Nelumbo nucifera
27 Nemo infelicitati propinquior, quam nimis felix
Notas iniciais
Nemo infelicitati propinquior, quam nimis felix
Chapter XXVII
Ikki conseguia seguir rápido, mas mancava um pouco e segurava com força parte do braço esquerdo, que estava ferido e sangrava. As roupas estavam bastante sujas de sangue e terra, assim como seu rosto. Não era difícil perceber, no entanto, que boa parte daquele sangue não era dele. Ele e Shaka seguiram silenciosos pela escuridão, mas Ikki parecia conhecer bem o lugar. Guiava-se pelas árvores e pelas estrelas, quando conseguia enxergar o céu. Depois de um bom tempo apenas caminhando, não trocando qualquer palavra, finalmente chegaram a um chalé bem escondido na mata densa. Ikki soltou um suspiro de alívio quando encontrou o lugar. De um dos bolsos da calça, retirou uma chave e abriu a porta. Abriu passagem para que Shaka entrasse e trancou o lugar. A adrenalina corria por suas veias e ele estava alerta para qualquer sinal de perigo.
— Aqui vamos estar seguros ao menos até amanhecer. — Mancando, ele seguiu até o sofá. Era um chalé aconchegante, mas bastante simples e não muito grande. Ikki percebeu que Shaka observava o local e explicou: — Esse é um lugar que ninguém conhece. Não é tão longe do local ao qual Marduk te levou e não estamos tão longe da mansão, mas se fôssemos caminhando, demoraríamos mais umas quatro, talvez cinco horas para chegar lá. — Percebendo ainda que o loiro parecia algo inseguro daquela situação, ele acrescentou: — Marduk e seu bando não conhecem essa região. Eles não são daqui. Vieram aqui atrás de mim, acamparam naquele lugar, mas não conhecem a região. Ele nunca se deu ao trabalho de explorá-la e ninguém conhece essas matas tão bem como eu, pode ficar tranquilo, ele não vai nos achar aqui. — Dito isso, Ikki rasgou a calça que já estava aberta, e revelou uma ferida com faca. Soltou um breve gemido de dor, mas com a calça rasgada, amarrou a perna, tentando estancar o sangue. A luta com Marduk não tinha sido fácil. A sorte era que ele era muito melhor treinado do que a maioria dos homens que ali estavam, então ele aproveitou a única oportunidade que teve, desarmando um deles e se apropriando de uma granada de mão. Ele lutou com Marduk, o que resultara nos ferimentos, atirara em outros, ferira o ex-companheiro e fora ferido por ele, mas conseguira escapar. Todavia, agora tanto ele quanto Shaka estavam sendo caçados. Ikki sentia-se extremamente cansado e, feito o torniquete na perna, deitou a cabeça, apoiando-a no sofá. Estava exausto demais para se preocupar com o fato de mostrar-se vulnerável frente a Shaka.
Shaka, por sua vez, estava vulnerável demais para notar a vulnerabilidade do outro. Afastou-se um pouco de Ikki e sentou-se perto de uma parede. Abraçou os joelhos, trêmulo, fechando os olhos. Sentiu uma vontade insana de abraça-lo quando Ikki apareceu. O susto e a possibilidade de ser o asqueroso Marduk fizeram um alívio tão profundo o dominar que sua vontade foi abraçá-lo e chorar em seu ombro, o que era extremamente irônico, visto que havia algumas horas, tentara fugir desesperado daquele mesmo homem que, naquele momento, era o seu salvador. Lá estava ele novamente com seu algoz e sentia-se seguro. Tal fato era perturbador demais para Shaka. Por isso, o melhor era se manter longe, encolher-se num canto e tentar não pensar em nada. Shaka sentia uma imensa vontade de chorar e chamar por sua mãe naquele momento. Era a única coisa da qual tinha vontade. Era ridículo, e ele tentava calar o garotinho assustado dentro do peito, sendo o advogado acostumado ao perigo. Mas na atual conjectura era um tanto difícil. Reconhecia, entretanto, que sua mãe estava morta há muito tempo, e que ele não era mais um garotinho. Precisava recuperar-se e agir. Mas naquela noite, não.
Ikki olhou para o lado e percebeu as condições em que o outro estava. As roupas de Shaka pareciam úmidas e a noite era fria. Devagar, Ikki levantou-se e foi até a lareira da pequena sala. Havia já madeira ali e o moreno apenas precisou acender o fogo e atiça-lo, logo havendo chamas.
— Venha se aquecer. — Ele disse, enquanto caminhava até um corredor. Foi até o banheiro do chalé e tirou dali uma caixa de primeiros socorros. Estava cansado, havia conseguido fugir do cerco de Marduk e de seu bando, mas não tinha sido fácil. Depois, precisou se embrenhar na mata para despistá-los e também não foi fácil rastrear Shaka. Mas agora estavam seguros. Precisava apenas cuidar para se restabelecer e ver como lidaria com essa nova situação. Amaldiçoou-a mentalmente. Era um péssimo momento para Marduk reaparecer em sua vida... Mas é como seu antigo chefe dissera; ele lhe ensinara a arte de regressar dos mortos.
Ikki limpou sua ferida com água corrente, da pia do banheiro e fez curativos em sua perna e em seu braço. Lavou o rosto e voltou para a sala. Shaka tinha ferimentos e precisava de curativos também.
Depois que Ikki saiu da sala, Shaka fez o que ele mandou, indo para perto da lareira, afinal estava quase congelando. Ergueu as mãos trêmulas para perto do fogo tímido que se iniciava, depois passando-as sobre os braços para se aquecer. Sentia-se tão inseguro agora, tão vulnerável. Uma criança patética e amedrontada.
Ikki aproximou-se dele, percebendo que o notório advogado parecia assustado e perdido.
— Não vou machucar você. Prometo. — Falou com a voz mansa. — Só quero cuidar dos seus ferimentos. — Mostrou a caixa de primeiros socorros, como se quisesse provar o que dizia, pois Shaka parecia um bichinho assustado e ele tinha medo que ele surtasse como acontecera na mansão certa vez. — Depois você pode tirar essas roupas e tomar um banho. Há um quarto, no andar de cima e tem um armário com algumas roupas minhas lá. Você pode escolher alguma. Talvez fiquem um pouco largas, mas estão secas. — Aproximou-se para cuidar do corte no pescoço dele — Não há eletricidade aqui. Mas tenho um sistema de energia solar. Então, há água quente para você. Se tiver fome, há comida no armário da cozinha. — Apontou para a cozinha, que se separava da sala por um balcão. — Tem pouca coisa, mas acho que é suficiente. — Falava com a voz cansada e tranquila, enquanto suavemente limpava as feridas do outro. — Podemos descansar um pouco, Shaka. Acredite quando digo que estamos seguros.
Shaka ficou olhando para Ikki, sentindo-se perdido e frágil. Assentiu com a cabeça quando ele falou consigo e suprimiu a vontade insana de abraçá-lo.
— Obrigado... — murmurou, apertando as mãos uma na outra e fechando os olhos, respirando fundo. Tentava olhar para dentro de si e encontrar um ponto de equilíbrio, mas estava difícil. Estava escuro e estava apavorado.
As lágrimas caíram sem que ele conseguisse segurar. Cobriu o rosto com as mãos, envergonhado, virando o rosto de lado para fugir do olhar de Ikki, que permanecia limpando o ferimento em seu pescoço. Ele só não conseguia mais segurar aquele desespero que o tomava.
Ikki engoliu a angústia que sentia ao ver Shaka chorando. Queria que ele parasse porque isso o demolia. Demolia tudo que tinha planejado até chegar à cabana e descobrir que Marduk o havia sequestrado. Ficara tão desesperado, que nem mesmo articular um plano de resgate decente conseguiu. Ele simplesmente foi. Foi ao encontro de Marduk e da morte, porque só tinha uma coisa em mente: precisava salvar Shaka. Toda a irritação que sentira pelas recentes atitudes do advogado foram embora. Só queria vê-lo novamente e a salvo. E Ikki sabia o quanto Shaka era forte e corajoso, tinha medo de perguntar o que Marduk fez com ele enquanto esteve ausente. Tinha medo de admitir que tudo aquilo não estava moldando Shaka da forma que A Sociedade queria, o estava quebrando.
— Calma. Já passou —Ikki disse, pondo a mão no ombro dele com carinho. Não sabia o que dizer. Não sabia que procedimento seguir, se podia ceder ao desejo de abraçá-lo sem que parecesse uma nova ameaça.
— Estou bem — Shaka falou, limpando as lágrimas de desabafo, sentindo-se estranhamente cansado, mais cansado, depois delas.
Ikki havia terminado o curativo e ficou olhando para o hematoma no rosto do loiro. Passou a mão suavemente por ali, mas viu que a região estava dolorida. Shaka ficava dizendo que estava tudo bem, mas era visível que não estava. E a sua imagem fragilizada mexia profundamente com Ikki, por trazer muitos sentimentos à tona. Sentimentos que naquela tarde, ele jurara esquecer. Sentimento que comprometia tudo que era importante, inclusive a própria proteção de Shaka. Acabou agindo por impulso, sem pensar. Pegou o loiro nos braços, aninhando-o junto ao peito e, mesmo com a perna ferida, conseguiu carrega-lo. Subiu as escadas que davam para o quarto que ficava no andar superior. Era uma suíte e, ao contrário do banheiro de baixo, que era mais simples, nesse banheiro havia uma banheira. Ikki entrou no quarto e colocou Shaka ali, cuidadosamente, sobre a cama. Depois, encaminhou-se para o banheiro e ligou a torneira, para encher a banheira com água morna. Então, voltou para o quarto e olhou para o outro, sentindo cada vez mais que as sensações se tornavam mais fortes. Com a mão, fez um movimento para retirar a franja loira do rosto dele, como se quisesse avaliar mais a fundo o hematoma ali, mas o gesto pareceu uma carícia.
— A banheira está enchendo. Vá tomar um banho. As roupas limpas e secas estão naquele armário ali, está bem? — Ikki apontou para um guarda-roupa e sorriu brandamente — Eu vou descer e preparar algo quente para comermos. Mas se precisar de alguma coisa, de qualquer coisa, é só chamar. O chalé é pequeno e eu vou ouvir. — Naquele momento um lado seu muito natural, seu lado protetor, estava excessivamente aflorado. Shaka se via muito desprotegido e a sensação forte dentro de Ikki crescia. Seus instintos queriam apenas protegê-lo. Já nem se lembrava da raiva que sentira dele pela agressão a Khan, pela tentativa de fuga. Agora só precisava cuidar dele. — Você vai ficar bem? Posso descer?
Shaka apenas assentiu com a cabeça, olhando nos olhos do moreno por alguns segundos. Quis dizer algo, mas não conseguiu pensar. Fez o que ele mandou, foi para a banheira e tomou um banho, não muito demorado, estava frio. Depois voltou para o quarto, secou-se e vestiu uma camiseta cinza que achou ali, pondo uma camisa de flanela xadrez por cima. Eram um pouco largas, mas a sensação do tecido limpo lhe dava certo conforto. Vestiu uma calça jeans, dobrando a bainha para não tropeçar e quando voltou a se apoiar nas pernas, sentiu uma fisgada tão forte no pé que teve que sentar na cama, praguejando.
— Inferno... — Shaka gemeu, seu pé doía miseravelmente agora. Na verdade, ele já estava mancando desde que fugira, mas parecia que a adrenalina fizera com que não sentisse um incômodo muito forte até ali. Shaka desceu as escadas, estava descalço, seus pés congelavam contra o piso de madeira e ele arrastava o pé esquerdo, tentando não se apoiar nele. Provavelmente era uma torção. Foi até a cozinha em que Ikki preparava alguma coisa. Parou próximo à porta, hesitante, ficando a olhar para o moreno que lhe lançou somente um olhar de lado.
— Meu pé ‘tá doendo. Tem alguma bebida aqui? — Shaka indagou e sob o olhar curioso do outro, completou — Eu estou congelando...
— Desde quando você bebe? — Ikki perguntou, terminando de preparar algumas panquecas e as colocando em um prato.
Shaka suspirou com enfado e entrou na pequena cozinha.
— Eu não bebo, mas está muito frio e já me disseram que essa é uma ótima forma de se aquecer. — Explicou e mancou até uma cadeira, examinando o pé. Havia alguns ferimentos e espinhos neles. Começou a tentar tirá-los, já que nem tinha pensando que calçava apenas meias durante o trajeto até aquela cabana. Avaliou o tornozelo esquerdo e viu que ele não estava nada bem, estava inchado e doía mais à medida que o tempo passava. Não era bem o tornozelo, era toda a parte traseira do pé.
Ikki viu que Shaka parecia mesmo com frio.
— Você demorou para tomar banho? Energia solar funciona, mas as baterias não retêm o calor por tanto tempo. E realmente está bem frio aqui. — Ele foi até um armário na sala e retirou de lá um cobertor. — Aqui. Isso vai ajudar. — Envolveu o loiro com o cobertor, ajeitando-o sobre seus ombros. — O que houve com o seu pé? — Perguntou, atentando para o que Shaka fazia.
— Eu pisei em falso quando eles me atiraram para fora. E estava usando só meias, meus pés estão cortados— explicou com uma careta de dor.
Ikki colocou as panquecas na mesa e um bule de chá.
— Fiz para você. Mas se o frio estiver forte e você estiver com dor, álcool pode ajudar mesmo. — Pegou uma garrafa de uísque que tinha guardado em sua despensa e colocou sobre a mesa. — Você escolhe. — Sentou-se e ficou olhando para Shaka.
Shaka pegou o chá, enchendo a xícara e deixando que o vapor beijasse seu rosto frio. Analisava profundamente as palavras do outro. Estava dolorido, mas nada que fosse insuportável, aceitava bem a dor e, às vezes, achava-a necessária, pois lhe fazia agir. Mas naquele momento, não estava pensando muito, estava cansado, em um estado de estresse que apagava seu lado mais sábio e metódico, ele agora simplesmente era guiado pela curiosidade, talvez não apenas ela, mas era uma necessidade de conhecer o passado, de saber de tudo aquilo.
— Quem são aqueles homens que estavam com Marduk? Alguns deles pareciam muito bem treinados.
— Pelo que conheço Marduk, alguns são mercenários, outros são capangas incapazes de pensar por si mesmo que só recebem suas ordens cruéis e depravadas. — A voz de Ikki soou cheia de raiva naquele momento.
— Então os homens dele são como os seus. Ele disse que você aprendeu tudo com ele, deve ter sido um bom professor. — As afirmativas tinham mais amargura agora que sarcasmo. – Sou mesmo muito importante pra vocês. — Suspirou. — Mas foi um pouco burro vir aqui sozinho, eu não viria a não ser... — Interrompeu-se, engolindo em seco, afastando os pensamentos impróprios. — Não tem carne nisso, tem? — Perguntou referindo-se às panquecas.
Ikki sentiu-se atingido por aquelas palavras, mas não encontrou como rebatê-las, até porque Shaka estava certo. Marduk tinha sido seu "professor". Empurrou o prato com as panquecas para o outro.
—Não tem carne, eu conheço seus hábitos alimentares. E minha despensa não tem quase nada. Eu não estava planejando vir aqui, então não há nada perecível nessa casa, o que tem aí dentro é legume enlatado. Mas é bom, isso vai alimentá-lo. É impressionante o que se pode fazer com um pouco de farinha, água, sal, açúcar... Inclusive, isso é uma das coisas que aprendi com o meu "professor", como gostou de chamá-lo. É, eu aprendi com ele como alcançar as coisas que eu quero. E não posso dizer que me arrependa disso. É graças a tudo isso que hoje eu sou quem eu sou. — Embora essas palavras parecessem feitas para demonstrar orgulho, não foi o que o tom de voz utilizado passou. Havia certa melancolia na voz de Ikki, que olhava agora fixamente para o copo vazio. E a imagem desse copo vazio logo o incomodou profundamente, fazendo com que ele novamente o enchesse de uísque.
Shaka terminou de beber o chá em silêncio analítico, depois começou a comer as panquecas com a mesma paciência. Seu calcanhar latejava, muito machucado, mas aquela dor era boa, era como se essa dor fosse capaz de mantê-lo acordado. Focado nela, ele esquecia o medo.
— O que você fez a ele e por quê? — indagou enquanto comia. — Faustine me disse algo como... Que você sumiu por volta dos 13 anos e ela o reencontrou muito tempo depois. — Shaka recordou de uma das muitas conversas que tivera com a mulher e como a manipulara para falar alguma coisa sobre o chefe. Nunca conseguia muito, na verdade, ele formava os quebra-cabeças a partir de informações vagas. — Foi nessa época que se uniu a Marduk?
— Faustine lhe contou muito da minha vida, pelo visto. — Ikki comeu um pedaço da própria panqueca e falava em um tom que não era nem cordial, nem agressivo. Simplesmente, era um tom vazio demais. — Ela deve ter falado sobre o meu irmão, então. Ah, claro que sim. Faustine sempre fala de Shun, sempre que tem a oportunidade. — Nesse momento, um brilho luziu nos olhos escuros de Ikki e um sorriso tímido se esboçou no seu rosto sempre tão sério — Não é para menos, Shun é a melhor parte do meu passado... Éramos muito próximos, ainda mais depois de perdermos nossos pais. Éramos muito, muito novos. Faustine se encarregou de nos criar. Ela era sincera, é por isso que eu a trago hoje comigo. Nós perdemos tudo com a morte dos nossos pais, tiraram todo o nosso dinheiro! Homens que frequentavam nossa casa e se passavam por amigos dos meus pais deram um jeito de nos deixar sem nada! — Colocou mais uísque no copo e virou o conteúdo de uma vez. — Eles também roubaram nossa casa e nos mandaram para um abrigo. Ela não podia fazer muita coisa. Ela e Khan eram os únicos que se importavam. — Eu fugi do abrigo quando tinha uns 12 anos. Shun tinha oito. Fomos viver nas ruas. Acredite, as ruas eram mais seguras que aquele abrigo e eu era esperto. Mas não fui esperto o suficiente para proteger o meu irmão. Nessa época eu fui levado para um orfanato. Os benfeitores do lugar pertenciam À Sociedade, e Faustine os procurou, pediu ajuda. Shun ficou sozinho nas ruas. A Sociedade não conseguiu encontrá-lo a tempo. Ele foi vítima da violência das ruas... — Ikki respirou fundo. — Acontece que eu fiquei muito puto com A Sociedade. Para mim, ele morreu porque o deixei sozinho. Então eu fugi mais uma vez. Já tinha uns 13 anos. O bando de Marduk recrutava meninos. Crianças eram ótimos meios de fazer todo tipo de tráfico. E eu logo me destaquei; eu era rápido, esperto, nenhum policial conseguia me pegar. Eu era arisco, dominava as ruas... Marduk viu em mim grande potencial e eu virei uma espécie de pupilo dele. Ele achava divertido me "ensinar", fazer de mim uma espécie de seguidor dele. Comecei a ganhar muito dinheiro. A fazer um nome no submundo. Quando eu tinha 15 anos, A Sociedade me encontrou.
— Então sua história com Marduk começou antes de você se unir À Sociedade.
Ikki respirou fundo.
— Shaka, entenda uma coisa. A Sociedade domina essa cidade, você não consegue se esconder dela por muito tempo. Faustine e Khan não desistiram de mim e eles me acharam.
— E Marduk?
— Eu não sabia, mas Marduk estava trabalhando com eles. Era o que A Sociedade achava um mal necessário. Mas ele tentava manter seus negócios escusos longe da lente d’O Círculo. Quando os negócios foram descobertos, nada mais fácil que dizer que o gangster era um garoto de 15 anos, irresponsável.
— Eles acreditaram nisso?
— Não. Eles me monitoravam há muito tempo para serem enganados. Mas naquela época os valores do grupo não eram tão fortes. Marduk era um mal necessário, e foi a partir daí que eu me tornei realmente membro d’A Sociedade. Eles me separaram de Marduk e sua influência. Recebi um novo tutor, treinamento e me tornei o melhor. Suplantei Marduk dentro do grupo e mais que isso, eu percebi o quanto ele me usou e o quão sujo e cruel ele era. Fiz de tudo para convencer O Círculo de que A Sociedade não precisava dele. Ele me odeia por isso... — Mais um copo de uísque. — A morte do meu irmão criou o monstro que você vê agora. — Virou o copo e ficou olhando para o nada, simplesmente parando de falar. De repente, voltou a olhar para Shaka. — Mas por que estou te contando essas coisas? Por que você se interessaria? — Levantou-se de uma vez da mesa, pegou a garrafa de uísque e o copo e foi para a sala, sentar no sofá, diante da lareira, encheu mais um copo e começou a beber, agora mais devagar, com os olhos hipnotizados pelo fogo.
Shaka respirou fundo. Irritou-se, afinal, a linha que separava sua racionalidade da fúria estava tênue como nunca naquele dia. Empurrou o prato e ergueu-se, ainda sentindo o pé doer miseravelmente e evitando, não podendo, apoiá-lo no chão, foi até onde Ikki estava e parou no meio do caminho, mirou a porta e imaginou se poderia fugir, se conseguia escapar daquela floresta densa ou se acabaria sendo devorado por lobos. Mordeu os lábios, irritado e confuso.
— Escuta!... — Chamou, mas não sabia muito bem o que dizer, ficou um tempo parado olhando para o moreno e então voltou à cozinha, pegou um copo e se aproximando dele, estendeu a mão, num gesto que pedia para que ele colocasse o tal do uísque no copo. Se aquela porcaria era capaz de anestesiar, ele a queria naquela noite, não pelo corpo, mas quem sabe ele conseguisse anestesiar suas emoções.
Ikki não se moveu, apenas olhou na direção de Shaka. Assim como a pergunta foi muda, assim foi a sua resposta. Ergueu o braço, encheu o copo que Shaka segurava, sem tirar os olhos dele. Depois, ainda mantendo o forte contato visual, abriu espaço no sofá, que não era muito grande, para que o outro se sentasse ao seu lado.
Shaka sentou-se, cansado, e recostou-se pesadamente, segurando o copo com as duas mãos.
— Quando poderemos sair daqui? — Indagou. — Eu... Eu estou descalço, meus pés estão feridos, não sei se... — Acabou rindo amargo. — Você vai dar um jeito, não é? Eu sou uma peça importante desse jogo macabro. — Virou o uísque nos lábios, rápido. A queimação que a bebida lhe causou fez com que Shaka abrisse mais os olhos, com o rosto afogueado, e pigarreasse. — Isso é horrível! — Ele falou, coçando a garganta.
Ikki riu um pouco, tentando ignorar as declarações anteriores.
— Você precisa se acostumar. Não devia beber de uma vez. E o sabor pode não ser dos melhores, mas o efeito... — Não terminou a frase, em vez disso, encheu mais uma vez o próprio copo. Bebeu um gole e olhou para os pés do advogado. A caixa de primeiros socorros, que era muito bem equipada para alguém em sua posição, estava ali ainda. Sem pedir licença, puxou os pés de Shaka para o seu colo, gentilmente, de modo que ele deitasse sobre o sofá. — Nós vamos ter de ficar um tempo aqui. Não sei exatamente quanto... Até que eu tenha certeza de que não haverá mais ameaças lá fora... —Examinou o pé em suas pernas com mais detalhe. — Estão cheios de espinhos, tenho que tirá-los para não infeccionar — Avisou, tirando uma pinça cirúrgica da mala, era bem pequena, e começando a retirar os espinhos e lascas de madeira dos pés delicados do advogado. Fez em um dos pés e depois no outro, percebendo que o esquerdo estava inchado. Ikki o apalpou e percebeu que provavelmente havia uma fratura ali. Pequena, mas havia. Precisava imobilizá-lo, só não sabia como exatamente, então se concentrou nos ferimentos.
— Agora vai arder um pouco — Ikki informou, passando uma solução antisséptica nos ferimentos com o auxílio de um chumaço de algodão. Shaka só fez uma careta, nem um gemido. Ikki passou uma pomada e então começou a enfaixar o pé fraturado do advogado. Suspirou e de repente perguntou, com os olhos fixos no que fazia, evitando encarar Shaka:
— Eles machucaram muito você? Antes de eu aparecer? Quero dizer, Marduk...
— Não... — Shaka respondeu à pergunta do moreno num sussurro sonolento. Eu estava desmaiado até pouco antes de você aparecer. — Sentiu um arrepio desagradável ao se recordar do acontecido. As lembranças trouxeram a repulsa e a sensação de medo que teve de volta, mas ele a controlou e se erguendo só um pouquinho, pegou a garrafa de virou no copo, voltando a beber o uísque com uma careta. — Isso é mesmo péssimo!
— Não exagere... Acho que você não foi feito para beber. — Ikki falou, achando graça da reação do loiro. Depois permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Sinto muito... — Falou num tom baixo, porém audível. — Isso não tem nada a ver com você. — Parecia ridículo Ikki se desculpar por algo assim, sendo que ele sequestrou e mantinha aquele homem cativo para que ele cumprisse o que queria. De uma forma que somente parecia fazer sentido dentro da estranha maneira com que Ikki enxergava as coisas, as coisas pelas quais Shaka passava, contanto que fossem causadas por ele e dentro do plano dele, eram aceitas. Até porque ele nunca machucaria o advogado, não de verdade, e até mesmo A Sociedade tinha um limite. Todavia, Shaka estava sofrendo danos fora do planejado, fora do controle dele, e Ikki se culpava profundamente por isso, Ikki odiava-se por isso.
Shaka estava de olhos fechados. A ação do moreno em seus pés e o torpor do uísque deixavam-no relaxado e quase sonolento.
— Você o matou...? — perguntou, a voz lânguida, os lábios ficando semiabertos como de quem dorme.
— Não. Foi uma luta desigual, os homens dele não deixariam que eu o matasse. Mas consegui feri-lo. Novamente. Isso significa que ele deve estar com mais ódio de mim. Mas eu garanto, Shaka, nunca mais ele vai chegar perto de você. Nunca mais. — Ikki terminou a massagem nos pés do loiro e ficou olhando para a figura semiconsciente dele, deitada no sofá. Levantou-se devagar e tomou-o nos braços — Vou levá-lo para a cama, acho que você precisa descansar. — Envolve-o no cobertor e carregou-o para cima, entendendo que o advogado não conseguia andar direito e querendo evitar ao máximo que ele forçasse o pé fraturado.
Tudo aquilo era muito insólito. Essa era a concepção de Shaka para aquela noite. Ele não opôs resistência quando o moreno o levou nos braços pela escada e dessa vez não pela surpresa ou o susto como das outras, mas porque estava se sentindo entorpecido e bem. Sim, sentiu-se bem enquanto ele o carregava e percebia que essa sensação não era inédita. Mais uma vez, ele se sentia protegido por Ikki. Talvez isso fosse devido às carícias abusivas do tal Marduk, carícias que somente de imaginar o faziam gelar, mas a verdade era que estava se sentindo bem ali. Sentia-se seguro.
Entraram no quarto e quando estavam se aproximando da cama, Ikki pisou numa ponta do cobertor que se arrastava no chão e tropeçou. Por sorte, estavam perto da cama, de modo que Shaka caiu deitado de costas e Ikki caiu por cima dele, ficando com os rostos muito próximos assim. O incidente pareceu a Shaka uma sombria conspiração do destino; a noite fria, a neblina, o clima incerto, tudo parecia um convite perigoso.
Seus olhos se encontraram, a respiração de ambos se misturou de tão próximos que estavam. Shaka umedeceu os lábios com a língua, sentindo-os secos e não soube como sua mão migrou para o rosto do moreno, afastando a franja que caía sobre seus olhos e deixava uma sombra escura sobre eles.
— Eu... — Ele tentou dizer, mas não sabia o que diria. Pensou em dizer qualquer coisa que quebrasse aquele clima perigoso, mas nada saiu dos seus lábios, estando vítima daquele olhar profundo e enigmático.
Já Ikki, não pensou em absolutamente nada. Era impressionante como sua mente e seu corpo pareceram se separar naquele momento. Naquele preciso instante, tudo o que existia eram os olhos de Shaka, que lhe pareciam magnéticos e atraentes demais. Seu corpo já havia notado isso, mas sua mente parecia conseguir conter-lhe os instintos. Entretanto agora a bebida já fazia algum efeito, o cansaço também deixava sua mente enevoada, e nada mais parecia ter qualquer sentido. Os lábios entreabertos pareceram convidativos demais e para Ikki simplesmente foi natural que ele acabasse com aquela mínima distância e beijasse a boca de Shaka.
Título: Quanto maior é a ventura, tanto menos é segura.
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