Nelumbo nucifera

13 Ex abundanctia enim cordis os loquitur


Notas iniciais
Oi, leitores queridos, tudo bem? Resolvi postar logo, aproveitar que o capítulo está pronto e não enrolar. Quero agradecer de coração àqueles que tiram um pouquinho do seu tempo para deixar um comentário. Isso não tem preço. Obrigada e boa leitura! Sion Neblina

Ex abundanctia enim cordis os loquitur

Chapter XIII

Ikki adorava a sensação de colocar todo o seu vigor físico à prova. Nessas horas, ele abandonava sua mente a um vazio tranquilizante, não pensava em absolutamente coisa alguma, entregava-se de corpo e alma ao exercício físico que, para o moreno, era bastante revigorante. Simplesmente não viu mais nada depois de disparar a nado, só regressando à realidade quando findou a prova, chegando ao ponto de partida após três voltas na piscina. Imediatamente, olhou para trás, a fim de ver onde Shaka se encontrava. Conforme esperava, o loiro tinha ficado para trás. Por um momento, a agradável sensação de vitória se apossou de seu peito, um sorriso enorme se desenhou em seus lábios... mas somente até Ikki perceber que havia algo de errado.

Shaka não estava mais nadando e seus braços não se moviam de forma sincronizada. Pelo contrário, os braços agitavam-se, denotando desespero, como se estivessem se esforçando para evitar que o corpo submergisse. A luta que Shaka travava contra a água logo se tornou clara para Ikki, que rapidamente voltou a mergulhar, sentindo também uma pontada de desespero. Mergulhou em uma velocidade que não sabia se já tinha alcançado antes. Talvez sim, mas o desespero em que se via agora fazia tudo parecer muito mais intenso. Em sua mente, uma frase se repetia: "Aguente firme, aguente firme!" E nunca lhe pareceu antes que aquela piscina fosse tão grande. A impressão que teve é de que demorou uma eternidade para chegar até o advogado. Quando seus dedos, esticados ao máximo, enfim conseguiram tocar o corpo do loiro, a essa altura desfalecido, foi como se Ikki completasse a maratona mais difícil já enfrentada em sua vida. Aí então foi tudo muito rápido. Seu corpo envolveu o do loiro por inteiro, quase como se, com esse gesto, ele tentasse desde já socorrer o outro, passando a ele alguma segurança. Apertou-o junto a si, com força, como se temesse perdê-lo em meio às águas e rumou para fora da piscina com presteza. Uma vez fora, gritou aos seguranças, que sempre estavam por perto, mesmo aparentemente invisíveis, para chamarem socorro médico. Enquanto seus homens se mobilizavam nessa tarefa, Ikki depositou o loiro sobre o chão, cuidadosamente. Em seguida, deu início ao procedimento de primeiros-socorros. Tinha notado que Shaka não respirava e sentiu um princípio de pânico, mas sabia perfeitamente que essa era a hora de fazer uso da frieza que, com algum custo, aprendera a desenvolver ao longo desses anos.

Com o advogado em posição de decúbito dorsal, Ikki ergueu o queixo do loiro, para desobstruir as vias aéreas. Em seguida, tapou o nariz do outro com uma das mãos e deu início à respiração boca a boca. Enchia os próprios pulmões com oxigênio e depois soprava dentro da boca de Shaka. Então juntava as duas mãos sobre o peito do loiro, pressionando-o ritmicamente, para que o corpo de Shaka expirasse o ar e então voltava a fazer respiração boca a boca.

Manteve-se durante algum tempo nesse processo, ininterruptamente. Pelo modo como agia, era visível que Ikki tinha alguma experiência com esse tipo de salvamento, pois sabia bem o que fazia. Somente parou quando o socorro chegou – uma equipe médica que estava sempre de prontidão para servi-lo, a serviço da Sociedade, de que Ikki fazia parte. Quando chegaram, avaliaram o estado de Shaka e viram que o dono da mansão tinha feito um bom trabalho.

Levaram o loiro para um quarto da mansão, já previamente equipado para lidar com necessidades médicas. O advogado aparentava estar bem, mas teria de ser monitorado por algum tempo. Ikki não saiu de perto do loiro em nenhum momento, ficou observando a tudo calado. Depois que a equipe médica deixou o quarto, Ikki permaneceu ali, sem se mover, olhando para o loiro sobre a cama. Khan apareceu logo em seguida, perguntando se seu senhor não queria comer algo ou descansar, e Ikki se negou veementemente. O mordomo então indagou se o moreno não gostaria, ao menos, de tomar um banho e vestir alguma roupa. Só aí Ikki percebeu que estava vestindo apenas sua cueca boxer. Ele não se sentiu constrangido – Ikki nunca se sentia assim –, mas entendeu que era melhor vestir algo. Como não estava disposto a abandonar seu posto, mandou que o mordomo apenas lhe trouxesse um roupão. Sem questionar, Khan seguiu sua ordem, enviando ao seu poderoso senhor um roupão negro e felpudo. Enquanto vestia o roupão, Ikki recebeu uma ligação dos membros d'A Sociedade. Eles não tinham gostado nada do que ficaram sabendo – a equipe médica obviamente tinha noticiado a eles o ocorrido com o advogado. Ikki discutiu com eles pelo celular, dando voltas em torno do mesmo lugar, mas sem deixar o quarto nem seu posto ao lado do loiro. Reclamou que A Sociedade estava se intrometendo demais, que eles deveriam confiar em seu trabalho e que, tirando aquela única vez em que as coisas deram errado, todas as outras apenas provaram que ele era bom no que fazia. E que se estivessem duvidando de sua capacidade, que o dispensassem daquele trabalho de uma vez por todas. Enfureceu-se mais que de costume, sentia-se tenso demais para ponderar as palavras. Conseguiu calar A Sociedade com essa última fala, que os deixou acuados. Mesmo assim, esses homens disseram que Ikki tinha de tomar mais cuidado, que o cativeiro de Shaka era para ser o mais importante e preparado de todos e, ao contrário do que esperavam, parecia ser o mais desorganizado que já tinham visto. Fizeram questão de ressaltar que estariam de olho. Ikki desligou seu telefone celular com tanta raiva, que acabou jogando seu aparelho contra a parede, espatifando-o em pedaços assim. Khan veio ver o que tinha ocorrido, compreendendo que seu senhor, uma vez mais, perdia o controle. Suspirou, mas nada disse. Limpou os cacos do aparelho e saiu. Mandou que enviassem alguma comida para Ikki, mas o moreno, sentado sobre uma poltrona próxima da cama, sequer tocou na bandeja que deixaram ali para ele. Mantinha um olhar fixo e perdido na parede branca, pensando em tudo e em nada. Ficou assim por sabe-se lá quanto tempo, até que acabou adormecendo ali mesmo, naquela poltrona.

Shaka esteve num estado alterado de consciência desde que acordou, se é que realmente podia se considerar acordado, quando sentiu o ar voltar aos seus pulmões como se fossem várias agulhas o perfurando. Água escapava da sua boca e ele ofegou, soltando um gemido longo e tossindo, tossindo muito. Viu Ikki debruçado sobre si e depois tudo se apagou novamente. Agora, seus olhos captavam alguma luz e ele se sentia muito mal, havia um peso em seu peito e seu nariz estava congestionado e ardia, assim como a garganta. Deu-se conta de que havia quase se afogado e lamentou-se. Abriu os olhos, batendo os cílios com o incômodo da luz, vendo o contorno de uma pessoa e percebendo que ela brigava com algo imaginário enquanto andava de um lado a outro, mas ele era um borrão negro e sua voz era estranha, um eco. Deveria ter água em seus ouvidos também. Depois, adormeceu novamente para acordar um tempo depois. Sentia-se mal, muito mal naquele momento, numa espécie de ressaca moral e física. Pigarreou, tentando limpar a garganta de qualquer coisa que a incomodasse; os olhos começando a ver melhor, as lembranças voltando... A disputa... A água... A greve de fome de dias atrás...

– Que merda eu fiz... – murmurou, sentindo a voz mais rouca que o natural e então voltou a tossir. Tudo ardia, sentia-se péssimo.

Ikki tinha cochilado, mas seu estado de alerta era constante. Ouviu a tosse de Shaka e seus olhos rapidamente se abriram. Olhou para os lados, como sempre fazia quando acordava abruptamente, para se certificar de que não havia perigo por perto. E só então atentou para o estado do loiro à sua frente. Levantou-se da cadeira e ele mesmo monitorou os aparelhos que estavam ligados ao advogado, para verificar se estava tudo em ordem. Percebendo que sim, ele mesmo liberou o loiro dos tantos fios que estavam ligados a ele, sem dizer uma palavra. Via que Shaka estava desperto, mas, por algum motivo, não conseguia se dirigir a ele para dizer coisa alguma. Permaneceu calado, sem nem ao menos direcionar um olhar direto para o outro.

Shaka fez uma careta, seu peito doía, a garganta arranhava, parecia que seus pulmões e garganta tinham sido queimados, mas ele não queria ficar ali, deitado. Terminou de se livrar dos fios, meio nervoso, sentindo a sensação de pânico voltar, mas depois percebeu que era apenas um reflexo da situação na piscina, então voltou a relaxar no travesseiro e encarar o moreno. Por um longo tempo, também não soube o que dizer e ficou apenas mirando o rosto preocupado dele. Quando falou, nem mesmo ele acreditou em suas palavras.

– Desculpe... – murmurou e baixou o olhar, envergonhado. – Posso sair daqui? – indagou, sem jeito. Também não sabia o que dizer naquela situação. Sentia sua voz estranha, fanhosa, e água em seu nariz, ainda. Mas se sentia bem, dentro do possível, fisicamente. Sua dor era mais moral naquele momento. O que acontecia consigo? Parecia que perto daquele homem, perdia toda a prudência. Aquilo fora tão estúpido!

Ao ouvir a palavra "Desculpe" da boca de Shaka, os olhos de Ikki se dirigiram imediatamente para o loiro. Aquilo era tão inusitado que nem soube como proceder. Por isso, ficou talvez algum tempo demais apenas encarando o outro, como se buscasse o que dizer. Finalmente, respondeu:

– Claro. Você pode ir para o seu quarto, se quiser. – seu tom de voz saiu sem qualquer preparação, demonstrando um tom que jamais usava com um prisioneiro; um tom gentil, verdadeiramente amigável e que, por isso mesmo, revelava grande vulnerabilidade.

Como se acabasse de se dar conta disso, tão logo percebeu que Shaka se preparava para deixar a cama, Ikki se posicionou à sua frente, impedindo a passagem. Conseguindo atrair a atenção do advogado, começou a dizer:

– Você... vai tentar se matar de novo? – a pergunta não tinha sido planejada. E o tom de voz usado estava longe de ser o ideal. Inicialmente pensara em falar algo que disfarçasse a vulnerabilidade apresentada. Em vez disso, reforçou essa impressão. Sua pergunta veio em um tom quase pueril. Indagou como uma criança assustada, que apresenta um temor com o qual não sabe lidar. Assim, Ikki acabou apresentando uma forte fraqueza. Ele não era insensível como tentava se fazer passar. E ele realmente tinha ficado preocupado. Dava para ver em seu olhar que o medo de algo acontecer a Shaka não tinha tanto a ver com os problemas que isso causariam a algum plano seu. Era possível enxergar naquele olhar que Ikki era humano e que ele realmente temeu pela vida do outro, como uma pessoa normal faria.

Shaka o encarou, confuso, piscando antes de conseguir responder àquela pergunta inusitada. Aquele novo olhar de Ikki o confundia. Sentia-o vulnerável naquele momento e isso fazia com que Shaka se sentisse vulnerável também, despido, exposto. Parecia que ambos haviam deixado as carapaças naquela piscina.

– Eu não... – pigarreou e passou a mão nos cabelos, virando a cabeça um pouco como se procurasse encontrar o que dizer – Eu não tentei me matar... Eu tive câimbras... – explicou, olhando por instinto para a perna nua. Percebeu então que estava nu por baixo daquele avental hospitalar. Ouvira falar que a temperatura do corpo baixava durante um afogamento, então era normal que ele fosse aquecido, mesmo que ele achasse que uma mísera cueca não fizesse diferença.

– Ah. – Ikki respondeu, com legítima surpresa. Ele realmente tinha pensado que aquela havia sido uma tentativa de se matar e se questionava se teria ido longe demais com Shaka. Ouvir que aquilo fora um acidente fez com que se sentisse melhor. Sorriu discretamente e então percebeu que o loiro olhava para o avental com que a equipe médica o tinha vestido e notou uma expressão que não soube decifrar; seria desconforto com aquela vestimenta, talvez? Ou, quem sabe, frio? Ikki não ficou pensando demais; compreendeu que, uma vez que as roupas do advogado não se encontravam ali e que Shaka desejava sair de lá, era preciso ajudá-lo a se vestir com algo mais que aquele fino pedaço de pano que mal encobria as partes íntimas do outro. Retirou então o roupão negro e felpudo que vestia e colocou-o sobre os ombros de Shaka:

– Essa mansão é muito fria. Fica no meio de uma mata fechada, então a temperatura cai bastante à noite. – justificou-se, apontando para uma janela de onde se podiam ver as estrelas no céu – Pode ir para o seu quarto agora.

Shaka cobriu-se com o roupão, sentindo-se mesmo desconfortável naquele momento. Não sabia como agir com aquele novo homem à sua frente e suas novas atitudes. Ficou um tempo o observando e perdendo-se um pouco na observação do seu corpo seminu, embora isso o deixasse constrangido e com raiva de si mesmo por... notá-lo! Sua mente parecia traí-lo com pensamentos inadequados e por isso Shaka desviou o olhar.

Não sabia o que dizer. Antes era mais fácil ser sarcástico, agressivo, debochado. Agora, era estranho, só conseguia emudecer e corar de forma patética. Ergueu-se da cama, a panturrilha estava dolorida pela câimbra, ainda sentia seus pulmões queimarem e uma sensação de náusea. Justificava que era todo esse mal-estar que o deixava tão confuso em relação a Ikki. Mas estava confuso com tudo, na verdade. Saiu pelo quarto mancando em direção à porta, mas, ao parar, mirou o corredor; não sabia para onde ir.

– Eu não sei... pra que lado é... – falou, olhando ao redor, com certeza aquele lugar era muito maior do que pensava, mesmo que antes tivesse total noção de que a mansão era enorme. – Pode me ajudar? – pediu, meio perdido, meio perturbado, não sabia. Realmente não sabia.

Ikki imediatamente olhou ao redor. Com isso, não estava buscando meios de fugir da pergunta, até porque sequer cogitou a possibilidade de dar ao loiro uma resposta negativa. Estava era procurando por alguma cadeira de rodas, e não havia nenhuma por lá. Sacudiu a cabeça vigorosamente, nervoso. Alguém iria escutar uma bronca por isso. Bem, como o advogado estava em processo de recuperação, todo cuidado era pouco. Até se repreendeu por não ter se dado conta disso no instante em que Shaka lhe pedira para sair. O problema é que andava tão aturdido, que vinha cometendo gafes desse tipo.

Aproximou-se do outro, por fim, esticou os braços em sua direção e perguntou, em um tom que deixava claro que o loiro poderia recusar, se quisesse:

– Posso? – ele indagou, complementando com um gesto o que estava querendo fazer. Ikki perguntava se Shaka aceitaria ser carregado no colo por ele até seu quarto.

Shaka mirou o braço do moreno e foi subindo lentamente até o rosto dele, observando-o com uma grande interrogação brilhando em seus olhos azuis. Que jogo era aquele? Nunca se sentiu tão confuso em relação à outra pessoa. Geralmente ele fazia tudo sem pedir, suas vontades não tinham importância para seu poderoso sequestrador... O que havia mudado? Pigarreou, pensando por alguns segundos. Deveria fazer o jogo dele? Desafiá-lo não era prudente, sabia. Convencia-se que estava apenas fazendo o jogo dele quando assentiu positivamente com a cabeça. Além do mais, suas pernas doíam e ele não sabia a distância entre aquele quarto e o seu.

– Não sou muito pesado, nunca fui – disse quando o outro o pegou nos braços com uma facilidade incrível, deduzindo que devido aos últimos acontecimentos deveria estar ainda mais leve. Também falou aquilo para ganhar tempo para que sua mente perturbada pensasse no que deveria fazer dali para frente. – Devo está com o peso de um bebê nesse momento – continuou a conversa aleatória, mesmo percebendo que o moreno parecia concentrado, sem dar muito atenção ao que ele dizia. Era uma estratégia; ouvir a própria voz o impedia de prestar atenção às sensações que aquele contato lhe causava... Evitava que prestasse atenção ao calor, ao cheiro... – Tomara que não seja muito longe...

Ikki ergueu Shaka com grande facilidade, confirmando as palavras do advogado e o que seus próprios olhos já lhe diziam. Aquele loiro tinha emagrecido demais desde que tinha sido trazido para a mansão. Sim, isso acontecia às vezes. Shaka não era o primeiro a sofrer uma consequência do tipo, mas era o primeiro que havia tomado atitudes que conscientemente levaram a esse quadro que Ikki discretamente analisava agora. O moreno tinha compreendido; Shaka jogava de forma perigosa e Ikki, no momento, tentava encontrar a melhor maneira de reagir com ele. Sim, a palavra correta era "reagir", e não "agir". O poderoso dono da mansão tinha reconhecido: com Shaka, ele não estava no controle da situação. Fingia que sim, mas não conseguia enganar nem a si mesmo. Shaka agia de tal forma, que, para Ikki, restava apenas a tentativa de reagir da forma mais apropriada. De vez em quando, perguntava-se se estaria assim tão perdido, se Shaka tivesse aparecido em sua vida antes... Antes "dele". Afinal, não se podia negar mais. "Ele" havia mudado Ikki. Quanto a Shaka... Ele era diferente demais de todos os outros. Em alguns pontos, assemelhava-se a "ele", em outros era inteiramente distinto. Bufou, tentando fugir desses questionamentos que não pareciam levá-lo a lugar algum.

Com naturalidade, aninhou o corpo esguio um pouco mais junto ao seu, enquanto caminhava. Então, disse:

– Será que agora conseguiremos passar um dia sem que você arrisque sua vida?

Shaka estava cansado e aquele balanço nos braços do moreno fez seu corpo debilitado relaxar e sem que se desse conta acabou pousando a cabeça no ombro dele e fechando os olhos. A tensão foi embora de forma gradativa e isso, estranhamente, parecia natural na atual situação. Uma situação esquisita, mas que ainda assim era uma situação de trégua. Ele se sentia tranquilo, inexplicavelmente tranquilo naquele momento e poderia dormir nos braços de Ikki sem maiores preocupações. Parecia conhecer aquele lugar e isso era esquisito demais, mas ele não queria pensar, estava cansado demais e sabia que, quando se encontrava assim, o melhor era não forçar sua mente.

– Foi um acidente... – murmurou sonolento, quase ronronando e suspirou – Estou com sono... Vocês me deram algum remédio? – isso justificaria todo aquele relaxamento, ele pensava.

– Eles medicaram você, mas nada de mais. O cansaço que está sentindo é decorrente dos últimos dias. – notou que o loiro começava a adormecer, porém continuou falando mesmo assim: – Ainda que você não estivesse conscientemente buscando arriscar sua vida naquele momento... Em algum grau, em algum profundo nível da sua consciência, acredito que você estivesse procurando por isso. – finalizou, permanecendo em silêncio, ao notar que Shaka nada mais dizia e que seus olhos haviam se fechado de vez. Assim, chegou ao quarto destinado ao advogado, cumprimentou com um breve sinal de cabeça o segurança que guardava a porta e entrou. Com muito cuidado, colocou Shaka ali. Deixou-o enrolado em seu roupão, já que parecia tão confortável desse jeito. Mesmo assim, tratou de cobri-lo com esmero, como se o fizesse com uma criança. Em dado momento, percebeu que se demorava mais que o necessário ali e então suspirou. Permaneceu parado, em pé, ao lado da cama, fitando com seriedade a figura do advogado, que agora jazia tão pacificamente sobre a cama. Acabou dando voz a seus pensamentos:

– Não me force mais, loiro. Não me force a agir assim. Eu estou cansado... Eu não quero. Mas preciso. – suspirou longamente, enquanto seu olhar denso voltou-se para a varanda, dando a impressão de que Ikki continuava esse discurso internamente, silenciosamente. Depois de algum tempo assim, voltou a encarar o outro: – Você é diferente, muito diferente. Está se mostrando firme, não como eu esperava, mas de maneira inusitada. Gostaria de tê-lo conhecido em outra época, em outra situação. Aí, quem sabe... Talvez... muitas coisas pudessem ser bem diferentes. – falou, olhando para Shaka, que parecia dormir placidamente. Em seguida, deu meia-volta e deixou o quarto.

Mas Shaka não estava completamente adormecido, embora muito sonolento, abriu levemente os olhos e ouviu o que Ikki disse, embora não tivesse condições de entender tudo. Quando ele saiu do quarto, o loiro ergueu a mão, como se quisesse dizer algo, mas acabou deixando a mão cair sobre a cama e adormeceu depois que a porta bateu.

Título: A boca fala do que está cheio o coração.

Notas finais
É, parece que o Shaka está minando as forças do Ikki. Até quando eles resistem? Hahahahaha, vamos ver! Beijos no core de vocês!!! Sion