Nelumbo nucifera
34 Veritatis simplex oratio – PARTE 1
Veritatis simplex oratio – PARTE 1
Chapter XXXIV
O homem elegante entrou na sala de visitas da penitenciária juvenil. Era um lugar hostil de paredes cinzas e tristes. Sentou-se na cadeira designada e esperou alguns minutos para que uma porta se abrisse e por ela passasse um guarda, empurrando um rapaz. Ele mirou a foto na ficha que tinha dentro da pasta e voltou os olhos para o adolescente. Ele havia mudado muito. O garotinho de dez anos da 3x4 cedera a um adolescente alto e robusto, de pele bronzeada e profundos olhos escuros e ferozes. Ele também ganhara uma cicatriz entre as sobrancelhas, que ao que parecia era recente.
O jovem detento se sentou à sua frente e apoiou as mãos presas em algemas sobre a mesa de metal.
— Quem é você e o que quer comigo? — foi o que disse uma voz incrivelmente grave para a idade. O rapaz encarava-o com aqueles olhos escuros flamejantes.
— Meu nome é Shion Gyatso. Sou advogado. Marduk falou de você.
— Aquele filho da puta falou de mim? Depois ou antes de me trair?
— Não foi pessoal. Ele teve que escolher entre ele e você. Não sei se podemos chamar isso de traição.
— Se faz negócios com Marduk, boa coisa você não é , doutor — o adolescente sorriu com malícia. — Mas... Com esse terno caro, esses modos educados... Não parece com um dos advogados meia-boca que trabalham pra ele.
Shion sorriu, percebendo que, como o desprezível criminoso havia dito, o garoto era perspicaz.
— Está certo. Não trabalho para Marduk. Nesse momento, eu e meu grupo estamos trabalhando com ele por necessidade. O que importa, no entanto, é que ele falou de você. Falou bem de você. Estamos formando uma equipe e precisamos de jovens motivados.
— Vão se foder você, Marduk e sua equipe — o jovem cuspiu. — Estou cansado de ser usado por vocês! Não quero equipe alguma, sei me cuidar.
Ele levantou da cadeira, mas antes que saísse, Shion acrescentou:
— Eu conheci o seu pai. Sei o que aconteceu.
O adolescente voltou-se para ele com olhos atentos e questionadores.
— Sei o que aconteceu com você e o seu irmão. Sinto muito.
— O que você quer, porra? — o detento voltou a sentar de frente a Shion. — Começa a falar.
— Quero tirá-lo daqui e devolver tudo que foi tirado de vocês. Nós procurávamos por você há muito tempo. Essa cidade tem vielas e becos demais, por mais contato que tenhamos, às vezes é difícil encontrar crianças. Perdemos sua pista quando fugiu do abrigo. Abrigo aliás que escolhemos para vocês. Era um bom lugar.
— Não era. — o jovem declarou. — O dono era um sádico. Por que acha que eu e meu irmão fugimos?
— Lamento. Mas agora você ficará em um lugar seguro onde aprenderá coisas novas que fará de você um homem.
— Agora meu irmão está morto e você pode enfiar o seu bom lugar no cu e sair da minha frente!
— Lamentamos. Mas posso garantir que os culpados serão punidos —Shion não se alterou diante das palavras hostis, já estava acostumado.
O rapaz riu mais abertamente.
— Dois moleques numa briga de faca? Meu irmão foi idiota por tentar separá-los. Ele nunca gostou de briga, era fraco — disse entre dentes.
Shion percebia que as palavras mordazes eram ditas para que a dor pela morte do irmão não se derramasse por seus olhos.
— Você quer vingança?
— Eu já tive vingança.
— Então ao menos está livre dessa sede. Agora preciso que que queira justiça.
— O que quer dizer com isso?
Shion abriu a pasta que havia colocado sobre a mesa no momento que chegara ali.
— Há cinco anos, meu grupo luta para reaver os bens de seus pais e punir os homens que os roubaram. Precisávamos provar que eles fizeram isso de modo escuso, por isso demorou tanto. Foram anos de briga legal, mas finalmente conseguimos. Nós te procuramos durante esse tempo, mas você fugiu de nós e das autoridades, por quê?
— Pessoas que se diziam nossas amigas tiraram tudo que tínhamos e nos jogaram num orfanato. Por causa disso, meu irmão está morto, o que esperava? Esperava que acreditasse em qualquer um que aparecesse dizendo querer ajudar?
— Não foi justo o que aconteceu com vocês, mas estamos lutando para que todos que participaram daquela fraude cruel sejam punidos.
— Você fala nós, nós... Nós quem?
— Nós somos A Sociedade. Um grupo de pessoas que luta por justiça. Khan e Faustine estão conosco agora. Foram eles a dar os primeiros passos em busca de justiça no caso do seu pai. Foram eles que me trouxeram até você.
— Khan e Faustine... — o rapaz murmurou, pensativo. — Eles enterraram Shun. Não deixaram que ele fosse enterrado como indigente... Sozinho.
— Eles se importam. Sempre se importaram — Shion assentiu.
— Eu não participei do funeral. Mas fui até o cemitério naquela tarde. Eu os vi... Faustine chorava...
— Eu sei. Eu também estava lá.
— Por quê? — o garoto perguntou, os olhos inflamados de indignação. — Por que não o salvaram?! Por que não apareceram antes?!
— Sinto muito. Não pudemos ajudar o seu irmão, mas podemos ajudá-lo agora. Todo o patrimônio da sua família o espera. A casa, as contas bancárias, as empresas. Só preciso levá-lo daqui para que assine alguns papéis.
— Como sei se não quer na verdade me matar? Pode querer que eu assine esses papéis para ficar com tudo depois de acabar comigo.
— Se quiséssemos matá-lo, Marduk o faria. Você é inteligente.
— E os homens que nos roubaram? Eles são os verdadeiros responsáveis pela morte de Shun.
— Serão punidos.
— Eu quero puni-los.
— Se é o que quer, você terá. Mas tenha cuidado, Ikki. A vingança é uma estrada bifurcada, uma escolha incerta que pode levar a um precipício.
— Foda-se. Quando eu tiver a sua idade e vestir esses ternos caros, penso sobre essa frase que não entendo. Agora eu quero puni-los.
— Justiça, ordem e verdade é o nosso lema. Eles serão punidos.
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Era madrugada alta quando Ikki voltou para a mansão. Já era o terceiro dia que ele saía todas as noites. Sua vontade era ficar dias em sua pequena cabana na mata e esquecer tudo que lhe acontecia, mas não podia. Ele tinha obrigações demais e Shaka era a maior delas. Tentava não pensar no que o levou a explodir com o advogado duas noites atrás. Ele sempre tentava evitar pensamentos perturbadores, e Shaka, cada vez mais, era um pensamento perturbador.
Nos dois dias que se seguiram ao ocorrido na cozinha. Eles se viram pouco, apenas em duas refeições, e falaram pouco também. Uma conversa vazia, estabelecida apenas como reconhecimento. Havia uma palpável tensão entre eles, e Ikki não sabia como quebrá-la depois de tudo.
Tomou um banho demorado, depois um café forte, que ele mesmo fez e viu o dia romper sem pregar os olhos. Tinha decisões importantes a tomar. Fez algumas ligações e pediu que Khan o encontrasse no escritório. Deu algumas instruções ao mordomo sobre o hóspede: Shaka deveria passar aquele dia no quarto, como acontecera nos dois dias anteriores. Afinal, eles poderiam sofrer um novo ataque a qualquer momento, e Ikki não estava disposto a arriscá-lo. O dia da morte de Falcon ainda era como um sonho em sua mente, e ele não queria pensar no cão ou no advogado, ambos o perturbavam.
Voltou para o seu dossiê e recebeu uma ligação da sede. Eles haviam examinado o drone e descoberto que era de fabricação comum. Estavam à caça de Marduk, único suspeito do atentado à mansão. Ikki sabia que eles não conseguiriam encontrar o ex-companheiro. Só ele seria capaz de rastrear Marduk, e naquele momento, não tinha como fazer isso. Estava preso naquele caso complicado que era Nelumbo Nucifera.
Verificou mais uma vez o seu quadro de informações. Havia alguma coisa muito errada naquilo tudo e que datava de um tempo muito mais antigo do que pensava. A cada momento, ele se sentia mais intrigado. Também havia enviado o aparelho usado por Shaka para uma assistência. Não queria comunicar à sede o ocorrido, não ainda, o que fazia o rastreamento da ligação ser mais lento, embora soubesse que Shaka mentira. Ele não ligara para o pai. John Phalke não era a primeira pessoa para quem ele pediria ajuda.
Discou um número e falou à pessoa do outro lado da linha: Precisamos nos ver, apenas e desligou. Fechou e abriu os punhos sentindo-os doer, porém não tinha tempo para isso. Naquele dia, não tinha tempo para sentir o seu próprio corpo doer.
Desceu as escadas e quando passou pela porta fechada do quarto de Shaka, parou e hesitou, mas resolveu não o incomodar. Rumou ao subsolo atrás de Afrodite. O outro cavaleiro estava novamente devorando um balde de batata frita com milkshake.
— Ikki! — Ele exclamou ao vê-lo. — Soube do cão, lamento.
— Obrigado — Ikki se sentou ao lado dele, e Afrodite franziu a testa, mirando os machucados que ele tinha no rosto. — Não achei que tivesse se machucado a esse ponto.
— Nada demais — Ele respondeu, firme. — Preciso que me responda algumas perguntas, Afrodite.
O rapaz o mirou curioso e desconfiado, puxando o milkshake ruidosamente pelo canudo antes de dizer:
— Se eu puder ajudar...
— Quem deu a ordem para me pôr na geladeira?
— Essa é fácil, você sabe, Hades.
— Eu quero saber quem d’O Círculo está por trás de Hades.
— Como eu vou saber, lindinho, se nem sabemos quem compõe O Círculo? Recebemos e-mails, memorandos criptografados. Uma criptografia tão boa que nem Camus consegue quebrar. Mas por que quer saber isso?
— Porque alguma coisa não bate nessa história. Um hóspede na geladeira? Quando isso aconteceu?
— Nunca. Mas nunca tivemos um hóspede igual a Phalke. Na verdade, só tem uma coisa que me intriga nisso tudo, se é que posso ser sincero.
— O quê?
— Por que mantiveram você? Não me leve a mal, Ikki, mas você fez merda o tempo todo nesse caso. Fez merda desde que trouxe Phalke para cá. Você até deu o seu nome verdadeiro para ele...
— Sempre dou o meu nome verdadeiro, porque nunca falho e sempre apenas o primeiro nome.
— Deveria saber que Phalke não seria como todos os outros, mas ainda assim... — Afrodite o encarou. — Você parecia pessoalmente envolvido desde o começo. Por quê?
— Não estava pessoalmente envolvido. — Ikki mentiu.
— Você parecia odiá-lo e mesmo assim O Círculo o escolheu. Ele quase morreu diversas vezes sob a sua guarda, coisa nunca vista antes, não com você, não com o Ás d’A Sociedade, o garoto prodígio de Shion. E mesmo assim O Círculo o manteve. Você fugiu com ele, deixou-o ser sequestrado...
— Mas eles mandaram você.
— Eu sou o último recurso — Afrodite falou e, de repente, o cavaleiro levou a mão a um cabo, desligando os seus aparelhos, retirando o fone do ouvido e o desligando tranquilamente, colocando-o sobre a mesa, e mirando o companheiro por último. — Quer saber a verdade? — Ele indagou, os olhos claros encarando os escuros de Ikki.
— Eu preciso dela, Afrodite.
— Eu não vim aqui matar, Phalke. Foi uma encenação. Estou aqui para, caso tudo dê errado, matar você.
Ikki sorriu com o canto dos lábios.
— Eu sei.
— Sabe?
— Descobri no dia do ataque. Você é um bom ator, mas a sua encenação foi exagerada. Depois que pensei melhor, percebi que você não mataria Phalke. A Sociedade não quer matá-lo. Não permitiria nunca. Por um momento a minha preocupação com a segurança dele me cegou, mas agora enxergo com clareza.
— Que pena. Queria um Oscar esse ano. — Afrodite fingiu lamento. — A Sociedade não quer matar ninguém, Ikki. Não somos assassinos. Queremos que os acordos sejam cumpridos, só isso. Phalke não pode mais sair. Nós o comprometemos. Será muito perigoso se ele sair agora. Perigoso para ele, para nós, especialmente para você.
— Eu sei. Mas a verdade, Afrodite, é que ele nunca esteve dentro. Ele nunca aceitou, ele nunca aceitará, e não poderemos mantê-lo preso aqui para o resto da vida dele, o que nos deixa num impasse.
— É, eu sei — Afrodite suspirou e voltou a sugar o canudo do milkshake. — Mas ainda não temos ordens a esse respeito, então segura a onda. Devemos ter ordens em breve.
— E até lá o que fará? Vai ficar aqui nessa sala se empanturrando de fast food? Pensei que fosse melhor que isso. — Ikki riu de leve.
Afrodite riu também.
— Ah, você sai às escondidas pra se divertir e nem me convida, o que posso fazer? — ele fez charme. — Creio que uns hematomas como esse — tocou o rosto de Ikki — combinam com o azul dos meus olhos.
— Sem chance — Ikki ergueu-se, afastando-se. — Mantenha-me informado, ou eu dou um tiro em você.
— Não faça promessas que você não vai cumprir — Afrodite provocou, voltando ao seu canudo.
Ikki sorriu de canto de lábios, deixando-o. Precisava se encontrar com alguém e por isso deixou a mansão em um dos seus carros blindados e com placa falsa. A Sociedade deveria ser invisível e, durante vinte anos, ela conseguiu. O que se sabia sobre ela não passava de rumores, lendas urbanas, e com certeza eles não permitiriam que isso terminasse por causa de Shaka. Se não planejavam matá-lo, qual seria o plano então? Não importava, Ikki precisava estar à frente, resolver aquilo antes que algum mal acontecesse ao advogado e, para isso, necessitava conhecer toda a verdade. Ikki já não se preocupava em saber o que sentia por Phalke, aquilo para ele estava muito evidente, embora evitasse, cada vez mais, pensar sobre o assunto. Tinha que garantir a ordem das coisas. Precisava que tudo continuasse satisfatório para A Sociedade, assim como precisava manter Shaka vivo. Justiça, ordem e verdade. Era isso. Onde estaria a verdade?
Estava no jardim botânico da cidade. Calmo, distante e selvagem, concentrando várias espécies de plantas, de espécies nativas a espécies exóticas de ilhas tropicais espalhadas pelo mundo. Ele caminhou para a entrada, comprou um jornal e o abriu, seguindo como alguém que lê as notícias despreocupadamente sob os óculos escuros. Chegou a um banco muito afastado do maior fluxo de pessoas, escondido no recanto mais fechado e tropical. Ikki contara cinco câmeras de segurança no seu trajeto e, ali onde estava agora, não havia nenhuma. Sentou-se, os olhos ainda voltados para o jornal, e esperou. Cinco minutos depois, um homem sentava-se ao seu lado. Ele usava óculos aviador também, vestia-se de maneira despojada, jeans e camiseta, e carregava uma revista de caça-palavras. Seus cabelos estavam presos, discretamente escondidos.
— Não tenho muito tempo — ele disse.
— Sim. Não temos. Então serei breve — Ikki afirmou. — Quero saber a verdade. A verdade toda.
— Não sei exatamente do que está falando.
— Algo que você havia me dito há muito tempo. Naquele dia em que me levou à beira do lago. Algo sobre a lótus.
— E o que isso tem a ver com o caso? Uma palavra qualquer em um fim de tarde triste.
— Não foi uma palavra qualquer. E é relevante que lembre que foi em um fim de tarde triste.
O homem respirou fundo.
— Já tínhamos a ideia, Ikki. Precisávamos somente da pessoa.
— E coincidentemente vocês encontraram uma pessoa que tem certa obsessão por lótus.
— Ele tem? — O homem riu de leve.
— Bem, ele tem três tatuagens. Chamaria de obsessão. Por que isso ficou fora dos relatórios?
— Talvez por ser algo irrelevante.
— Não. Vocês deixaram isso de fora. Eu tinha tudo que ele fez, as pessoas que ele conhecia, os colegas de faculdade, as notas, os professores, a casa, os hábitos..., mas não tinha as tatuagens. Melhor, soube das tatuagens quando ele já estava sob minha custódia. — Ele encarou o homem. — Por quê?
— Irrelevância, Ikki.
— As tatuagens me fariam pensar. Trariam perguntas. Não. Elas não são irrelevantes e sabe disso.
Shion o mirou com mais atenção por trás dos óculos.
— O nome foi escolhido com critério, claro. Tudo para nós necessita de critérios. Óbvio que sabíamos das tatuagens. Foram feitas pelo mesmo tatuador, a primeira, as dos pés, quando ele tinha 18 anos, a segunda, a do cóccix, quando ele tinha 22, uma loucura de fraternidade. A terceira, a do pescoço, é a mais recente, fez junto com o namorado, que tatuou uma serpente marinha do ombro ao antebraço. Agora me diga, o que isso modifica qualquer coisa em nossos planos?
— Não me enrola. É melhor que me diga a verdade. Essa operação já está mais que comprometida. Eu posso salvá-la, mas isso vai depender do que me disser. Preciso da verdade. Só a verdade pode nos salvar agora, Shion.
— De todos, sempre foi o mais obstinado. Isso sempre me impressionou. Nem mesmo Mu, em toda a sua liderança, é obstinado como você. Sei que não vai parar de perseguir isso até descobrir.
— Sim, eu não vou. — Ikki disse, voltando a mirar o lago. — Posso fazer isso junto com A Sociedade. Ou contra ela. Você decide.
Ficaram em silêncio novamente, mirando as águas tranquilas por um longo tempo.
— Você tem noção do perigo das suas palavras, Ikki?
— Com certeza tenho.
Silêncio.
— Se eu te contar tudo que sei, o que me garante que não vá fazer alguma bobagem? Creia, muitas vezes a ignorância é uma bênção.
— A ignorância nunca é uma benção. A ignorância faz as pessoas errarem, acreditarem em deuses sanguinários e em atitudes injustificáveis. A ignorância não traz nada de bom, alimenta ideologias homicidas e preconceitos. Não me venha com essa. Não sou um dos seus garotos em treinamento.
— Sim. Seu treinamento acabou. Talvez seja a hora de saber a verdade.
— Qual é o grande plano d’A Sociedade para ele? Por que ele?
— Você sabe. Foi o primeiro a saber.
— Sei que não é só isso. Não vou sair daqui sem algo que possa me ajudar de maneira significativa, Shion. Eu também tenho uma informação importante para você. Podemos nos ajudar mutuamente ou podemos nos tornar inimigos agora. É uma escolha sua.
Shion mexeu na revista que segurava, fechando-a e mirando as árvores próximas ao lago.
— Direi o que posso, se isso o deixar mais tranquilo. Mas peço que se lembre de quem somos. Somos a sua família, Ikki, a sua equipe. Nunca, nunca mesmo, vamos querer o seu mal ou o mal de qualquer pessoa. Queremos um mundo seguro, um mundo no qual valha a pena viver. Shaka será um dos nossos instrumentos para isso e por isso nós o amamos. Não duvide disso.
— Por um mundo são e seguro — Ikki murmurou aquilo que já havia dito tantas vezes. Havia uma forte crença naquelas palavras há alguns anos. Era o seu lema: fazia o que fazia por um mundo são e seguro. Justiça, ordem e verdade. Agora, no entanto, pareciam palavras vazias. Suas crenças estavam mortas. Justiça, ordem e verdade já não existiam. Um cavaleiro protege os inocentes. Um cavaleiro destrói o mal. Ainda se lembrava do campo de treinamento, da irmandade. Foi uma época boa, embora não propriamente feliz. Quando houve alguma felicidade em sua vida? Apenas antes de tudo virar. Antes do acidente que levou seus pais e jogou ele e o irmão nas ruas. Antes de serem roubados da maneira mais vil e abandonados por pessoas que seus pais viam como amigas, sócios, equipe. Equipe.
— Não esqueça quem somos, Ikki. Por mais que muitas vezes nossos atos pareçam dizer o contrário, não esqueça quem somos. Justiça, ordem e verdade. — Shion pareceu ler os questionamentos em sua mente.
Ikki soltou um risinho amargo.
— É esse mantra que lhe permite dormir à noite?
Shion respirou fundo. Ainda se recordava do olhar feroz do garoto quando o viu pela primeira vez vestido no macacão cinza do reformatório. Nunca pensaria que Ikki a se tornaria o Ás d’A sociedade, o orgulho d’O Círculo e o maior dos operadores de campo chamados de cavaleiros. O operador de campo. O cavaleiro. Ali, aos 15 anos, Ikki era apenas um garoto cheio de ódio e desconfiança, que durante muito tempo fora usado por homens mais fortes do que ele.
— Eu não durmo à noite, Ikki — Shion o mirou. — Lembra de algo que te disse há muito tempo, quando nos conhecemos?
— Você me disse muitas coisas inúteis e mentirosas, Shion.
— Nem inúteis e nem mentirosas. Tudo que fiz e disse te trouxe até aqui. Nunca esqueça o que A Sociedade fez por você. Se não fosse por nós, talvez estivesse morto ou fosse mais um malandro de rua como Marduk...
— Não me compare àquele verme! Eu nunca seria como Marduk.
— Não, isso não. Marduk é um sociopata, você não é. Tem consciência do mal que faz e isso o tortura. Nenhum de nós consegue dormir, Ikki. Nenhum conhece a paz. Mas tomamos nossas pílulas e tentamos, porque sabemos que fazemos algo bom e importante nessa cidade, nesse país, no mundo. Nós tentamos salvá-lo e para isso, muitas vezes, fazemos coisas terríveis.
— Vocês me torturaram, torturaram Shaka. Nunca vou perdoar isso.
— Nem eu. Essa mácula perseguirá A Sociedade para sempre. Assim como Marduk. Erros não remediáveis.
— Por que não se livram dele? Ele explodiu o muro da minha casa — o ódio apareceu em cada sílaba dita. — Sabe que o matarei se tiver a chance. Por que não se livraram dele até hoje? Estão brincando com algo que não podem controlar.
— Porque não somos assassinos. Mas sabemos que precisaremos romper esse limite.
Ikki riu com deboche explícito.
— Por todos os deuses que não acredito, Shion! Não seria a primeira vez. — Ele encarou o homem mais velho, os lábios curvando-se em desprezo. — Você fede a hipocrisia.
Shion respirou fundo como quem reconhece a falha dos próprios argumentos.
— Sim, não seria. Mas sempre tentamos evitar. Quero que acredite nisso, Ikki. Não somos assassinos. Não queremos o mal.
— Afrodite tinha ordens para me matar, caso...
— Afrodite estava lá para saber mais das suas intenções, saber até onde você iria para proteger Phalke. Claro que ele não sabia disso. Ele acreditava em sua missão, mas nunca seria permitido que ele tocasse em Phalke ou em você. Confie em mim. Ninguém tem que morrer naquela mansão novamente. Afrodite vai embora hoje. Todo controle será dado a você mais uma vez. Faça o seu trabalho e Phalke estará seguro. Ainda confiamos e acreditamos em você. Se não conseguir, ninguém mais o fará.
— Mu sabe de tudo isso? Ele continua liderando os cavaleiros?
— Sim. E ele está ávido por um nome, Ikki. Precisamos saber.
— O que farão quando souberem?
— Mu fará o que tem que fazer. Dei-me o nome e será Mu quem tratará com essa pessoa. Eu preciso saber quem nos traiu. Quem colocou Phalke, Faustine e Khan em perigo. Isso não pode ser ignorado. Depois disso, terá as suas respostas.
Ikki não hesitou. Não importava quem fosse, não importava que fosse um companheiro, um amigo. Ele havia posto Shaka nas mãos de Marduk e isso não poderia ser perdoado.
— Então vamos trocar informações. — Encarou Shion com ironia mais uma vez. — Começando: Nelumbo nucifera.
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Shaka sabia que era muito tarde porque a casa estava praticamente vazia. Alguns seguranças andavam ao redor da propriedade, os vigias nas torres usavam suas lanternas, mas tudo era silêncio. Ele observava da sacada do seu quarto a escuridão do lado de fora. Conseguia ver o contorno das árvores, porque a lua estava cheia, grande e esplendorosa num céu cheio de nuvens claras. Ele movimentou o pé, testando. Naquele dia havia se livrado da bota de gesso, embora o médico houvesse dito que ele deveria evitar esforço e utilizar a muleta ainda por um tempo. Sentia-se ótimo, no entanto. A fratura parecia completamente curada para sua sorte, sem necessidade de cirurgia.
Passara o dia no quarto, lendo. Era a única coisa que podia fazer, já que não lhe era permitido uma TV ali e ele não queria ir para a sala de vídeo. Não havia ordem de confinamento, como Khan informara ao lhe levar as refeições, como acontecera os dias anteriores, mas não se sentiu seguro para sair, todavia. Estava confuso com tudo que acontecera no dia do ataque, e até duas noites atrás não conseguira dormir muito bem. A conversa que tivera com Ikki naquela fatídica noite ainda o perturbava e havia certa tensão entre os empregados, como se esperassem um novo atentado.
O advogado coçou a nuca e depois apoiou o cotovelo no parapeito e a testa na mão. Estava se perdendo, perdendo o controle, pensando demais. Precisava de estratégia, de exercício. Precisava dormir de verdade e não aquela sensação de estar dopado e simplesmente apagar que lhe acontecera nas últimas duas noites. Um sono que trazia angústia e não descanso. Um sono que era quase um desmaio.
Decidiu que caminhar um pouco poderia ajudá-lo a organizar a mente. Estava agitado, seu corpo estava agitado e aquele luar gigantesco parecia rir da sua agonia. A noite estava fria, mas sentia-se quase febril, tamanha era a sua inquietude. Há dias não via Ikki, nem mesmo durante as refeições. Era estranho, alguma coisa acontecia. Calçou seus chinelos e abriu a porta do quarto, sondando o corredor escuro. Seu quarto ficava no terceiro andar e para chegar nele havia um elevador, que ele nunca usava, odiava elevadores, e uma escadaria curva. No segundo andar ficavam os escritórios, a sala de segurança e outras salas. Sabia que ali também havia quartos que tinham funções específicas. Shaka estava há tempo demais naquele lugar e já conhecia alguma coisa. A mansão era gigantesca, como Khan informara, e acreditava que mesmo livre, jamais conseguiria percorrê-la inteira sozinho.
Desceu as escadas silenciosamente para o primeiro andar e percebeu que a sala de jantar estava com a porta aberta e uma tênue luz a iluminava. Com passos cuidadosos ele entrou, mas não estava ali quem esperava. Era Khan quem sentava à mesa e segurava uma taça de vinho.
— Domaine — o mordomo disse. — Safra de 1960, um dos melhores. Meu antigo senhor era um grande conhecedor de vinhos...
— Seu antigo senhor? — Shaka aproximou-se, curioso.
— O pai do senhor Ikki. O meu primeiro patrão, advogado.
A palavra advogado sempre parecia carregar certo desprezo nos lábios daquele homem, mas Shaka resolveu ignorar.
— Sente-se, pegarei uma taça para o senhor — Khan disse, erguendo-se e indo pegar a taça numa imponente cristaleira do outro lado da sala. — Está melhor, pelo que percebo. Mais corado, ganhou peso desde que retornamos. Parece o rapaz saudável que chegou aqui no primeiro dia, o dono do mundo.
— Meus cabelos já não são os mesmos! — Shaka respondeu quando ele voltou e lhe entregou a taça já com o vinho. Sentou-se na cadeira de frente a ele. — Se continuar sem fazer nada, vou ganhar mais peso ainda. Preciso de um pouco de ação.
— Sim. O senhor é muito ativo — O mordomo voltou a se sentar e examinou Shaka com atenção. O advogado usava uma calça folgada e camiseta azul, algo muito casual. — Seguro de si e dos seus valores. Eu admiro isso, doutor Phalke. Quando tive acesso ao seu dossiê, olhando o seu rosto bonito, as fotos da faculdade em que se mostrava tão atlético, emblemático, o dono do mundo, eu soube que o senhor seria um grande problema. Mas se mostrou bem pior do que pensei.
Shaka provou o vinho, realmente de uma ótima safra, e levou a mão aos cabelos num gesto charmoso afetado, acompanhado do seu mais belo sorriso de sarcasmo.
— Ah! Sem lisonjas, senhor Khan! — ele riu. — Penso que todos os seus companheiros psicopatas agora sabem que tinha razão. Orgulhe-se.
Khan riu levemente e voltou a sorver o vinho.
— Não é do meu feitio fazer esse tipo de coisa. Sou apenas o mordomo.
— Não, senhor Khan! — Shaka riu mais abertamente, fazendo um gesto displicente de mão. — Já passamos desse nível. Não é um simples mordomo, é o cão d’A Sociedade. É o homem que tem de manter Ikki na linha. Não seja modesto!
Khan sorveu um pouco mais da sua taça de vinho, um gole maior, e lambeu os lábios.
— Ikki é como um filho para mim. Não deixarei que o leve à ruína.
— Levá-lo à ruína, eu? — Shaka indagou zombeteiro e sorveu o vinho. — Sou apenas o prisioneiro, o que poderia fazer?
— Você entrou na cabeça dele, doutor Phalke. Sabe disso. — A voz de Khan continuava calma e casual. — Não sei como conseguiu, mas se tornou importante para ele. Importante demais. Mais do que qualquer outro. Do que qualquer um de nós. — Os olhos cinzentos de Khan cintilaram em descontentamento enquanto analisava a expressão de Shaka.
— Sério? — Shaka riu, sem demonstrar o desconforto que sentia com aquela afirmação. — Ele tem um jeito peculiar de mostrar que se importa.
— E o senhor tem várias outras peculiaridades, não é, doutor? Nunca pensei que seria capaz de matar, por exemplo.
Shaka soltou um muxoxo ficcional e bebeu o restante do vinho em um gole, colocando a taça sobre a mesa.
— Quanto ressentimento, senhor Khan.
— Não tenho ressentimentos, doutor. Tenho precauções.
— E relata todas essas precauções para A Sociedade — Shaka o encarou ferino. — Sim, eu sei. Mas a pergunta é: Ikki sabe?
Os olhos de Khan cintilaram novamente, escurecendo um pouco, quando ele encarou o azul do olhar do advogado.
— Ikki tem consciência de que há olhos sobre ele.
— Mas sabe que esses olhos são do mordomo dele? Do amigo, quase um pai?
— O senhor é muito inteligente, de fato. Mas não tente me manipular, doutor Phalke. Estou nesse jogo há muito mais tempo . Muito mais tempo.
Shaka sorriu adorável.
— Está com medo, senhor Khan? Medo que Ikki descubra?
— Não. Ele sabe que tenho uma função para A Sociedade. Não será surpreendente. Eu preciso mantê-lo na linha para o próprio bem dele e para o interesse do grupo. Creio que não entenderia. Você não conhece Ikki, não como eu conheço.
— Eu entendo que é um maldito traidor, uma víbora — Shaka cruzou as mãos sobre a mesa. — E que está com medo. Mas por quê? Sabe que Ikki não vai acreditar se eu falar contra você.
— Traidor? — Khan riu e balançou a cabeça, enchendo a sua taça novamente. — Eu daria a minha vida por Ikki. Você não sabe de nada. Eu o estou protegendo.
— De quem?
Khan o mirou como se a pergunta fosse estúpida.
— Não é óbvio? Do senhor, doutor Phalke.
Shaka franziu a testa.
— Não. Não é óbvio. De mim? — Com um aceno, ele pediu que Khan voltasse a encher sua taça, o que o mordomo fez sem reclamar. — Está falando do fato de termos... — Shaka riu novamente com deboche. — O fato de termos feito sexo? Porque deveria saber que isso não teve importância. Não sei se na sua época era assim, mas hoje homens fazem sexo apenas pelo prazer e nada mais, senhor Khan.
Khan negou com a cabeça.
— Conheço Ikki e conheço um pouco o senhor. Ikki também teve sexo com outro hóspede, uma bobagem. Posso garantir que não é a mesma coisa.
— Hank. Eu sei. — Shaka revirou os olhos.
— É. Era um jovenzinho vulgar e ardiloso que fez de tudo para seduzi-lo e levar Ikki àquela situação. Diferente de você. Você não queria isso, não fez o mínimo esforço para que ele se apaixonasse por você, como Hank fez. Você é tudo que disseram que seria. — A frase final foi dita como se fosse mais para ele mesmo que para o advogado.
Shaka riu, divertido, sorvendo o vinho.
— Apaixonado por mim? Sei. Diga-me, ele tortura todos por quem se apaixona?
Khan sorriu, admirando o advogado longamente.
— Tão inteligente. Tão capaz. O sol que A Sociedade espera que a tire das trevas. Tão emocionalmente estúpido.
Shaka perguntaria o que toda aquela conversa significava, mas ouviu passos atrás de si e voltou-se em direção à porta a tempo de ver a silhueta de Ikki parada. Khan ergueu-se de prontidão, como um soldado, quase batendo continência.
— Senhor — cumprimentou o patrão. — Eu e doutor Phalke estávamos...
— Conversando como duas pessoas civilizadas — Shaka o interrompeu, erguendo-se também, mirando o recém-chegado cujas feições eram escondidas pela escuridão. — Bebíamos um dos seus maravilhosos vinhos, espero que não se importe.
Ikki permaneceu calado e parado por um longo tempo, mas o seu magnetismo foi capaz de capturar o ambiente como um punho que se fecha. Quando ele se moveu, tanto Khan quanto Shaka entreabriram os lábios ao fitar-lhe o rosto à meia luz.
— Senhor, está machucado demais! — Khan falou como uma repreensão, aproximando-se dele, como se fosse examiná-lo. — Passou dos limites!
Ikki trazia um hematoma do lado direito do rosto, um corte no supercílio e outro nos lábios. Talvez tivesse exagerado àquela noite, mas isso o fazia se sentir melhor, mais capaz, mais relaxado, por mais sombrio que fosse. Dentro d’A Sociedade, ele não era o único.
— Estou bem, Khan. — Ele falou com o mordomo, mas os seus olhos não saíam de Shaka, pareciam devorá-lo.
— Não está não — Shaka, que havia se aproximado dele, também falou observando o corte no supercílio. — Devia levar pontos nisso.
— Não exagere — Ikki replicou, mirando Shaka com uma intensidade absurda. Quase sorriu ao perceber como ele estava bem àquela noite. Shaka parecia brilhar naquela sala funesta. Ikki tinha uma percepção estranha de tudo que se referia ao jovem advogado. Conseguia perceber detalhes nele, mesmo sob iluminação tão fraca. Percebia que os olhos dele brilhavam mais sob efeito do vinho, e que os lábios estavam vermelhos, levemente úmidos e convidativos.
— Deixe-me cuidar dos seus ferimentos, senhor — Khan ofereceu-se.
— Posso fazer isso, se não se importar — Shaka falou rapidamente, lambendo os lábios. Seus olhos também devoravam Ikki, inquisidores e atentos. Não havia preocupação de fato com os ferimentos dele. O corte no supercílio era o mais feio, e ele percebia que não era tão profundo assim. O que o advogado queria realmente era prolongar aquele contato. Quanto mais tempo passava com Ikki e Khan, mas ele sabia, tentava racionalizar, embora seus instintos naturais dissessem outra coisa. Sentira falta dele, daquela presença marcante, aliciante, que de maneira doentia fazia-o se sentir vivo.
— Não acho que...
— Deixe-o, Khan. — O patrão interrompeu o empregado.
Khan resignou-se e assentiu com a cabeça, desejando um boa noite e saindo da sala.
— Venha comigo, Shaka. — Ikki demandou e o advogado não perguntou para onde, seguiu-o escada acima. — Como está o pé? — perguntou enquanto eles subiam.
— Nunca esteve melhor — Shaka respondeu, acompanhando o ritmo vigoroso das passadas dele. — Onde conseguiu esses hematomas?
— Tenho meus meios. — Ele respondeu. Sabia que o advogado já tinha observado os hematomas antes e estava curioso.
— Meus punhos também são bons nisso, o senhor deveria tentar.
Ikki riu daquelas palavras. Adorava o sarcasmo daquele homem, como adorava coisas demais nele. Mais do que gostaria.
— Que proposta indecente de quem se ofereceu para cuidar dos meus ferimentos.
— Eu faço o que posso — Shaka rebateu.
Chegaram ao final do corredor do terceiro andar e o advogado percebeu que era o quarto. Ele já estivera ali. Entrou sem hesitar e viu Ikki ir até o banheiro e voltar com uma caixa de primeiros socorros, acendendo uma luminária, sentando-se na cama em seguida. Ele mirou Shaka com um sorrisinho provocativo.
— Vamos lá, faça o serviço.
Shaka ajoelhou-se entre as pernas dele, numa posição íntima e sugestiva, abriu a caixa e pegou soro e algodão, limpando o ferimento do supercílio dele com cuidado, mas em silêncio. Pensou em comentar o duplo sentido que a frase de Ikki tinha, sendo ele um homem sentado na beira de uma cama, mas achou seu deboche inadequado naquele momento. Suas mãos deslizavam suaves e precisas sobre o corte e enquanto isso, seus olhos pousavam sobre o olhar de Ikki, passeavam pelos traços do seu rosto e voltavam para cuidar da parte que tocava.
Ikki seguia todos os movimentos da mão e dos olhos dele. Chegou mesmo a umedecer os lábios quando ele se ajoelhou entre as suas pernas e controlou o impulso que queria dominá-lo. Shaka o seduzia, não havia dúvidas. Ele poderia simplesmente se sentar ao seu lado, não precisava daquela proximidade. Mas como tudo naquele homem o confundia, Ikki achou melhor conter-se.
— Tem uma pomada...
— Eu sei. O enfermeiro aqui sou eu, agora — Shaka replicou quase num sussurro, pegando a pomada e passando no ferimento, para depois cobri-lo com um curativo adesivo. — Prontinho, novo em folha. Agora vamos ver aqui — pegou outro algodão, embebeu em soro e começou a limpar o sangue coagulado dos lábios dele com o mesmo cuidado. Todavia, agora, não só o algodão como também seus dedos roçavam os lábios de Ikki numa carícia leve e não tão despretensiosa. — Só está levemente inchado, amanhã já estará bom — ele falava de maneira calma e delicada. Talvez intencionalmente sedutora.
Sentado na cama, tendo Shaka entre as suas pernas e tão próximo do seu rosto, Ikki resistia à vontade de abraçar e puxar o advogado para si. O rosto de Shaka estava tão perto do seu que ele conseguia sentir o cheiro do vinho nos lábios dele e o calor da sua respiração.
— Você quer fazer isso? — Ikki indagou num sussurro que foi quase um gemido, mirando-o nos olhos.
Shaka interrompeu o que fazia nos lábios dele para mirá-lo de volta nos olhos, umedecendo os próprios lábios, seu pescoço movendo-se de forma sutil quando ele engoliu a saliva antes de falar.
— Eu queria conversar — respondeu, sem desviar o olhar. — Deve saber que os meus dias são tediosos...
Não terminou a frase porque Ikki fez o que tinha vontade desde que pôs os olhos nele aquela noite: envolveu a cintura do advogado e o puxou para si, colando seus lábios aos dele. Shaka não queria conversar. Shaka queria devorá-lo, assim como ele desejava fazer o mesmo. Os lábios podiam mentir, mas o olhar dele não mentia nunca. Shaka Phalke era um poço escuro, mas um poço escuro de águas cristalinas no qual ele queria mergulhar, mas que seria a sua ruína.
Shaka não estranhou como nem ao menos hesitou antes de entreabrir os lábios para o avanço da língua quente de Ikki. Entendia, por mais degradante que fosse, que era o que queria de fato desde o momento que se ofereceu para cuidar dos ferimentos dele. Sabia também que a concessão de Ikki era intencional, era o que ele queria também. Ambos estavam fervendo sob a lua cheia, cheios de solidão, dúvidas e sedentos daquele desejo louco e ultrajante.
Os dedos de Shaka correram para o colarinho da camisa que Ikki vestia e ele arrebentou alguns botões no processo de livrá-lo desta e do blazer que havia por cima. Ikki, parando por alguns segundos de beijá-lo, arrancou a camiseta azul que ele vestia por cima da cabeça, segurando o rosto do advogado pelos lados e devorando os lábios dele com a mesma voracidade que ele fazia com os seus. Não havia mais contenção, pensamentos. Havia bruto desejo. Ikki pensara que deixara suas forças, seus instintos e pulsões nas ruas durante dois dias seguidos, mas constatava que nada seria capaz de arrefecer aquele tesão aprisionado, e era ele que o estava deixando nervoso, desconcentrado. Precisava saciá-lo para voltar a pensar com coerência, para voltar a ter o domínio da situação.
Shaka não pensava naquele momento, no entanto, sabia que queria, que estava mais que necessitado de estar nos braços daquele homem novamente, fosse por carência física ou emocional, não sabia. Mas tinha a certeza que não terminaria aquela noite insatisfeito. Puxou com violência o cinto de Ikki, jogando-o em qualquer lugar, o que fez o outro sorrir, e depois abriu o botão da calça dele sem dificuldade para invadir a cueca e começar uma série de carícias que fez o moreno soltar um gemido, abafado pela boca do advogado.
Ikki imitou o gesto de Shaka, mas o tocando por cima da roupa, sondado o corpo desperto e colhendo os seus gemidos, enquanto Shaka o masturbava, a mão macia subindo e descendo por seu sexo, deixando-o cada vez mais duro. Ikki o interrompeu somente para puxá-lo para o meio da cama de lençóis negros, as mãos acariciando todo os corpo magro e definido, indo apertar de maneira possessiva a bunda firme por cima da calça fina que ele vestia, sentindo o corpo dele pesar sobre o seu e os lábios macios em sua boca, lambendo, chupando a sua língua. Percebia que Shaka queria tanto quanto ele, e isso o deixou ainda mais excitado, seu pau já pressionando o tecido fino da calça semiaberta. Ele desfez o nó que prendia a calça de Shaka e livrou-se dos sapatos e meias que ainda usava. Não demorou muito para que o único tecido entre eles fosse os das cuecas. Os cabelos longos do advogado caiam sobre seu rosto e numa atitude agressiva, Ikki os prendeu com as mãos, forçando Shaka a arquear um pouco o pescoço, que ele mordeu, deslizando língua e dentes pelo pomo-de-adão, para depois virar o corpo dele na cama, ficando por cima, abandonando os lábios para descer beijos pela pele erriçada, lambendo e sugando os pontos sensíveis no peito definido do advogado, ouvindo os gemidos e suspiros que abandonavam a garganta de Shaka.
As mãos de Shaka apertavam os fios negros dos cabelos de Ikki à medida que os lábios dele desciam e a língua fazia uma trilha de saliva em sua pele. Quando Ikki lambeu seu sexo, Shaka se contorceu e gemeu mais alto, movendo o quadril numa demonstração de consenso. Ikki não pensou duas vezes, explorando aquela parte do corpo dele com toda a destreza que sabia. Boca, língua e saliva trabalhando para dar e sentir prazer. No entanto, Ikki estava faminto daquele corpo e queria aproveitar ao máximo aquele momento, percorrendo todo o corpo de Shaka com lábios e línguas, até os dedos dos pés. Shaka gemia baixo e lambia os lábios com a respiração alterada, o corpo arrepiado e condescendente.
Ikki voltou a beijá-lo, segurando-o pelas coxas e novamente invertendo as posições sentando-se sobre as panturrilhas e prendendo o advogado em seu colo, sem parar os beijos.
— Nunca quis tanto algo quanto quero foder você a noite toda... — sussurrou no ouvido dele, mordendo-o na orelha, o corpo roçando no dele de forma provocativa, lentos movimentos de avanço e recuo, apenas antevendo o ato. .
Shaka gemeu e arqueou o pescoço para o passeio da língua e dentes de Ikki.
— Então me fode a noite toda — ele murmurou e gemeu ao sentir os dedos do amante pressionarem a carne macia das suas nádegas. — Vem, quero seu pau dentro de mim agora... — Shaka murmurou, fazendo Ikki gemer excitado e jogá-lo na cama, deixando-o de bruços para morder o pescoço dele, enquanto os dedos deslizavam pelo vale entre as nádegas, massageando, sondando antes de penetrar.
Shaka gemeu contra o travesseiro ao sentir aquela carícia. Tudo era tão excitante, o cheiro, o peso do corpo forte sobre o seu, o suor que os molhava. Ele estava tão duro que doía e por isso não se importou quando Ikki o virou novamente na cama, agora para explorar aquela parte sensível com os lábios, enquanto o masturbava. Shaka soltou um grito rouco e abriu mais as pernas, entregue como nunca na vida. Não soube em qual momento Ikki molhou os dedos com aquele gel frio, só percebeu ao senti-lo novamente, preparando-o com cuidado, tudo que não havia acontecido da primeira vez, mas não menos intenso. Ikki moveu-se mais uma vez, puxando Shaka pela cintura, sentando-se apoiado nos travesseiros e levando-o para o seu colo. Queria olhar nos olhos dele e por isso o ajudou a encaixar-se em seu corpo, pressionando-o pela cintura até estar totalmente dentro dele, soltando um gemido longo, com os dentes cerrados ao sentir-se apertado de forma tão prazerosa.
Shaka também gemeu, estremecendo, os dedos apertando os ombros do amante. Ikki o abraçou pela cintura, começando a mexer lentamente dentro dele, em movimentos contínuos de vaivém, pacientes, cadenciados, acertando o lugar certo, fazendo Shaka gemer e tremer a cada investida.
Shaka gemia baixo e ofegava, as pernas apertando o quadril do amante como um ponto de apoio. Ele puxou Ikki pelos cabelos da nuca, para que ele o olhasse, prendendo-o em seu olhar, enquanto ele mexia dentro do seu corpo e aquele olhar pareceu inflamá-lo ainda mais. As bocas uniram-se em um beijo louco.
O ritmo aumentava, os beijos tornaram-se mais incertos, obscenos, desesperados, unhas arranhavam, dedos puxavam os fios dos cabelos, mãos marcavam a pele. Eles gemiam, murmurava palavras inaudíveis, obscenas, acariciavam-se com um desejo incontrolável, voraz, animalesco. Ikki sentia-se cada vez mais apertado e os tremores do corpo de Shaka só lhe provavam o quanto o advogado estava no limite. Shaka tinha um controle incrível do próprio corpo e do próprio prazer e refreava um orgasmo mais forte o que só tornava o momento ainda mais extremo e mais os deixava no beiral do desespero. Ikki não suportava mais, por isso apertou mais forte a bunda macia do amante, obrigando-o a aumentar o ritmo. — Quero te ver gozando, Shaka... E quero gozar dentro de você... — ele sussurrou ao ouvido do advogado, intensificando ainda mais o ritmo, seu pau indo cada vez mais fundo, golpeando repetidamente a próstata do advogado. Isso foi como um comando que fez Shaka gritar e entregar os pontos. O sêmen molhou o peito de Ikki enquanto o amante tremia completamente perdido em prazer e sentia-o abraçá-lo pela cintura, urrando contra a sua pele, derramando-se dentro dele. A sensação era tão intensa e duradoura que eles perderam a noção de tempo e espaço, de tudo. Ikki só conseguia sentir o canal úmido e estreito o estrangulando, pulsando ao redor do seu sexo, e Shaka só sentia as contrações, vibrações, loucura do seu próprio corpo que chorava de prazer.
Demoraram minutos até que estivessem recuperados do carrossel de sensações maravilhosas. A intensidade do orgasmo, todavia, não aplacou o desejo e não demoraram muito para buscarem um segundo momento e mais um até estarem completamente exaustos e observarem o dia nascer em lenta escuridão contra a vidraça da grande janela, esgotados.
Shaka agora estava deitado de bruços e Ikki, de lado, apoiado num dos cotovelos enquanto contornava a figura tatuada na cervical do amante com os dedos, analisando o desenho com atenção.
— Estou com fome — ele disse e beijou o ombro do hóspede. Não queria pensar nas tatuagens agora. Não queria pensar em nada — Quer café da manhã?
— Humhum — Shaka respondeu, virando-se de barriga para cima e espreguiçando-se. Seus olhos azuis miraram os de Ikki. Era madrugada e a pouca luminosidade deixavam-nos negros. — A gente não dormiu nada — falou com um meio sorriso preguiçoso.
Ikki sorriu também e beijou-o levemente nos lábios.
— Não sei como, já que você me esgotou.
O advogado riu, passando a mão no rosto. Era uma situação surreal em que eles estavam totalmente despidos das máscaras de vítima e verdugo. Ele mirou o rosto de Ikki, observando o lábio inferior dele, vermelho e esfolado.
— Acho que eu piorei isso...
Ikki inclinou-se e beijou-o de leve.
— E foi ótimo — ele sussurrou. — Você quer dormir agora ou tomar café da manhã comigo?
— Dormir um pouco, mas você pode comer — Shaka respondeu, quando ele se afastou, lambendo os lábios. Não entendia como, depois dos últimos acontecimentos, chegaram àquela situação, mas sabia que não era o momento de pensar. Não, não pensaria agora, seguiria como estava até que precisasse pensar sobre aquela noite.
Ikki tinha o mesmo em mente. Era uma de suas regras: não fazer perguntas demais a si mesmo. Evitar ao máximo fazer reflexões profundas sobre coisas problemáticas. Eles tiveram uma noite inteira de sexo da melhor qualidade. Era isso. Seus sentimentos intensos e os sentimentos confusos que ele sabia que Shaka trazia não deveriam ser questionados. Assim como o advogado, ele seguiria sem perguntas. Fazendo o que tinha que fazer, agindo da forma que precisava e, às vezes, como os seus instintos mandavam. Se fosse muito sincero, sabia que, no fundo, provocara aquilo porque já sabia o caminho que trilharia dali para frente. Mas não pensaria naquilo ainda. Por enquanto, seguiria com aquela doce e maravilhosa ilusão de que eles poderiam ser amantes, que ele era livre para amar aquele homem bonito, íntegro e inteligente que descansava em seu ombro.
TÍTULO: A VERDADE DISPENSA ENFEITES.
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