Nelumbo nucifera
29 Fata viam inveniunt
Notas iniciais
Fata viam inveniunt
Chapter XXIX
Ikki, tão logo entrou na gruta, começou a buscar gravetos secos pelo local. Tinha trazido fósforos do chalé, mas esses estavam inutilizados agora. Pegou então algumas pedras e conseguiu fazer uma fogueira.
— Tire suas roupas molhadas, fique com o mínimo possível para não adoecer. Coloque para secar perto do fogo. — Ele instruía, sem se preocupar com as próprias vestes encharcadas. Ikki foi ver a tempestade. muito contrariado, percebeu que ela não pararia tão cedo. A mata escureceu como se fosse noite.
Shaka começou a fazer o que ele mandou, livrou-se da camisa e da camiseta, tremendo de frio, as colocou perto do fogo, sobre um tronco de árvore seco que estava ali e que logo alimentaria as chamas.Ele mesmo se sentou no tronco e ficou esfregando o corpo para tentar se aquecer, mas isso não era fácil tendo todo aquele cabelo molhado e as calças ensopada. Pensou em tirar a calça, mas voltou atrás sem nem mesmo entender o motivo. Nunca foi tímido, nunca tivera receio de se despir na frente de ninguém, nem mesmo na de Ikki quando ele pediu. A lembrança daquele fato o fez corar com sentimentos antagônicos. Lembrava-se muito bem das mãos dele em seu corpo, mas também das palavras hostis e ameaçadoras. Ficou ali se deixando aquecer, consumido pelos próprios pensamentos, ouvindo o estrondo dos trovões e o barulho da chuva nas paredes da gruta.
— Tenho más notícias. Vamos ter que passar a noite aqui. Essa chuva vai demorar a passar e, quando isso acontecer, já terá escurecido. O melhor é sairmos amanhã de manhã, bem cedo... — Ikki suspirou e olhou para Shaka — Acha que consegue aguentar até lá? — Perguntou, embora fosse em vão. Não havia outra saída. Começou a tirar as próprias roupas, para se aquecer também. Tirou tudo, ficando apenas com a cueca boxer azul-marinho.
Shaka olhava o outro meio aéreo. Riu de leve, pensando que a vida era mesmo filha da puta para colocá-lo naquela situação: com um homem lindo pelado dentro de uma gruta, sendo esse homem lindo e pelado o seu sequestrador. Suspirou, passando a mão no rosto.
Ikki notou então que Shaka mantinha a calça.
— Tire isso, vai acabar congelando... — Falou, enquanto sentia o corpo se aquecer pelas chamas.
Shaka já imaginava aquilo e por isso só suspirou pesadamente e se levantou com dificuldade, quase caindo, e se pôs de um pé só para começar a tentar tirar a calça que vestia. Era uma calça leve, mas havia elástico na barra em que se prendia aos tornozelos e ele não tinha muito bem em que se apoiar para fazer aquilo. Tentou, tentou, gemendo ao mover o pé, mas não conseguiu.
— Ei, você me ajuda aqui? — pediu, engolindo o orgulho. — É só puxar o elástico que eu faço o resto, é que... ela não quer passar por essa tala que você fez — explicou, constrangido. Parecia que enquanto estivesse ao lado daquele homem estaria sempre passando por situações embaraçosas.
Ikki levantou-se de onde estava e ajoelhou-se diante do advogado.
— Fica sentado assim. — Colocou Shaka em uma posição e, colocando-se sobre ele, começou a descer a calça inteira. Shaka tinha pedido apenas para ajudá-lo, mas resolveu fazer tudo de uma vez. Começou pela cintura e foi descendo a calça lentamente, como se não quisesse machucá-lo, enquanto as pontas dos seus dedos roçavam por toda a pele dele e Ikki podia senti-la arrepiar-se. Com grande devoção, Ikki retirou a peça, enfim, da parte mais delicada, o tornozelo, liberando o loiro da calça. — Como se sente agora? — perguntou, porque sentia o corpo de Shaka muito frio.
Naquele momento, o advogado não saberia dizer por que o seu corpo tremia. O leve roçar dos dedos de Ikki em sua pele foi capaz de fazer um arrepio longo e constrangedor se espalhar por sua espinha dorsal. Quando ele terminou e fez aquela pergunta, Shaka piscou por um tempo sem saber o que dizer, ele inteiro tremia, então resolveu responder o óbvio:
— Com frio... — murmurou e olhou para os próprios pés. — As meias... — disse e se inclinou para tentar tirá-las, mas isso só fez com que seu torso tombasse com o de Ikki que continuava parado, inclinado sobre ele como se esperasse que o advogado dissesse algo. Era uma situação estranha, embaraçosa. Shaka calou-se, entre olhares para o rosto do moreno e seus próprios pés dentro das meias grossas e molhadas.
— Seu corpo está muito frio. — Ikki constatou ao entrar em contato com Shaka daquele jeito. Afastou-se momentaneamente e retirou as meias dele, sentindo os pés do advogado gelados e arroxeados. O corpo de Shaka parecia mais frio que o seu, e parecia absorver calor com menos facilidade. Ele retirou as meias, pendurando-as no tronco onde estava o resto das roupas e depois desfez a tala, observando o estado do pé dele. Nada bom. Colocou as bandagens para secar também. Ikki afastou-se levemente, pegando o casaco de Shaka, percebendo que devido a lona impermeável, ele estava relativamente seco. Ergueu-o um tempo sobre o fogo, para aquecê-lo, depois o colocou sobre os ombros do outro. — Você precisa se aquecer. — Ele falou, percebendo que o vento frio batia neles pela entrada da gruta, e a tendência era que, com a noite, o local se tornasse mais frio. — Devia ter trazido o uísque... — Resmungou para si mesmo.
Ficaram assim nas primeiras horas, tentando aquecerem-se enquanto a tempestade caía. Shaka, que possuía menos massa corporal, sofria mais rapidamente os efeitos do frio e estava praticamente encolhido embaixo do casaco. Sem contar que ao contrário de Ikki, ele não tinha nenhuma experiência com esse tipo de coisa.
Ikki esforçava-se para manter o fogo alto, mas estava preocupado com o estado do outro. Quando percebeu que as chamas não eram suficientes para aquecer o advogado, ele tomou uma decisão rápida; colocou-se sentado atrás de Shaka, tirando a jaqueta dos ombros do loiro e colado o peito às costas dele. Sentiu o sobressalto do advogado com o seu gesto e tratou de explicar.
— Você está prestes a sofrer hipotermia. Seu corpo precisa esquentar e só a fogueira não está sendo suficiente. Vou te aquecer com o meu corpo, mas não se preocupe, é só até as roupas secarem. Posso? — indagou, cuidadoso.
Shaka já tremia tanto e batia os dentes que apenas assentiu com a cabeça, permitindo que o outro se aproximasse. Ikki o abraçou completamente, de corpo inteiro, envolvendo-o pelas costas. Buscou fazer com que suas pernas, que envolviam Shaka agora, ficassem em um máximo de contato com as pernas do loiro. Até seus pés, tratou de colar aos dele. Shaka estava sentado de frente para o fogo, mas mesmo assim, Ikki estava preocupado e o abraçava, de modo que seus braços envolviam-lhe o torso nu e suas mãos fechavam-se sobre o seu peito. O cabelo molhado de Shaka, ele jogou-o para trás das próprias costas, apoiando o queixo no ombro onde antes se encontrava a trança molhada.
Ele saiu da posição que estava rapidamente, apenas para soltar a trança do cabelo dou outro, o que foi muito fácil, os fios deslizando por seus dedos e ele sacudindo-os levemente para soltá-los.
— Vai secar mais rápido assim — explicou. Ikki tentava pensar que não fazia nada demais, nada mais do que a sua função lhe mandava, mas inconscientemente sabia que aproveitava o momento para se colocar numa posição tão íntima de Shaka. Era uma necessidade que ele não queria confessar, sobretudo, dentro dos novos parâmetros.
Inicialmente Shaka ficou tenso com aquele contato repentino, mas depois de um tempo, o seu corpo começou a se acostumar com o contato, ele foi se desarmando e uma sonolência estranha o tomou, mas Shaka não queria dormir, precisava ficar alerta, sabia.
Recostou a cabeça no rosto do moreno, gostando da sensação das mãos dele em seus cabelos, mas logo Ikki voltou a abraçá-lo e descansou a cabeça em seu ombro.
— Não durma — Ikki pediu. — Se dormir, a sua temperatura vai baixar mais.
— Estou tentando. O que você fazia para o Marduk? Que tipo de negócio? — Shaka perguntou, pois era uma forma de se manter alerta.
— Negócios não muito lícitos, como já te falei. — Ikki preferiu ser vago e, pela primeira vez, não era como forma de se precaver que o motivava a agir assim. Pela primeira vez, sentiu-se envergonhado de seu passado. Por alguma razão incompreensível, não queria que Shaka tivesse motivos para pensar tão mal dele. O advogado já sabia demais, já sabia mais do que devia.
— Sim, me disse que trabalhava para ele, mas não exatamente o que fazia.
— Todo tipo de crime que uma criança pode fazer, Shaka. Isso basta. — Ikki suspirou e isso fez com que o cheiro da pele do advogado invadisse suas narinas. O pior disso foi que Ikki começou a se perder no cheiro da pele dele, o que, devido à proximidade, era impossível não sentir. Sem que se desse verdadeiramente conta, começou a fazer leves carícias nos braços do outro. Era uma forma de aquecê-lo, mas também era mais que isso.
Shaka suspirou também, virando um pouco o rosto na direção de Ikki. Sentia o calor que saía do corpo dele, e era tão reconfortante, assim como o suave deslizar dos dedos sobre sua pele, numa carícia singela que parecia até mesmo involuntária.
— Quantos anos tinha quando começou? Se tinha mesmo 13 anos, há chances de não pegar uma pena tão severa. Eu alegaria que houve coerção psicológica para que fizesse essas coisas. Era uma criança, foi aliciado. — Sorriu de leve. — Sou um bom advogado, eu conseguiria um bom acordo. É difícil ver um futuro quando se é colocado no crime com tão pouca idade.
— É? — Ikki sorriu de volta e, com seu corpo sentindo receptividade, viu-se de tal forma envolvido por aquele momento que, novamente sem pensar no que fazia, entregava-se a ele, começando a distribuir beijos que mais pareciam carícias, pelos ombros de Shaka — Você me ajudaria? — Perguntou enquanto acariciava a pele do loiro com os lábios.
— Sim... — Shaka murmurou em meio aquele clima estranho que levava a si um estado de consciência meio alterado, como se estivesse embriagado e sem força para resistir a algo que no seu íntimo gritava que estava errado. Ali havia o frio, o corpo quente de Ikki, seus beijos, e ele não queria sair disso tudo para congelar naquela tempestade. Não, não queria. Ajeitou-se mais nos braços dele de forma que seus corpos ficaram ainda mais juntos se possível. — Só que sou caro. Mas claro que você já sabe disso. — Continuou mordendo os lábios para não gemer com as carícias do outro. Não queria que ele parasse, tampouco tinha coragem de pedir que ele continuasse.
— Eu sei que é. — Ikki respondia de forma meio autômata, em um estado de semiconsciência. Os braços envolviam o loiro agora de uma forma menos interessada em transmitir apenas calor e já parecia ser aquele um abraço intencional, carinhoso e, até mesmo, apaixonado. Os beijos, antes tímidos, que mais pareciam uma carícia, começaram a se tornar mais voluptuosos. E, quando Shaka se colocou ainda mais próximo ao seu corpo, aquilo foi demais para o moreno. Ele levou a mão ao queixou do outro e gentilmente o trouxe para si, em um beijo faminto e certamente apaixonado. Por sinal, o beijo, junto àquela maior proximidade e, obviamente, a posição em que se viam, levaram Ikki a se sentir ainda mais desperto em uma região que Shaka, certamente, pôde perceber.
Shaka fechou os olhos, saboreando o beijo quente do moreno, sem nenhuma necessidade de fugir dali. Sua mente era incapaz de pensar naquele momento. Depois de tanta tensão, parecia que seu corpo finalmente dizia: vai! e ele ia embriagando-se no sabor e no calor de Ikki, com uma urgência que não o perturbava porque sua mente simplesmente estava apagada para questionamentos. Ele sentia a rigidez do corpo do outro contra o seu, tão próximo que o calor da pele morena parecia devolver a vida à sua própria pele. Envolvido como estava nos braços dele, Shaka mal podia se mover, somente experimentar os toques cálidos e delicados e o beijo intenso e apaixonado.
Ikki já havia perdido a noção das coisas, já havia deixado a razão de lado há muito tempo, já era puro instinto. Começou a intensificar os beijos e as carícias, que agora não eram mais apenas apaixonados, eram cheios de volúpia, cheios de um desejo que, quanto mais ele dava vazão, mais crescia. Sem realmente se afastar, começou a deitar o corpo do loiro, jogando o casaco no chão coberto de folhas para que eles apoiassem a cabeça, sem parar os beijos calorosos e as carícias sôfregas.
Shaka havia se desconectado de sua racionalidade. Sua mente, sua racional mente, era um mero observador dos acontecimentos agora, ela simplesmente não conseguia frear o instinto, os hormônios e as sensações que aqueles toques quentes e excitantes exerciam no corpo do sempre tranquilo e firme advogado. Shaka não era homem de se entregar a instintos, mas naquele momento só conseguiu corresponder ao anseio do corpo e beijar e acariciar de volta o homem que agora praticamente deitava-se sobre si, cobrindo-o com seu peso e calor, mostrando como o queria naquele momento inadequado e proibido e talvez fosse exatamente essa certeza do proibido que tanto o inebriasse e o fizesse corresponder, livre, à língua e às mãos de Ikki.
Em um primeiro momento, ao ter o corpo de Shaka deitado à sua frente, seus olhos escuros pareceram querer devorá-lo. Os beijos começaram a descer pelo maxilar, mordiscando, lambendo, atiçando. Passaram pelo pescoço, desceram ao peito, trabalharam os mamilos enrijecidos e provocando alguns gemidos que Shaka já começava a soltar sem tanta contenção. Ikki estava gostando de ver o loiro perdendo o controle, perdendo aquela pose aparentemente intransponível e queria mais, queria sentir que tinha o outro completamente a sua mercê. Desceu com os beijos molhados até o baixo ventre e começou a provocar. Queria ouvir Shaka pedir a ele que continuasse, em um jogo de sedução envolvente.
Shaka soltou um ofego longo quando os lábios do moreno se detiveram ali, suas mãos migraram instintivamente para os cabelos dele, forçando um pouco, enquanto ele movia o quadril levemente, numa súplica silenciosa para que Ikki continuasse. Não precisava falar e nem queria, porque talvez se ouvisse a própria voz acabasse se dando conta de quanto tudo aquilo era insano, e ele não queria ter essa certeza, pois tal certeza o obrigaria a parar com aquilo e ele não queria parar, queria mais dos lábios, da língua, daquela mão áspera e forte que marcava sua pele macia como se fosse ferro em brasa e, por isso, ele movia o quadril e apertava mais os fios negros dos cabelos do outro, contendo gemidos mais intensos mordendo os lábios.
A resposta que Ikki teve foi a demonstração muda do quanto Shaka precisava que ele continuasse. Como o próprio moreno já não estivesse conseguindo se segurar, envolveu o membro do outro com a boca de uma vez, saciando a vontade primeiro, e depois passou a ir com mais calma, embora ainda mantivesse o ritmo excitante, provocativo, desejando dar o máximo de prazer ao outro, pois via-se inebriado da sensação de senti-lo tão entregue a si, descobrindo como dar prazer podia ser tão prazeroso. Entretanto, quando começou a sentir que Shaka estava próximo ao orgasmo, parou o que fazia e dentro de um jogo ainda mais excitante, começou a preparar o outro, aproveitando-se da pomada que levara na mochila para outros fins, ainda distribuindo beijos lascivos e quentes pelo corpo, sempre dando uma grande atenção aos mamilos e à boca ardente do loiro.
Já não era mais tão fácil manter a discrição que na verdade poderia dizer que era sim uma leve timidez. Entretanto, naquela situação esquisita, isso era o que menos importava, seu corpo sensível e carente queria mais, queria tudo, e quando Ikki começou a prepará-lo com dedos, lábios e língua, ele não conseguiu evitar gemidos altos, quase gritos de prazer. Não sabia precisar quanto tempo estava longe de casa, mas naquele momento, o seu corpo respondia com uma volúpia inédita aos toques, como nunca respondeu a ninguém, ele todo era uma massa febril de desejo, um desejo que não poderia ser mais contido, um desejo que aumentava a cada carícia do moreno e que estava preste a explodir. Depois de um gemido longo e angustiado, Shaka puxou Ikki pelos cabelos com certa agressividade, forçando-o a olhar para o seu rosto febril em que os lábios e as narinas se moviam levemente por conta da respiração ofegante.
— Eu preciso. — Foi o que ele sussurrou, olhando profundamente nos olhos escuros que estavam ainda mais enegrecidos pela excitação, como também deveriam estar os seus.
Ikki não estava esperando por uma resposta tão assertiva, mas aquilo foi a gota d'água para que sentisse o desejo atingir o seu máximo; era impossível se conter, precisava sentir Shaka por inteiro, completamente, e para tanto necessitava tomá-lo para si, marcá-lo como seu, torná-lo seu da forma mais definitiva que conhecia. A frase e os olhos cheios de desejo do loiro entregaram ao moreno a última coisa que faltava e, sem mais conseguir se segurar, Ikki tomou o loiro de uma vez, de um modo um tanto brusco, bem mais do que gostaria, mas não foi possível se controlar, o nível de alcance da excitação que sofria era grande demais, como jamais lhe ocorreu e, portanto, eram sensações inéditas, inesperadas, que buscavam com ardor e furor, até mesmo desespero por não saber pelo que tanto ansiava, uma vez que já havia chegado a um ponto em que nunca estivera com outra pessoa antes. Mesmo assim, com o fôlego entrecortado, teve um pouco de razão, mínimo que fosse, para conter-se por um segundo, oferecendo seus braços como amparo para o loiro, que gemeu alto, tendo um leve sobressalto, e seus olhos como um porto seguro, enquanto lhe dizia, com a voz rouca e baixa:
— Me desculpe. — Então, abraçado a Shaka, seus movimentos passaram a ser mais lentos, dando ao outro a chance de se acostumar e de voltar ao ritmo inebriante que antes os rodeava. Queria ver de novo Shaka perder a razão, parecendo tão mergulhado quanto ele próprio naquela tormenta de prazer.
Shaka mordeu os lábios com uma força brusca quando sentiu a penetração profunda o suficiente para que seu corpo estremecesse de prazer e ofegou em seguida, quando o moreno o envolveu nos braços, de forma que ele ficasse mais próximo a ele, mirando-o profundamente. Aquele pedido de desculpas tocou algo dentro de Shaka que fez seu coração bater ainda mais alto do que já estava batendo naquele momento, então, perturbado, ele abraçou Ikki mais forte, envolvendo-o com os braços e escondendo o rosto na curva do seu pescoço de uma forma que seus gemidos saíam um tanto abafados e que sua respiração quente marcava a pele bronzeada.
Ikki movia-se lentamente, com uma sensualidade e experiência que o fazia atingir o ponto certo dentro do advogado sem que precisasse de movimentos maiores. Shaka agora mordia o ombro dele para não gritar, tomado por um prazer tão intenso que a cada investida do moreno, ele estremecia inteiro e seu corpo se comprimia, prendendo-o, denunciando que o orgasmo logo o atingiria.
— Ikki... — Gemeu o nome dele, meio abafado contra a pele macia do pescoço que era levemente marcada por seus dentes. Embora estivessem envoltos numa bruma de prazer e sedução maravilhosa, ele queria mais, simplesmente não tinha mais controle e com isso envolveu a cintura do outro com as pernas, puxando-o mais para si. — Mais rápido...! — Não foi um pedido, foi uma ordem, uma exigência, e Ikki, de certa forma, estava apenas esperando por algum comando de Shaka, mas só percebeu isso quando ouviu a certeza com que o loiro pronunciou aquelas palavras. Havia se tornado um jogo interessante, em que sedutor passava a seduzido e vice-versa, numa inversão constante de papéis. Ouvir o tão altivo advogado ordená-lo daquela forma era uma mostra de que havia vencido sua sisudez, ao mesmo tempo em que Shaka se mostrava firme ainda, mesmo quando subjugado. Era um jogo em que se vencia e se perdia constantemente e tudo era prazeroso demais. Obedecendo, portanto, à ordem recebida, Ikki o apertou mais forte nos braços e as investidas começaram a ser mais fortes, intensas e vigorosas. Seu corpo inteiro estava sensível, parecia consciente de cada poro, de cada gota de suor que lhe escorria pela pele, de cada sensação usufruída. Os movimentos, que vinham em um ritmo crescente, denunciavam o clímax que se aproximava, e Ikki conseguia apenas perder-se cada vez mais em Shaka, ignorando que existisse um mundo lá fora, esquecido de tudo o que deveria e o que não poderia fazer. Em um momento de plenitude, raríssimo em sua vida, mergulhava em Shaka não apenas com seu corpo, mas com a sua alma também.
Shaka fechou os olhos, entregando-se também àquela voragem deliciosa, apertando o corpo moreno com as pernas, deixando-o prisioneiro de si, assim como estava prisioneiro dos braços dele. Seu corpo estremecia e arrepios desciam da sua coluna e se espalhavam pelo corpo todo, cobrindo a pele e denunciando todo o seu prazer. Um prazer que já algum tempo não conseguia nem minimamente disfarçar e nem queria, estava perdido, perdido naquele momento de plenitude que ele nunca achou que fosse encontrar no sexo algum dia, dirá num sexo com alguém em condições tão adversas, mas era como se seus corpos se encaixassem de uma maneira perfeita, como se esperassem por aquilo desde que se olharam, mesmo que um olhar cheio de raiva contida.
Shaka não conseguia pronunciar palavras, as sensações e emoções envolvidas ali eram intensas demais, e apagava toda a eloquência natural que a sua profissão exigia. Não havia mais como controlar, Shaka agora cravava as unhas curtas nas costas de Ikki, como se tentasse assim segurar as ondas orgásticas que o tomavam. Gemeu alto, grunhindo depois abafado no pescoço do amante quando o clímax o atingiu, quase um grito ecoando pelas paredes da caverna, mas que foi contido por ele ao morder com força o ombro moreno, estremecendo em seus braços e fechando os olhos, deixando-se consumir pelo extremo prazer do gozo.
Ao sentir o corpo de Shaka se contraindo ao redor do seu, Ikki não pôde mais aguentar e chegou ao seu próprio orgasmo, derramando-se dentro do amante, enquanto urrava de um prazer inconcebível demais, forte demais. Abraçou-se ao corpo do loiro, sentindo o corpo passar do delírio e êxtase para uma sensação deliciosa de relaxamento. Não se soltou do corpo de Shaka nem um pouco. Na verdade, aconchegou-o ainda mais junto a si, enquanto sentia sua respiração ir se normalizando aos poucos, assim como as batidas do seu coração. Não se afastou, queria mantê-lo assim, como se uma parte sua soubesse que a razão, quando chegasse, traria um fim a tudo àquilo e, no momento, ele queria apenas permanecer daquele jeito, ainda esquecido da realidade. Continuava chovendo lá fora, mas dentro da gruta, estavam protegidos da água e do vento. Perto da fogueira, Ikki mantinha o corpo de Shaka aquecido, assim como buscava dar a ele o máximo de conforto possível naquela situação, de modo que trazia o corpo do loiro quase que inteiramente para cima do seu, enquanto, com os olhos fechados e cansados, deslizava os dedos pelos fios loiros emaranhados.
O corpo do advogado ainda estava levemente trêmulo e quente, e a brisa fria que vinha da entrada da caverna, fazia-o se arrepiar, por mais que o calor de Ikki o protegesse. Sentia o relaxamento pós orgasmo e queria fechar os olhos e dormir, mesmo que não fosse o mais adequado numa situação de quase hipotermia. Contudo, sentia que o calor do corpo de Ikki conseguia aquecer o seu naquele momento de todas as maneiras, e sentia o carinho que ele fazia em seus cabelos, como um alento para todas as dores que vinha passando. E em momento tão surreal, o seu cérebro foi incapaz de conceber que todas as dores que passara foram causadas exatamente por aquele homem que o tinha nos braços agora, protegendo-o como a um amante.
— Estou com sono novamente — Shaka murmurou, movendo o rosto de leve contra o peito musculoso de Ikki.
— Agora você pode dormir — Ikki disse, e beijou os cabelos dele. — Não se preocupe. Eu vou cuidar de você, Shaka. — Falou, continuando com as ternas carícias. Não quis pensar, não quis ter qualquer dor de cabeça agora. Não agora. Como se quisesse segurar aquele momento pelo máximo de tempo possível, Ikki abraçou o corpo de Shaka com mais força, prendendo-o mais junto ao seu, tentando segurar o que quer que estivesse acontecendo ali, com seus braços.
Shaka sentiu-se acolhido nos braços do moreno, seu corpo estava relaxado, livre de toda a tensão do dia e agora pedia apenas pelo sono reconfortante e imediato. Não queria pensar que estavam escondidos em uma caverna, fugindo de assassinos. Não queria lembrar que estavam deitados sobre uma jaqueta impermeável e folhas secas, aquecidos por uma fogueira durante uma tempestade. Sob o carinho suave das mãos de Ikki, Shaka gradativamente foi fechando os olhos, até que finalmente dormiu tranquilo e pesadamente como não dormia há muitos dias. Estava tão cansado físico e emocionalmente que não conseguia pensar em nada que não fosse descansar nos braços do amante e esquecer os perigos que os rondavam como lobos famintos.
Título: O que tem de ser tem muita força.
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