhia de raiva, medo e nojo, tentando fugir dos lábios asquerosos daquele homem, mas ele não parecia disposto a soltá-lo, o que tornava seu desespero sufocante e insuportável.

— Pare com isso, Marduk!!! — Ikki acabou falando mais nervoso, a máscara de frieza e controle rachando, o que pareceu agradar muito ao líder do bando.

Marduk afastou os lábios de Shaka, mas continuou com ele preso pela nuca e com a faca no pescoço dele.

— O que foi, garoto? Ele é só o objeto de uma transação. Você não precisa se preocupar com ele... Não é mesmo? — Marduk, parecendo enxergar nos olhos de Ikki algo que ele esperava ver, sorriu e voltou a olhar para Shaka. — Mas como é rebelde... — disse por entre os dentes e o puxou para si. Por mais que Shaka se debatesse, o homem era forte e conseguia subjugá-lo. Forcejava para beijá-lo e começou a acariciá-lo agora, com a mão livre. Desceu então a faca e começou a rasgar a camiseta que o advogado vestia, e tão sussurrou no ouvido dele — O que acha, bonitinho? Não quer ficar mais à vontade...? — Perguntou e forçou um contato mais abrupto e íntimo.

Shaka mal conseguia falar. O pânico o havia paralisado agora. Ele sentia a faca descer por seu corpo trêmulo e não conseguia ver mais nada. Depois da paralisia, a adrenalina começou a circular por seu corpo. Não podia ser subjugado daquela forma, abusado daquela forma. Cuspiu na cara de Marduk, sacudiu-se, gritou, grunhiu como um animal ferido, tentando morder e arranhar.

Com a movimentação de Shaka, a faca que Marduk segurava acabou abrindo um corte em seu próprio braço. O bandido zangou-se com isso e deu um bofetão no rosto do advogado, deixando que ele caísse ao chão.

— Verme... — resmungou, enquanto analisava a ferida.

Tudo foi muito rápido. Por alguns segundos, Ikki não reagiu àquilo, tentando manter a máscara, embora seu coração estivesse tão acelerado que ele sentisse como se fosse enfartar. Quando Marduk jogou Shaka no chão, Ikki deu um passo à frente e falou:

— Está bem, Marduk. Está bem. Chega, você venceu. —O moreno parecia tentar manter uma força que não sentia e sua voz denotava isso, pois saía trêmula de raiva. — Solte-o. Eu faço o que você quiser, mas você vai soltá-lo. Agora. Vai deixá-lo sair daqui, em segurança. Agora!

Marduk sorriu, alisando a ponta de sua faca.

— Quem você pensa que é para me dar ordens, garoto?

— Alguém que vai lhe dar muito trabalho se você ousar encostar nele de novo. Eu só vou dizer mais uma vez. Solte-o ou então eu vou dar motivos para você se lembrar do porquê de não ter conseguido me esquecer até hoje. — Ikki foi firme nessa fala e Marduk deixou de sorrir com esse comentário.

O bandido pensou que mesmo que fosse agradável infringir todo o tipo de dor àquele garoto insolente, ele não queria comprar uma briga grande demais com A Sociedade. Já compraria por matar sua máquina executora. Mas Phalke era grande mais para ele.

— Está bem. Vamos acertar nossas contas, Fênix — concordou, fazendo uso do nome pelo qual Ikki começou a ser famoso no submundo do crime. Nome que era hoje muito conhecido pelos homens importantes desse submundo, marcado pela sua característica de nunca ser pego ou morto pelos inimigos. Por inúmeras vezes, tinha sido dado como morto, mas sempre regressava. Marduk fez um sinal de cabeça para os homens que durante todo aquele tempo permaneceram cercando Ikki. — Levem o advogado. Eu direi para A Sociedade onde resgatá-lo depois. — Dizendo isso, os homens de Marduk pegaram Shaka pelos braços e começaram a arrastá-lo para fora da casa. Mas, quando passaram por Ikki, o cavaleiro lançou um olhar indecifrável a Shaka. Assim, arrastado, o futuro promotor foi levado para fora, num lugar que parecia ser uma mata densa e frondosa. Já era noite e havia muitas estrelas no céu, mas a mata era escura. Os homens o jogaram para fora da casa, uma casa que parecia um casarão abandonado no meio do nada.

— Fique aqui! — um deles disse, ouvindo barulho dentro da casa e sacando as armas, começando a andar em direção a ela.

Shaka caiu na terra úmida e sentiu uma fisgada forte no tornozelo. Seu pescoço sangrava e tudo era escuridão e frio. Pensou em correr dali, mas para onde iria? Não sabia onde estava. Ergueu-se e pensou em voltar. Ikki estava lá dentro, ele estava em perigo. Shaka pensou em correr para dentro da casa, mas parou no meio do caminho, confuso. O que estava fazendo? Aquela era sua chance de escapar daquilo, ele não tinha nada a ver com a briga daqueles homens. Por que estava preocupado? Sim, Ikki havia salvado sua vida, sua sanidade mais uma vez, mas ele não tinha dívidas com ele, não tinha! Shaka não sabia o que fazer, estava apavorado, total e completamente apavorado. Ele queria fazer alguma coisa, mas não queria voltar a se aproximar de Marduk. Ele queria ficar e queria fugir.

Por fim, seu instinto de sobrevivência venceu. Ele nada poderia fazer para ajudar Ikki, nada. Saiu praticamente correndo para longe da casa. Foi quando ouviu um barulho muito alto. Voltou-se e viu parte de a construção de madeira ir pelos ares. Shaka sentiu um frio na alma, ficando parado, estático mirando aquilo.

Ele viu alguns homens saindo da casa, tossindo, havia muita fumaça. Só então, ele se pôs a correr para dentro da mata. Contudo, acabou perdido. Estava escuro, ele não sabia onde estava e não conseguia ver nada, só ouvir os barulhos aterradores da mata. Correu, caiu, agora estava perdido, ferido, o corpo arranhado por cipós e espinhos. Parou, recostou-se numa árvore e grunhiu de raiva, dor e desespero. Não queria pensar em seus sentimentos e na vontade idiota de voltar àquela casa abandonada e... Deuses! O que estava pensando que poderia fazer? Já nem sabia se acertaria o caminho de volta. Estava perdido.

Shaka estava recostado à árvore, a respiração dele fazia uma fumaça gelada subir. Estava muito frio e ele estava de camiseta e meias. Sentia-se tão cansado. Seu pescoço havia parado de sangrar, mas ainda ardia, lembrando-lhe do ocorrido há alguns minutos. Ele não podia fazer nada. Não podia. Ele tinha apenas que tentar sobreviver.

De repente seu braço foi preso por uma mão forte e possessiva. O primeiro instinto de Shaka foi lutar, apavorado.

— Não grite! — Ikki fez um sinal para que ele permanecesse em silêncio, tapando os lábios dele antes que o advogado cedesse ao impulso de gritar, tirando a mão lentamente em seguida. — Sou eu. Vem comigo. — Fez sinal para que o loiro o seguisse, mas percebendo a sua leve hesitação, acrescentou — Eles estão procurando por mim e por você. Se ficar aqui, vão capturá-lo de novo. Marduk quer feri-lo, Shaka. Ele quer machucá-lo por minha causa. Considere-me o seu inimigo conhecido. Sabe que Marduk pode ser bem pior que eu. — Fez novamente o sinal para ser seguido e começou a caminhar em frente. Precisava tirar Shaka dali. Mantê-lo vivo e a salvo era a sua nova missão.

Título: Antes de entrar, pense na saída.

Notas finais
Obrigada a todos que passaram por aqui. Deixe um comentário dizendo o que achou, certo? É de graça! XD. Um grande beijo!