Nelumbo nucifera
31 Dura lex, sed lex
Notas iniciais
Dura lex, sed lex
Chapter XXXI
Ikki parou em frente ao outro cavaleiro, mirando-o nos olhos com toda a sua raiva. As mãos crispavam-se, mas ele mantinha o controle. Prometera a si mesmo nunca mais perder o controle. Decidira isso durante a reunião de emergência com a diretoria. Era doloroso, mas ele prometera voltar a ser o Ikki de sempre, o Ikki que dava resultados e que não perdia o controle. Ele precisava proteger Phalke, mas precisava também restabelecer seu prestígio dentro do grupo e chegar ao seu objetivo. Necessitava lembrar que aquele grande projeto não era apenas d’A Sociedade, era pessoal.
— O que faz aqui? — perguntou, mantendo a voz calma e firme.
— Você sabe porque estou aqui — a voz de Afrodite era tão suave que ele parecia a de um rouxinol cantando numa manhã de primavera e não a de um assassino. Ele, a rosa impiedosa, era o responsável pela limpeza, quando todos os recursos falhavam. Sua presença ali só significava uma coisa.
Afrodite pôs as mãos nos bolsos, afastando o blazer púrpura que vestia sobre a camisa branca, de forma que uma calibre 44 presa ao coldre brilhasse à tênue luz do ocaso. — Saiba, não me agrada isso. Diria até que me é muito desagradável.
— Quem te enviou?
— Isso importa mesmo? — o belo assassino sorriu. — No fim, fazemos o que temos que fazer. Eu desejo poder comunicar o seu sucesso. Falo sério quando digo que isso me desagrada. Você me conhece, Ikki... Sabe que não gosto disso.
— A culpa de tudo isso... —Ikki interrompeu-se. Os olhos de Afrodite concentraram-se na gotícula de suor que escapou da têmpora dele. — Vocês o comprometeram e agora querem se livrar dele?
— Temos consciência disso, mas essa consciência não muda os fatos. Não importa que eu não goste e que você sofra. O que vim fazer será feito. Só há dois caminhos possíveis nessa história, ou Phalke entra ou ele... Como você mesmo disse, ele está comprometido demais para somente ir embora. Mas ainda acredito em você. Sei que fará todo o possível. Sua dor não me agrada, Ikki.
Ikki riu, seus olhos encaravam o outro como chamas.
— Dor? Você só pode estar brincando!
Afrodite deixou apenas escapar um sorriso de canto de lábios e deu as costas ao outro.
— Ficarei numa das salas do subsolo. Phalke nem deve saber que estou aqui. Com sorte, terei apenas que observar. E estarei observando. E reportando, é importante que saiba.
Ikki cerrou os punhos, eles o estavam encurralando. Não era justo, mas nada em sua vida foi justo. Suas escolhas nunca foram justas, sua vida roubada nunca foi justa. Esmurrou uma parede. Encurralado como um leão em uma jaula. como se deixou apanhar? Encurralado pela segunda vez em sua vida. Pela segunda vez, A Sociedade o encurralava.
— Senhor... — Khan tentou, cauteloso. — Permita-me aconselhá-lo...
— Fale, Khan. — Ikki resmungou, mesmo que a vontade fosse ralhar com o mordomo por ele ter desobedecido a ordem que dera para que permanecesse cuidando de Shaka. Resignou-se, não havia segredos ali para Khan, e Shaka deveria estar dormindo, exausto, naquele momento.
— O senhor sabe que não sou o maior apreciador do doutor Phalke, e nem mesmo entendo essa obsessão dos nossos por ele...
“Nossos”, Ikki quase riu com as palavras do mordomo. Khan fazia parte d’A Sociedade por sua causa e somente por sua culpa. Ainda assim, ele poderia ser ainda mais fiel que Ikki. Percebia que possuía responsabilidades demais, exageradas responsabilidades sobre muitas vidas.
— Mas... — O mordomo continuou com cautela. — Mesmo doutor Phalke tendo me ferido e obviamente tentado me matar, não desejo que o mesmo o aconteça. Não somos assassinos e não quero que cheguemos a tal ato, pois apesar de tudo, ele não é um criminoso, ou não era... Fizemos isso com ele...
— O que quer dizer com tudo isso, Khan? — Ikki indagou cansado. Aquela afirmação de Khan derramava ainda mais culpa e remorso sobre seus ombros.
Os olhos cinzentos de Khan o encararam com uma firmeza que geralmente o homem idoso não demonstrava, visto que raramente encarava o patrão.
— O senhor precisa fazer o que tem que ser feito para garantir a sobrevivência daquele homem. Não importa o que precise fazer, não importa o quão vil lhe pareça. Sei que se sente afeiçoado a ele, sei que são jovens e, enfim, eu entendo o que é a paixão — a voz de Khan fraquejou, ele não se sentia à vontade intrometendo-se tão profundamente na vida do seu senhor e conhecia a personalidade explosiva de Ikki, por isso ia com cuidado. — Mas A Sociedade está em primeiro lugar e, depois dela, a segurança de doutor Phalke. Por favor, faça a coisa certa.
— E o que seria a coisa certa, Khan? Eu já não estou fazendo a coisa certa? — Ikki implodia. A voz continuava baixa e entredentes. — Eu estou agindo exatamente como sempre para que... — Respirou fundo. — Para que ele tenha alguma chance. Eu voltei a agir como quando ele... — engoliu o nó na garganta, diria “quando ele não tinha a menor importância para mim, quando eu de certa forma o odiava. Odiava tudo que ele era e que eu nunca seria.”, mas conteve-se. Precisava de todo o seu autocontrole naquele momento. — Eu voltei a ser com ele o que eu tinha que ser, Khan. Fazemos o que temos que fazer, como Afrodite acabou de falar. Fazemos o que temos que fazer. — Murmurou por último, a voz cansada ao extremo.
— Compreendo, senhor. — Khan ousou pousar a mão no ombro do patrão. — Não é fácil, mas a vida nunca foi fácil para os destinados a fazer o necessário. E creia, é necessário.
O mordomo se afastou com um cumprimento. Ikki passou as duas mãos nos cabelos num gesto nervoso. Teria que fazer o necessário. A vida de Shaka dependia disso. Deu ordem para que os seguranças levassem os equipamentos de Afrodite para o subsolo, o próprio companheiro saberia montá-lo, já que não trouxera a equipe responsável para isso, a qual Camus, aquele quase-adolescente ruivo e sociopata, liderava.
— O hóspede não deve sair de seu quarto até que tudo esteja no subsolo, na ala norte — ele informou ao chefe da segurança. — Depois que essa tralha sumir, ele pode andar pela casa e pelo jardim, pode até visitar o canil, mas quero sempre dois homens o acompanhando, Marduk ainda está a solta.
O homem apenas respondeu um “sim, senhor” e saiu para executar as ordens que lhe foram dadas. Ikki foi para o escritório, ele mesmo precisava fazer algumas pesquisas importantes, pesquisas que talvez decidissem o seu futuro dentro d’A Sociedade. Não era tolo, sempre soubera que o caso Phalke era incomum. Shaka era o alfa de todos os planos que o grupo tinha para a cidade, a cidade mais importante, dentre tantas outras de grande importância. Mas por quê? Por que um advogado obstinado e incorruptível? A Sociedade sabia que Shaka amava a lei, que era honesto até o tutano, incomparável, incorruptível. Sim, de certa forma, homens como ele atraiam o grupo. A Sociedade era uma irmandade de homens que queriam o bem comum acima de tudo. Homens vis, traiçoeiros, criminosos, não interessavam a irmandade. Mas houve Marduk. Marduk fora um erro sumariamente corrigido. Ele o corrigira. Não pensara que o grupo voltaria a errar. Precisava de um trunfo. Precisava blindar Shaka de alguma forma e sabia qual era o caminho para isso.
Retirou o celular do bolso e discou o número do quase-adolescente-nerd-sociopata, como ele gostava de chamar o companheiro.
— Camus, preste atenção, preciso fazer uma pesquisa. Ainda é referente ao caso Phalke. Você já deve ter esses dados, mas eles não me pareceram relevantes até agora, então preciso que enviei para o meu computador. Sim. Eu preciso que me mande o arquivo referente a mãe dele, tudo a respeito da mãe dele. Não me pergunte por que, apenas faça!
Desligou. Teria muito trabalho pela frente.
Shaka realmente dormiu muito e profundamente naquele dia. Estava fresco e agradável depois da chuva do dia anterior e ele esqueceu-se que novamente estava em cativeiro. Acordou no dia seguinte, pensando em quanto tempo deveria estar ali, quatro, cinco meses? Suspirou e foi para o banheiro realizar as necessidades fisiológicas exigidas por sua condição humana, depois tomar um banho e vestir-se. Não utilizou os ternos elegantes que havia no closet e sim um conjunto de moletom verde-claro, cuja calça passava com mais facilidade pela bota negra que protegia a bota de gesso em seu pé.
A porta estava destrancada, logo ele achou que podia sair e dirigiu-se à cozinha da casa, como já fizera uma vez. Faustine estava cozinhando e cantando. Parecia feliz demais com a volta àquela casa.
— Rapazinho! — Ela sorriu ao vê-lo. — Estou tão feliz que esteja bem! Não sabe como me preocupei com você.
— Eu acredito, Faustine, de verdade. E agradeço. — Shaka sorriu, sem cerimônias, puxando uma cadeira e se sentando.
A mulher franziu as sobrancelhas.
— Tem autorização para ficar aqui? Não quero a hiena do Khan vindo aqui me aborrecer.
— Ao que parece estou autorizado a caminhar pela casa — Shaka retorquiu depois de um suspiro. — Preciso que fale comigo, Faustine. Por favor.
A mulher o mirou desconfiada. No tempo em que ficaram na cabana, Shaka parecia ter esquecido de seus questionamentos e da conversa que eles tiveram naquela mansão certa vez. Agora, todavia, Faustine tinha certeza do que ele perguntaria. O garoto era muito obstinado e parecia não sentir medo. Um grande problema.
— Não sou autorizada...
— Dane-se a autorização, você não o obedece — Shaka disse, fazendo a mulher sorrir de leve. — E você me deve isso, Faustine.
— Você é impossível rapazinho.
— Hank. Preciso saber tudo. Dessa vez, tudo.
Faustine suspirou, mirou a porta como se checasse que havia alguém no corredor.
— Hank foi o maior erro de Ikki, e uma ameaça À Sociedade. Entrou nessa mansão como um hóspede. Tornou-se senhor, saiu como um cão. É tudo que posso dizer.
— Por favor, seja mais detalhista. Eu quero saber porque esse nome afeta tanto o seu chefe, isso pode me ajudar no futuro.
Faustine riu de leve.
— Retrocedemos então?
— Não entendo...
— Entende sim. Voltaram aos velhos papéis, mesmo sabendo que isso é impossível. Já ultrapassaram esses limites há tempos. Eu tenho muito medo que faça uso inadequado das minhas palavras...
— Faustine, eu tenho 28 anos, sou adulto o suficiente para arcar com as consequências dos meus atos e nunca fui irresponsável. Confie em mim. Juro que não farei nenhuma loucura. Pode não parecer, mas eu controlo muito bem as minhas emoções, quando quero, e jamais a comprometeria. Confie em mim – foi contundente.
— Está bem, rapaz. Eu confio em você. Por favor, faça bom uso dessas informações, sim? — a mulher respirou fundo antes de começar — Hank foi um dos primeiros que chegou aqui. Antes dele, acho que vieram apenas duas mulheres, e um senhor mais velho, com os quais Ikki lidou com tranquilidade. Essa mansão só serviu aos projetos mais ambiciosos d’A Sociedade e de Ikki.
— Entendo.
— A arma principal que Ikki sempre usava para... "ganhar a confiança" das pessoas que trazia, num primeiro momento, era o seu charme. Ele não precisava de mais do que isso. O menino é bonito e sabe ser um grande galanteador quando quer. Você sabe, o garoto sabe ser um grande cavalheiro, uma companhia agradável, quando faz parte dos planos dele.
A expressão que Shaka fez deve ter sido irônica o suficiente para Faustine emendar:
— De fato, não é lá muito da natureza dele, mas... Ele sabe como fazer. Bem, Hank foi o primeiro caso difícil que tivemos, por assim dizer. Ele era mais novo. Na época, ele e Ikki deveriam ter a mesma idade, uns... 25 ou 26 anos, eu acho. E o charme que Ikki usava, como forma de conseguir o que queria, não funcionou. Quero dizer, num primeiro momento, pareceu que sim. Mas depois... — Faustine balançou a cabeça. Então olhou para os lados. Pegou uma massa de pão que estava amassando mais cedo e a abriu no balcão. — Ajude-me a fazer rolinhos com essa massa. É preciso disfarçar ao menos um pouco, para o chato do Khan não vir me atazanar.
Shaka pegou a massa. Não sabia fazer rolinhos e seus olhos não deixavam Faustine, então ele apenas passava parte da massa de uma mão a outra.
— Continue... — pediu com cuidado e atenção.
— Bom... Hank tinha um rosto angelical, sabe? Absurdamente angelical, ele até tinha os cabelos loiros e encaracolados, olhos azuis bem claros... Era praticamente um querubim. Eu me lembro que Ikki ficou bastante admirado da beleza do rapaz e demonstrou isso, afinal, era parte do jogo elogiar, seduzir. Mas acredito que, naquele caso, Ikki foi quase sincero nos galanteios. Hank era um garoto esperto. Logo entendeu do que se tratava. Ikki seduzia como forma de obter poder sobre a pessoa. Hank então começou a jogar o mesmo jogo, e Ikki, que não estava preparado para isso, passou de sedutor a seduzido. Ele acabou enredado no mesmo jogo que havia criado. E... não acho que estivesse percebendo. — Faustine soltou um longo suspiro — Ele perdeu o controle da situação, eu logo soube. Estava diferente; eu nunca o tinha visto daquela forma antes. E eu o conheço há muito tempo. Eu o conheço desde que ele era uma criança. — Outro suspiro, agora profundamente melancólico — E fazia muito tempo que eu não o via sorrir. Não um falso sorriso, pensado, criado para alcançar objetivos. Era um sorriso espontâneo. Eu fiquei feliz por ele. Porém... Hank estava apenas tentando encontrar um jeito de se infiltrar no grupo. Era o espião de alguém e fora mandado. A Sociedade não tinha percebido que fora manipulada a prestar atenção nele, que no final era somente um fantoche medíocre, embora bonito e inteligente.
— Espião? O que ele queria saber? — Shaka franziu a testa, ainda mexendo na massa.
— Nunca soubemos de fato. Nem mesmo ele sabia, uma espécie de grupo rival o enviou e as instruções viriam depois que ele conseguisse se infiltrar. Mal ou bem, Ikki faz desse lugar uma prisão. Mesmo apaixonado, como eu creio que ele estivesse, ainda havia um grande plano, uma grande meta, para se alcançar. E disso Ikki não abriria mão de forma alguma. Hank compreendeu aos poucos o que era preciso fazer para alcançar o que queria: calcar degraus dentro d’A Sociedade. Então, ele mostrou-se de acordo com o esperado e, quando isso ocorreu, Ikki ficou muito feliz, porque significava que poderia libertá-lo e que ele faria parte de alguma forma. Mas as coisas perderam-se a partir daí. Hank antes mesmo de ser libertado e saber qual era o seu papel, mostrou-se como era. Ele quis ser o senhor dessa mansão, assim como Ikki era, e por um tempo, Ikki deixou que ele se sentisse assim. Embora apaixonado, Ikki não chegou onde chegou por ser tolo. Ele estava estudando Hank e percebeu que seus atos desdiziam o que ele queria aparentar. Quando Ikki estava prestes a libertá-lo... houve um incidente... que levou a discussões... Bom, resumindo, Hank foi desmascarado, porque Ikki não chegou onde chegou sendo ingênuo e tudo lhe pareceu perfeito demais, Hank era perfeito demais. Ele estava muito perto de conseguir, mas Ikki descobriu que tinha sido enganado. Hank ficou tão frustrado que confessou que mentira em relação a tudo. Tudo. Especialmente em relação a eles. Aquilo foi demais. Ikki não o libertou e... Bem, foi a partir daí que Ikki mudou para uma postura mais dura, irascível e nada razoável. Ele acha que essa forma é mais eficaz de conseguir o que quer. E o pior é que funciona. No final, ele conseguiu "domar" Hank, como ele gosta de dizer. Conseguiu que ele traísse seu grupo e o libertou. E, como todos os outros, Hank nunca nos deu qualquer problema depois disso. — Finalizou a mulher, pegando um copo d’água para beber. — Hank virou o cãozinho obediente que A Sociedade queria, ou coisa pior.
— Ikki foi pego na própria armadilha — Shaka concluiu, analisando aquela história.
— Sim. E foi pego novamente, ao que parece.
Shaka a encarou, mas desviou o olhar para a massa que tinha entre os dedos.
— Não compare as situações. Não sou um espião infelizmente. Sou um prisioneiro — Shaka sorriu, amargo. — Na verdade eu sou time Hank. Sinto muito por ele não ter conseguido acabar com essa tal Sociedade. Mas eu acabarei um dia, vou fazê-la implodir. Não sabem até onde vai a minha sede de justiça... Isso se um dia eu conseguir sair daqui.
— Não seja ingênuo. Sem A Sociedade... A outra não seria melhor. Se quer saber, há rumores de que Marduk fez parte dela. Ikki ainda trabalha nisso.
— Eu nunca vou partir, não é? Não vivo — Shaka chegou à conclusão. — Quanto tempo estou aqui, você sabe?
— Não mais que alguns meses. E, sim, você irá. No momento que aceitar a sua missão em tudo isso.
— Nunca.
Faustine sorriu, mirando-o com carinho.
— Incrível como tudo que era falso em Hank é verdadeiro em você. E você é ainda mais bonito — riu mais abertamente. — Que azar de Ikki.
Shaka responderia, mas Khan adentrou a cozinha, visivelmente contrariado.
— O que faz aqui, doutor? Ikki não quer mais que vocês conversem. Está proibido de vir à cozinha. Faustine!, Quantas vezes preciso lhe dizer para não ficar de papo com ele?!
— Inúmeras. E vai ter que falar umas quantas vezes mais. Eu não obedeço a ordens suas, velho, sempre digo.
— São ordens do patrão! O que espera com atitudes assim? Quer deixá-lo ainda mais nervoso? Esse... doutor! — a palavra foi praticamente cuspida. — Já deu trabalho demais e se não se lembra, tentou me matar! Pode fazer o mesmo contigo. Sugiro cautela.
— Duvido muito, não sou odiosa como você! — Faustine riu. — — Olha, se Ikki se zangar, mande-o falar diretamente comigo, está bem? Agora cala essa boca!
— Doutor Phalke, já para o seu quarto, eu ordeno! — Khan disse, irritadíssimo.
Shaka resignou-se a levantar-se tranquilamente.
— Obrigado pela conversa, Faustine — manteve a postura altiva, pegando as muletas, apoiando-se e acompanhando o mordomo que andava rápido e nervoso. Tinha ganas de torcer o pescoço daquele velhinho só para ver o que Ikki achava disso, mas se continha e andava atrás dele com calma proposital, forçando-o a diminuir o ritmo. Depois de quase tê-lo matado na cabana, não seria de bom tom tentar novamente.
— Não cansa de causar problemas, doutor Phalke? — o mordomo disse, exaltado, parecia que sua antipatia por Shaka havia dobrado devido à agressão. — Você é muito obstinado em descobrir tudo o que não deve e fazer tudo que não é adequado. Parece ter prazer em se pôr em perigo, não é mesmo? Pois bem, não achei que tivesse de fazer essa proibição tão cedo, mas agora, não saia do seu quarto! Entendeu?
Shaka revirou os olhos e passou pelo mordomo, ignorando as muletas e praticamente pulando.
— Ikki não me disse que eu teria que obedecer a você também, Cão. Aqui você é apenas o assistente do doutor Frankenstein e eu a criatura, então... — O advogado interrompeu-se quando o dito patrão de Khan apareceu. Engoliu em seco, emudeceu e o encarou sério.
— O que está acontecendo? — Ikki perguntou com uma voz neutra e objetiva.
— Doutor Phalke já estava na cozinha, interrogando a cozinheira.
— Conversando — Shaka corrigiu o mordomo. — Apenas conversando.
— Não importa — Ikki cortou. — Não deve ir mais à cozinha. E nem deveria estar sacolejando com esse pé lesionado. Será que não consegue fazer as coisas certas ao menos uma vez?
— Não me disse que não poderia sair do quarto — Shaka retorquiu.
Ikki suspirou. Sentia-se cada vez mais oprimido naquela situação. Tudo mudara, e ele precisava fingir que não houvera mudança alguma. Era horrível, contudo, era a única saída.
— Doutor Phalke, vou conceder que transite pela casa e pelo jardim. Sala, área externa. Não pode ir à cozinha, no entanto, entendeu bem? Se sair da linha, fica confinado ao quarto.
— Sim, senhor — Shaka concordou, mordendo os lábios.
— Se quiser passear pelo jardim, peço para um dos criados te levar uma cadeira de rodas. O médico disse três semanas no mínimo com o gesso, lembre-se disso.
— Sim, senhor...
Ikki teve vontade de gritar para que ele parasse com aquela expressão que deveria ser servil, mas que nos lábios dele tornava-se tão insolente. Não fez tal coisa, contudo. Não valia a pena ficarem se provocando. Shaka não merecia tudo que estava passando. Não merecia suas mentiras, mesmo que suas mentiras fossem para protegê-lo. Precisava vencê-lo para protege-lo. Quebrá-lo para protegê-lo. Desprezá-lo para protegê-lo. A situação era tão antitética que era trágica e estava minando as suas forças.
— Khan, deixe-o em paz — Ikki disse, começando a andar no sentido oposto. — Temos câmeras em todos os cômodos. Ele nunca está sozinho. Se sair da linha, confinamento.
— Quem chegou? — Shaka perguntou, fazendo Ikki parar. — Khan disse que alguém havia chegado, quem foi?
— Isso não é da sua conta — Ikki manteve a voz firme e hostil. — Aqui você não pergunta, mas vou responder mesmo assim: quem chegou já partiu, não precisa se preocupar. — Voltou a caminhar levando aquela mentira. Afrodite tinha câmeras espalhadas pela casa. Sabia que ele vigiava não apenas os passos de Shaka, mas os seus. Ikki teria privacidade em seu quarto e apenas nele e não pelo gosto d’A Sociedade. Ele bloqueara as câmeras e microfones ali, mas não sabia até quando conseguiria fazer isso sem ser descoberto. Havia perdido status dentro do grupo. O Círculo não confiava mais cegamente nele como antes e ele não confiava n’O Círculo. Alguém o havia grampeado. Só assim Marduk acharia sua cabana. Alguém d’A Sociedade o havia traído. Mas quem?
Shaka aproveitou o dia de liberdade e foi para o jardim. Sentou-se em um banco e ficou admirando o lugar. Havia flores, mas muitas foram agredidas pela tempestade da noite anterior e estavam despetaladas ou quebradas. Ainda assim, era um cenário belo e ameno. Percebeu que o jardim se bifurcava em direção a um labirinto de arbustos. Pensou que talvez se entrasse ali sem um novelo, jamais fosse encontrado e aquilo lhe pareceu bom. Tentava manter o controle, mas a verdade era que a noite anterior existira e ele não tinha como negar o peso que ela provocava. Queria a sua liberdade e também queria fugir daquela situação tão controversa porque... Não! Não podia se dar ao luxo de cogitar qualquer espécie de afeição naquele momento. Nem mesmo a simpática Faustine lhe causaria uma síndrome de Estocolmo. Ele era muito mais forte que pequenas sugestões.
Percebeu alguns arbustos se remexerem e depois viu Falcon aparecer, alerta, como se o farejasse.
— Venha aqui, garoto! — chamou o cão e este veio alegre, balançando o rabo. Shaka o afagou, conversando com ele: — Sentiu saudades? Como você está? o que anda fazendo nesses arbustos? Na certa perseguindo coelhos!
O cachorro parecia muito feliz com o carinho que recebia, e Shaka sentia-se emocionalmente aliviado dando esse carinho. Sua tensão foi embora ainda que momentaneamente e ele viu-se rindo, em um momento realmente descontraído.
Da janela do escritório, Ikki o observava enquanto falava ao telefone com Camus e via as folhas do arquivo solicitado saírem lentamente do aparelho de fax. Poderia parecer ultrapassado, mas era menos rastreável que e-mail, e Camus era paranoico. Perdeu-se um pouco observando a cena do advogado brincando com o cão e nem mesmo se percebeu sorrir. Todavia, quem parou ao seu lado percebeu perfeitamente o sorriso que ocupava o canto dos lábios do agente.
— Doutor Phalke realmente tem seus encantos — a voz de Khan foi suave, mas foi o suficiente para que Ikki se libertasse daquele idílio e voltasse à sua mesa com os papéis.
— O que deseja, Khan? — Indagou mal-humorado. Detestava ter a privacidade invadida.
— Nosso outro hóspede informou que ocupará o quarto subterrâneo e instalou novas câmeras e microfones. Achei que o senhor deveria saber.
— Eu já sabia — Ikki retrucou, irritado. — Mais alguma novidade?
— Não. Tenho ido com frequência ao subsolo, senhor. Invento desculpas. Ele está sempre com o olho no doutor. Temo que...
— Isso não vai acontecer...
— Mas esse advogado...
— Isso não vai acontecer, Khan. não deixarei que aconteça.
— Assim espero, senhor.
Ikki concentrou-se em sua pesquisa, e Khan deixou o escritório. O agente perdeu a noção do tempo em que ficou debruçado naqueles papéis e em pesquisas na internet, inclusive na deep web. Precisava ter certeza e tinha alguns contatos e informações que só ali ele conseguiria. Quando finalmente se levantou da cadeira, seus músculos reclamaram. Ele voltou à janela, mas Shaka já não estava no jardim. Imediatamente acoplou o rádio na orelha e indagou aos seguranças sobre o paradeiro dele.
— Por que deixaram que ele entrasse no jardim? Não sabem que aquele terreno é acidentado e escorregadio, imbecis?! — Ralhou. Era cercado por incompetentes. Desceu os lances de escadas que o separava do térreo e caminhou até o jardim. — Não, agora eu mesmo vou atrás dele — informou, passando pelos seguranças e indo para o jardim em forma de labirinto.
Não precisou entrar muito no jardim para encontrar Shaka. Isso por que o advogado foi distraído por um pessegueiro onde havia alguns frutos maduros, tendo outros no chão. Shaka, apoiado em um pé só, tentava alcançar o fruto com a muleta, enquanto Falcon latia, saltitando de um lado a outro.
— Veja só, você nos delatou — ele reclamou com o cão quando percebeu a presença de Ikki.
Ikki aproximou-se com os braços cruzados e um sorriso divertido no rosto.
— Se queria pêssegos era só dizer e eu providenciaria — falou, um tanto provocador.
— Não tem o mesmo sabor de colher no próprio pomar — Shaka retorquiu, ainda balançando a muleta, tentando acertar o fruto.
— Ora, pare com isso antes que caia — Ikki aproximou-se mais e segurou o outro pela cintura, fazendo com que ele baixasse a muleta.
— Eu preciso daquele pêssego — Shaka insistiu com seriedade que fez o outro rir.
— Está bem. Deixe-me pegar pra você então. Me empresta? — pediu a muleta.
Shaka concedeu o objeto para ele. Ikki pulou e acertou o fruto, o apanhando no ar com a outra mão, evitando que ele se esparramasse no chão de terra.
— Como você consegue fazer isso usando um terno? — Shaka indagou, espantado com a habilidade dele.
— Eu disse que cresci nas ruas, não foi? Aqui está o seu pêssego, espero que valha por uma lesão na coluna, pois é isso que irá conseguir se continuar fazendo coisas desse tipo.
— Com certeza essa não era a minha ideia.
— Claro que não. Só é naturalmente imprudente — Ikki falou quando Shaka pegou o pêssego da mão dele e mordeu, saboreando como se esse fosse o seu troféu. — Mas parece que valeu apena, enfim.
— Melhor coisa que eu comi nos últimos meses — Shaka falou depois de mastigar um pedaço generoso, então encarou Ikki. — Prova. Você merece, afinal, foi você quem o colheu.
Ikki pensou em negar, não gostava de pêssego tanto assim, mas algo na voz de Shaka fez aquilo parecer um desafio. Segurou o pulso do outro e mordeu a fruta com vontade, fazendo o suco escorrer por seu queixo.
— Incrivelmente doce — falou, limpando o queixo com as costas da mão — para essa época.
Shaka lambeu os lábios, saboreando o doce ácido da fruta enquanto encarava o moreno. Ele era muito atraente. Percebeu-se o admitindo mentalmente, antes que as barreiras que geralmente impunha aos pensamentos fizessem o seu trabalho. afastar-se-ia dele, mas Ikki segurou-lhe o pulso novamente e dessa vez não foi para morder o pêssego. Ele puxou o advogado para si e o beijou.
Novamente, ele agia por impulso, completamente dominado pelo seu desejo e não por sua obrigação. Era uma forma de recompensa. O beijo interrompido por Khan no dia anterior teria que ser pago em algum momento, e Ikki passara o dia pensando em uma forma de beijar Shaka de novo, sentindo uma falta quase física de seus lábios, do seu corpo. Era um erro continuar com aquilo, ele sabia. Precisavam ultrapassar aquele estágio. Mas também era irresistível. Ele não devia. Devia manter as barreiras programadas, pensadas, decididas. Todavia, tê-lo tão perto, tão vulnerável e receptivo era tentador demais.
Shaka deixou muletas e pêssego caírem e levou as mãos ao rosto do outro, correspondendo ao beijo, apoiando-se apenas em uma perna, acabando por desequilibrar o moreno, que caiu sobre um dos arbustos macios que ornamentava o lugar. Não pensou sobre o que fazia, aliás, há muito tempo que os seus instintos sobrepujavam sua razão.
Ikki segurou o outro fortemente pela cintura, para evitar que Shaka se machucasse. Os dois riram, naquele momento, despidos de qualquer máscara social, das muitas que usavam o tempo todo. Ele acariciou o rosto de Shaka e segurou um fio dos seus cabelos. Quando ele chegou ali, os fios chegavam aos ombros e tinham um corte repicado, agressivo. Agora chegavam quase ao meio das costas e formavam um desenho em v. Ikki nunca seria capaz de esquecer o cheiro dos cabelos dele, estava marcado em sua memória como uma tatuagem. E os olhos... Aqueles imensos e brilhantes olhos azuis cheios de vida...
Ele engoliu em seco. Sabia há muito tempo que estava apaixonado, mas nunca essa convicção foi tão forte como naquele momento e isso o golpeou no coração como uma lança afiada porque sabia, desgraçadamente sabia, nunca poderia tê-lo de verdade. Não importava o desfecho daquela história, eles nunca teriam uma chance.
— Vou levá-lo para casa — murmurou, apoiando-se melhor e erguendo Shaka pelos cotovelos para depois tomá-lo nos braços. — Não se preocupe, alguém pegará as muletas. Agora precisa comer alguma coisa além desse pêssego.
Shaka não disse nada. Ele também sentia o peso daquele momento e da impossibilidade. Deixou-se levar para dentro da casa, quieto. E foi quieto que Ikki levou-o para a luxuosa sala de jantar, onde o almoço já repousava na mesa.
— Por favor, Shaka, coma — Ikki falou e só depois percebeu que estava saindo do papel almejado. Precisava voltar a ser o Ikki de antes e não conseguiria com aquele tipo de frase, um pedido, não uma ordem. — Você precisa comer, então faça — tentou miseravelmente ser mais contundente, mas era uma falácia.
Shaka não questionou, serviu-se e comeu com apetite, enquanto Ikki o observava compenetrado. Percebeu que ao contrário de si, o outro pouco comia do pouco que colocara no prato, e nem fazia as recorrentes e desagradáveis perguntas de sempre. Talvez ele ainda sentisse o peso do ocorrido no jardim. Shaka, naquele momento, preferia não pensar.
O cavaleiro sentiu-se satisfeito por vê-lo comendo de verdade. Desde que Shaka chegara, toda e qualquer refeição parecia uma guerra. Às vezes pensava que aquele loiro era louco. Não entendia como alguém tão inteligente poderia ser ao mesmo tempo tão inflexível.
— Eu tenho muito trabalho para fazer hoje, Shaka. Vou deixá-lo sozinho — Disse, tentando não demonstrar a perturbação que sentia. — Não vá à cozinha.
Ikki ergueu-se e caminhou para a porta.
— E o que espera que eu faça? — Shaka indagou, irritado. Queria muito conversar mais um pouco com Faustine.
— Veja um filme. Qualquer um que quiser. Tem todos dos seus atores e diretores preferidos, é só escolher.
Ele saiu, voltou para o escritório e começou a examinar a pesquisa de Camus. Que diabo aquilo tudo significava? Pegou o dossiê inicial. Toda a pesquisa que haviam feito cuidadosamente sobre Shaka e que ele havia estudado tão bem. O que estava deixando passar? Precisava ter alguma ligação. Ele precisava descobrir o que fez de Shaka alguém tão interessante para o grupo. Durante muito tempo, acreditou que a habilidade profissional e a postura pessoal eram a chave de tudo. Entretanto, agora uma suspeita rondava a sua mente.
Seu celular tocou, era da sede, precisava atender.
— Ikki.
— Marduk está rondando. Precisamos dar um jeito nele.
— Não posso me ausentar agora. Resolvam isso — ele respondeu e encerrou a ligação como de costume. Não podia se distrair com Marduk naquele momento. Precisava ficar de olho em Afrodite e resolver aquele enigma, melhor, saber se existia realmente algum enigma.
O aparelho tocou novamente e praguejando ele atendeu.
— Você não entendeu. Ele está rondando a mansão — Ikki ouviu a voz dizer.
— Ótimo. Tenho atiradores posicionados, se ele se atrever, morre. — Desligou novamente. Contudo, sabia que tinha que se livrar de Marduk. Ele não o deixaria em paz. Nunca o deixaria em paz.
Ikki deixou o escritório e desceu as escadas para o subsolo. Encontrou Afrodite sentado de frente às telas, comendo um monstruoso sanduiche.
— Ikki! — Ele disse com a boca parcialmente cheia, virando um copo de refrigerante. — O que o traz à minha caverna? Aceita um lanche?
Ikki sentou-se na cadeira vaga ao lado do cavaleiro. Afrodite sabia que cedo ou tarde ele estaria ali, o dono na casa não tinha dúvidas. Desde o treinamento, o outro cavaleiro era um exímio analista.
— O que está acontecendo com a equipe, Christen? Por que não consigo falar com Mu?
— Mu está fora da cidade, em reunião com O círculo em um lugar que nenhum de nós sabemos. — Afrodite respondeu. — Precisa reconhecer que você deixou as coisas meio complicadas.
— Eu? Fui eu que trouxe o louco do Marduk de volta? — Ikki ergueu uma sobrancelha.
— Não. Nem você, nem os cavaleiros, nem O círculo. Ninguém queria aquilo de volta — Afrodite deu de ombros. — Hades enlouqueceu. O desejo de poder dentro do grupo é tão grande que isso causou a sua queda.
Ikki o encarou e Afrodite riu, voltando a provar o refrigerante.
— Você não sabia que ele está fora.
— Desculpe-me, mas andei bem ocupado.
— O Círculo não queria que mexessem em um fio de cabelo de Phalke. Nenhum. Bem, isso antes de tudo. Ninguém estava autorizado a machucá-lo e até mesmo a geladeira de Radamanthys foi..., digamos, condenada. Não com você, é claro, com você foi autorizada, com ele, não. A ordem dada a Angelo e a mim foi forjada por Hades. Isso é traição. E você sabe como agimos com traidores.
— Radamanthys também está fora?
— Não. Mas foi severamente advertido. Tortura não faz mais parte d’A Sociedade há muito tempo, ao menos não tortura física, e O Círculo não quer que isso retorne, ainda mais com uma peça fundamental como Phalke, nosso amado futuro juiz da Suprema Corte. Soube que o comandante ficou louco quando soube de tudo. Radamanthys está no exílio e Hades fora terminantemente.
— Ninguém está terminantemente fora.
— Ah, ele será vigiado para o resto da vida, mas não faz mais parte da organização. Tudo porque deixou Marduk arrancar uns fios de cabelo do advogado, o que é contraditório, já que eu... — Pigarreou. — Já que eu estou aqui.
Ikki sentiu o sangue gelar nas veias, mas não demonstrou. Na verdade, tudo n’A Sociedade nos últimos tempos era contraditório. Acreditava que o exilio de Radamanthys e o afastamento de Hades se deviam à desobediência e não ao bem-estar de Phalke, e isso o atemorizava.
— Recebi uma ligação agora. Marduk está sondando a mansão. Aquela barata não morre.
— Ele não seria louco de entrar — Afrodite não parecia preocupado. — O problema dele é com você e tenho certeza que ele não quer ser inimigo d’A Sociedade.
— Talvez não...
Ikki pegou uma batata frita do balde de Afrodite, mas nem chegou a colocá-la na boca, quando o outro cavaleiro se aprumou na cadeira com agilidade, mirando o vídeo.
— O que houve?
Não demorou muito e eles ouviram um estampido fora da casa.
— Parece um ataque.
Título: A lei é dura, mas é a lei.
Fale com o autor