Nelumbo nucifera
33 Alium silere quod voles, primum sile
Notas iniciais
Alium silere quod voles, primum sile
Chapter XXXIII
Tudo era cinza. A fumaça dominou o local de forma tão intensa que durante um bom tempo, ele não conseguiu enxergar ao redor. Algo parecia queimar, pois o odor era intenso também. Destroços do canil chegaram aos seus pés, assim como pedaços de galhos de árvores. Ikki percebeu que estava caído no chão e se ergueu sem dificuldades. Não estava ferido, foi uma queda durante a tentativa infrutífera de alcançar Shaka e Falcon.
Os seguranças corriam para o local em que o muro foi derrubado e atiravam nos invasores. Eram tantos que rapidamente os carros partiram em retirada, deixando três corpos no chão, mas Ikki não estava preocupado com o que acontecia fora dos muros.
— Shaka... — Ele murmurou, o coração aos pulos. — Shaka! — gritou, tentando enxergar, a fumaça começava a ceder.
— Aqui! — o advogado gritou, e Ikki finalmente o viu. Ele estava sentado perto da macieira com a cabeça de Falcon sobre as pernas. Havia um ferimento em sua têmpora que sangrava.
Ikki correu até ele, caindo de joelhos e tomando-lhe o rosto entre as mãos.
— Você... Você... — Não conseguia falar, o coração batia tão rápido que ele achava que fosse lhe rasgar o peito.
— Eu estou bem — Shaka disse com a voz embargada. — Ele não...
Ikki mirou Falcon, cujo pelo era ensopado pelo próprio sangue. Seu coração sangrou junto, e ele se inclinou sobre o cão, fraquejando.
— Não...Não, Falcon...
A dor em sua voz foi tão grande que Shaka por instinto levou a mão machucada aos cabelos dele, enquanto a outra afagava a cabeça do cãozinho, que mesmo gravemente ferido ainda abanava o rabo.
Ikki não se entregou a dor de imediato, vendo os seguranças correndo em ação, exigiu que eles chamassem o veterinário e o médico de sempre. Não haveria de ser tão grave o ferimento do seu amigo. Não podia perdê-lo. Não podia. O que faria sem ele? Seu único amigo...
— Ei, garoto... Está tudo bem agora. Eu estou aqui, viu? Estou aqui. — Falava com a voz mansa, mas um tanto embargada. — Você vai ficar bem... — Tentava parecer bem, mas engolia uma dor que odiava estar sentindo. Tentou sorrir, mas o máximo que conseguiu foi uma careta forçada. Ao continuar com as carícias, terminou por tocar na mão de Shaka, que a tirou da sua com tanto espanto que Ikki sentiu um profundo mal-estar. Era evidente que o advogado nutria grande ojeriza por ele. Todavia, não era momento de pensar naquilo, precisava cuidar dos dois.
Observou o sangue na têmpora de Shaka e tentando não pensar nas emoções do hóspede, levou os dedos à franja, examinando-o. Percebeu que era só um arranhão. Depois examinou o ombro dele que também sangrava. Apenas arranhões. Isso o aliviou ao menos parcialmente. Falcon ainda agonizava.
O médico chegou primeiro. Ikki ajudou Shaka a se erguer. Foi trazida uma maca que era um pequeno carro, e ele foi levado para a clínica que havia na própria mansão. Ikki ficou sozinho com Falcon, conversando com ele, tentando animá-lo enquanto esperavam que o veterinário chegasse.
Quando o veterinário finalmente chegou, Falcon foi levado para uma das salas do subsolo, e o dono do cão começou a enchê-lo de perguntas sobre o estado do animal e o que poderia ser feito. O homem terminou por pedir que ele ficasse fora dali, até que pudesse oferecer uma resposta. Ikki, não tendo saída, deixou a sala, ainda com a mente perturbada demais. Foi para a clínica, onde o advogado estava sendo examinado.
— Apenas um corte e arranhões — O médico informou assim que o viu. Ele mirou o loiro. Shaka já estava limpo, era evidente que havia tomado banho, e vestia uma roupa leve, uma daquelas batas indianas azuis que o deixava com uma aparência menos sisuda, ele até parecia um garotinho, o mesmo garotinho que ele conhecera na rua quando eram crianças. Mas Shaka não se recordava disso, não podia. Ele devia ter uns oito anos na época, porque Ikki se recordava que tinha 12 para 13. Logo depois, Marduk o encontrou, então era meio difícil de esquecer aquele evento. Não esquecia também porque depois daquele encontro, ele havia mudado. Mudado muito.
Mirou o advogado que tinha um pequeno curativo na testa e algumas escoriações. Fez um gesto de cabeça, pedindo que o médico saísse, o que foi entendido prontamente. Ikki então se sentou ao lado de Shaka na cama.
— Que bom que trouxeram as suas roupas. Sente dor? — perguntou com a voz mais suave que podia. Não conseguia encarar os olhos de Shaka ainda. Não depois da tarde anterior, mas precisava saber como ele estava naquele momento.
Shaka não proferiu palavras, apenas moveu a cabeça negando. Ikki viu que o médico havia deixado remédios ao lado da cama.
— Bom. Precisa descansar — levantou da cama, sem saber o que estava fazendo ali. Tudo fora perdido, era evidente. Tudo que havia antes, por mais confuso que fosse, havia sido perdido.
— Como está o cachorro? — Shaka o interrompeu antes que ele deixasse o quarto.
— Eu não sei — Ikki concentrou-se para não deixar transparecer a dor que sentia. — Mas quem fez isso vai pagar muito caro.
— Não devia pensar em vingança agora — Shaka falou, sério. — Vá ficar com ele.
Ikki não soube o que dizer, apenas saiu do quarto, suportando heroicamente tudo aquilo. Voltou para a sala no subsolo onde estava o cão e ouviu do veterinário que precisariam de uma ressonância e que o ferimento parecia muito grave, ou seja, Falcon precisava sair da mansão.
Ikki aceitou tudo. Disse que dinheiro não seria problema, mas perguntava a todo instante se Falcon ficaria bem. O veterinário se esquivava dessa pergunta, dizendo que precisava do exame primeiro. Ikki então cedeu, iriam para o hospital veterinário. Colocaram o cão no carro de Ikki, que pouco se importou com o sangue que os curativos não podiam mais conter. Ele disse a Khan e Faustine que cuidassem de tudo. Que arrumassem o local, que se preocupassem com essas coisas, pois ele não teria cabeça para isso agora. Disse também que ficassem tranquilo, certamente não haveria outro ataque no mesmo dia. Assim, ele partiu com Falcon e o veterinário. Lá, como previsto, Falcon precisou passar por uma cirurgia. Ikki não deixou o local, ficou tenso à espera de pareceres. O dia foi passava e ele não comeu, não fez nada, a não ser ficar na sala de espera. Havia até mesmo desligado o celular. Não queria ser importunado. Já havia anoitecido quando o veterinário finalmente apareceu com um parecer definitivo sobre o estado do cão. Infelizmente, os ferimentos internos haviam sido muito profundos. Por mais que tentassem reparar, não estavam sendo bem sucedidos. Falcon estava sofrendo muito, e o veterinário disse que seria melhor sacrificar.
Ikki, a princípio, resistiu, brigou com o médico, xingou toda a equipe, gritou, ameaçou, mas não havia nada que se pudesse fazer. Acabou tendo de aceitar. Já era perto da meia-noite quando o veterinário o levou para uma sala onde ele pôde ver seu cachorro. Falcon estava deitado em uma espécie de maca. Estava anestesiado, mas desperto. Ikki se aproximou, fez carinho nele. Sorriu muito para ele, brincou dizendo que logo iriam para casa. O veterinário começou então a injetar o coquetel de medicamentos que colocaria o cão para dormir, e Ikki evitava olhar para essa cena. Fixava seus olhos em Falcon, que o encarava de volta. Como estava anestesiado, não conseguia se mexer muito, mas Ikki acreditava que ele conseguia entendê-lo perfeitamente. Quando o cão finalmente pareceu sonolento, Ikki pediu desculpas a ele. E, quando Falcon fechou os olhos em definitivo, ele não tinha deixado cair uma única lágrima, embora estivesse esmigalhado por dentro.
Voltou para casa em um estado apático. Dirigiu em uma espécie de piloto automático. Sequer via a estrada à sua frente. Quando chegou à sua propriedade, os portões de ferro se abriram. Tudo parecia ter voltado à ordem. Khan devia ter feito um bom trabalho e ele já enxergavam operários refazendo a muralha derrubada. Mas Ikki não se importava. Dirigiu e parou o carro no lugar de sempre. Sua roupa ainda estava manchada de sangue, assim como o carro, mas ele nem parecia perceber isso. O jardim ainda estava destruído, mas tudo o que pôde ser consertado e arrumado já estava feito. Havia um silêncio por todo o local e Ikki, que andava a esmo, parou no lugar em que antes fora o canil, cujos destroços tinham sido retirados dali.
Ele ficou ali em pé, observando o vazio por um tempo. Finalmente, como se despertasse, gritou. Gritou alto e desesperadamente. Gritou enfurecido, com ódio, e lágrimas finalmente brotaram. As lágrimas quentes começaram a correr, queimando seu rosto e enchendo-o de mais raiva. Ajoelhou-se e começou a golpear o chão, com toda a sua força. Eram golpes surdos, mas os gritos de ódio preenchiam o local. Quando finalmente sentiu-se esvaziar de forças e ódio, ficando apenas uma tristeza sem tamanho, Ikki sentou-se no chão e chorou, desamparado, como se estivesse perdido, como se não tivesse ideia de para onde deveria seguir.
Shaka havia passado o resto do dia no quarto, tentando organizar os pensamentos e sentimentos. Ele sempre foi muito bom nisso e mesmo com toda a intensidade dos acontecidos dos últimos dias, chegar a um meio termo emocional não demorou mais que algumas horas entre reflexões e meditações profundas que acalmavam seu espírito. Ele estava sofrendo pelo cão, era fato. Ele era o seu amigo naquela situação bizarra que vivia. Seu porto de normalidade e temia por seu destino. Na verdade, seus instintos diziam que Falcon não sobreviveria, o que era doloroso.
Já era relativamente tarde quando ele deixou o quarto, arrastando a bota, porque estava sem as muletas, não fazia ideia de onde elas estavam, e voltou ao jardim. Havia pessoas andando de um lado a outro, reconstruindo o que tinha sido destruído. Parecia que a intenção era que no dia seguinte não houvesse vestígios do ataque. Marduk. Ele queria invadir a mansão. Só poderia ser ele, pensava. Os corpos dos invasores foram arrastados para algum lugar que Shaka não fez questão de saber. Era provável que com aquele fracasso, ele não tentasse novamente. Os carros de apoio haviam fugido assim que os homens no primeiro carro tinham sido abatidos, mas Shaka se perguntava se eles realmente pretendiam uma invasão ou apenas uma provocação direita. De toda forma, ele tinha certeza que Ikki iria retaliar.
O advogado viu quando o carro de Ikki chegou e pensou em ir saber notícias do cão. Mas quando ele saiu sozinho do carro, ele soube de imediato que acontecera o pior e seu coração chorou. Falcon era o único resquício de vida naquele lugar sombrio e ajudava a tornar seus dias melhores. Ele sentiu a perda profundamente. Contudo também não era homem de chorar.
Shaka recuou e manteve-se afastado de Ikki. Hesitou se deveria perguntar algo, ainda era difícil falar com ele, olhar para ele, depois de tudo que Ikki lhe havia feito. Contudo, o seguiu a certa distância, como um espião, mas não para espionar, era a hesitação entre falar ou não que o fazia agir daquela forma. Deveria perguntar pelo que já sabia? Lamentar?
Estava ficando mais frio, talvez chovesse, ele viu o outro chegar perto dos destroços da casa do cão e quando Ikki começou a gritar descontrolado e cheio de dor, Shaka virou-se nos calcanhares para sair dali, mas quando o ódio e o descontrole daquele homem odioso cedeu a dor, ele paralisou no lugar sem conseguir abandoná-lo daquele jeito.
Por trás dessa máscara impiedosa, mora um coração de manteiga. Kanon sempre lhe dizia isso e ele rebatia que não, que ele não se enganasse. Mas se aquilo não fosse verdade, porque estava hesitando em deixar a pessoa que mais odiava, talvez a única pessoa que de fato odiasse, ali sozinha em meio à dor. Realmente o odiava? Realmente seria capaz de chutá-lo naquele momento?
Hesitou, mordeu os lábios, torceu as mãos e ao final praguejou contra si mesmo e caminhou até ele, mancando, arrastando a perna.
— Ei, levanta daí. Ele já não está aí e nada o trará de volta. — A voz foi neutra, sem agressividade e nem carinho. — Agora há outras pessoas que precisam de você aqui, que precisam que seja o mesmo f-... O mesmo líder de sempre. Falcon se foi. Ele está bem agora. — Shaka sentiu-se extremamente triste com aquela declaração, mas não podia fraquejar naquele momento. — Vamos, Ikki, levante-se.
No momento em que ouviu a voz de Shaka, ele ergueu o rosto devagar. Escutou as palavras dele, mas não as assimilou de fato. Era como se ouvisse a voz do outro, sem ser capaz de decodificar o que ele dizia. E, por mais ilógico que fosse, era exatamente isso que conseguiu trazer alguma sensação de conforto naquele momento. Quando se está completamente perdido, não é muito difícil detectar aquilo que pode lhe fazer bem num momento assim. E, por um motivo completamente incompreensível, a voz do advogado, inteiramente neutra, teve esse poder. Ficou olhando para Shaka, com uma profundidade impossível de esconder. Nem Ikki sabia ao certo o que enxergava. Não era ele mesmo ali. Estava em um momento de vulnerabilidade absoluta e se mostrava de uma forma como nem ele mesmo seria capaz de se reconhecer. O que sentia era tão desconexo de quem ele achava ser que, naquele instante, nem teve preocupações em ser assim ou de outro jeito. Deixou-se olhar para o outro, sentindo-se ainda mais e assustadoramente atraído por ele. Ouvia a sua voz, mas não se preocupava em entendê-la. E, de repente, Ikki desejou que o mundo parasse ali, da maneira como estava. Por um instante, um resquício de instante, Ikki sentiu algo parecido com o que ele poderia chamar de paz. Mas foi um instante passageiro, muito efêmero e fugaz. Passou por ele, sem que pudesse retê-lo ali por mais tempo. Quando Shaka se moveu, em um gesto de quem espera ser acompanhado, Ikki hesitou. Mas a postura do loiro arrancou-lhe um gesto como resposta e Ikki acabou se levantando também. Sem que dissessem qualquer palavra, dirigiram-se para a mansão. Ikki mantinha a mente enevoada. Sabia que havia um turbilhão de pensamentos ali, mas não conseguia alcançá-los. Então, quando entraram na casa, a escuridão do lugar lembrou-lhe coisas ruins. Acendeu a luz com quase desespero de se ver naquele escuro por mais tempo. O gesto brusco chamou a atenção de Shaka, e Ikki, como se sentisse que era obrigado a dizer algo, soltou o que primeiro lhe veio à mente. — Estou com fome. — Falou, em um tom baixo e rouco, com um olhar ainda tão intenso do que vinha mantendo sobre Shaka.
Toda aquela situação era pouco confortável para Shaka. Desde se ver preocupado com ele depois de tudo que acontecera no dia anterior, quanto o olhar estranho que ele lhe dirigia. Mas naquele momento, estava mesmo preocupado e, por mais insano que fosse, sentiu que houve a ruptura de algum tratado oculto entre eles e que isso não começara ali e sim no dia anterior enquanto Ikki ameaçara torturar Kanon. Respirou fundo para voltar a focar os pensamentos no agora. Não ficaria remoendo o que já havia passado. Talvez, ele só estivesse passando pelo processo de síndrome de Estocolmo naquele momento e esse processo era unicamente motivado pela morte do cão que foi capaz de mexer tanto com um homem irascível como Ikki e que mexera consigo também. E naquela noite fria e esquisita, Shaka sentiu meio os papéis se inverterem, parecia que, de repente, o poder ali era seu. Não um poder físico e palpável, mas um poder psicológico que a situação lhe dava e que não poderia ser usado para outros fins que não fosse o que determinava suas ações no momento.
— Vá para o seu quarto, tome um banho. Eu pedirei ao seu mordomo que leve algo pra você, ou você mesmo pode pedir isso através do seu rádio. — A voz continuava neutra e suave, a raiva, a mágoa e a revolta não compareciam naquele momento, embora estivessem firmemente guardadas dentro dele. Não esquecidas ou mortas, apenas guardadas temporariamente.
— Não. Eu não quero ver ninguém. — Ikki respondeu rápido, como se sentisse mesmo uma verdadeira aversão por ver qualquer um agora. Olhou na direção da cozinha, que parecia vazia pelo silêncio total e deu um passo naquela direção. Mas, como se algo o retivesse ali, olhou para Shaka e disse, quase como em um autorreflexo: — Você já comeu? — indagou sem cobrança, sem malícia, sem qualquer tipo de sentimento investido ali. Uma pergunta que beirava o banal, mas que naquela situação era, no mínimo, estranha. — Se quiser, eu... — Não sabia sequer como terminar aquela frase. Apontou com a cabeça para a cozinha e deu de ombros, fazendo um convite que parecia impessoal e desprovido de interesses., mas a estranheza, era claro, sentida em cada uma daquelas palavras e gestos.
Shaka hesitou. Não queria a companhia dele, queria ficar longe dele, mas os seus pés o seguiram. A cozinha estava vazia. Com certeza Faustine havia se recolhido, já era muito tarde. Acendeu a luz e foi até o fogão, checando o que havia ali. Sabia que um aceno de mão do moreno e todos os empregados estariam ali para servi-lo, mas o dono da casa parecia apático demais para pensar nisso, então Shaka mesmo providenciou servi-lo e achou aquilo até irônico, pois durante aqueles dias, Ikki não conseguira fazê-lo servi-lo e conseguia agora por iniciativa própria de Shaka.
Shaka não sabia cozinhar e nem servir, então apenas preparou um prato para o moreno e levou-o ao micro-ondas, como faria em sua casa, que estava longe de ser refinada como aquela. Depois que o aparelho apitou, ele tirou o prato lá de dentro e colocou na mesa de frente ao moreno, assim como os talheres.
— Come — disse e foi mexer na geladeira, atrás de alguma salada, mas como não achou o que queria, pegou uma maçã e uma pera, colocou num prato e se sentou em frente ao outro, que não estava sentado, permanecia parado, olhando o prato. Shaka mordeu a maçã, sentindo a perna reclamar do esforço e pela falta das muletas. — Vai esfriar — disse, olhando para Ikki.
Ikki não havia entendido bem o que Shaka estava fazendo quando entrou na cozinha e tomou a dianteira em uma situação que nem mesmo ele compreendia qual era. Quando o advogado colocou o prato à sua frente, Ikki entendeu que ele o estava servindo. Estava absorvendo esse fato inesperado quando o loiro o despertou, advertindo que comesse logo. Estava com fome e não se faria de rogado; sentou- se e começou a comer. Apesar da fome, não comia com tanta vontade. Ainda estava agindo de forma mecânica, com um olhar preso em algum ponto invisível. No entanto, começava a se sentir dentro de si mesmo aos poucos, como se estivesse voltando. Mas, enquanto ainda não regressava inteiramente, uma parte sua, provavelmente a parte que era anulada no seu dia a dia comum, levou-a falar.
— Por que você é vegano? — perguntou do nada, de repente; uma pergunta sem contexto, a não ser pela ligação de estarem se alimentando no momento. Nem Ikki entendia de onde vinha aquilo. Estava puxando conversa? Sem um fim concreto e bem traçado? Bem, ao que tudo indicava, era isso mesmo — Seus pais o criaram assim ou foi uma opção? — complementou a pergunta, sem qualquer agressividade ou sarcasmo na voz, com uma parte consciente sua de que não seria capaz agora de controlar muito o que dizia.
Shaka o mirou, meio receoso. Puxou uma cadeira e sentou-se de frente ao outro.
— Nunca gostei muito de carne. O veganismo se tornou um dos muitos projetos políticos que abracei na minha vida e não me arrependo. A ideia de comer animais mortos nunca me agradou, então eu escolhi não o fazer. — Disse enquanto comia a maçã, sem nenhuma meia palavra, apenas respondendo uma pergunta banal. Preferiu não tentar pensar no que motivava Ikki a lhe perguntar aquilo ou nos jogos que o moreno engendrava fazer consigo ainda, porque sabia que apesar de toda apatia que ele demonstrava agora, ele não ficaria daquele jeito para sempre, então não era bom pensar em qualquer coisa naquele momento, naquele pequeno momento em que Ele não era Ele.
— Eu gosto de carne. — Ikki falou, de modo displicente, mas não provocativo — Não sei se chega a ser opção. Às vezes, pode ser falta de opção; se eu não comesse carne, não teria forças para sobreviver onde estava. Aí aprendi a gostar. Tenho o costume de aprender a gostar daquilo de que preciso, porque aí sempre saio no lucro. — Ikki falava e sentia que havia dois dele ali. Um que agia de forma bem diferente do usual e outro, o Ikki normal, que observava de longe o que acontecia. Era engraçado. Não costumava conversar assim, como quem joga conversa fora. Era interessante. Não saberia dizer se era bom ou ruim; não estava avaliando a esse ponto. Mas era interessante. Mesmo das outras vezes, outras vezes em que eles conversaram, sempre houve um interesse, mesmo que fosse um interesse de conhecer melhor, se surpreender, seduzir. Agora, era diferente. A conversa fluía aleatório, banal. Era estranho para eles. — Você tem um livro preferido? — outra pergunta fora de contexto. Nem se repreendeu dessa vez. Ficou olhando para Shaka, sem reprimir o olhar, à espera de uma resposta.
Shaka franziu a testa. Tinha vontade de perguntar “onde ele esteve”, mas achava que não era o momento, então apenas respondeu enquanto deixava o resto da maçã no prato e pegava a pera. Pensou em dizer que Ikki de alguma forma sabia qual era seu livro favorito, mas não quis entrar em detalhes sobre isso.
— Tenho. Acho que todos têm — respondeu neutro. — Um deles é Crime e Castigo. — Falou e mordeu a pera, mastigando com vontade. — Eu sou criminalista afinal — sorriu de lado, não com ironia, mas não sabia definir seu próprio sorriso naquele momento.
—- Ah. — Ikki abriu mais os olhos, parecendo genuinamente surpreso — Eu gosto muito desse livro também. Já o li várias vezes. Inclusive, cheguei ao ponto de não ler mais o livro na íntegra. Eu saio pulando páginas, vou direto a trechos de que gosto mais. — Ele tinha comido metade do que estava em seu prato. Mas, não sabia dizer por que, o fato de não tirar os olhos de cima de Shaka fez com que a pera que o loiro estava comendo parecesse bem mais interessante. Levou o prato à pia, lavou-o, enquanto continuava falando — Você gosta desse livro porque é um criminalista. O melhor, até onde eu sei. — Naturalmente, terminara por fazer um elogio ao outro. Até havia percebido isso, mas nem emendou o que disse, tampouco retirou o que falara. Simplesmente continuou o que dizia — Eu gosto por apresentar o aspecto humano dos personagens. Por mostrar que as pessoas possuem lados ocultos e feios. E por mostrar a possibilidade de redenção. — Enquanto falava, sem dar grande ênfase a qualquer uma daquelas palavras, Ikki foi à geladeira e tirou de lá uma pera também. Voltou à mesa, com a fruta e uma pequena faca na mão. Cortou um pedaço da pera e levou à boca — Mas eu não sei se diria que esse é meu livro favorito. É meu livro de cabeceira hoje, mas não o favorito. Livro favorito é aquele que se lê por prazer, por complementar algo, por trazer uma sensação única... não é? Bom, se for assim... — Shaka já tinha terminado sua pera e Ikki, dentro da esquisita naturalidade daquele momento, cortou um pedaço da sua própria fruta e estendeu o braço para o loiro, oferecendo a ele — Meu livro preferido é o da minha adolescência, "Odisseia", de Homero.
Shaka pegou o pedaço da fruta da mão dele e levou lentamente aos lábios, tirando um pedaço e acenando positivamente com a cabeça.
— É um bom livro, mas eu disse que Crime e Castigo é um dos meus livros favoritos, ele não é o único. Mas com certeza é o livro que mais leio, também pelo aspecto psicológico. Mas se o livro favorito for aquele que nos dar prazer. — Ele riu de leve. — O meu parece bobo para muita gente. Alguns pensam que é um livro infantil, mas está bem longe disso... — E de repente, foi como se Shaka houvesse se dado conta do que o outro dissera. — Eu não sou o melhor criminalista do país. Eu só estou começando, mal comecei pra ser honesto, só tenho quatro anos de formado na faculdade, isso é nada para se fazer um nome. – Estranhou aquelas palavras, mas calou-se e levou o pedaço de pera a boca.
— Se você olhar em questão de potencial... — Ikki continuou. Cortou mais um pedaço da pera e levou à própria boca — Em quatro anos, o que você fez, equivale a uma década dos maiores criminalistas atuais. Você não se pode comparar com os que estão em evidência hoje, tem de se comparar com quem eles eram na mesma época em que você se encontra hoje. Se fizer isso, vai se espantar e descobrir que é um caso raro e único. — O assunto começou a ficar sério demais, começava a resvalar no motivo de tudo aquilo e Ikki não se sentia pronto para voltar a essa realidade ainda. Cortou mais um pedaço e novamente estendeu a mão, mas já não oferecia, o gesto era mais direto, entregava o pedaço da fruta como se já estivesse acordado entre eles que estavam dividindo aquela pera — Mas qual o seu livro preferido? — Mudou drasticamente de assunto, voltando ao tópico anterior, que considerava mais agradável.
— O pequeno príncipe — Shaka declarou, percebendo a mudança intencional de assunto. — Eu li pela primeira vez aos nove anos. Foi um bom companheiro de uma infância solitária —– pegou o pedaço da pera oferecida por Ikki, um pouco incomodado com toda aquela conversa depois de tudo. Deveria estar arrancando os olhos dele e não conversando. — Está tarde... se o senhor me permite ir dormir... — Falou, sem mais olhar para o outro. Deixando claro de certa forma que eles voltaram ao patamar do começo. Havia uma fragilidade entranha nas palavras naquele momento e ele não queria um desafio e nem uma discussão, queria fugir daquele clima cordial e esquisito, só isso. Talvez quando acordasse no dia seguinte, Ikki voltasse a ser quem era e ele voltasse a sentir o ódio que estava sentindo, antes da morte de Falcon.
Ikki abriu um sorriso saudoso e espontâneo, ignorando temporariamente o pedido de Shaka e pensando apenas no livro.
— Era o livro preferido do meu irmão... — soltou, mas logo se refez, embora não retirasse ou mudasse o que acabava de dizer. — Odisseu, protagonista da Odisseia, também tinha um cachorro. Se alguns acham o seu livro bobo, o que ele definitivamente não é... O meu é o típico livro do adolescente que parte de sua casa atrás de aventuras, atrás de si mesmo...Que luta contra monstros e seres mitológicos... e que depois regressa à sua casa, vitorioso, trazendo alegria e prosperidade para todos os que sentiram sua falta no período em que se ausentou. — Falou com ar sonhador, para depois perceber que Shaka parecia aguardar, já de pé, por sua permissão para poder ir embora — Ah, claro. Está tarde, sim. Você deve estar cansado, vá dormir. Boa noite. — Ele disse, ainda sentado à mesa, começando a descobrir que aquela situação era mais estranha do que tinha imaginado. Sim, era estranha demais depois de tudo que eles vinham vivendo naqueles dois dias.
Shaka baixou os olhos para ele.
— Foi isso que aconteceu com você ao retornar? Você trouxe alegria e prosperidade aos que amava? — indagou. Lembrou-se das conversas com Faustine e arrependeu-se da pergunta. — Ah, claro, boa noite. — Disse e arrastou-se para a saída da cozinha.
— Não. Não foi o que aconteceu. — Ikki falou alto, sem sair do lugar — Finais felizes não existem. É assim que eu descobri. Odisseia é ótima literatura, mas extremamente mentirosa. Fala da esposa que esperou por anos pelo regresso do marido, sendo-lhe fiel. Amor verdadeiro? — Ikki riu, irônico — Isso não existe! O filho de Odisseu, que cresceu sem ver o pai, não teve rancor do período em que o pai ficou distante. Compreendeu os motivos de Odisseu e recebeu-o afetuoso quando ele regressou! — nesse ponto, o moreno se levantou e caminhou até Shaka, que havia parado — Esse tipo de lealdade não existe, nem mesmo entre pessoas de mesmo sangue. Não existem laços verdadeiros entre as pessoas! É tudo mentira! — enquanto falava, Ikki ia se aproximando de Shaka de uma forma agressiva, embora não fosse essa sua intenção. A raiva latente se fazia presente e o advogado, por instinto, ia recuando até que encostou à parede. Ikki continuava falando, de frente para ele, como se tivesse algo a lhe provar, a lhe mostrar: — Final feliz? Vida perfeita? Amor verdadeiro? Nada disso existe. NADA! — Finalizou, mais exaltado. Sua respiração se agitou e, subitamente, percebeu onde estava e a forma como Shaka o observava de volta. Estavam muito próximos e o momento era surreal demais para Ikki saber como agir, como se desculpar ou qualquer outra coisa.
Shaka agora o observava alerta. Suas costas estavam totalmente coladas à parede fria da cozinha, seus olhos muito abertos, atentos, as mãos espalmadas numa insinuante posição de quem procura algo para se proteger.
— Eu não concordo com você — A voz foi quase um sussurrou. Ikki estava perto o suficiente para ouvir. — Lealdade, amor verdadeiro, amizade, tudo isso existe e quem está lhe dizendo não é um poeta como Homero, é um criminalista, um cara que lida com a pior face do ser humano todos os dias. — Mirou mais incisivamente o homem a sua frente. — Faustine te ama. Mesmo não concordando com o que você faz, continua ao seu lado ano após ano, e cuidou de você quando todos o deixaram. Ela não está nessa casa porque precisa de você, mas porque te ama e se você parasse de olhar apenas para o próprio umbigo e para seus próprios sentimentos feridos saberia disso. Há amor verdadeiro, sim. Mas numa coisa eu concordo, não existe vida perfeita. O que nos faz feliz é nossa capacidade de resistir, e resistimos exatamente por esses laços verdadeiros que você diz não existir. Você perdeu seus pais, seu irmão, perdeu o tal Hank, talvez, mas quem decide como enfrenta isso e se supera isso é você, apenas você. Mas está mais interessado em cultivar o que tem de pior dentro de você, então só vai continuar perdendo, perdendo, até... — moveu os ombros — até o fim.
Ikki piscou os olhos duas, três vezes, como se estivesse despertando de um sono profundo. Então estreitou os olhos para o loiro, numa expressão zangada.
— Faustine te falou demais sobre mim, não é? — Chegou à conclusão. Eu não dei permissão para que ela te contasse a minha vida. — O orgulho de Ikki doeu profundamente. Shaka sabia demais, e ele saber demais fazia com que Ikki se sentisse estúpido e vulnerável. Ao que parecia, toda a gentileza demonstrava pelo advogado e até mesmo aquela conversa surreal eram motivadas pela piedade, afinal Ikki havia perdido mais uma! Perdera mais alguém que amava.
— Vá para o seu quarto. — Ele falou por entre os dentes, sentindo a revolta e a dor de um orgulho que dificilmente seria capaz de se reerguer e o desapontamento da perda daquele momento. — Não preciso da sua piedade, Shaka. Vá dormir. — Pediu derrotado, mas a sua voz soou firme e fria como sempre.
Shaka riu de leve.
— Acha que tenho pena de você? Eu quero que você se foda — ele disse, irritado com a conclusão do outro.
Ikki o encarou seriamente, os olhos estreitos.
— Vá para o seu quarto, agora. É uma ordem. — Afastou-se dele e voltou a se sentar em frente à mesa.
Shaka arrastou-se para a saída da cozinha, mas voltou-se quando já estava próximo à porta.
— Eu só fui humano com você, como seria com qualquer um. Não, eu não sinto piedade de uma pessoa que sofre porque é fraco para tentar de novo! – Disse e saiu de onde estava, tencionando fazer o que o moreno acabava de lhe ordenar.
— Fraco?! —- Shaka acabava de atingir Ikki em seu calcanhar de Aquiles — Você me chamou de fraco? — Ele ergueu-se com tanta violência que a cadeira caiu. O moreno foi para cima do advogado, em uma postura agressiva — Você não sabe tanto de mim quanto pensa, senhor Phalke! Você não entendeu nada e pensa que a sua vida de príncipe é parâmetro para julgar a minha! Acredita mesmo em amor verdadeiro, príncipe Shaka? É por isso que vive recluso, tendo apenas relações superficiais? É por isso que nunca aceitou morar com o seu amado Kanon? Responde!
— Não tenho que responder isso! — Shaka sentia o coração bater forte demais e suas mãos tremerem.
— Ah, você tem! Porque aqui, você me obedece, entendeu? Eu não sou fraco e você não tem o direito de me chamar de fraco! — Ikki explodiu e depois falou com uma voz baixa, não menos ameaçadora. — Até quando você acha que A sua bela Penélope vai esperá-lo, Odisseu? Pensa mesmo que ele te ama o suficiente para desfazer a tapeçaria à noite?
E depois dessa pergunta, Ikki se deu conta de que estava tão próximo do outro, que acabara encurralando Shaka na parede, apoiando um braço ao lado da cabeça dele, evitando que ele fugisse. Além disso, perguntou-se também se toda aquela explosão foi causada por algo bem maior do que as palavras do advogado. As palavras dele foram apenas o estopim para o seu ciúme. Imaginava que Shaka amasse Kanon e que acreditasse piamente que aquele homem o amava e o esperaria o quanto precisasse. Era como se todas aquelas palavras sobre amor fossem dirigidas para aquele homem, e isso de alguma forma o incomodava profundamente.
— Foi pra ele que você ligou, não foi? — Ikki sussurrou, próximo ao rosto dele.
Shaka sentiu o sangue gelar nas veias e um nó em sua garganta. Ikki fazia uma pergunta, mas as evidências mostravam que ele mais afirmava. Shaka tremia naquele momento e mirou os olhos dele, angustiado.
— Por favor, se tiver de punir alguém que seja a mim — o advogado murmurou, baixando a cabeça, deixando que a franja lhe cobrisse os olhos. — Por favor, não faça mal a Kanon. Eu faço o que você quiser. Por favor...
Ikki sentiu-se morrer um pouco naquele momento. A voz de Shaka dava sinais de desespero. Seria amor? Amor verdadeiro?
— Saia daqui — disse quase num sussurro e se afastou dele.
Shaka saiu tão rápido que quase tropeçou no corredor. Seu coração batia loucamente. Tentava entender o que tinha acontecido. Tudo estava tão confuso. Sua perna doía muito quando ele chegou ao quarto. Sentou-se na cama e mordeu o punho para evitar um gemido de angústia.
Na cozinha, depois de um longo tempo em silêncio, Ikki resolveu que precisaria sair novamente naquela noite. Dessa vez, precisaria de algo mais intenso.
Título: Cala primeiro o que queres que os outros calem.
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