Nelumbo nucifera

30 Allegatio sine probatione veluti campana sine pistillo est


Notas iniciais
Obrigada a Mya e Kiara pelos gentis comentários deixados no último capítulo! Boa leitura!

Allegatio sine probatione veluti campana sine pistillo est

Chapter XXX

No dia seguinte, Ikki acordou sentindo a claridade da manhã pesar em seus olhos. Abriu as pálpebras devagar, tomando pouco a pouco consciência de onde estava. Não foi difícil relembrar-se do ocorrido. Ikki raramente era visto com a guarda baixa e, quando perdia a consciência, era capaz de retomá-la rapidamente. Assim foi que, em questão de pouquíssimos segundos, ele se viu inteiramente consciente de tudo o que houvera na noite passada. Sua mente, cada vez mais desperta, ia traçando em sua memória os últimos acontecimentos, dos últimos dias. Era tudo tão estranho que, mesmo colocando os fatos em ordem, organizados como ocorreram, tudo aquilo parecia sem sentido. Ikki ficou tentando pensar em quando começou a perder o rumo de suas ações, mas não conseguia. Às vezes, tinha a impressão de que desde a primeira vez em que o viu, já sentia que algo dentro de si lhe alertava que aquilo tudo que havia planejado não seguiria de acordo com o devido. Então Marduk despertou como um fantasma saído da tumba e tudo saiu notavelmente da normalidade. Na verdade, o primeiro beijo mudara tudo. Aquele foi o divisor de águas nessa estranha relação que tinha com o advogado. Aquele maldito beijo, e tudo que fizera depois dele, selou seus destinos. A tortura, o desespero, o medo que sempre esteve presente desde então, levaram a relação para outro patamar. No chalé, tinha dormido abraçado a Shaka, e embora parecesse pouco, a partir dali, Ikki sabia que não tinha mais volta, estava perdido entre o que queria e o que precisava. Mas agora, o que ocorria agora era... Não, era melhor nem pensar. Como explicar isso aos outros? Como explicar que não poderia...? Ikki sempre dissera que isso jamais aconteceria novamente. Os outros tiveram dúvidas, mas ele vinha provando que podiam acreditar nele. E tudo vinha dando certo. Até agora. Ikki permanecia estático, mas sua mente já corria a mil por hora. Ele sabia o que tinha que fazer. O que precisava. Mas... havia aquilo.

Shaka acordou com o movimento do outro. Abriu os olhos lentamente, protegendo-os da claridade com o braço, antes de se dar conta exatamente de onde e com quem estava. Quando essa constatação finalmente chegou, ele percebeu que estava nu e lembrou-se que a noite passada não tinha sido um sonho, um devaneio erótico da sua alma fragilizada. Aquilo era um pesadelo. Um pesadelo para o seu orgulho, um pesadelo moral. Todavia, Shaka não se sentia assim. A sua mente dizia isso, mas ele não se sentia mal, envergonhado ou qualquer outro sentimento negativo. Ele apenas não sabia exatamente o que sentia naquele momento. Eles haviam feito sexo... E daí? Satisfizeram a carência física em um momento de crise extrema. Natural. A mente lógica tentava responder aos próprios questionamentos. Shaka era bom nisso, era um exercício mental que ele, como advogado, fazia sempre, e ele tentava minimizar a importância do que acontecera. Eram animais, sentiam necessidades básicas. Não precisava pensar naquilo. Não precisava. Não pensaria naquilo. Pegou suas roupas de qualquer jeito e começou a se vestir com dificuldade, já que o calcanhar estava cada vez pior, agora a pele estava roxa e inchada. As roupas já estavam secas pelo calor das chamas que ainda crepitavam timidamente. Ele vestiu a camiseta e a cueca, mas a calça estava dando trabalho para passar pelo calcanhar, que estava extremamente dolorido.

“Inferno...”, praguejou, porque não queria ter que pedir ajudar, não naquele momento, mas precisava. Todavia, permaneceu com a calça pendurada numa perna só até a coxa, sem coragem de abrir a boca numa mistura de raiva e dor moral.

Ikki pareceu finalmente despertar para a realidade que vivia quando Shaka se levantou e começou a se vestir. Ele, percebendo o quanto o outro se vestia com dificuldades, aproximou-se e, sem dizer uma palavra, levou suas mãos à calça, o que o fez imediatamente recordar-se de como tudo começou e de como se sentiu. Essa era a parte mais complicada, não conseguia ainda definir exatamente o que sentia. Entretanto, o contato com o corpo do loiro, mesmo que breve, fez com que aquelas sensações regressassem rapidamente, o que o fez se afastar rápido. Era intenso demais, ainda intenso demais. E se, na noite passada, isso havia sido inebriante a ponto de ele mergulhar de cabeça no que sentia... Hoje era assustador. Voltou-se para as suas roupas e se vestiu também, em silêncio. Depois, retirou os cantis d´água da mochila, e ofereceu um ao loiro, ainda sem dizer a ele uma palavra.

Shaka ficou tenso com a aproximação de Ikki, sua memória pareceu lhe lançar flashes de todos os acontecimentos da noite e isso era perturbador porque as sensações permaneciam vivas como queimaduras em seu corpo, e essa sensação de tensão continuou depois que ele se afastou. Pegou o cantil das mãos dele, também em silêncio e despejou na garganta ressequida. O que poderia dizer? As sensações queimavam em si, os pensamentos entravam em um vórtice dramático, drama de consciência, ressaca moral como muitos diziam. Melhor tentar fingir que não se lembrava, alegar insanidade temporária, como tantas vezes já vira nos tribunais, essa era sua única chance de sobreviver àquilo. Não podia pensar muito sobre aquilo.

Ikki bebeu quase todo o conteúdo de seu cantil de uma única vez. Sentia uma sede absurda. Depois dirigiu-se à entrada da caverna e checou como estava o dia. Era uma manhã de sol, aberta, sem nuvens. Era um lindo dia. Ao menos, isso lhes ajudaria a voltar para a mansão. Mas precisavam estar fortes o bastante. Querendo ou não, haviam gastado muita energia na véspera. Pegou da mochila duas barras de cereais e entregou uma ao advogado:

— Coma. A gente precisa de energia. Ontem a gente... — hesitou nesse momento, mas depois retomou a fala, como se tratasse de um assunto de menor importância, enquanto desviava o olhar para a entrada da caverna, analisando o dia — Ontem desperdiçamos muita energia. — Falou no seu tom mais frio e então deu uma larga mordida em sua barra.

Shaka tentava ignorar o clima pesado entre os dois e não sentir o que vinha à tona agora: a repulsa pelos próprios atos. Era assustador para alguém que nunca perdia o controle ter-se visto numa situação como aquela em que controle era tudo que não tinha. Estava acostumado a comandar seus sentimentos e não ser comandado por eles. Nunca, nunca mesmo, fora pego por situações imprevisíveis, ele sempre previa tudo, se antecipava aos problemas, tinha sempre a solução, a resposta perfeita, o plano perfeito... E agora, o que ele tinha? Uma grande confusão em sua mente. Ainda assim, manteve a pose estoica de sempre ao pegar a barra de cereal e depois de retirar a embalagem que guardou no bolso levá-la a boca. O sabor doce fez seu estômago embrulhar por um tempo, mas ele forçou-se a comer porque estava verdadeiramente esgotado. Feito isso, caminhou, arrastando seu tornozelo enfaixado, até a entrada da caverna, mirando o dia claro.

— Acho que podemos sair — disse como se aquilo fosse uma decisão sua, embora soubesse do seu grau de impotência naquele momento. Sim, era melhor agir e fingir que nada havia acontecido que tudo não passou de uma fantasia.

Ikki perguntaria a Shaka se ele preferia que o carregasse, mas algo na da postura do advogado indicou que aquela não era uma boa opção. Assim, ele apenas ofereceu o braço para que o outro pudesse se apoiar, uma vez que, sozinho, não conseguiria caminhar direito. Dessa forma, deixaram a gruta e foram caminhando no mais absoluto e pesado silêncio, e Ikki não sentia qualquer ânimo para mudar isso. Talvez por estar tão perdido em pensamentos profundos, tão profundos que nem mesmo atinava com eles, Ikki não viu o tempo passar. Seguiam na direção correta, sem maiores problemas e, quando deu por si, estavam já na estrada que levava à mansão. Quando Ikki percebeu que o trajeto os havia levado até ali, primeiro deixou Shaka protegido atrás de uma barreira de árvores estratégica, onde ele poderia ficar sem ser visto, quase à frente do enorme portão de pedra e ainda assim um local camuflado e quase invisível.

Não havia qualquer movimentação estranha. Ikki pensou que aquilo poderia ser uma armadilha, mas precisava se arriscar um pouco para saber se Marduk e seu bando estavam por perto. Talvez Marduk não fosse louco o suficiente de voltar ali, numa das propriedades d’A sociedade que já era ocupada pelos homens de Ikki. Torcia para que Mu já houvesse reassumido o local em sua ausência, e que ele pudesse entrar sem grandes problemas.

— Fique aqui. Eu vou ver se descubro alguma coisa. — Ikki lhe disse, em voz baixa e virou-se para sair. Mas, como se sentisse essa necessidade, voltou-se mais uma vez para o loiro e falou, enfático — NÃO saia daqui. É perigoso. Eu não sei se Marduk e seu bando estão por perto. Ok? Eu volto em um instante. — E saiu, disposto a fazer o reconhecimento do terreno e ver se encontrava algum de seus homens ali ou se ao menos conseguia achar um telefone público.

Shaka mordeu os lábios para não responder, apenas devolveu um olhar nervoso ao outro e o viu se afastar. Tinha vontade de gritar que não sairia dali porque simplesmente não conseguia andar e ao mesmo tempo se revoltava pela própria falta de sorte. Era a sua grande chance de fugir e não podia por causa de um maldito machucado. Praguejando contra si mesmo, ele forçou-se a apoiar o peso no calcanhar para ver se a dor seria suportável, mas a dor foi tanta que ele não só não conseguiu como caiu, apoiado com as costas na árvore com um grito agoniado. Deixou-se escorregar até o chão, socando a terra ao redor. Raiva e impotência eram os seus sentimentos. Aquele lugar parecia não fazer parte de nada, mas ainda assim, ele tentou conter a fúria e olhar ao redor, talvez conseguisse identificar onde estava. Deveria ter uma rodovia em algum lugar, e ele tinha que descobrir, mas não conseguia ouvir som algum, além dos pássaros cantando nas copas das árvores. Shaka levou a mão ao pé machucado e se ergueu com muita dificuldade, olhando ao redor, se tivesse uma chance... Se ao menos soubesse onde estava. Mas não, estava completamente impotente. Ele só tinha uma chance: conseguir contato com alguém. Não conseguiria sair daquilo de outra forma. Precisava voltar com Ikki para aquela mansão.

Ikki caminhou escondido pela frente da mansão. Não havia qualquer sinal de Marduk e seu bando. Era bem verdade que a chuva poderia ter destruído rastros, mas ainda assim, tudo ali parecia dentro do normal. Desconfiado, utilizou as técnicas que os seus anos andando pelas sombras o ensinaram: como tornar-se invisível quando quisesse; e conseguiu adentrar a mansão. Desviou dos seguranças armados, não tinha certeza se poderia confiar neles. Pensava que para Marduk tê-lo encontrado, alguém deveria tê-lo traído. Ninguém além dele sabia a exata localização daquela cabana, então a única resposta a isso era que fora grampeado quando visitara a sede.

A mansão estava da mesma forma que a deixara. Nada parecia fora do lugar desde a última vez que estivera ali. Procurou por um telefone, esgueirando-se nas sombras em direção ao seu escritório, e usou a linha particular de Mu para entrar em contato.

— Ikki! — o cavaleiro exclamou assim que ouviu a voz dele. — Recebemos as informações de Khan. Eu mandei uma equipe para ajudá-lo, nas coordenadas que você forneceu, mas...

— Eu sei. Eu já havia saído. Acho que viram a bagunça que eu fiz. Na verdade, mandei aquelas coordenadas para o caso de algo dar errado.

— E deu? Onde está Phalke?

— Ele está comigo. Estou na mansão agora, Mu, e preciso saber se os homens que estão aqui são de confiança.

— É a equipe do Angelo, mas... Como entrou aí sem que eles...? — Mu percebeu que a pergunta era estúpida, ele estava falando com Ikki. — Vou pedir para que Angelo os recolha e reintegre a sua equipe. A mansão é sua. O plano Phalke também.

— Okay. — Ikki disse e bateu o telefone.

Tão logo desligou, Ikki deixou o escritório, já em posse de uma pistola. Alguns seguranças correram até ele, que parecia ser um intruso, mas diante de um código dito por Ikki, eles o deixaram passar imediatamente. Ikki deu algumas ordens, pediu para que eles cercassem a mansão por fora e correu para buscar Shaka, que ele rezava que estivesse ainda protegido no local onde ele o deixara. Havia poucas chances de Marduk o encontrar ali, mesmo que ele ainda os estivesse procurando, mas o advogado era sempre imprevisível.

Encontrou-o sentado na terra e respirou fundo ao mirá-lo tão machucado. Aquilo não era para ser daquele jeito. Por que Shaka precisava ser... Nem teve ânimo para completar os pensamentos, agachou-se perto dele e sem pedir licença o alçou nos braços.

— Vamos. Está tudo bem-disse, tirando-o do esconderijo.

Shaka viu os seguranças espalhando-se pelas mediações da mansão, e ao mesmo tempo que isso o aliviava, ver novamente aquele local onde fora torturado lhe causou ânsia de vômito. Contudo, ele dominou-se. Sabia que ali estaria seguro contra o asqueroso Marduk e por enquanto era o melhor que conseguiria.

Ikki adentrou a mansão e subiu as escadas, com Shaka em seu colo. Os criados, sempre tão furtivos, estavam todos reunidos e observando o patrão, que parecia ter voltado de uma guerra. Assim, Ikki seguiu até o último andar, indo até o quarto designado ao advogado, antes de tudo acontecer. Estava limpo e impecável como toda a casa. O tempo parecera parar ali desde o alerta vermelho, exceto pelas lembranças que ele tinha de Shaka em um daqueles porões, completamente machucado após a tortura. Será que era nisso que o advogado pensava agora? Ikki questionava-se. Era cruel levá-lo de volta àquele lugar. Entretanto, ele pensava que talvez as lembranças ruins fossem apenas as do subsolo, o que não o aliviava porque eventualmente ele precisaria levar Shaka ao subsolo. Era lá que ficava a ala médica.

Tão logo entrou no quarto, levou Shaka à sua cama e o colocou ali, cuidadosamente. Tudo estava como sempre fora; sequer parecia que eles haviam saído de lá. Era estranho estar de volta. Ikki então, sem saber exatamente como agir, mas não querendo partir, ficou olhando ao redor, como se analisasse o quarto, e falou:

— Como se sente? — perguntou, aparentemente dando a entender que falava do tornozelo, mas no fundo queria saber mais, sendo que conscientemente nem ele sabia o que queria saber.

— Está uma merda — Shaka também resolveu levar a questão mais objetivamente e respondeu de imediato e sem hesitação, para que não desse margem ao outro do que ele falava. Estava irritado, mais consigo do que com Ikki, era verdade. Sua impotência perante os fatos, deixava-o com os nervos à flor da pele e isso acabava atingindo quem estivesse ao redor, era como se seus olhos fossem capazes de soltar raios mortais. A tensão saía como por seus poros e o cansaço o abatia a cada segundo. — Se ele não tivesse tão machucado... — sussurrou; “eu teria a chance de fugir” completou apenas mentalmente, mas sabia que Ikki era inteligente o suficiente para entender. Sem olhar para ele, começou a remover os esparadrapos que seguravam a tala no pé, estavam muito sujos, aliás, ele também estava sujo demais. — Eu preciso de um banho — declarou com todo seu mau humor.

Ikki ouviu a cada palavra calado. Embora não demonstrasse minimamente em seu rosto, a agressividade de Shaka o tinha machucado um pouco. Machucado? como isso poderia ser? Não, aquilo estava fugindo demais do controle. Resolveu que precisava voltar a si. Sabia o que precisava fazer. Sabia que não havia chances, mas ele queria... Como ele queria que pudessem.

— Pedirei que um dos empregados venha ajudá-lo. Já chamei o médico para olhar o seu pé. Faça o que quiser, contanto que não saia desse quarto. — Falou. — Já chamei um médico e ele virá cuidar do seu tornozelo. — Sem esperar por qualquer resposta, deu meia-volta e deixou o quarto, decidido a também tomar um banho. Uma sensação de derrota imensa o dominava. Precisava que as coisas voltassem para os trilhos. Desceu as escadas e assim que chegou à sala, encontrou o comitê d’A sociedade completo: Minos, Shion, Dohko e Aiolos. Ele sabia que Aiolos não estava na cidade, logo, o líder dos agentes de campos fora chamado por motivo de urgência. Resignou-se e, antes de pensar em qualquer coisa, fez um gesto de mão para que o grupo o acompanhasse até a sala de jantar.

— Creio que saiba por que estamos aqui, Ikki — Aiolos continuou levando as mãos bem cuidadas aos bolsos.

— Não faço ideia do que decidiram, mas sei exatamente o que decidi.

— Mu já nos deixou claras as suas últimas decisões, cavaleiro — Minos falou, puxando uma cadeira e se sentando, esperando que os outros fizessem o mesmo para continuar. — Creio que uma declaração como a que fez signifique traição.

— Devagar, Minos — Shion disse em advertência. — Espero que se lembre com quem está falando. Ikki sabe o que combinamos recentemente. A conversa com Mu aconteceu antes da nossa, na sede.

Ikki deixou escapar um sorriso cínico, sentando-se e apoiando os braços na mesa.

— O que disse é exatamente o que penso e que farei, e já que Mu fez a gentileza de deixá-los a par das últimas diretrizes, eu recomendo que tenham muito cuidado com o que dirão daqui para frente.

Dohko, Shion e Aiolos se entreolharam. Minos sorriu.

— Aqui, eu represento O Círculo, e ele será informado da sua conduta, cavaleiro. Também trago diretrizes de acordo com os últimos acontecimentos.

— Pois eu quero que vocês e O Círculo se fodam! — Ikki bateu na mesa, erguendo-se. — Pensei que A Sociedade fosse justa e leal e que jamais faria mal a um inocente. Eu estava enganado, vocês me enganaram a minha vida toda! — os dentes do cavaleiro rangiam de raiva. — Como puderam permitir que ele fosse torturado? Que imoralidade fez com que trouxessem Marduk de volta?!

Minos engoliu em seco, ele também não tinha resposta para aquilo.

— Já falamos sobre isso. Decisões erradas, cavaleiro. Erros que já estão sendo revistos, mas não podemos nos dar ao luxo de estagnarmos nos nossos planos porque alguns de nós cometeram erros, não importa o quão imorais que esses erros sejam. Você disse a Mu que havia voltado para os planos iniciais. Nós o liberamos para usar o seu vínculo emocional com Phalke. O que deseja mais?

— Ainda não me explicaram o que mais desejo saber.

— Nelumbo Nucifera é confidencial. Mas eu não acredito que esteja tão preocupado por causa de um nome. Aquela tatuagem constava nos registros, só isso.

— Não. Estão mentindo. E eu vou descobrir porquê.

— Ikki, você não tem autorização para investigar isso — Aiolos disse, erguendo-se também. — Por favor, vamos seguir o plano. Só você pode salvar Phalke.

— Salvar? — Ikki o encarou chocado e depois seus olhos recaíram sobre Dohko e Shion que, estranhamente, desviaram o olhar.

— Aprovamos isso e te daremos mais duas semanas, nada mais que isso para que Phalke esteja pronto. Não temos mais tempo, ele precisa retornar ou não poderá se candidatar. — Minos assentiu.

— Duas semanas... — Foi Aiolos quem falou agora. — É muito pouco...

— É tudo que temos — Minos disse e encarou Ikki. — Por isso pense bem no que fará. Não é momento para questionamentos e insubordinação. Depois que Phalke estiver pronto, prometo que será ouvido, que poderá buscar os culpados, caçá-los, se quiser, mas agora, precisamos que a porra do projeto seja executado e que a merda daquele advogadozinho ranzinza esteja pronto! — Ele se ergueu. — Deixarei que cavaleiros conversem com cavaleiros agora. Ah, certifiquei-me de que Phalke não deixe essa casa, sem uma expressa autorização d’O Círculo. Nem mesmo com a sua, Ikki. — O espectro deixou a sala.

Ikki sentiu vontade de matá-lo, mas permaneceu no mesmo lugar, agora com os dedos apertando o encosto da bela cadeira.

— Ikki — Aioros começou —, sabe que não temos escolha. Se Phalke não colaborar, agora... Não há mais como sair...

Ikki engoliu em seco. Sabia o que aquilo significava e seu coração sangrava porque ele não conseguia uma saída que os livrassem. Estava encurralado. Se Shaka não colaborasse...

— Duas semanas, não é? — Ele ergueu os olhos para os outros, longe de estar resignado, ele estava furioso como uma fera acuada. — Conseguirei. Eu nunca falho, lembrem-se.

— Contamos com isso.

Os três cavaleiros deixaram a sala. Ikki respirou fundo e saiu alguns minutos depois. Foi a seus aposentos, tomou uma ducha demorada e depois saiu para se vestir dentro de sua usual elegância. Contudo, ao colocar aquelas roupas, sentiu o abismo que existia entre o homem que era e o homem que se tornava. As roupas anteriores lhe lembravam de um passado cada vez mais distante, lhe lembrava do Ikki de verdade que por alguns dias, ele novamente foi. Mas agora não era hora para pensar essas coisas. Na verdade, pensar demais era um erro. Ele precisava agir como a máquina executora que era, apenas isso. A máquina perfeita, como alguns o chamaram. Ele nunca falhou e não falharia agora quando a vida de alguém, de um inocente, e do homem que... Não, era melhor não pensar. Ele tinha uma missão, isso era tudo. Absolutamente tudo.

Deixou o quarto e foi à sua biblioteca. Tinha ligações a fazer, muita coisa a organizar. Estava no meio disso quando Khan veio lhe avisar que o médico tinha chegado. Ikki então acompanhou o homem de meia-idade até o quarto de Shaka.

Quando o médico apareceu, acompanhado pelo dono da casa, Shaka já havia tomado um banho e vestindo-se em camisa e calça completamente brancas e leves, como se procurasse naquela cor a clareza que faltava a sua alma. Tentava não pensar no ocorrido naquela gruta, tentava imaginar que aquele período foi apenas um sonho e que ele nunca deixou de estar ali naquele quarto como prisioneiro, porque todas as vezes que pensava na forma que ansiou por tudo aquilo, sentia-se um traidor e não somente um traidor do namorado, mas um traidor de si mesmo, de suas crenças. Por isso, quando Ikki entrou com o médico, evitou olhá-lo. Não o encarar era uma forma de negação dos sentimentos tumultuados que se abrigavam em seu peito, mas notou as roupas, a postura. Notou que ele voltava a ser o antigo Ikki. Era isso! Aquele homem com quem esteve na cabana, aquele homem que o salvara e que muitas vezes demonstrara uma genuína preocupação consigo, não existia mais. Ele era novamente o senhor do seu cativeiro, isso era evidente pela forma que evitava encará-lo também ou mesmo se aproximar dele.

— Senhor Phalke, este é o doutor Misake. Ele veio para examiná-lo.

A expressão “Senhor Phalke” deu a Shaka a certeza do retorno ao primeiro estágio da relação dos dois. Fitou o moreno em seu terno inteiramente preto, camisa social preta, gravata preta. O velho Ikki, senhor dos seus desejos, estava de volta. “Dark Ikki”, pensou com um estranho e mórbido bom humor.

O médico aproximou-se dele e analisou o pé. Disse que precisava de um raio X e Ikki respondeu que tudo bem. Como se o médico já soubesse disso, seguiu na frente e ele, sem pedir licença, tomou Shaka outra vez nos braços, para levá-lo ao subsolo da mansão, onde havia uma parte médica que, pelo visto, fora ali instaurada devido às necessidades de outros hóspedes.

Ele podia ter pedido uma cadeira-de-rodas, Ikki sabia. Mas sabia do quanto seria difícil para Shaka chegar àquele lugar. Então, mesmo tendo que manter a postura indiferente, usaria seu corpo como uma espécie de conforto para ele. Todavia, não queria que isso ficasse tão evidente, então mantinha a mesma fleuma, a expressão inflexível e distante, evitando olhar para o advogado.

Shaka sentiu-se gelado ao descer aquelas escadas de mármore. Seu coração começou a acelerar e ele começou a suar frio. Sem pensar, cravou os dedos no tecido do terno dele e fechou os olhos com força, as imagens dos dias de tortura voltando e lhe causando um imenso desconforto, mas ele respirava fundo e controlava-se ao máximo. Ele teria que sobreviver a isso.

Ikki quis confortá-lo de alguma forma, mas não soube como, então apenas andou com os passos mais rápido que pôde, até que eles estivessem na ala médica, que era completamente branca, completamente diferente da sala de tortura. Ele o deitou na maca com delicadeza e esperou que o médico preparasse o equipamento.

O médico tranquilamente tirou o raio X e teve a confirmação do que esperava: estava quebrado. Engessou o pé do loiro e disse que ficasse de repouso, evitando usar o pé, além de deixar alguns medicamentos que, segundo ele, resolveria a dor e o inchaço. Depois ele pegou um par de muletas num armário e entregou a Shaka, recomendando-o a não andar sem elas, ou prejudicaria a outra perna e a coluna. Em seguida, apertou a mão de Ikki e saiu.

Ikki então olhou para o loiro, como se perguntasse se ele precisava de ajuda para subir os degraus que os levaria para fora daquele porão.

Shaka não dizia nada. Ficara mudo durante todo aquele processo. Ver aquela maquinaria médica o deixou mais convicto de que lidava com sociopatas e isso, estranhamente, era um consolo: o que se pode esperar de sociopatas?

Não devia esperar que houvesse uma lógica para ter sido escolhido. Foi aleatório e ele não precisaria pensar nisso nunca mais. Era um alívio em parte, mas desesperador em outra, porque agora sabia que não sairia dali vivo, a não ser se concordasse com eles.

Mas que ótimo! Um pé quebrado! Isso dificultava tudo. Tudo! Pensar nisso o estressou tanto que quando Ikki lhe lançou aquele olhar questionador, teve vontade de pegar as benditas muletas e partir-lhes na cabeça dele, mas não o fez, manteve sua postura indiferente e apoiando-se nelas, passou por ele, esforçando-se para andar sozinho.

Ikki permitiu que ele fosse, mas o seguiu de perto, não permitiria que ele caísse e se machucasse. Tentava descobrir o que Shaka estaria pensando naquele momento porque se importava com ele mais do que com qualquer outra pessoa. Entretanto, precisava mentir, precisava ser o Ikki que A Sociedade queria, ou... Não podia ser o Ikki da cabana, o Ikki verdadeiro. Estavam sendo vigiados o tempo todo, não sabia mais em quem poderia confiar.

Shaka teve dificuldade de subir as escadas com as muletas, então, sem muita paciência, Ikki as tomou e o pegou nos braços, deixando o porão e só o deixando no chão quando já estavam no corredor que levava à sala. Entregou-o as muletas e quando viu que Shaka se preparava para subir as escadas que o levariam para o quarto, Ikki, que o acompanhava com os olhos, interrompeu seu percurso ao chamá-lo.

— Não é para subir ainda. Vamos almoçar. — Ele falou, dando mostras de que tudo realmente voltava ao que era. Cruzou os braços atrás do seu corpo e ficou esperando para ver se Shaka o acompanharia de boa vontade. Porém, antes de tudo, uma frase sua saiu sem que pudesse ponderar: — Você precisa se alimentar. Aquela hipotermia não foi qualquer coisa. — Em poucas palavras, se tinha traído. Demonstrava, de uma só vez, uma preocupação que contrariava a frieza com que deveria agir e a lembrança vívida de como tudo começara.

— Eu estou bem, senhor Ikki — Shaka tornou friamente, mas com uma voz baixa e contrita. Não soube dizer se as palavras traíam a mágoa que sentia de si mesmo e dele também, embora essa última não fosse muito consciente. Não disse mais nada além disso, simplesmente resolveu seguir o outro para a sala de jantar, embora não tivesse certeza se conseguiria engolir alguma coisa, mesmo sabendo que precisava. Sempre detestou a forma com que seu emocional interferia em seu apetite, não podia se dar ao luxo de ficar doente, não naquele momento.

Ikki não disse nada. Caminharam em silêncio até a sala de jantar e logo começaram a ser servidos. Havia um clima de constrangimento impossível de não ser notado. Ikki achando aquilo tudo insuportável, disse de repente:

— Eu havia falado que, a cada refeição, iria fazer uma pergunta pessoal a você, senhor Phalke. — Ele falava com uma naturalidade fria — Então, diga-me... Ama o seu namorado? — De forma alguma tinha sido uma pergunta friamente planejada, que possuía um fim definido. A pergunta saiu, simplesmente, e em meio ao caos emocional que vivia, Ikki nem mesmo soube como fora perguntar algo aparentemente tão sem importância. Mas a verdade era que ele precisava, por algum motivo obscuro fazê-la e por isso mantinha olhos fixos na figura do advogado, à espera de uma resposta.

Shaka ergueu os olhos para encarar as safiras escuras do seu interlocutor. Se os olhos de Ikki eram quentes e implacáveis, os seus eram neutrais, indiferentes, impossíveis de serem mapeados naquele momento. Era mesmo impressionante como conseguia controlar isso em si. Ninguém nunca saberia dizer com convicção se ele mentia ou falava a verdade a não ser que ele quisesse que soubessem.

— Amo. — Respondeu simplesmente, embora em seu íntimo houvesse uma pequena dose de questionamento sobre essa afirmação. Nunca achou que amasse Kanon, não o amor da forma que as pessoas geralmente dizem ser o amor. Ele queria bem a ele, gostava da companhia dele, ria com ele, mas poderia viver muito bem sem ele. Não sentia necessidade dele, nem dele e nem de ninguém. Talvez essa de fato fosse a coisa mais perturbadora em sua alma, Shaka simplesmente não se apegava, ele até tentava, queria, mas no fim, ele nunca se entregava de fato, de alma, e isso, com o tempo, sempre o levava a ficar sozinho.

— Ama? Assim? Só isso? — Ikki olhava agora o prato, mas não comia. Com o garfo, mexia a comida, sem levar nada à boca — Não me parece verdade. Quando uma pessoa está apaixonada, costuma ser mais enfática quanto a esse sentimento, quando ouve uma pergunta, como a que eu fiz. — Por fim, como se sentisse que precisava se calar, levou finalmente o garfo à boca, mastigando o alimento devagar.

Se ele esperava uma resposta de Shaka, com certeza ficaria insatisfeito. O advogado apenas o imitou, levando o alimento à boca e mastigando sem vontade, com os olhos no prato. Era tão estranho aquilo. Eles pareciam retroceder no tempo, parecia que os últimos dias não tinham acontecido e se não fosse o pé quebrado e as marcas que tinha pelo corpo, Shaka poderia achar que tivera um terrível sonho e nada mais.

Ikki impacientou-se com a apatia do outro. Estava acostumado a um Shaka que deixaria escapar algum deboche, que iria provocá-lo, mas aquela postura indiferente o irritava.

Riu de leve.

— Por sua resposta evasiva, acredito que não esteja falando a verdade.

— Não me diz respeito o que você acredita — a voz do advogado continuou calma e desdenhosa. Contrariando o nó que se formava em seu estômago, ele obrigou-se a continuar comendo. Se estava ali para comer, era o que faria.

— Devia dizer. — Ikki estava odiando se sentir tão ignorado por Shaka, que parecia não estar minimamente interessado em lhe oferecer mais que poucas palavras. Voltou a encará-lo, apoiando o queixo no dorso das mãos. Permaneceu assim em silêncio, até voltar a falar: — Sua vida aqui depende muito de mim, então deveria ser menos lacônico. — Falou bastante rude. — Enfim; esse seu namorado... Ele ama você? É recíproco, por acaso? Ele já lhe deu alguma prova de amor?

Shaka largou o garfo e encarou-o com olhos opacos, mas muito seriamente.

— O que você chama de prova de amor? Não posso falar sobre os sentimentos dos outros, senhor Ikki. Se deseja saber dos sentimentos de Kanon, creio que tem recursos de fazer isso diretamente a ele. O senhor não disse que era uma única pergunta? O senhor já a fez, posso comer em paz? — indagou, mas sua voz não possuía irritação, no máximo cansaço.

Ikki o encarou mudo por um tempo, mas Shaka percebeu que ele cerrou os punhos como se controlasse a irritação.

— Farei quantas perguntas eu quiser. — Ele disse com rispidez. — Afinal, até onde eu sei, eu sou o dono dessa casa e mando aqui. Ok, então você não pode dizer o que ele sente, mas então me diga. Você " acha" que ele te ama? Ele já fez alguma coisa que lhe desse a entender isso? Eu quero saber.

Shaka respirou fundo para não se irritar e apoiou o queixo nas mãos cruzadas, encarando o moreno seriamente, sem lhe dar chance de desviar o olhar.

— O que você quer saber, afinal? Quer que eu faça um relato de todas as coisas que Kanon fez por mim e comigo? Uma lista de todos os momentos em que estivemos juntos, todas as juras de amor? Todos os presentes, todos os agrados e o quanto ele me fazia bem, me fazia rir? — a voz não se alterou. — Decida-se, senhor Ikki, o-que-o-senhor-quer-saber?

Ikki engoliu em seco. Odiou a resposta, porque aquilo, de certa maneira, era a resposta. Então Kanon fazia-lhe muito bem, trocavam juras de amor e outras coisas do gênero. Ikki não saberia dizer ao certo o que mais lhe incomodava e ainda não tinha conseguido inventar para si um motivo que justificasse a necessidade daquelas perguntas. E nem se importava mais, viu-se nervoso de uma forma um pouco complicada de controlar. Mas controlaria, se quisesse. O problema é que ele não parecia querer.

— Que interessante. Mas me diga uma coisa, senhor Phalke. Se são assim tão apaixonados, então por que dormiu comigo? — foi certeiro, indo contra o que havia dito a si mesmo, de esquecer o ocorrido.

Shaka continuou na mesma posição que esteva, mirando o outro de forma neutra, mas foi possível enxergar certo rubor em sua face. Ele sabia que todas as perguntas desaguariam para aquele fim. Sabia e, apesar disso, doeu escutar aquilo e agora ele já não conseguia se mostrar tão indiferente, pois embora estivesse se preparando para quando aquele assunto viesse à tona, ele não esperava que fosse tão cedo e de forma tão brusca.

Ficou calado por um tempo, tentando organizar os pensamentos para dar uma resposta satisfatória.

— Vamos, Shaka, eu quero saber — Ikki inclinou-se na mesa, aproximando o rosto do dele, enquanto o encarava nos olhos para que ele não tivesse saída. Ele também estava trêmulo e perturbado e quando assim estava, também cometia erros estúpidos.

— Estava frio...

— Isso justifica? — Ikki sorriu com crueldade.

— A situação foi propícia para o que aconteceu, apenas isso. — Shaka continuou com a voz baixa.

— Propícia — Ikki pareceu analisar as palavras do advogado. — E você, como homem prático que é, deve aproveitar todas as ocasiões propícias.

— Estava frio, eu estava congelando. Nada melhor que sexo para aquecer — Shaka sorriu com ironia finalmente. — Num tribunal, eu alegaria insanidade temporária causada pela sensação de hipotermia. — A ironia escondia sentimentos diversos. Shaka tremia por dentro numa profusão de sensações: raiva, mágoa e medo. Um medo silencioso, mas que começava a martelar em parte mais profunda do seu ser, uma parte que geralmente ninguém e nada tinham acesso. Era um medo que ele sempre nutriu, pois se deixasse o que estava ali escapar, perder-se-ia completamente.

— Nós não estamos em um tribunal, senhor Phalke. Mas, se quer alegar insanidade, que seja. — Ikki levantou-se de sua cadeira e se aproximou de Shaka — Então me conte; como foi perder a razão comigo?... — Colocou-se muito próximo dele e sua voz rouca não tinha traços de provocação, era quase uma pergunta legítima. Shaka não olhava para Ikki, mas se o visse, naquele instante, viria um brilho de expectativa único em seus olhos, como não se costumava ver nele jamais.

O advogado engoliu em seco, um frêmito passando por seu corpo com a aproximação do outro. Ikki possuía um calor tão intenso que ele conseguia sentir, apesar das roupas e do espaço mínimo que havia agora entre os dois. Shaka continuava olhando para frente, sem poder encará-lo. Queria poder, queria poder olhar para o outro e dizer que não sentia nada, que apenas cedeu aos caprichos do corpo e de uma noite fria, mas com ele assim tão perto e perguntando daquela forma extremamente sedutora, era difícil encontrar a máscara de frieza que sempre usava. Ele não encarou Ikki, respondeu consertando a postura, procurando um ponto de fuga qualquer.

— Eu não sei — foi a única coisa que conseguiu responder, embora mil e uma formas de denegrir o moreno lhe passasse pela cabeça.

— Não sabe? — Ikki estava tão perto que sentia o perfume dos cabelos do loiro, o que o deixou ainda mais perdido no que fazia — Sabe, talvez você tenha razão... Deve ter sido loucura mesmo, mas... — levou a mão ao queixo de Shaka, suavemente. Virou-o para si, queria ver aqueles olhos nos seus. Estavam muito próximos e o olhar de Ikki tornou-se nebuloso, tomado por instintos e paixão — Não foi bom...? Enlouquecer comigo...? — estava com a boca próxima da do advogado, a mão no queixo do Advogado permitiu que o sentisse estremecer e entreabrir os lábios...

Um novo beijo aconteceria, se eles não fossem subitamente interrompidos pelo mordomo:

— Senhor, senhor! — ele entrou esbaforido — Perdoe-me, senhor, sei que tenho ordens de jamais interromper, mas... Alguém chegou. E trouxe muita coisa, senhor, muita coisa! — Khan falava demonstrando como isso era inédito — Quer falar com o senhor, disse que vai ficar aqui!

— Aqui? — Ikki afastou-se de Shaka, parecendo mais que irritado. — Termine o seu almoço, senhor Phalke. Depois vá para o quarto e só saía quando eu chamar. — Voltou-se para o mordomo. — Tome conta dele, Khan.

Shaka ainda se sentia trêmulo, arrancado como foi daquele momento estranho e sedutorl, mas não respondeu. Apenas respirou fundo e o observou sair, sentindo-se estranhamente apreensivo.

Qual seria o jogo agora?

Título: Alegação sem prova é como sino sem badalo

Notas finais
POSTADO EM 19/06/2019