Nelumbo nucifera
32 Qui bene amat, bene castigat.
Notas iniciais
Qui bene amat, bene castigat.
Chapter XXXII
Ikki ergueu-se e saiu em direção aos jardins de onde veio o barulho. Afrodite continuou a monitorar as câmeras, curioso, mas sua missão ali não era Ikki e seus problemas, era o hóspede do terceiro andar.
Uma leve fumaça dominava o lado de fora da casa. Ikki atravessou o corredor e uma saída lateral de emergência para entender o que acontecia, obviamente já com a sua arma em punho.
— O que foi isso? — Indagou ao chefe da segurança, vendo um objeto mecânico danificado sobre a grama.
— Um drone, meu senhor. O abatemos, parece que a intenção era fotografar nossas posições. — O homem informou.
Ikki praguejou e viu Khan e Faustine saírem nervosos da casa, assim como alguns seguranças.
— Santo deus! Estamos sendo bombardeados agora? — A mulher indagou.
— Volte para dentro. Não foi nada — Ikki retrucou. — Enviei essa carcaça para a sede. Camus saberá como descobrir de onde ela veio. — Falou e pegou o celular para informar ao grupo sobre o ocorrido. Marduk. O que será que ele queria?
Shaka ouviu o barulho do seu quarto e saiu cautelosamente, percebendo a movimentação dos seguranças e empregados. Alguma coisa grave parecia acontecer, e ele pensou em correr para a cozinha e procurar Faustine como forma de protegê-la, se algo realmente grave acontecesse. Recordou-se também de Marduk e sentiu o sangue congelar nas veias. Pensou em voltar para o quarto e trancar-se. Contudo, percebeu que era a primeira vez que ninguém prestava atenção nele de verdade, a casa estava vazia e um burburinho se ouvia do lado de fora. Poderia ser a sua chance. Desceu o primeiro lance de escadas com a dificuldade que sua condição exigia, arrastando as muletas com cuidado, e enveredou pelo corredor, chegando a um escritório que, por sorte, não estava com a porta trancada. Adentrou o local e trancou a porta, procurando com os olhos, o coração batendo acelerado no peito. Rapidamente começou a sondar as gavetas da escrivaninha pesada e negra. Era uma sala pequena, nem parecia pertencer aquela imensa mansão e ficava ao lado do magnânimo escritório que ele já conhecia. Havia uma gaveta aberta e dentro dela, vários celulares descartáveis. Shaka rapidamente apropriou-se de um e testou para ver se ele estava funcionando. Estava. Não pensou, discou o número simplesmente.
Ikki havia acabado a ligação, quando se recordou de Shaka, que deveria estar no quarto. Ainda assim, precisava certificar-se de que o advogado estava seguro. Por isso voltou a passos largos para dentro da mansão. Estava no primeiro degrau das escadas quando Afrodite apareceu, já destravando a arma.
Ikki o mirou com estranheza.
— O que há?
— Phalke está no segundo andar e ele encontrou um dos aparelhos da segurança — o cavaleiro disse de forma perigosa. — Isso tudo foi uma armação ao que parece e acaba agora! Se ele falar com alguém, estamos perdidos! Vou acabar com isso...
Ikki imediatamente apontou a sua arma para Afrodite.
— Você não vai a lugar nenhum — disse com uma perturbadora firmeza. — Eu resolvo isso. Essa missão é minha. Eu cuido de Phalke.
— Não, Ikki! Eu fui enviado para resolver e a única forma de...
— Se você pôr o pé nessa escada, Afrodite, eu estouro a sua cabeça. — O tom de voz demonstrava que ele não mentia. — Phalke é minha responsabilidade, ninguém toca nele além de mim.
Afrodite o encarou seriamente por um tempo e depois baixou a arma.
— Descubra com quem ele está falando ou eu o farei. Eu não estou brincando, Ikki. Quebre-o antes que ele quebre a todos nós. — O cavaleiro partiu para a sua sala a passos rápidos.
No escritório, demorou muito para que Shaka entendesse que o número da polícia estava bloqueado por algum motivo. Provavelmente qualquer número que servisse para ele pedir socorro. Discou o número de Kanon, pensando que também não teria sucesso, mas por mais estúpido que fosse a chamada foi completada.
— Alô — quando ouviu a voz do namorado, ele não conseguiu falar nada por um tempo. —Alô? — Kanon continuou. — Shaka? Shaka, é você?
— Kanon... — Ele sussurrou.
— Shaka, meu deus, onde você está? Me diz onde você está!
Antes que ele pudesse responder, a porta cedeu a um chute de Ikki, e ele estancou com o aparelho na mão e os olhos arregalados.
— Com quem você está falando? — A voz exprimia toda a sua fúria.
Shaka desligou, batendo o telefone com força na madeira da escrivaninha com toda a intenção de fazê-lo se quebrar, partindo em vários pedaços. Era tolo, mas ele não pensou. Recuou para atrás da mesa.
— Ninguém — respondeu, engolindo o nó em sua garganta e tentando achar a firmeza que suas pernas não tinham. — É bloqueado.
Ikki fez um gesto de mão e em menos de dois minutos um dos homens da segurança entrou na sala. Ele pegou o aparelho com a tela danificada e entregou para ele.
— Verifique — ordenou.
O homem saiu e Ikki ficou parado, batendo o pé, até que pudesse saber qualquer coisa sobre aquilo.
“Senhor, uma chamada externa foi completada.” O homem falou uns cinco minutos depois, através do comunicador auricular que todos usavam.
Ikki respirou fundo lembrando-se da ameaça de Afrodite.
— Certo. Eu cuido disso. — Disse entre dentes. Ele sabia que através das câmeras, o outro cavaleiro acompanhava todo o desdobramento daquilo. Seria preciso agir com cautela e autoridade. Só assim, seria convincente. Precisava ser convincente. Aquele incidente não podia sair dali. O círculo não podia saber de mais um incidente.
Andou até o advogado, encurralando-o onde ele estava.
— Shaka, diga agora com quem você falou. Poupe-me de ter que rastrear essa ligação e causar mais problemas.
— Já disse, ninguém — Shaka insistiu na mentira. — Eu não falei nada.
— Não me faça ter que arrancar isso de você... — Ikki ameaçou. Não tinha outra saída, se Shaka fizera contato com alguém fora da mansão, tudo estaria perdido e nada tirava da sua cabeça que o advogado acabaria morto. E isso era o que mais temia. Tentava se convencer de que a morte de Shaka seria uma derrota inigualável para A Sociedade e todos os seus planos. Tentava a todo custo negar que fosse mais, que sentisse mais. Entretanto... No fim, nem bom em mentir para si mesmo, ele era.
Shaka não respondeu, respirou fundo e ergueu o queixo, encarando o outro.
— Eu não falei com ninguém.
Ikki cruzou os braços e o encarou, sem nenhuma paciência.
— Sabemos que uma ligação foi feita, então podemos fazer isso de duas formas, Shaka. A primeira, você me diz com quem falou e eu penso qual será o seu castigo por me desobedecer. A segunda, eu terei que machucá-lo, e eu não quero fazer isso, você sabe que isso não me agrada. — A voz de Ikki era fria e controlada. Tao controlada que ele mesmo estranhou. Shaka era terrível e ele nunca precisou ir a tantos extremos com um hóspede, nem mesmo com Hank. Mas machucá-lo? Mesmo se fosse capaz, ele não faria.
— Faça o que quiser, eu não vou dizer nada! Nada! — Shaka ergueu o queixo em desafio.
Ikki respirou fundo e se aproximou dele, pegou-o pelo braço e praticamente o arrastou para fora da sala, sem nenhuma delicadeza. Sem as muletas, Shaka ia tropeçando pelo corredor atapetado e só não caía porque o outro o segurava forte pelo braço.
— Para onde estamos indo? — Ele perguntou, engolindo em seco.
— Você não me deixa escolha. — Ikki resmungou.
Eles atravessaram o corredor e chegaram a uma nova sala, que parecia a sala de controle das câmeras, mas era mais ampla, confortável e tinha mais painéis.
Ikki o empurrou numa poltrona e pegou um novo fone auricular que estava ao lado de um dos painéis que já estava ligado. Shaka observou o que aparecia ali. Ele conhecia aquele lugar...
— Reconhece? — Ikki pareceu ler os seus pensamentos. — Ser incapaz de machucá-lo não me faz ser incapaz de machucar quem você gosta, Shaka. Se não me disser com quem falou, meus homens farão uma visita ao seu namorado. Essa é a casa dele, não é?
Shaka entreabriu os lábios chocado e sentiu-se trêmulo.
— Não faria...
— Não me teste — Ikki advertiu. — Foi com ele que falou?
Shaka permaneceu calado, olhando para o painel. A casa de Kanon, aquele lugar em que estivera tantas vezes. Era como se pudesse ouvir a risada dele, ver o rosto dele.
— Ele está em casa e eu vou mandar os meus homens entrarem. — Ikki apertou um botão e a imagem se dividiu em vários blocos, mostrando a casa inteira. Kanon estava na cozinha e parecia falar agitadamente com alguém ao telefone. Havia a imagem, mas não havia o áudio.
— Não faça isso... — Shaka murmurou, perdido naquelas imagens e nas lembranças que elas lhe traziam. Pareciam lembranças muito mais antigas do que eram.
— Entrem...
— Não! Seu desgraçado! — Shaka saltou sobre ele e em um reflexo, Ikki o segurou pelo pulso, torcendo-o e o imobilizando. O advogado gritou de dor e percebendo o que havia feito, Ikki soltou-lhe o pulso rapidamente e segurou o braço dele atrás das costas, deixando-o contra o seu corpo.
— Pare, eu já disse que não quero machucá-lo!
— Já está me machucando! — Shaka se debateu, e o chutou na perna, para se soltar, o que o obrigou a apertar o agarre em seu braço. Ikki teria que agir rápido, se Shaka continuasse, poderia se machucar mais e ele não queria isso.
— Se você disser com quem falou, isso acaba. Se não, eu vou mandar machucá-lo.
Os olhos azuis do advogado arregalaram-se quando ele viu dois homens entrarem na casa. Eles eram grandes e corpulentos e usavam luvas.
— Eu te odeio! — Shaka conseguiu se virar e o esmurrou, mas Ikki conseguiu segurar-lhe o punho e o empurrar, afastando-o, fazendo-o cair novamente, sentado na poltrona.
— Ele está na cozinha, sigam pelo corredor — A voz de Ikki foi implacável. Encarou o advogado. — Fale agora, Shaka, agora ou será responsável pelo que acontecer a ele.
— Ninguém! O telefone da polícia é bloqueado, desgraçado! — Shaka gritou, erguendo-se e novamente o atacando. Ikki se esquivou e como colocava a força toda em uma única perna, Shaka se desequilibrou e caiu. Ele estava desesperado, não sabia como deter aquilo e agia de forma louca e instintiva. Humilhado, manteve-se no chão e escondeu o rosto nas próprias mãos, implorando: — Pare, pare com isso agora!
Ikki apenas tentou evitar os golpes dele e tentou evitar que ele caísse, mas não conseguiu. Todavia, quando Shaka já estava caído de bruços no chão, não fez nenhum gesto para ajudá-lo a se erguer, não podia. Conteve a respiração e deixou que ele falasse. Só então o puxou do chão com cuidado e encarou os olhos molhados dele, sentindo seu coração sangrar ao ver tanta dor e desespero nele. Será que Shaka amava aquele homem de forma tão intensa que a simples possibilidade de o ver machucado o desesperava? Chegou à conclusão que sim. Shaka deveria amar o namorado, mesmo que nem ele mesmo soubesse. Tal constatação encheu o peito de Ikki de ciúmes e raiva. Se o amava, então por que o beijo? Então por que... Pergunta imbecil a se fazer. Não as faria. Não pensaria naquilo.
— Vamos, Shaka. Você tem 10 segundos. Pra quem você ligou?
— Para o meu pai! Eu tentei ligar para o meu pai, mas não falei com ele! — Shaka gritou, em agonia. — Por favor, por favor, mande-os embora, por favor... — Shaka implorou. Ikki segurava seus pulsos, tentando evitar que ele o socasse mais uma vez. Mas ao que parecia, o advogado já estava tão exausto que não pensava mais nisso. Ele libertou os braços de Shaka que andou para trás, apoiando-se em uma parede.
— Parem. — Ikki disse e como se fossem marionetes, os dois homens na casa de Kanon estancaram os passos. — Retornem e continuem a observação. — Ele ordenou e tirou o fone, voltando deixá-lo onde estava.
Shaka apoiou as costas na parede e terminou de se conduzir até o chão, trêmulo, uma grande comoção dominando o seu peito. Tudo doía, doía os músculos, o pulso, o orgulho. E doía ser torturado daquele jeito por Ikki. Isso estava doendo mais do que ele queria admitir e por isso precisava odiá-lo. Odiava-o profundamente naquele momento. Não ergueu os olhos um só minuto para ele depois que tudo cessou. Ficou exatamente no mesmo lugar entre a dor e a raiva.
Ikki, depois de um tempo, fez o mesmo caminho que Shaka, sentando-se no chão ao lado dele. Mirava o nada também. Queria dizer tantas coisas, pedir perdão, cuidar dele, implorar para que Shaka parasse de se pôr em risco. Mas como poderia? Jamais poderia. Fazia o que tinha que ser feito. Era hediondo ameaçar uma pessoa inocente? Sim, era. Mas ele não tinha escolha. Se não ameaçasse o tal Kanon, Shaka, na menor das hipóteses, seria torturado novamente. Não podia permitir isso. Contraditoriamente, o que fizera também era uma espécie de tortura. Se Shaka não cedesse, teria ele coragem de mandar torturar o arquiteto? Onde isso se encaixaria em sua cruzada pessoal por justiça? Eram muitas dúvidas, ele não conseguia pensar naquele momento. Ele nem auferia entender o que sentia de fato.
— Eu não... — Ikki tentou começar, mas não conseguiu. Fazia o que tinha que ser feito. Ainda era observado, sempre era observado. Precisava ficar calado e aceitar o seu papel. Era assim, sua vida sempre foi assim. Pensou em se erguer e fugir dali, mas sabia que não podia e não seria tão covarde. Olhou para Shaka, no chão, e passou a mão pelo rosto. Ergueu-se e como sabia que o advogado devia estar exausto e dolorido depois de toda aquela ação com o pé lesionado, além da violenta queda, sem pedir licença, tomou-o nos braços e levou-o para o seu escritório.
Shaka tentou lutar contra aquilo, mas foi facilmente vencido pela exaustão e a dor. Deixou-se conduzir e foi depositado no sofá de couro negro do escritório de Ikki.
Ikki então analisou o estado do pulso dele: estava roxo e principiava a inchar. Rapidamente e com destreza, o imobilizou com duas talas e enfaixou-o. Em silêncio e sem dirigir seus olhos escuros para o rosto do advogado, executou sua tarefa com primor, como profundo conhecedor do que fazia. Tentava fazer com que aquilo não ficasse pior do que já era. Tentava fazer com que Shaka não sentisse dor, ao menos não fisicamente.
A dor física era pequena. A moral, imensa. Shaka estava apático, não olhava nada, seus olhos pareciam preso a algum ponto invisível. Seus cabelos e corpo estavam molhados de suor, como se ele tivesse feito muito esforço. Ficou imóvel no sofá, sem pensar exatamente em nada. Não soube o motivo, mas as palavras uma vez ditas por Ikki vieram à sua mente: limpeza, pureza. Nunca tinha sentido dores. Mantivera-se afastado delas. Alguém superprotegido, dono de uma vida perfeita. Perfeição. Agora dor era tudo que sentia e eles estavam levando o seu equilíbrio mental à estaca zero. Será que era isso que ele queria dizer quando falava que A Sociedade queria moldá-lo? Fechou os olhos, sentindo-se desgraçado. Estava perdido. Eles tinham todos que amava sob controle, e Shaka não podia colocá-los em risco. Estava perdido. Contudo, o que mais o abatia era uma indagação tão profunda, tão estranha e tão intensa que ele tinha medo da resposta: mesmo com Kanon em perigo iminente, ele ainda resistiu a dizer a verdade. Ele não dissera a verdade, uma verdade que talvez seja facilmente descoberta e que possa colocar o namorado novamente em perigo. Por quê? A quem protegia, Kanon ou a si mesmo?
Seus lábios, cortados por seus próprios dentes, tremeram. Estava se sentindo um farrapo humano e essa pergunta martelava em sua mente como o martelo acusatório da justiça.
— Você jurou que não deixaria mais ninguém me machucar — Shaka murmurou, baixando os olhos para o pulso, ainda sem encará-lo. — Você jurou...Filho da puta, eu te odeio tanto...
— Eu sei... — Ikki balbuciou, também sem encará-lo. Poderia dizer que não foi a sua intenção machucá-lo e que apenas se defendeu, mas sabia que Shaka não estava falando especificamente do pulso enfaixado. Ele o machucara de forma bem pior e profunda, sabia. Mas Shaka não podia fazer ideia do que acontecia. Ele não podia se justificar, se justificativa tivesse para tudo aquilo. Sua vontade era pedir perdão, mas não podia fazer isso. Fazemos o que temos que fazer, ele repetia como um mantra na tentativa de afastar o nojo que sentia por si mesmo naquele momento. E Ikki odiou e amaldiçoou a sua vida mais uma vez. Amaldiçoou A Sociedade, os pais que morreram e os deixaram, os homens que os roubaram, e odiou Shaka por ter feito com que se apaixonasse por ele. Contudo, naquele momento, ele odiou a si mesmo mais do que a qualquer um. Odiou-se por ser capaz de torturar a pessoa que amava daquela forma, não importava os motivos para isso. Ele havia jurado, havia prometido nunca mais machucá-lo, assim como prometera a Shun protegê-lo. Ele era um grande fracasso e estava fraquejando todo tempo. Ele não podia ser fraco, não podia ser fraco, nunca poderia ser fraco de novo.
— Eu... — Tentou novamente, mas interrompeu-se e tratou de também cuidar dos lábios cortados do advogado. Embebeu um algodão em um líquido transparente e o levou aos lábios de Shaka, que tremeram com isso involuntariamente. Depois, fechou a caixa e a guardou. Em seguida, sentou-se num banco em que estivera, defronte ao sofá. Ficou ali parado, olhando para o outro sem saber o que dizer. Por fim, depois de longos minutos naquele silêncio, ele se levantou e disse:
— Fique aí o quanto quiser. Quando sentir fome, vá ao salão de jantar; eles prepararão algo para você. — Falava, agora de costas para o advogado — E... você não precisará fazer essa refeição comigo hoje.
Deixou a sala e ligou para Camus, queria saber sobre o drone. Depois foi para o quarto e livrou-se das roupas indo para o banheiro, precisava de um banho. Mirou-se no espelho, observando a sua expressão derrotada com todo o desprezo que sentia por si mesmo. O que havia se tornado? E novamente a pergunta veio: teria coragem de espancar um homem inocente apenas para ter uma informação?
A resposta foi cruel e verdadeira: ele já tinha feito coisas piores. Ele havia sido o torturador de Marduk quando era apenas um garoto. Sua vida mudara com A Sociedade, e Ikki pensara que a violência cometida pelo grupo era menor e justificável. Todavia, percebia que nada do que estavam fazendo era justificável. Era horrível, era hediondo e contrariava tudo que um dia ele acreditou. A Sociedade era uma farsa. A Sociedade fora capaz de torturá-lo e fora capaz de mandar Marduk torturar Shaka. Como pensara por algum momento que haveria qualquer vestígio de justiça naquilo? A Sociedade recrutava crianças e as transformava em armas vivas. Fora o que acontecera consigo, Mu, Aiolia, o próprio Afrodite. A Sociedade aproveitava-se do ódio e da dor de pessoas para alcançar seus objetivos.
Ikki sentiu vontade de quebrar o espelho novamente, como fizera tantas vezes, mas desistiu, abaixando o punho. Não resolveria. Outra parte dele lhe dizia que o que ele fez foi necessário. Shaka precisava ceder. Se ele não cedesse... Outra parte dele ainda tentava convencê-lo de que tudo aquilo era para um bem maior, para salvar as pessoas, que havia um projeto justo e importante por detrás de tudo. Mas essa parte era cada vez mais insegura. No entanto, ainda não podia fraquejar. A dúvida e o medo existiam, mas ele precisava continuar. Por Shaka, precisava. Mesmo que tudo que fizesse parecesse o contrário e mesmo que todos os seus valores caíssem por terra, mesmo que todas as suas crenças fossem destruídas, ele precisava ir até o fim naquilo.
Sim. Fez o que precisava. Por mais horrível que fosse ameaçar Shaka, fazê-lo sofrer e se machucar. Precisou fazer aquilo...
Precisava, depois de beijá-lo, depois de compartilhar aqueles momentos perto do pessegueiro, depois de seus olhos dizerem um para o outro mais do que qualquer um dos dois seria capaz de dizer em palavras, precisava? Precisava mesmo?
Soltou um gemido sofrido e deixou-se sentar no chão frio do banheiro, cobrindo o rosto com as mãos. Precisava bater em alguma coisa, precisava sentir dor de alguma forma. Precisava tirar aquilo da cabeça ou enlouqueceria.
Mas havia um drone. Havia uma missão. Ele não era dono de si mesmo. Ele era um fantoche hediondo que machucava quem amava. Amava? Já estava pronto a aceitar que o amava?
Não, não, não, Ikki! Gritou para si mesmo. Não podia admitir isso. Não podia pensar nisso porque até seus pensamentos poderiam ser rastreados. Certa vez também estivera apaixonado e isso não o impediu de seguir os planos. Nenhuma paixão era maior que a missão. Estar apaixonado não o impediu de pôr uma coleira no pescoço de Hank... Ikki, no entanto, sabia que os sentimentos eram completamente diferentes. Quando fora violento e cruel com Hank, já não existia paixão, existia fúria, raiva por ter sido enganado. Hank era falso, mentiroso e um espião treinado. Shaka era apenas um homem inocente tentando se salvar. Shaka era puro, era honesto em tudo que fazia, era brilhante e corajoso. Shaka não merecia aquilo. E Shaka amava o arquiteto, que também era um homem inocente e não merecia ser torturado.
Sentiu lágrimas nos olhos pela primeira vez em anos. Ele não chorava, não chorava nunca. Havia mais de 20 anos que não sabia o que era chorar, nem mesmo quando pensava em Shun, mas estava chorando naquele momento. Ali, no chão daquele banheiro, um dos poucos lugares daquela casa em que ele não poderia ser vigiado, ele chorava e amaldiçoava a sua sorte. Mas seguiria. Fazemos o que precisamos fazer. Ele faria o que precisasse.
Durante todo aquele dia, Ikki não procurou Shaka. Deixou a mansão porque precisava impedir-se de pensar, mesmo que soubesse que eventualmente teria que encará-lo e a Afrodite. Qual seria o relatório enviado à sede pelo outro cavaleiro? Uma única palavra podia custar a sua vida, e Ikki ainda precisava se preocupar com as investigações que fazia. Precisava descobrir quem fornecia informações a Marduk e por qual razão. Precisava saber o que tudo aquilo significava.
No dia seguinte, Khan bateu à porta do quarto de Shaka. Seguindo as ordens de Ikki, deixou que ele dormisse o quanto necessitasse. O advogado deveria ser deixado em paz e ter toda a liberdade até que Ikki dissesse o contrário. Contudo, se a hora do almoço se fosse aproximando e ele não tivesse despertado, Ikki ordenou que lhe levasse algo para comer em seu quarto. Assim foi que o mordomo anunciou sua presença ao bater na porta de madeira, para, em seguida, entrar trazendo uma bandeja de prata com vários pratos apetitosos.
— Bom dia. — O homem grisalho falou apático. — Você precisa se alimentar. — e, sem se preocupar em se prolongar, aproximou-se para apoiar a bandeja, que se transformou em uma pequena e elegante mesinha, sobre a cama. Sequer olhava para o advogado, parecendo compenetrado demais nessa tarefa.
Shaka se sentou na cama, sentindo os músculos doerem e olhou a luminosidade que atravessava as cortinas. Aquele era seu relógio agora e lhe advertia que deveria ser tarde. Seu pulso e cotovelo ainda estavam doloridos, mas nada que incomodasse de fato. A dor em seu coração incomodava mais. Não deveria estar doendo. Não deveria estar doendo. Seja racional. Seja racional. Ele repetia como um mantra. Por favor não acredite que alguma coisa boa pode sair disso aqui. Diga a si mesmo: não dói. Nada pode doer.
Ele se sentou na cama, sem nada falar, e pegou o copo de suco da bandeja de prata, bebendo sem vontade.
Khan tencionou sair, mas acabou se voltando e o mirando com seus olhos severos.
— O que será preciso acontecer para que aprenda que não pode sair disso, doutor? — Ele indagou. — Se dá algum valor à sua vida, entenda isso. Chega de tentar fugir. Aceite o seu destino, ele está muito além das suas vontades.
Khan não deixou que ele respondesse, Shaka também não faria, saiu. O advogado terminou de comer forçosamente, depois foi para o banheiro, para o seu rigoroso processo de higiene que sempre fazia. Trocou-se, vestiu um pulôver bege, calça jeans, que era mais folgada e conseguia passar pela bota, e tênis no pé são. Desceu as escadas. No meio de tudo que aconteceu, ele não tivera tempo de entender o que houvera no dia anterior. Depois que Ikki cuidara dos seus machucados, ele voltara para o quarto e praticamente dormira por todo o resto da tarde, exausto e ferido. Agora, sua mente tentava se acalmar e algo lhe dizia que algo muito ruim havia acontecido. Talvez isso fosse o motivo para Ikki haver ameaçado Kanon, mas Shaka não queria encontrar qualquer justificativa que fosse para os atos hediondos daquele homem. Estava mais que disposto a iniciar um projeto mental de cultivo do ódio irrestrito a Ikki. Ele era seu inimigo, era assim que tinha que pensar. Tudo que houve entre eles foi pensado, planejado para fazê-lo ceder. Flores não nascem no esgoto, repetia para si. Flores não nascem no esgoto.
Desceu as escadas com um pouco de dificuldade, apoiado nas suas muletas, e parou no corredor, indeciso se iria até a cozinha proibida ou para outro lugar. Escolheu a cozinha, pois pensava que depois do ocorrido na tarde anterior, não seria novamente torturado tão cedo. Compreendia o modus operandi de Ikki e sabia que torturar não fazia parte das suas diversões, por mais que ele o fizesse sem receios quando achasse necessário, como fizera consigo não apenas uma vez. O que esperava? Que depois de ter fodido como um cachorro com ele alguma coisa mudasse? Sim, esperava. Shaka não era ingênuo, não acreditava que uma paixão seria suficiente para mudar um homem como Ikki. Ao contrário disso, ele acreditava no próprio poder de manipulação. O grande problema é que frequentemente se perdia do jogo. Esquecia-se de que estava numa batalha, agia por impulso, como fizera na fatídica tarde. Foi muito idiota pensar que não seria descoberto e agora temia haver posto todos que amava em perigo. Estava mais que provado que a tal Sociedade tinha controle de tudo. Estava perdido. Mas a ligação foi tão curta, tentava acreditar que por mais que aquele grupo do qual Ikki fazia parte tivesse os melhores hackers da cidade, nenhum conseguiria rastrear uma ligação tão curta como foi a sua. A polícia também não conseguiria.
Arrastou o pé machucado até a cozinha, encontrando Faustine terminando de por algo no fogo. Quando o viu, a mulher foi rapidamente até ele, segurando-o pelos braços e o sentando numa cadeira.
— Soube o que aconteceu ontem. Como você está?
Shaka sorriu, mostrando o pulso enfaixado.
— Quebrado, arrebentado, machucado, torturado, tudo igual desde que cheguei aqui.
Faustine lançou a ele um olhar solidário.
— Ikki não quis fazer isso. Perdoe-o.
Shaka mordeu os lábios e balançou a cabeça.
— Sei que o ama, então...
— Você também o ama.
Shaka riu com a afirmação.
— Eu torceria todos os dedos dele e o pescoço se me fosse permitido, Faustine.
— Não tenho dúvidas disso, mas não quer dizer nada. Ikki fez o que precisava. Por mais contraditório que isso seja, ele fez para protegê-lo, Shaka.
Os olhos azuis de Shaka a encararam com seriedade.
— O que eu não sei, Faustine? O que está acontecendo? Como assim pra me proteger? Eu estou em perigo?
Faustine não respondeu. Em vez disso, o segurou pelo queixo e disse:
— Você tem os olhos de sua mãe... — Afastou-se em seguida e completou: — Não pode saber de nada, para a sua própria segurança.
Shaka piscou confuso. O que sua mãe tinha a ver com aquilo?
— Minha mãe? Você conheceu a minha mãe?
A mulher riu levemente, o que pareceu nervosismo a Shaka.
— Ikki tinha fotos de todos. Toda a sua família, seus amigos, seus sócios. Eu a vi. — Afastou-se em direção ao fogão para mexer o que quer que fosse dentro de uma panela. — Uma bela indiana de pele clara e enormes olhos castanhos. O formato dos seus olhos é como o dos olhos dela, mesmo que azuis. Você tem essa curva de amêndoa especial nos olhos e o rostinho suave dela. Não se esquece um rosto tão bonito, rapazinho.
Shaka ficou confuso com aquela informação. Não queria se lembrar da mãe. Lembrar-se dela o deixava emotivo, e tudo que ele não queria agora era estar emotivo.
— Eu ouvi Ikki falando com alguém ontem. — Mentiu desconfiado — Alguém esteve aqui? O que foi aquele barulho?
— Nada que deva dar importância. Já passou. Estamos todos seguros, rapazinho. Agora vá passear pelo jardim com Falcon. Ele gosta de você.
Shaka diria que não podia passear com o pé dentro daquela bota preta, mas desistiu. Pelo pouco que conhecia Faustine, ela só falaria qualquer coisa quando quisesse. Ele ergueu-se e foi fazer o que ela havia sugerido, arrastou-se com as muletas até o canil e soltou o cão, com quem deitou-se na grama para brincar. Era um dos poucos momentos em que realmente se sentia livre. Amava aquele cachorro só por lhe permitir aquela mentira de liberdade.
Observou o local. Tudo era mesmo grandioso, terrivelmente grandioso e belo. Suspirou lembrando-se de algo que leu certa vez de que toda beleza era destruição. Não se lembrava onde ouviu ou leu, mas aquilo poderia representar bem aquela mansão idílica com seus arbustos e arvoredos, o jardim florido e o cantar bucólico de uma fonte. Tudo não passava de uma cortina para esconder as sombras. Onde será que aquele lugar ficava? Será que ainda estava na sua cidade?
Um vento frio soprava, ele não sabia que hora era aquela, mas mirou o horizonte entre as árvores e começou a indagar se um dia conseguiria deixar aquele lugar. Esses pensamentos o entristeceram e o forte advogado sentiu lágrimas nos olhos. Nunca mais teria a sua vida de volta. Morreria ali, longe de qualquer coisa que já tenha amado. Questionava-se, entretanto, se já havia amado alguma coisa na vida. Sim. Amava sua profissão. Amava a lei e amava fazer a lei acontecer. Amava a justiça. Ele precisava fazer justiça. E amava a sua família e amigos também, mesmo que não fosse apegado a eles. Precisava protegê-los.
Ikki havia chegado à mansão há pouco. Saíra na noite anterior e só agora retornava. Embora ainda estivesse abatido, a atividade da noite, ao menos, acalmou os seus pensamentos. O corpo doía e essa dor evitava que ele sentisse outras dores. Foi para o seu quarto, tomou um banho, cuidou dos ferimentos e vestiu-se em um dos seus ternos escuros, trajando novamente o personagem usual. Tomou um dos fones auriculares que costumava usar, e o chefe da segurança o colocou a par de tudo que acontecera na sua ausência. Tudo calmo como esperado. Então, Ikki mais uma vez vestiu-se no papel do poderoso e intransigente dono da mansão. Vestiu-se com aquela indigna armadura e deixou o quarto.
Foi para o jardim, precisava respirar. Todavia, não estava pronto para encontrar Shaka ali. Fora informado que o hóspede estava bem, alimentado e que transitava pela casa, mas não havia perguntando onde exatamente ele estava, e Ikki não estava pronto de forma alguma para vê-lo deitado na grama com Falcon, brincando com ele como o mais normal e feliz dos homens. Tão puro. Tão limpo. Parecia que nada naquele lodo todo conseguia contaminá-lo. E Ikki sentiu-se triste, vazio e pequeno. E Ikki sentiu-se ainda mais miserável pelo que fizera na tarde do dia anterior. Fazer o que tinha que ser feito não era justo, não era suficiente, não era certo. Não preenchia o vazio. Não levava a dor embora.
Ficou um longo tempo mirando-o de longe. O cão agitava-se, balançava o rabo e brincava de morder os braços do advogado, que ria e o afastava para depois fazer tudo de novo. Era uma imagem bela para qualquer pessoa que a visse. Mas para Ikki ela era surreal, mística, tudo que não fazia parte da sua realidade sombria e brutal.
Quando o seu olhar cruzou com o de Shaka, ele não conseguiu nem mesmo respirar. Houve uma comoção dentro dele, com a qual não soube lidar. Não entendeu o que era aquilo, eram muitas sensações distintas, difusas. Confusas. Nunca conseguiria entender o que estava sentido, o que sentia sempre que mirava aquele homem. Não era mais a fascinação inicial, que também era cheia de ojeriza. Sim, detestou-o desde o momento que começou a saber quem ele era. O projeto Nelumbo nucifera. O homem perfeito, o paladino da justiça, o destemido criminalista moldado para a Suprema Corte. A joia d’A Sociedade. O fascinante, puro, ilibado, Shaka Phalke. Um pirralho que mal tinha saído das fraldas, era o que ele pensava. Seu primeiro pensamento foi que alguém deveria estar enganado, que ele não poderia ser tudo aquilo. Mas a cada nova pesquisa, nova observação, novo encontro com membros estratégicos, novas reuniões, tudo que era dito sobre ele se confirmava e isso o incomodava demais. Incomodava porque na verdade, Ikki sentia inveja. Inveja porque nunca seria como ele, inveja porque Shaka conseguia sair limpo do lodo que era aquela cidade. Ele, não. Ele tinha pés e mãos sujos. Ele tinha uma alma corrompida. Shaka era tudo que ele jamais seria.
A missão que parecia muito simples, nunca foi tão difícil. Mirando Shaka e Falcon, naquele momento, ele percebia que mesmo com tudo que fizeram e permitiram que fosse feito, a alma do advogado continuava a mesma. Ele ainda parecia manter os pés limpos ao arrastar-se na lama.
No entanto, assim que o viu, Shaka ergueu-se e afastou-se o mais rápido que conseguia com as suas muletas, sendo seguido pelo cão. Ikki pensou em ir atrás dele, mas aquela demonstração de pavor do outro minou as suas forças. Era temido, talvez. Agora finalmente Shaka parecia teme-lo, respeitá-lo... Por que isso estava doendo daquele jeito? Mirou as próprias mãos, os nós dos dedos esfolados não pareciam suficiente punição pelo horror do que fizera. Sentiu vontade de deixar-se espancar por Shaka para ser punido de verdade. Entretanto, aquele pensamento era imbecil e infantil. Ele não fazia coisas de crianças há muito tempo. Há muito a sua infância fora perdida.
Ainda estava preso nesses pensamentos quando percebeu uma movimentação fora dos muros da mansão. Não era bem uma movimentação, era a vibração de carros na estrada. Ao menos três carros pesados. Seus instintos foram acionados de imediato, e ele mandou pelo rádio que os seguranças ficassem a postos e que Khan e Faustine fossem para o subsolo. Algo estava errado. A Sociedade tinha um código quando mandava alguém, a sentinela na torre saberia.
— Isolem a casa, cerquem o perímetro e preparem-se para uma resposta... — Ele dizia através do fone auricular, já caminhando na direção em que Shaka seguiu. Precisava levá-lo de volta à mansão. Algo lhe dizia que tinha alguma coisa muito errada. — Mandem uma equipe para o jardim, agora! — Gritou, ele mesmo saindo correndo em direção ao canil.
Shaka realmente estava lá. Ele parecia abrir o portão para que Falcon entrasse na própria casa, que ficava próxima a muralha sul da mansão.
— Shaka! — Ele gritou e viu Falcon balançar o rabo e correr em sua direção ao vê-lo.
Ikki correu na direção deles e ouviu um barulho do lado de fora do muro.
— Não... — Ele sussurrou para depois gritar: — Saiam daí! — Antes da explosão o cegar completamente.
Título: Quem bem ama, bem castiga.
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