Nelumbo nucifera

19 Quae sunt Caesaris, Caesari


Notas iniciais
Olá, seus lindos, tudo bem? Capítulo fresco. Obrigada a todos que deixaram um comentário, isso me motiva a continuar. Beijos a todos e boa leitura! Sion

Quae sunt Caesaris, Caesari

Chapter 19

Shaka continuou a comer com apetite até se sentir satisfeito. Afrodite o encarava, paciente. Apenas depois de terminou sua refeição, o advogado resolveu ler atentamente os papéis. Havia nomes, datas, crimes, diretrizes. Ele seria o próximo promotor, isso já estava decidido. Decidido por aqueles mesmos homens que apareciam em fotos e nomes. Ele conhecia todos eles, ilustres homens de vidas sombrias, envolvidos em séries de crimes: ameaça, extorsão, execuções de criminosos...

O advogado ergueu os olhos para o seu belo algoz, pousando lentamente o envelope sobre a mesa.

— Quem são vocês? — indagou, o peito apertado dessa vez, como nunca antes. Percebia que estava mais preso àquela teia do que imaginava. Chegou a pensar se sua vida não havia sido cuidadosamente arquitetada por aquelas pessoas. Tentou fugir dessa sensação. Não era um fantoche. Nada faria dele um fantoche.

— Que bom que a pergunta não é mais “o que querem de mim”. Parece que entendeu muito bem, então vou fazer um breve resumo de quem somos — Afrodite sorriu. — Embora nunca tenhamos nos dado um nome, o tempo acabou nos cunhando de A sociedade. Um grupo seleto de pessoas preocupadas, é como melhor posso nos definir.

— Preocupadas? — Shaka interrogou, sarcástico.

— Com o mundo — explicou Afrodite. — Pode parecer estranho para você, Phalke, mas o que queremos é um mundo melhor. Um mundo onde um garotinho não tenha que assistir seu pai ser torturado por bandidos e nem a morte de sua mãe. Um mundo onde as pessoas estejam seguras.

Shaka sorriu, voltando os olhos para o envelope. — Dessa forma? Evitando que bandidos vá para a cadeia?

Afrodite estalou a língua. — É clichê dizer que os fins justificam os meios, mas é mais ou menos isso. Esses homens são membros ou benfeitores d’A sociedade. Precisamos deles vivos e... Bem, longe do martelo de juízes ou promotores paladinos da justiça como você. Como advogado, já nos gerou muitos problemas, Phalke. Não sabe quantos. Foi isso que fez com que o notássemos. Você prejudicou muitos projetos d’A sociedade. Mas não seja negativo, isso foi ótimo! Você foi notado. Conseguimos perceber que você é a espécie de pessoa que queremos entre nós. Incorruptível, forte, abnegado. Agora, o queremos como aliado. Juntos, nós, A sociedade, e você, a lei, a honestidade, um sopro de esperança nessa lama que se tornou o mundo, podemos mudar as coisas. Podemos construir um mundo melhor. Podemos limpar essa cidade como você nunca conseguiria sozinho. Acredite, é sua única chance de fazer muito bem o seu trabalho; justiça.

Shaka observou o homem à sua frente atentamente. Ele era jovem, devia ter mais ou menos uns 30 anos, o mesmo que Ikki, imaginou. Era bonito e possuía olhos azuis límpidos e inteligentes. Era um homem atraente, inteligente, e embora aquele discurso fosse tão piegas e obsceno, o mais triste para ele foi entender que Afrodite realmente acreditava nele. Ao contrário dos homens das fotos, todos que conhecera até ali, na tal A sociedade, eram jovens de olhos brilhantes de um ideal puro. Poderia dizer que eles sofreram uma lavagem cerebral, mas não era bem isso. Era algo que ainda não conseguia alcançar. Era difícil entender.

— Como chegou a essa tal de A sociedade? — indagou curioso.

— Minha história não é relevante a d’A sociedade é mais. Ela existe há mais de 20 anos. E ela está fazendo a coisa certa, não tenha dúvida. O mundo é mais seguro com A sociedade.

— Seguro? — Shaka riu. — Não sou nenhum assassino. Mesmo assim, vocês me sequestraram e me torturaram! Agora esperam que eu trabalhe para vocês?

— Conosco — Afrodite o corrigiu.

— Não importa! Que espécie de justiça é essa? Que noção distorcida e obscena de moralidade vocês possuem! Será que não consegue enxergar? Isso é errado!

— Moralidade... — Afrodite murmurou, pensativo. — Não. Não nos importamos com os conceitos de moral numa sociedade corrupta como a nossa, doutor Phalke. Há menos lágrimas no mundo conosco. Isso é moralidade para mim.

— Vá pro inferno! Vão todos pro inferno! — Shaka vociferou, encarando o outro. — Não farei isso! Eu jamais vou desrespeitar a justiça desse jeito! Eu acredito na lei e na justiça, e não em um grupo de justiceiros super treinados e patrocinados! Eu jamais farei parte disso! Nunca! Podem me matar, se for essa a opção — jogou a pasta de volta para Afrodite. — Não sou e jamais seria um membro d’A sociedade. Esqueça!

— Vou esperar que reconsidere, Phalke – Afrodite disse, mais sério. – Muitas vidas dependem disso. Esses homens coordenam ONGs, grandes e filantrópicas empresas. Muitas vidas são salvas por eles para que sejam presos por algo ínfimo como sonegação fiscal ou execução de estupradores e pedófilos.

— Não importa quem eles matam, Afrodite, será que não entende? Eles descumprem a lei, e enquanto fizerem isso, são meus inimigos e não descansarei até que todos estejam presos. Não há nada que me diga que me faça fazer parte d’A sociedade. Eu não estou à venda e não acredito nas suas boas ações. É só mais um grupinho de justiceiros de merda. Não será o primeiro que eu enfrento! — Shaka sorriu. — Diga a seus chefes que eles só têm duas alternativas: ou me matam ou me deixam ir.

— É uma pena — Afrodite ergueu-se, ainda muito calmo. — Coma bem. Quem sabe não consiga pensar com mais clareza depois de uma boa refeição? Voltarei mais tarde, nossa conversa não terminou.

— Nada vai me fazer mudar de ideia, Batman... — Shaka disse com um sorriso sarcástico, começando a comer a sobremesa.

Afrodite sorriu, mas dessa vez algo preocupado apareceu em seu semblante.

— Ah, meu caro. Temos métodos bem eficientes e nada ortodoxos.

Ele saiu, e embora Shaka sentisse o estômago nauseado com aquela proposta hedionda, resolveu comer. Precisava recuperar as forças.

Afrodite entrou no escritório falando com Mu pelo telefone.

— Ele não concordou. E não vai, Mu — disse. — Vocês podem trazer quem quiser, esse cara morre, mas não colabora.

— Deviam usar meus métodos — Angelo riu, e Afrodite revirou os olhos.

— Não são métodos eficientes com pessoas inteligentes, só com aqueles capangas escrotos que você costuma trabalhar — provocou e voltou a falar com o líder. — Cinco dias de geladeira não dobrou o cara, acho que nada mais dobra.

Do outro lado da cidade, na mansão colonial que era a base dos cavaleiros, Mu suspirou, mirando o céu cinzento.

— Darei as más notícias pr’O círculo. Acho que é o momento de eles desistirem de Phalke. Obrigado, Afrodite. Mantenha-o isolado até que as novas diretrizes cheguem.

Mu desligou o celular e encarou Camus.

— Já estou enviando uma mensagem criptografada — disse o hacker, calmamente. — Dançamos, não é?

— Parece que sim. Fracassamos, Camus.

— Mandarei uma mensagem pro Milo ficar a postos. Precisaremos dele quando recebermos autorização para libertar Phalke.

— Inibidor de PKM zeta? — Mu franziu a testa preocupado. — Muito arriscado...

— Acha menos arriscado deixa-lo ir com memórias?

— Não queremos machucá-lo, Camus. Phalke não é um criminoso, ele não pode ser posto em risco.

Camus mirou Mu com uma expressão confusa e depois voltou a mirar a tela do laptop. Mu observava o hacker com atenção, tanto que foi capaz de perceber um tremor na sua expressão sempre serena.

— O que foi?

— Recebemos resposta...

— Já? E o que ela diz?

Camus engoliu em seco. Mu se aproximou dele, mirando a tela da máquina também.

“Missão não abortada... Perda do controle da Missão... Assume operação Espectro. Os cavaleiros designados devem deixar o posto em 48 horas...”

O líder mordeu os lábios. Que diabos estava acontecendo n’A Sociedade? Por que recebia uma mensagem de Hades não de Shion?

— Mande outra mensagem, Camus. Pergunte por Shion. Entrarei em contato com Angelo e Afrodite.

— Sabe que não podemos insistir nisso...

— Faça, Camus! Apenas faça! — Mu disse com mais veemência. Tentava continuar com seu semblante calmo, mas sabia que estavam ferrados. Todos eles.

***Nelumbo***Nucifera***

Ikki acordou e, por alguns instantes, demorou a se situar. Já fazia tanto tempo que dormia e acordava naquele mesmo quarto, naquela mesma mansão, que ainda encontrava algumas dificuldades em se adaptar ao novo local. Mas, assim que se recordou de onde estava, levantou-se da cama.

Tinha chegado ao novo local fazia um dia. Ainda havia muito que arrumar por ali antes que lhe trouxessem o hóspede da vez. Pelo que tinha lido no relatório, era um caso simples, talvez tranquilo até demais. Provavelmente, A Sociedade estava um pouco hesitante em relação a ele. Isso era notável não apenas no nível de dificuldade do caso, mas também no local em que se via agora.

Fazia muito tempo que seu trabalho se dava naquela mansão. Mas antes de chegar àquele posto, tivera de trabalhar em ambientes bem menos luxuosos. Nem todas as peças do tabuleiro mereciam que se gastasse tanto dinheiro com elas. Não; isso era reservado aos casos mais importantes. Como Shaka. Aliás, Shaka era o caso mais importante de todos. Por isso, tinha feito tanta questão de ser o cavaleiro escolhido para aquela missão. E agora ainda não sabia o que sentia diante de todo o ocorrido. Estava arrependido dessa decisão? Não, o que sentia não era bem arrependimento. E não sabia definir o que era. Preferiu não pensar demais nisso. Não queria mais pensar em Shaka. Isso somente confundia sua cabeça. Entretanto, por mais que se esforçasse em não pensar no maldito advogado, ele sempre acabava por lhe invadir as lembranças! Ikki já estava revoltado com isso! Nem Hank tinha lhe tirado o controle acerca dos próprios pensamentos. Não podia aceitar que isso acontecesse com Phalke. Simplesmente, não podia aceitar.

Havia ficado muito preocupado com ele, isso era óbvio. Chegara a perder a razão quando soubera que o loiro tinha sido colocado na geladeira, como ele. Porém, quando Milo e Aiolia lhe informaram que enfim entregavam os documentos com as diretrizes d'A Sociedade para Shaka, Ikki se acalmou. Sabia que o advogado era teimoso e que não iriam conseguir dobrá-lo de qualquer forma. O melhor era apresentar logo os termos a ele. Ikki confiava que o loiro aceitaria e tudo estaria encaminhado a partir de então. Todos sempre aceitavam. Sempre. Isso significava que o trabalho com Shaka estaria finalizado. Ele seria libertado, poderia voltar para casa e estaria em segurança. Não precisava se preocupar.

Agora, cabia a Ikki retomar o controle de sua própria vida. Saiu do quarto e seguiu pelo corredor que o levaria até a sala de estar daquela cabana. Era uma cabana razoavelmente grande, mas nem se comparava ao tamanho daquela mansão. A cabana ficava afastada de tudo, perdida em meio a uma densa mata fechada. Ikki estava usando uma camisa de flanela vermelha, calça jeans azul, um pouco surrada, botas marrons e trazia seus cabelos revoltos, ao natural. No fundo, gostava de poder parecer um pouco mais consigo mesmo. Embora tivesse de assumir um papel, nesse caso, pelo menos, não precisava ser tão distinto de si, inclusive na aparência.

Seguindo pelo corredor, passou pelo quarto onde o hóspede ficaria. Lá dentro, Faustine arrumava tudo: — Tudo certo por aí? — perguntou, batendo de leve na porta de madeira do quarto rústico.

— Tudo bem por aqui. — a senhora respondeu, com um tom um pouco triste — O que foi, Faustine? — Ikki indagou, notando o semblante triste da cozinheira.

A mulher o mirou por um tempo, seus olhos indagavam até que sua indagação tornou-se voz:

— Ikki, ainda não tivemos tempo de conversar sobre o que aconteceu na mansão naquele dia... e...

Ao perceber que essa conversa o levaria de volta a Shaka, Ikki instantaneamente deu as costas e saiu, levando Faustine a suspirar melancólica no quarto. O moreno então se dirigiu a passadas rápidas à sala, onde encontrou Khan ao telefone. Assim que ele desligou, Ikki, que iria dar alguma ordem sobre a preparação da casa para o novo hóspede, notou a palidez de seu mordomo: — O que houve, Khan? Aconteceu alguma coisa? — perguntou com antecipada preocupação.

— Senhor... — Khan suava frio agora — Ligaram d'A Sociedade para avisar que o novo hóspede não chegará hoje porque... porque... — Khan demonstrava algum nervosismo — Todos os projetos serão congelados por um tempo, até que A Sociedade tenha a certeza de que aquele advogado vá colaborar. Parece que... ele se recusa... ainda...

Ao ouvir as palavras de Khan, Ikki sentiu o coração acelerar: — Ele não aceitou? Ele se recusou?? Mesmo depois da geladeira? Mesmo depois... ?— perguntou, percebendo que, quando se tratava de Shaka, nunca conseguia restabelecer seu perfeito controle — Mas... então... o que pretendem fazer? Como esperam conseguir fazer com que ele mude de opinião?...

Khan engoliu em seco e enxugou o suor frio da testa. — Senhor, eu acho que devemos nos concentrar...

— Fale, Khan — a ordem foi dada entre dentes, os olhos cravados no mordomo.

— Senhor... — Khan respirou fundo — Eu perguntei isso. Perguntei, porque disse que já estávamos terminando de nos organizar por aqui e gostaríamos de saber quanto tempo teríamos de congelar o procedimento. E então... a resposta que me deram... Foi que não demoraria muito. Iriam acionar ... Marduk.

Ao ouvir esse nome, foi Ikki quem se sentiu congelar. Seu corpo ficou petrificado. O coração falhou uma batida. Não podia crer!

***Nelumbo***Nucifera***

Mu estava na sede da inteligência. Era como eles chamavam aquele pequeno prédio que era utilizado quando estavam em ação. A sede do seu grupamento era outra, secreta, somente os membros e o alto escalão, o Círculo, conheciam. Nenhuma outra divisão d’A sociedade sabia o endereço umas das outras. Cavaleiros não conheciam a sede dos Espectros, Espectros não sabiam a sede dos Cavaleiros, e assim por diante. O alto comando achava que, dessa forma, estariam protegidos de possíveis traições. Raramente as equipes se comunicavam. Mas agora, Mu via sua sala invadida por um contingente inteiro de Espectros, do qual, Radamanthys era o líder.

— O que está acontecendo? — Milo foi o primeiro a se erguer da cadeira, encarando os seis homens que adentravam a sala. Todos eles vestiam-se casualmente, como pessoas normais que passeiam em um dia frio, alguns, inclusive, usavam moletons, como se houvessem saído para uma corrida. Era um dos requisitos da função: eles deveriam aparentar o mais comum possível, a não ser se a função exigisse o contrário.

Camus, que como sempre, estava atrás do seu laptop, fechou o aparelho lentamente e tirou o fone que utilizava, observando os intrusos. Milo postou-se ao lado dele e colocou a mão em seu ombro, num gesto protetor. Camus era um dos mais jovens dos integrantes do grupo, tendo algo em torno de 24 anos, e Milo de certa forma se sentia responsável por ele, pois fora o seu instrutor nos primeiros passos do hacker n’A Sociedade. Todavia, o ruivo afastou a mão do amigo e se ergueu também, as sobrancelhas franzidas em sinal de confusão.

— Mudanças. — Radamanthys respondeu — Quem é o líder? —perguntou, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta de couro que ele usava.

— Eu — Mu se aproximou dele. O semblante sério e impassível não traía sua indignação. — O que faz aqui, espectro? Nos deram 48 horas para abandonar a base. Não acha um pouco cedo?

O loiro de olhos dourados retirou do bolso um papel dobrado e o estendeu ao cavaleiro.

— Novas diretrizes. Sua equipe deve retornar à base e esperar instruções. Assumimos daqui.

Mu pegou o papel com o rosto lívido e examinou.

— Não vejo a assinatura de Shion — comentou, encarando o loiro.

— Shion se encontra em reunião com O Círculo. Hades assumiu a operação Phalke, provisoriamente, e, como deve ter notado, há a assinatura dele. Saiam.

— Não recebo ordens de Hades — Mu disse entre dentes, apertando o papel e o jogando no chão.

Radamanthys sorriu, irônico.

— Acho que viu o brasão d’O círculo no papel. Hades está responsável por todas as operações enquanto O círculo estiver reunido com outros líderes. Repetirei: saiam.

— Milo, recolha nosso material. Camus entre em contato com os outros e avise-os para nos encontrar na sede — Mu disse, sem tirar os olhos de Radamanthys.

Os dois cavaleiros presentes começaram a recolher o material.

— E quanto aos meus dois cavaleiros que estão na mansão?

— Eles devem permanecer lá até novas diretrizes. Provavelmente as coisas mudem essa noite. Soubemos que Phalke se nega a colaborar então...

— Então? — Mu franziu a testa.

— Hades acionou nossa arma secreta.

— David, pare com essas analogias ridículas e diga logo o que irá acontecer! — Mu perguntou firme, mas sem irritação.

— Marduk está de volta — Radamanthys disse e nesse momento Mu percebeu que até mesmo o espectro deixou escapar uma expressão enojada. Os estilos das equipes eram diferentes, os espectros eram mais frios e incisivos, treinados para ações diretas, mas ainda carregavam muita ideologia, honra e orgulho, coisas que sabiam não serem o forte de Marduk.

O líder dos cavaleiros empalideceu.

— Não pode estar falando sério... — murmurou, chocado.

— A ideia não foi minha, mas não vou questioná-la. Até mais, cavaleiros — falou, encerrando o assunto, pedindo para sua equipe verificar a sala, retirando as escutas da equipe de Mu e tudo mais que ali estivesse.

Mu, Camus e Milo saíram rapidamente com o material, nunca carregavam muita coisa, pois sabiam que uma saída de emergência poderia ser necessário. O líder dos cavaleiros estava profundamente preocupado e indignado com aquela situação, mas mantinha o semblante tranquilo. Foi dessa forma que conseguira chegar à liderança daquele grupo, mantendo-se sempre tranquilo. Precisava fazer algo. Falar com Shion. Aquilo era uma loucura!

Seu celular tocou e ele atendeu.

— Mu, temos um problema! — a voz de Angelo soou preocupada atrás da linha.

— Já soube. Estamos saindo do posto. Os espectros assumiram.

— Não é isso, Mu. É pior...

Mu franziu a testa. Não concebia problemas piores.

— O que aconteceu?

— Ele! Ele está aqui! Vai assumir a tutela de Phalke!

— Ele quem, Angelo? Seja mais especifico?

— Ele! Você sabe de quem estou falando! Aquele desgraçado!

Mu estancou o passo. Milo e Camus se voltaram para ele analisando-lhe o semblante extremamente pálido.

— Marduk? Ele está aí? Ele já está aí?!

— Sim. É o fim, Mu! O fim!

***Nelumbo***Nucifera***

A noite estava fresca e agradável. Por isso, Shaka deixou a janela aberta. Já estava relativamente recuperado, afinal já se passara algum tempo desde que fora torturado, ameaçado e socado por seus sequestradores. Na verdade, tudo estava estranhamente quieto até então, e seus dias, embora tensos, eram calmos. Sabia que não estava em segurança. Imaginava que não demoraria a ser torturado novamente de alguma forma, numa tentativa de convencê-lo a participar daquele grupo obsceno. Mas preferia não pensar muito porque tinha medo de enlouquecer naquela prisão que também era uma espécie de solitária. Estava sozinho havia dias. Não podia sair do quarto, almoçava lá, sempre, mas isso era até bom. No fundo, tinha esperanças de que seus sequestradores finalmente desistissem dele. Deixassem-no ir embora, seguir sua vida. Pensava em Kanon, em Saga, em seu pai. Imaginava a preocupação que estava dando, ele que sempre lutou para ser independente e não causar problemas a ninguém.

Às vezes se pegava pensando em Ikki e naquele maldito beijo... Mas sabia que seus pensamentos eram apenas manifestações da sua solidão, do seu isolamento e frustração, sabia. Mas não era apenas o beijo... Era o olhar... O jeito... O sorriso-de-quase-nunca...

Síndrome de Estocolmo, tinha certeza. Era isso aquela ausência. Sua mente racional tentava encontrar parâmetros para tudo. Precisava ter um parâmetro para isso também. Para aquele sentimento de solidão que ficou com a partida dele.

— Ikki... — balbuciou ainda sonolento, quando sentiu que não estava sozinho. O quarto estava mergulhado na penumbra, apenas a luz tênue das estrelas adentrava pela grande porta de vidro. Era uma noite sem lua.

Sentou-se na cama. Tivera um sonho ruim.

Sentiu um agarre em seus cabelos e logo seu corpo tombava com violência no chão acarpetado. Shaka gemeu, levando a mão à nuca.

— Não, garoto, não é o Ikki — a voz grave e debochada disse na penumbra do quarto. — Me chame de Marduk. E você verá que perto de mim, Ikki é uma garotinha encantadora... — o homem riu. —Nós dois temos que ter uma conversinha. Levem-no.

Dois homens adentraram o quarto e arrastaram Shaka para fora dele. Marduk examinou o local com um sorrisinho debochado. Nunca tinha deixado nenhum hóspede ficar naquele local luxuoso, o lugar deles era o porão, e era para lá que levaria Phalke. Ou o dobraria, ou o mataria. Simples.

Título: A César o que é de César.

Notas finais
* O Inibidor de PKM zeta é uma droga que está sendo testada para inibir memórias ruins, ou seja, pode ser usado para remover da pessoa memórias específicas. OBRIGADA A TODOS QUE LERAM EM ESPECIAL AOS QUE DEIXAM UM COMENTÁRIO! Sion Neblina