Nelumbo nucifera
28 Non progredi est regredi
Notas iniciais
Non progredi est regredi
Chapter XXVIII
O beijo não foi impetuoso, como os gestos de Ikki sempre pareciam ser. Foi um beijo que se iniciou lentamente, com um primeiro roçar dos lábios, de modo que ele pudesse experimentar a maciez, a textura, o sabor da boca de Shaka. Do leve toque, Ikki passou a provar deles com uma intensidade que foi crescendo, à medida em que sentia que estava dando vazão a algo que nem sabia ao certo estar guardando dentro de si, mas que lhe parecia maravilhoso libertar agora.
Shaka também não pensou no que estava fazendo, simplesmente levou as mãos à nuca do moreno e correspondeu ao beijo. Sem nenhum pensamento. Ele sabia apenas que estava frio e que gostava do calor do corpo do outro e do sabor dos seus lábios. Era difícil confessar que amava beijar aquele homem. Que se sentia extremamente confortável nos braços dele. Shaka estava assustado, perdido, amedrontado por toda aquela situação, e talvez por isso, embora certezas não houvessem, o metódico advogado cedesse tão facilmente ao jovem sensível, guardado tão bem dentro de si, que quase ninguém conhecia. Alguém que ele escondia do mundo e que só aparecia em situações incontroláveis como agora, quando sua mente rodava por causa do uísque. Mas houve outro beijo, outro beijo tão intenso e profundo quanto aquele e culpar a bebida era tentar se enganar. Negar o que sentia. Ele queria. Ele queria sentir as mãos, a língua de Ikki mais uma vez. Estava frágil e, de alguma forma, aquele homem lhe passava segurança e força. Até por isso, quando o beijo findou a contragosto, como se Ikki fizesse um grande esforço para se afastar e não perder a razão, Shaka o abraçou, mantendo-o junto a si, estranhamente receptivo.
O beijo tinha sido tudo o que Ikki sabia que seria. De algum estranho modo, parte de si já se tinha colocado naquela situação, talvez criado alguma expectativa. Mas era uma parte muito inconsciente, que agora começava a se revelar. Foi de repente que Ikki pareceu despertar para o perigo daquilo. O beijo o estava tragando, puxando para um abismo no qual ele não teria qualquer controle. Era maravilhoso, mas aterrador. Sentia-se vivo como nunca e isso o assustava porque agora, depois da conversa definitiva na sede d’A Sociedade, ele sabia que não podia. Tinha novas diretrizes, e elas eram fundamentais para a segurança do próprio Shaka. Sem contar que, agora, havia uma revelação terrível que abalaria todo o grupo.
Ikki sentia que precisava ordenar as ideias, não se poderia deixar-se levar. Quis terminar com aquilo, antes que ficasse mais difícil. Mas, quando tentou se separar, sentiu os braços de Shaka o envolverem e não pôde mais resistir. Desistiu de pensar e apenas agiu de acordo com o que sentia. Abraçou o loiro de volta, aconchegando-o junto ao seu corpo. Mas não fez mais do que isso. Tão somente o envolveu nos braços, com um cuidado raro de se ver nele.
— Fique aqui... Estou com frio... — Shaka murmurou ofegante, sentindo os lábios reclamarem da ausência dos lábios do outro, de olhos fechados, achava-se entorpecido e tonto pelo uísque e por aquela vontade estranha de ficar ao lado do homem que teoricamente era o seu algoz.
— Eu fico... Até você dormir. — Ikki respondeu com um sussurro suave ao ouvido dele. Contudo, o calor do corpo de Shaka terminou por tornar aquele momento aconchegante demais. O cansaço daquele dia, tanto físico como mental, se fez notar, e Ikki acabou adormecendo antes de perceber se Shaka dormia ou não.
Shaka também havia dormido, apagado, sentindo o calor confortante do corpo de Ikki. Dormiu muito bem, confortável e protegido, esquecido completamente do clima de instabilidade em que estava forçosamente inserido. Parecia que aquela noite foi um sonho, um daqueles sonhos proibidos que não temos coragem de confessar a ninguém. Acordou no dia seguinte com um raio de sol sobre seus olhos. Piscou e moveu-se, mas sentiu que estava preso, havia um braço forte em volta de sua cintura e de repente as cenas da noite passada voltaram como um golpe. Ele moveu-se devagar, tentando fazer com que Ikki não acordasse, mas quando pisou no chão, seu tornozelo doeu tanto que voltou a sentar na cama, abrindo a boca, mas não emitindo nenhum som. Mirou o homem adormecido na cama, ele deveria estar muito esgotado para permanecer desacordado. Shaka pensou que era sua única oportunidade de fugir, precisava tentar. Agora com a claridade do dia, deveria ser mais fácil deixar aquela floresta, mesmo sem saber onde estava. Moveu-se na cama novamente, ainda hesitante se deveria ou não ir. A porta estava logo à sua frente, entretanto, ele hesitava. Por quê? Medo da floresta? De encontrar Marduk que deveria procurá-lo? Síndrome de Estocolmo? Todas essas perguntas giravam como um turbilhão em sua mente e ajudaram-no a sentir uma náusea profunda que lhe levou ânsia de vômito. Ergueu-se de supetão, arrastando o pé machucado para o banheiro, onde acabou vomitando. Ligou a torneira da pia depois disso e lavou a boca, pondo a cabeça sob a água gelada, como se assim pudesse organizar as ideias. Sentia-se fisicamente muito mal, emocionalmente, pior ainda. Procurou por creme dental, achando num pequeno armário e escovando dentes e língua com o dedo, como se assim pudesse se limpar de toda aquela sujeira.
Ikki acordou com o barulho de água vindo do banheiro. O corpo ainda estava um pouco dolorido, mas sentia-se bem melhor. Verdade seja dita, não dormia tão bem assim fazia muito tempo. Entretanto, ao se recordar do motivo que o levou a uma noite de sono tão boa, abriu os olhos e olhou para os lados. Não encontrando Shaka ali, levantou-se da cama num pulo. Como o barulho da água vinha do banheiro, correu para lá, encontrando o outro prostrado sobre a pia. Puxou a toalha que estava pendurada ali e foi até ele.
— Ei. Você está bem? — perguntou no mesmo tom gentil, enquanto começava a envolver os ombros do loiro com a toalha. Ora, Ikki entendia, mais ou menos, que uma mudança começava a se operar entre eles. Na noite passada, tinha deixado a razão de lado, mas isso não fora culpa da bebida. Ikki tinha boa resistência ao álcool, ao ponto de não sentir ressaca agora. O que havia acontecido não foi devido à bebida ou ao frio. Simplesmente o vínculo entre eles, quebrado no dia anterior pela tentativa de fuga de Shaka, foi reestabelecido por seu sequestro. Desse modo, Ikki apenas se deixou guiar por essas estranhas, mas confortáveis sensações. Quando Shaka levantou o rosto, ele oferecia-lhe um singelo sorriso. — O que houve? O uísque lhe fez mal? — indagou, enquanto começava a enxugar os cabelos molhados, mas em um gesto que mais parecia uma carícia.
Shaka olhou meio hesitante sobre como deveria agir, mas, contrariando novamente a sua personalidade analítica, resolveu apenas responder.
— Sinto dor de estômago. Com certeza eu não sirvo pra beber — disse com uma cara de náusea. Não sabia muito bem como agir naquele momento. Estava assustado demais com tudo aquilo para pensar ainda. Então, na falta de lógica, usaria o instinto até que tivesse novamente condições de pensar. Ficou quieto enquanto Ikki secava seus cabelos. Poderia simplesmente pará-lo, afastar-se, mas estava precisando daquela sensação, da sensação de que alguém lhe cuidava, mesmo que, no fundo, soubesse que tudo era uma ilusão e que logo aquele homem atencioso voltaria a focar no que precisava fazer. Na sua missão.
Pigarreou com esses pensamentos e segurou o pulso do outro, interrompendo o trabalho.
— Eu estou bem... — murmurou. — Um chá de boldo e fico ótimo. — Sorriu.
— Eu posso fazer para você. — Nem mesmo Ikki se reconhecia tão prestativo assim. Mas seus impulsos estavam vencendo e ele apenas ia seguindo. Era quase como se essa parte sua, recém-descoberta, quisesse ver até onde aquilo tudo poderia chegar. — Aqui perto tem uns arbustos de boldo-da-terra. Eu posso colher umas folhas e preparar o seu chá. — Ikki foi até seu armário e tirou de lá um casaco — Eu já volto. — Falou com uma naturalidade desconcertante. E, quando estava à porta do quarto, parou, hesitante, e deixou que a frase que se formou em seu íntimo, tão secreta que lhe era desconhecida antes de emergir, aflorasse: — Você me espera? — Uma frase simples, mas cheia de entrelinhas que nem mesmo ele era capaz de conceber todas elas.
Shaka o encarou nos olhos, sem entender e ao mesmo tempo entendendo aquela pergunta, mas não querendo entender. Ficou mudo por um tempo, sentindo que Ikki esperava uma resposta, mas incapaz de verbalizar qualquer coisa, apenas moveu a cabeça afirmativamente. A lembrança do beijo, do sabor dos lábios dele e da forma que seu corpo reagiu voltaram como um golpe, e ele acabou se sentando na cama, sentindo as pernas tremerem. Não podia pensar muito naquilo. Se pensasse muito naquilo, iria enlouquecer.
Pulando de um pé só, Shaka resolveu descer as escadas, com cuidado para não cair, mas foi para a sala, ficar perto da lareira cujas brasas ainda se faziam presente, embora a chama já houvesse se extinguido. Sentou-se ali e resolveu meditar, limpar a mente, antes que enlouquecesse, mas não conseguiu. Os sentimentos estavam confusos demais para que ele conseguisse. O jovem advogado então ficou apenas fazendo exercícios de respiração, enquanto esperava que Ikki voltasse.
Ikki foi colher as folhas muito pensativo. Que raio de pergunta era aquela que tinha feito e que raio de resposta era aquela que recebera? O que Shaka queria dizer? Ele estava aceitando ficar por livre e espontânea vontade? A situação era complicada, mas era melhor não pensar demais agora. Continuaria seguindo, apenas isso. Quando enfim regressou à cabana, chegou a sentir certa ansiedade. Será que Shaka realmente estaria lá? Abriu a porta e viu o loiro sentado no sofá da sala. Não conseguiu disfarçar e soltou um suspiro de alívio.
Quando ele abriu a porta, o barulho da madeira foi suficiente para que Shaka abrisse os olhos, contudo não os direcionaram ao moreno. Ergueu-se com dificuldade por causa do pé e foi até onde ele estava na cozinha, preparando o chá.
— Ikki, eu não sei se posso andar. Você disse que tínhamos um tempo. Quanto tempo temos até aquele louco nos achar? — Ele puxou uma cadeira e se sentou. — Que droga! Meu pé está piorando. — Resmungou. Ikki teria que sair e buscar alguém, alguma forma de tirá-lo dali. E se o tal Marduk o encontrasse sozinho? Só em pensar nisso, sentia calafrios.
Ikki ficou achando, em um primeiro momento, que aquilo era um truque. Será que já haviam chegado ao fim do que quer que fosse? Mas então o moreno ficou olhando para Shaka, como se buscasse ler algo em seus olhos. O loiro não o queria encarar, mas a forma como ele falava parecia sincera. Ficou pensativo:
—Se houver algo realmente errado, então você precisará de cuidados. — Ikki pensou em chamar um médico de sua confiança, mas teria de ir sozinho. E isso levaria tempo. Pensou se o advogado aguentaria caminhar, mas percebeu que não. E Ikki não aguentaria carregá-lo por muito tempo. — Você consegue ficar sozinho até eu voltar?
Agora os olhos de Shaka cravaram-se nele, brilhantes de incerteza e de um medo que ele tentava controlar.
— Não há como sair dessa mata e voltar rápido. Se me deixar, ele vai me pegar de novo. — Shaka analisou isso com um aperto no peito e então voltou o olhar para Ikki novamente. — Você tem uma arma? — Indagou nervoso e riu tentando demonstrar seu sarcasmo característico para evitar o pânico. — Se você me der uma arma, eu fico. Porque se aquele homem entrar aqui, ou eu o mato ou enfio uma bala na minha cabeça. Mas ele não vai me pegar de novo.
Ikki arregalou os olhos. Se havia algo do qual tinha certeza era que Shaka era louco. Sim, ele era louco. Completamente louco, e aquele raio de advogado insano cumpriria o que acabava de afirmar. Não tinha dúvidas. Sentia-se encurralado. Shaka parecia estar mesmo sentindo dor, e Ikki sabia que se fosse grave, o advogado precisaria de ajuda médica logo. Por outro lado, Shaka também estava apavorado. Não poderia, e Ikki, em verdade, definitivamente não queria, deixá-lo sozinho. Ah, se ao menos estivesse com seu celular. Mas tivera de ir desarmado e sem nada nos bolsos. Fora revistado quando chegara ao local onde estava Marduk e ficaram com ele. Por mais que tentasse, não parecia conseguir chegar a uma resposta que lhe parecesse boa o bastante. Terminou por decidir ficar com a única opção que tinha:
— Está bem. Nós vamos atrás de socorro. Eu vou carregar você. Beba esse chá. Preciso que fique forte.
Shaka o obedeceu mais aliviado por saber que não ficaria ali sozinho. Respirou fundo, segurando a caneca que lhe era oferecida com as duas mãos e soprando o líquido quente antes de beber.
— Acho que se... não sei, se o enfaixasse... Ah, quer saber, dane-se, eu terei que suportar — falou resoluto, provando de boa vontade o líquido amargo. Algo do qual poderia se orgulhar era da sua resistência, mas precisava saber tudo a respeito do que iria acontecer dali para frente e isso o deixava tenso. — Quanto precisaremos andar ainda? E se ele nos encontrar no caminho? Você tem alguma arma que possa nos defender? — E atropelava Ikki de perguntas, sem conseguir mais esconder qual era o seu real medo. Nunca mais queria ver aquele porco do Marduk na sua frente, ao menos não se estivesse desarmado. Toda a raiva cultivada por Ikki no dia anterior, agora era direcionada a Marduk. Balançou a cabeça, como se assim pudesse se livrar dos pensamentos que não faziam o menor sentido, depois olhou para o moreno novamente. — Você não pode me carregar com a perna machucada — chegou a óbvia conclusão. — Eu terei que andar, não sei como, mas eu vou andar.
Ikki se viu tão alvejado de perguntas que nem sabia por onde começar a responder. Olhou para o pé do loiro e decidiu-se.
— Primeiro vou imobilizar o seu pé. Encontrei algumas talas. — Ele foi à sala e voltou com dois pedaços de madeira e começou a enfaixar o pé do advogado entre eles. Imobilizou-o. — E eu vou ter de carregá-lo. Vai ser mais fácil assim. Estamos a uns 20 km da mansão... se conseguirmos andar num bom passo, considerando suas condições, acho que chegamos lá em umas 4 horas... — e, pensava consigo, era preciso torcer para que tudo estivesse bem por lá. A mansão ficava bem distante da cidade. Precisava pegar um de seus carros.
— Mas você também está ferido. E eu peso 70 quilos e não 10! — Reclamou. Achava bem mais lógico que fosse mancando que nos braços de Ikki, até porque, aquilo era um tanto constrangedor para ele. Shaka era um homem forte, não acostumado a ficar tão vulnerável e dependente. Sabia que precisava se perdoar, afinal sua situação não era normal, fora sequestrado, torturado e, além disso, praticamente abusado por aquele homem horrível. Toda vez que pensava no ocorrido estremecia e tinha ânsia de vômito.
Shaka levou o chá novamente aos lábios como se o boldo fosse capaz de levar aquela sensação psicológica embora. Certo que perdera algum peso em seu cárcere, mas ainda assim não era lógico sair dali carregado.
— Podemos intercalar. Eu te carrego por um tempo, quando estiver cansado, você anda. Vamos improvisar uma muleta com algum galho. — Ikki falava enquanto já olhava ao redor em busca de tudo o que precisava para saírem dali. Como não tinha armas, precisava improvisar. Enquanto Shaka tomava o chá, o moreno abria gavetas e pegava as facas que poderiam lhe ser úteis. Mesmo que não encontrassem o bando de Marduk no caminho, havia os perigos da mata, os animais selvagens. Ia colocando tudo o que julgava necessário em uma mochila: facas, uma tesoura grande, encheu 2 cantis grandes de água, corda, a caixa de primeiros socorros, fósforos, lanterna. Pegou alguns pacotes de biscoito e barras nutritivas. Olhava ao redor e pensava se esquecia mais alguma coisa. — Vou pegar agasalhos para a gente lá em cima e umas meias grossas para os seus pés. — Avisou já subindo as escadas.
Shaka terminou o chá e resolveu subir as escadas também. Aquelas roupas largas não eram adequadas, precisava ao menos de sua calça que estava pendurada no banheiro, ao menos ela não ficaria caindo o tempo todo. Arrastou-se com dificuldade escada acima e enquanto Ikki procurava coisas nas gavetas, entrou no banheiro e se sentou no apoio da banheira, retirando a calça folgada e vestindo a sua com cuidado, tendo dificuldade de passá-la pelo pé, mas conseguindo com esforço. Prendeu os cabelos como pôde, numa trança, e passou as mãos no rosto como se isso fosse capaz de lhe trazer a coragem perdida. Voltou quase pulando para o quarto. A verdade era que seu pé doía quando pisava, mas não deixaria que essa dor o atrapalhasse.
— Estou pronto — falou a Ikki, que ainda estava no quarto.
Ikki tinha se livrado as roupas da noite, que não eram suas na verdade, era do agente de campo, e vestido suas roupas de montanhismo. Já estava pronto. Foi até Shaka, carregando uma jaqueta grossa de material impermeável.
— Vista esse agasalho, lá fora está frio. E essas meias também... — Entregou as peças de roupa para o loiro e depois estendeu a mochila para ele: — Coloque a mochila nos seus ombros, porque vou começar carregando você. Seu pé não está em boas condições. — Foi enfático, deixando claro que não aceitaria um não como resposta. Assim, tomou o loiro em suas costas, segurando-o pelas pernas que o cingiam pela cintura, e sentiu que Shaka realmente não era leve como uma pluma, mas o moreno já teve de carregar muito mais peso por muito mais tempo. E realmente precisavam caminhar rápido. Não seria nada bom estarem andando pela mata à noite. Embora conhecesse aquele lugar muito bem, à noite tudo se tornava mais difícil. Então, quando percebeu que estavam prontos, saiu do chalé.
Eles andaram muito daquele jeito. Não sabia como Ikki estava aguentado passar por trilhas estreitas e cheias de cipós, que ele cortava com a faca enquanto seguia, sem hesitar. Shaka, que ia agarrado às costas dele, baixava o rosto de vez em quando para não ser açoitado pelos cipós e galhos de árvores. Ambos estavam suados, cansados e parecia que estavam perdidos.
— Me põe no chão — Shaka pediu depois de aproximadamente uma hora de caminhada, apoiando as mãos mais forte nos ombros de Ikki e descendo das suas costas. — Eu vou andar um pouco... – falou um tanto ofegante de tanto sacudir nas costas do outro. — Só me ajuda, eu preciso de uma das suas pernas — falou passando o braço pelo ombro do moreno para que eles recomeçassem a andar, num ritmo mais lento, era verdade, mas ele sabia que Ikki não aguentaria por muito tempo se não descansasse um pouco, pois ele também tinha um machucado. — Falta muito ainda? Quando vamos chegar numa estrada ou coisa assim? — Indagou, mas depois imaginou que a estrada seria o primeiro lugar que Marduk os procuraria. Não, definitivamente a estrada não. Se bem que era uma chance de conseguir fugir ou pedir ajuda, mas não sabia se isso poderia acontecer naquela situação.
— Não tem estradas aqui por perto. — Ikki falou, um pouco sem fôlego. Estava realmente se esforçando um tanto demais, devido às suas próprias condições, mas sabia que ainda podia se forçar um pouco mais. Tivera um bom treinamento. — Eu não escolhi esse lugar à toa. Quando muito, podemos dizer que estamos no meio do nada. — Sentiu uma fisgada mais forte na perna ferida e precisou parar um instante — Só um segundo. — Ele se desvencilhou do braço que o loiro usava para se apoiar nele e se apoiou um pouco no tronco de uma árvore. Disfarçou a dor que sentia bebendo um gole d´água do seu cantil. — Pronto. Eu estava com sede. Vamos. — Voltaria a seguir, mas estancou no mesmo instante. Além da árvore em que se apoiava, notou traços de que pessoas haviam passado por lá. Os rastros deixados como galhos quebrados, folhagens remexidas e outros traços que Ikki sabia bem como identificar indicavam que o bando de Marduk havia passado por lá. — Droga — murmurou por entre os dentes. Eles seguiam na direção da mansão, sabiam que aquela seria a rota lógica. Ikki precisou ponderar rápido. — Vamos ter que seguir por outro caminho — falou, com um tom que tentava omitir sua preocupação. Havia outro caminho, claro. Mas poderiam levar o dobro do tempo, especialmente devido às suas condições. E, como já imaginava, Marduk estaria na mansão, antes dele, à sua espera. Sacudiu a cabeça. Não tinham tempo para se revoltar com as condições. Se essa era a única forma, então enfrentaria a situação. Era assim que Ikki estava acostumado a lidar com as coisas.
Shaka soltou um risinho nervoso. Não havia estrada e agora eles teriam que voltar. Estava cansado, nervoso, e por mais que Ikki não demonstrasse, ele sabia, ele também percebeu os vestígios na mata.
— Eles estão nos esperando, não é? Eles passaram por aqui antes de nós, não foi? — as perguntas eram mais afirmações. Estavam perdidos, feridos e sozinhos naquele lugar longe de tudo. Shaka sentia a raiva e o desespero crescerem dentro dele. — Ah, eu te odeio, Ikki! A culpa é toda sua e desse maldito grupo homicida do qual você faz parte! Como pôde me botar nessa?! Seu... Seu filho da puta! Eu odeio você! — Shaka explodiu e sentiu vontade de esmurrar o outro, mas apenas apertou os punhos e respirou fundo, tentando se acalmar.
Ikki escutou as reclamações do loiro e bufou. Não responderia. Não deveria desperdiçar energia nisso. Mas Shaka parecia determinado a tirá-lo do sério. Depois que ele começou a falar aquelas coisas, Ikki perdeu o pouco de paciência que já não tinha. Soltou-se do loiro, retirou a mochila que agora ele mesmo carregava e a atirou no chão, com raiva.
— Fica aqui. — Ordenou sério e se retirou. Precisava espairecer, respirar fundo e, de preferência, longe de Shaka. Não era bom atiçar o seu temperamento e, naquele momento, em que também já se recriminava a respeito de tantas coisas, não deveria ficar perto do advogado até se acalmar, então se embrenhou no meio do mato.
Shaka não teve reação, de repente seu pior pesadelo acontecia, ele estava sozinho no meio daquele lugar que não conhecia, com o pé fraturado. Onde será que aquele louco tinha ido? Sua garganta pareceu fechar de pavor ao imaginar que aqueles homens poderiam achá-lo ali, sozinho. Ficou relativamente calmo nos primeiros minutos, mas numa situação dessas minutos se parecem horas.
— Ikki?! — chamou, não muito alto, tinha medo do bando de Marduk estar por perto e ouvir sua voz. — Idiota! não me deixa aqui sozinho! — murmurou, olhando para todos os lados, sem conseguir localizar o outro. — Ikki?! — chamou novamente.
Não teve resposta, contudo. Então resolveu agir. Pegou a mochila e pôs nas costas e depois começou a andar o mais rápido que podia, apoiando no galho de árvore que improvisava como muleta. Estava apavorado e desprovido de qualquer razão prática, seus hormônios e células cerebrais só o chamavam ao instinto mais primitivo: fugir, embora com aquele pé lesionado, ele não fosse muito longe. Começou a andar no sentido oposto aos sinais na mata deixados pelo bando de Marduk. Precisava se colocar em segurança, custasse o que custasse.
Ikki não se afastou muito, mas foi longe o bastante para poder esmurrar o tronco de uma árvore e pôr para fora o que estava sentindo. Depois abriu e fechou a mão, para que a dor voluntariamente procurada passasse logo. Respirou fundo também e depois disso analisou o local, tentando encontrar a melhor rota. Realmente uns cinco minutos após sua saída, retornou. Entretanto, ao regressar e não ver Shaka ali, piscou os olhos como se não acreditasse. Checou o lugar, para se assegurar de que haviam mesmo parado ali. Ao ter essa certeza, ficou enfurecido.
— Loiro estúpido! — grunhiu por entre os dentes e começou a rastreá-lo, imaginando que ele não pudesse estar longe. O que passava na cabeça daquele homem, afinal? A cada momento tomava mais consciência de que aquele advogado era completamente maluco e isso o assustava.
Shaka andava apoiando-se nas árvores, o pé doía muito, e ele tinha que parar constantemente, mas estava apavorado demais para pensar nem que fosse por um momento. A cada passo que dava a mata parecia mais fechada, fria, úmida e aterradora. Foi obrigado a parar quando, sem que tivesse prestado atenção, pisou numa pedra pequena, mas que causou uma grande dor, mesmo com a tala feita por Ikki. Gemeu e se deixou sentar aos pés de uma árvore, com a respiração ofegante, os lábios trêmulos e o tornozelo latejando. Ouviu um farfalhar de galhos e imediatamente se pôs em alerta, erguendo-se com dificuldade e pegando com mãos nervosas uma das facas que o moreno tinha posto na mochila. Escondeu-se atrás da árvore, pensando que iria golpear qualquer um que passasse por ali, fosse gente ou animal. Seu instinto de defesa estava afloradíssimo, suas pupilas dilatadas procuravam inimigos ocultos entre as árvores.
Ikki seguia os rastros nada discretos deixados pelo advogado, quando ouviu um gemido de dor, localizou-o facilmente e adiantou-se na direção de onde ouviu a voz dele. Foi muito rápido, porque se preocupou ao ouvir que o advogado poderia estar em má situação e, desprevenido como foi, quase se viu acertado por uma faca, da qual se esquivou graças aos bons reflexos que possuía. Passado o susto, viu Shaka com a faca na mão, tentando acertá-lo de maneira cega.
— Ficou maluco?! Estava querendo me matar? — Apenas depois de proferir a frases deu-se conta de que não havia nada de maluco em tal tentativa, até por conta das várias vezes em que Shaka o ameaçou de morte. Contudo, por algum motivo, enxergava Shaka como duas pessoas diferentes agora. O Shaka prisioneiro e o Shaka... Bem, nem ele sabia ao certo. Mas finalmente voltava a entender que o loiro era um só. Respirou fundo e levou a mão vagarosamente até a faca. — Ok, calma... Sou eu. — Ikki não sabia se Shaka o queria mesmo morto ou se estava apenas assustado, por isso tentava criar novamente um vínculo com ele. Queria que o Shaka não prisioneiro voltasse. — Está tudo bem, ok? — Falava com a voz mansa.
Shaka soltou a faca, trêmulo, mas aliviado. Abraçou Ikki com força, respirando fundo de alívio. Ele estava extremamente cansado, com os nervos em frangalhos. Não conseguia nem falar de tão tenso.
Ikki o abraçou de volta, carinhosamente, e não pôde evitar de sorrir. Tentou confortá-lo o máximo que podia.
— Me desculpe. Eu não devia tê-lo deixado sozinho... — E assim, Ikki, que nunca se desculpava, via-se novamente mal por agir de modo que ofendesse aquele loiro difícil. Nesse abraço, não pôde evitar de sentir novamente a sensação da noite passada, uma sensação agradável e que aquecia seu frio coração.
Shaka apenas assentiu com a cabeça, os dedos se apertados no tecido grosso da jaqueta que o outro vestia. Tentava se acalmar, voltar a ser quem era, mas estava difícil.
— Estou com medo, Ikki — confessou, engolindo em seco. — Não me deixe sozinho aqui novamente ou esse medo vai se tornar pânico e não respondo por mim quando estou apavorado. — As palavras derramavam-se como as emoções.
— Eu só... — Ikki o apertou mais forte. — Eu precisava me acalmar para achar uma nova rota. Eu nunca o deixaria sozinho perdido nessa mata. Está louco se pensa isso.
— Estamos perdidos? — Shaka perguntou, acalmando-se lentamente. Era insólito a maneira como a proximidade daquele corpo o acalmava e o colocava num certo grau de normalidade analítica, mesmo que não sentimental.
— Não, não estamos perdidos. Só um pouco distante da nossa nova rota. Mas tudo bem, se conseguirmos retornar a ela, acho que... — Súbito, nesse instante, uma forte trovoada foi ouvida. Ikki olhou para o céu e viu quão escuro estava. O vento tornara-se mais forte. Uma tempestade se aproximava. — Ah, só pode ser brincadeira... — Resmungou e puxou o loiro em busca de abrigo. Se não se enganava, ali perto havia uma gruta onde muitos anos atrás, muito antes de ser quem era, precisou se esconder por um tempo. Queria ver se conseguiam chegar lá antes da chuva começar a cair, mas uns dez passos adiante e já começava a chover. Segurou Shaka, rapidamente, pedindo para que ele subisse em suas costas e correu com ele para a gruta. Mas eles não tiveram muita sorte, estavam ensopados quando finalmente alcançaram a pequena caverna. As roupas pesadas que vestiam, completamente molhadas.
— Eu devo ter feito muito mal na encarnação passada — Shaka resmungou, tirando o casaco impermeável, que não evitou que água escorresse para dentro, molhando a camiseta que vestia, e nem protegeu a calça de moletom. Ele recostou-se na parede úmida de pedra para descansar o pé. Ficou calado, tentando se acalmar enquanto tremia de frio. A temperatura baixou drasticamente. Não duvidava que acabassem morrendo congelados se ficassem ali por muito tempo.
— Não existe isso de encarnação, loiro — Ikki resmungou de volta, olhando ao redor. — Não há o que fazer, teremos que esperar a tempestade ir embora.
Shaka respirou fundo e mirou a tempestade fora daquela gruta úmida e escura. Se essa era a sua vida, o que tinha que aceitar, ele acolheria as trevas e sairia mais forte dela. Precisava apenas cuidar de sobreviver, isso era a única coisa que lhe importava agora. única coisa que lhe importava agora.
Título: Quem não avança, recua.
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