Nelumbo nucifera
14 Dulcia non novit qui non gustavit amara
Notas iniciais
Dulcia non novit qui non gustavit amara
Chapter XIV
– Afogamento? – Aiolia indagou ao receber o relatório que o homem tinha em mãos. Trocou um olhar com Aldebaran, um olhar de advertência, e depois amassou o papel com raiva o atirando no lixo – O que mais vai acontecer, ele cortar os pulsos?
Aldebaran lançou um olhar a Mu, que estava mais pensativo que o normal naquele dia. As coisas não iam bem, os dias se arrastavam sem que houvesse progressos quanto ao futuro promotor. Naquele dia, ele recebera ligação d’A sede, como chamavam a célula principal de operações d’A sociedade. Eles cobravam resultados e não havia muito tempo. Soubera que o novo candidato a promotor público era aguerrido, ao que parecia, Saga Vaskália trabalhava nos bastidores para que não houvesse nomeação antes da solução do sequestro de Shaka Phalke, mas até quando ele seria eficiente, ninguém sabia.
– O pai? – Mu perguntou, sem nenhum alarde.
– Silencioso – respondeu Aldebaran, jogando um relatório sobre a mesa. – A polícia ainda segue nossa pista falsa, a família não permite que o sequestro se torne público, como exigimos, tem poder para isso e está cumprindo bem o acordo.
– E o namorado?
– Está acompanhando as investigações, assim como o irmão. Fora da mansão do Ikki está tudo sob controle – Aiolia disse, preocupado. – Mu, não leve a mal, mas não acha que estamos sendo condescendentes demais? E se ele tivesse morrido?
– Creio que Ikki não deixaria isso acontecer – falou Aldebaran. – Ele sabe a importância de Phalke. Acredito que ele usou alguma estratégia que deu errado. Vamos lá, deem um voto de confiança pro cara, esse é o caso mais difícil e também o mais importante, ele foi pego de surpresa, precisa experimentar dessa vez e é o que está fazendo.
– Espero – Mu disse, ainda tranquilo. – Entreguem esses relatórios a Afrodite. Acho que talvez eu faça uma visita à mansão, não me agradam os rumos que as coisas estão tomando.
– Acho que é cedo para isso, Mu – Aldebaran retorquiu, preocupado.
– Por isso eu disse “acho”. Ainda estou pensando. Dispense o homem que trouxe o relatório e dê um jeito para que ele não se sinta um espião. Se Ikki souber dessas mensagens... será bem perigoso.
Mu falou e simplesmente saiu, sem mais explicações. Aiolia e Aldebaran se entreolharam, mas não disseram nada. Apenas fariam, como sempre, o que tinham que fazer.
Quando Ikki despertou, o dia já estava claro. Por isso, o moreno se levantou da cama maldizendo-se por ter perdido a hora. Costumava levantar muito cedo, quando ainda estava escuro.
Não tinha dormido bem e sentia seu corpo mais cansado que o normal. Não que ele viesse fazendo mais esforços físicos que o de costume; nesse ponto, nada havia mudado. O problema era psicológico, ele sabia muito bem. E, embora Ikki odiasse admitir, seu lado emocional tinha grande poder sobre ele, sendo capaz de ajudar ou, como acontecia na maioria das vezes, atrapalhar sua vida.
Embora já atrasado em sua rotina, não podia deixar de se arrumar daquela forma impecável. Fazia parte do teatro que precisava encenar todos os dias. Camisa social preta, calça e blazer cinza-prata... Olhou para sua imagem no espelho e suspirou enfadado. Não gostava de se vestir assim, definitivamente. Já fazia tempo que precisava usar desse figurino que, para ele, nada tinha a ver com a sua personalidade. Mas eram as regras do jogo, não podia ir contra elas, não enquanto houvesse tanto em jogo. Entretanto, não podia negar; sentia muita falta do modo como se vestia antigamente. Muito mais simplório, mas bem mais confortável...
Ouviu baterem à sua porta enquanto amarrava uma gravata cinza-prata ao pescoço. Apenas disse que entrasse, e logo seu mordomo apareceu:
– Senhor Ikki, que bom vê-lo em pé. O senhor nunca dorme até tarde... Da primeira vez que aqui entrei, cheguei a chamar pelo senhor, tentando acordá-lo, mas seu sono era tão profundo que nem se mexeu. Deixei-o estar, pareceu-me que precisava desse descanso.
– É, mas já estou bem e desperto. — Ikki finalizou, não querendo dar assunto demais ao fato de ter quebrado sua rigorosa rotina. Passava o gel nos cabelos, dando-lhes aquele aspecto revolto e elegante ao mesmo tempo — O advogado já acordou? — perguntou sem tirar os olhos de seu próprio reflexo.
– Ainda não. Mas imagino que desperte em breve também...
– Ótimo. Mande que preparem o café da manhã dele, Khan. E coloquem em uma bandeja; eu mesmo irei levar.
Shaka já tinha acordado fazia alguns minutos. Acordou sentindo o nariz congestionado um pouco, mas havia um remédio, deixado ao lado da sua cama com instruções, e ele o engoliu, auxiliado por um copo d’água também deixado ali, estrategicamente. O advogado tomou banho, escovou os dentes e se vestiu numa calça bege e camisa salmão, calçando sapatos marrons elegantes e prendendo os cabelos. Olhou-se no espelho, ainda estava pálido e abatido e seu nariz, um pouco vermelho, mas ao menos as olheiras tinham desaparecido depois da boa noite de sono. Colocou perfume. Queria estar com uma aparência impecável. Aquilo seria um sinal de que suas atitudes estavam mudando, ao menos era o que pensava.
Colaborar com tudo seria sua nova estratégia. Precisava saber o que aquele homem queria, qual era o plano para ele. Sabia que havia psicopatas que sequestravam pessoas e as mantinham prisioneiras por anos, mas essa ideia já estava distante; Ikki o queria para alguma coisa, algo relacionado à lei, à quebra da lei. Precisava ser paciente e descobrir o que era. O incidente na piscina parecia derrubar a última defesa do moreno. Shaka sabia que não podia confiar totalmente nisso, mas iria se apegar a qualquer coisa que pudesse para conseguir sair dali. No fundo da sua mente, todavia, algo sussurrava que sua mudança de atitude tentava camuflar um sentimento novo; apagar os vestígios de algo que ele não queria que viesse à superfície. Então Shaka fazia o que estava acostumado a fazer nesses momentos: ignorava. Ignorava o alerta e seguia com os planos práticos. Ele era assim.
Suspirou e se sentou na cama, esperando que Khan aparecesse para levá-lo à sala de jantar. Não queria ficar confinado naquele quarto, já tinham bastado os quase cinco dias de fome e sede e por algum motivo, aquele lugar o incomodava mais que a saleta de TV.
Ikki dirigiu-se ao quarto e, quando estava próximo da porta, Khan apareceu trazendo-lhe a bandeja com o café da manhã. Com um gesto, acenou para o segurança que vigiava a porta e esse homem abriu-lhe passagem. Ikki adentrou o aposento e, por um segundo, recordou-se de seu papel, de como deveria sempre parecer invulnerável, imponente, senhor de si. Precisava demonstrar que não se importava com nada nem com ninguém... E até certo tempo atrás, acreditava que essa era uma verdade. Com que desgosto ia descobrindo que não era bem assim. Shaka estava lhe quebrando... É bem verdade que esse processo tinha sido iniciado por outra pessoa. É bem verdade que "ele" tinha sido o causador de tudo, "ele" começara a quebrar sua armadura, tão cuidadosamente forjada ao longo dos anos. Entretanto, Ikki conseguira se recuperar antes que fosse tarde demais. Conseguiu salvar a missão, sendo que pouco antes quase tinha colocado tudo a perder. A Sociedade perdoou esse erro, até porque Ikki foi enfático ao dizer que algo do tipo nunca mais aconteceria novamente. Nunca mais.
Nunca mais.
Ikki deu alguns passos dentro do cômodo e logo o advogado estava em seu campo de visão. Discretamente, Ikki suspirou. Mas que droga! Ele mesmo havia acreditado que nunca mais aconteceria novamente. Ele reergueu suas barreiras, mais fortificadas que nunca! Não era idiota, não cairia no mesmo truque duas vezes! Porém...
Shaka não tinha, obviamente, as mesmas intenções que "ele" teve. São muito diferentes, os dois. E a grande diferença entre eles é que tudo o que foi falso "nele" parece verdadeiro e genuíno em Shaka. E esse, Ikki começa a reconhecer, é o grande problema nessa história.
Seria a última missão de que faria parte. Não iria mais continuar. Não era essa a vida que queria para si. Tinha um objetivo a alcançar, estava quase lá. Depois... sumiria no mundo. Poderia voltar a ser quem sempre foi. Seguiria como um lobo solitário, até porque, não restara qualquer pessoa para quem pudesse se voltar. Perdera todos. Por isso, por um tempo, tinha se perdido de si mesmo. A Sociedade é que o ajudou a se encontrar. Devia muito a ela... Mas, principalmente, engajara-se a ela porque somente assim conseguiria atingir suas metas. Somente depois disso, poderia se considerar livre... se é que existe liberdade para um homem como ele.
De todo modo, estava quase lá... Tão perto... E então, Shaka apareceu. E tudo se tornou mais difícil. O loiro tinha força de vontade. Não que os outros não tivessem também, mas a gana desse loiro era incomparável à dos outros. Às vezes, Ikki achava-o comparável apenas a si mesmo. E isso não era bom, significava que Ikki tinha encontrado um adversário à sua altura, ou melhor dizendo... um homem tão louco quanto ele, capaz de minar todas as suas forças em prol de um objetivo. Louco o bastante para não deixar que quebrem seu orgulho de forma alguma... Louco em definitivo, a ponto de colocar a própria vida em risco. Shaka instigava a curiosidade de Ikki, característica inata do moreno. E o advogado não fazia isso de propósito, como "ele" fez. Não é algo arquitetado, planejado da parte do loiro... e isso só faz com que a curiosidade de Ikki aumente. Inesperadamente, surgiu no moreno o desejo de conhecer Shaka mais a fundo. O que o faz ser assim? Teriam eles algo em comum? Essas foram indagações que Ikki se fizera quando "ele" fora seu prisioneiro na mansão. Mas, com "ele", tudo fora uma grande mentira. Por esse motivo, embora as situações fossem tão parecidas, eram tão diferentes. Em Shaka, tudo isso era tão verdadeiro, que deixava o dono da mansão desconcertado. E é assim, perplexo, que Ikki ia tentando encontrar o caminho ideal para seguir, para lidar com Shaka. No entanto, essa trajetória ia se tornando cada vez mais difícil, pois Shaka estava despertando um lado que Ikki desconhecia em si mesmo e isso, tinha de admitir, assustava o moreno. Balançou de leve a cabeça; precisava expulsar essas impressões de sua conturbada mente. Lançou um olhar para o advogado, tentando transparecer grande autoconfiança. Esboçou um sorriso esnobe, sarcástico. Todavia, toda essa máscara se desfez de imediato, tão logo olhou para os pulsos do loiro e se lembrou instantaneamente do ocorrido no primeiro dia em que Shaka esteve ali. Precisava tomar cuidado, eles eram pessoas diferentes. Não podia descarregar as frustrações que tivera com "ele" em Shaka. Tinha de se conter. Precisava. Era mais que necessário, era quase uma questão vital. Ikki não gostava de quem se tornava quando as lembranças "dele" afloravam em sua mente. Despertavam o pior de si... ou, possivelmente, despertavam seu verdadeiro eu. Ikki imaginava que estava longe de ser a melhor pessoa desse mundo. Agora, no entanto, via-se como a pior, capaz de atrocidades. O teatro começava a se fazer real e Ikki ia se tornando a pessoa que antes apenas fingia ser. E quem sofria as consequências disso era Shaka.
O moreno analisou, ainda a alguma distância, a figura de Shaka.
Reparou como estava debilitado. E, pela primeira vez, a consciência de que era o único causador daquele estado do loiro atingiu-o como um raio. Era óbvio que sempre soube disso, mas encobria sua consciência com uma couraça, como se assim fosse capaz de não sentir. Tinha sido bem sucedido nisso por todo esse tempo. Tão bem sucedido que, no final, tinha se tornado... o que mais odiava?
Não! Não! Não fazia nada disso por motivos egoístas! Havia uma causa justa, até mesmo nobre por trás... Não havia???
Ikki sentiu náuseas. O que ele estava fazendo? Shaka era inocente! Todos eles, todos os antigos prisioneiros também foram inocentes! Todos eles... Eram peças de um jogo maior? Às vezes, era necessário o sacrifício de alguns? Mas quem era A Sociedade para tomar essas decisões? Ninguém nem mesmo perguntou aos prisioneiros se queriam fazer parte disso!
É verdade que todos aceitaram participar, no final. E, aparentemente, de livre e espontânea vontade. Contudo, Ikki sabia muito bem que não tinha sido assim. Ele enredara todos os prisioneiros d' A Sociedade de tal forma, em um perigoso jogo psicológico, que terminou por transformar todas aquelas pessoas em joguetes. Sim, era isso que ele tinha feito até então. Era isso que ele era. Um manipulador. Um maldito manipulador!!
"Ele" foi responsável por fazer Ikki começar a enxergar essa verdade. "Ele" quis inverter o jogo. "Ele" não era um prisioneiro como os outros, era um espião infiltrado. E Ikki caiu em sua armadilha como um idiota! Depois de descobrir tudo a tempo, não foi difícil para Ikki se reerguer. Especialmente por saber que "ele" era um grande mentiroso, foi relativamente fácil ignorar todo esse lado humano, que começara a despontar em si. Sua consciência, que doera por um tempo, havia sido trancada em algum profundo recôndito de seu ser. Entretanto, o surgimento de Shaka, as semelhanças entre os dois, o fato de tudo em Shaka ser verdadeiro... todas essas questões começaram a quebrar Ikki por dentro. Suas poderosas barreiras internas estavam cedendo. Caíam como se fossem feitas de areia. Ikki não se reconhecia mais. Estava perdido. Precisava aparentar uma imagem que lhe parecia impossível agora. E a única frase que ecoava, repetidamente, em sua fatigada mente era: "O que estou fazendo? Céus, o que eu estou fazendo???"
A essa altura, estava já diante de Shaka. Todo esse turbilhão de pensamentos lhe veio em questão de milésimos de segundo. Não foi capaz de levantar os olhos para encarar Shaka. Não se sentia capaz. Os olhos estavam presos à bandeja que segurava. Porém, tinha uma tarefa a seguir. Um lado seu ainda lutava para resistir, para não deixá-lo esquecer. Lutava contra a consciência que desabrochava mais e mais forte. Os olhos escuros, misteriosos como uma noite de tempestade, esforçaram-se por abandonar a bandeja e fixar-se no homem a sua frente. Precisava encarar Shaka, mostrar que estava no comando. No entanto, quando os olhos cor de madrugada enfim abandonaram a bandeja de prata, a primeira imagem que vislumbraram foram os pulsos de Shaka. Isso o remeteu imediatamente a "ele". Inadvertidamente, impulsivamente, Ikki falou, como um reflexo, tão baixo que foi quase inaudível:
– Hank...
Rápido, porém, percebeu o que acabara de fazer. Demonstrou-se agitado e falou, apressado:
– Eu... vim lhe trazer o café da manhã. Vai comer aqui. E... – olhou ao redor, como se buscasse qualquer coisa que o ajudasse a se livrar da situação que causara – Eu sei que não se sente bem comendo na minha presença, então eu vou sair para que possa se alimentar devidamente. – disse, quase atropelando as palavras à medida que iam sendo enunciadas.
– Fique... – foi o que Shaka falou antes que ele se retirasse do quarto. Seu semblante, mesmo cansado, era tranquilo e ele encarava Ikki diretamente, não de maneira agressiva, mas com firmeza. Seus ouvidos atentos captaram o murmúrio quase imperceptível do moreno, pois Shaka o analisava desde que ele parou à porta com a bandeja nas mãos. Ikki ainda parecia reticente, embora tentasse mostrar a mesma confiança do começo. – Não quero comer sozinho dessa vez. – Shaka disse com um sorriso leve. – Passei muito tempo com aqueles seus seguranças mudos. A não ser que prefira mandar outra pessoa me fazer companhia, um dos empregados, que não seja o seu fiel Khan, deveria chamá-lo de cão – riu com o próprio trocadilho, mas depois voltou a ficar sério, observando o moreno com olhos analíticos, desconfiados, contudo sem hostilidade. Precisava entender aqueles homem de atitudes tão contraditórias.
Nos últimos dias, desde que ele adoecera, Ikki havia mudado de comportamento, mostrando-se preocupado e inquieto, o completo oposto do sociopata do começo daquela estranha relação. O advogado tentava entender, descobrir se aquilo era um novo jogo, uma nova estratégia para minar suas forças ou se era algo real. Ainda não tinha certeza da verdade e por isso seria necessário investigar mais, sondar, e para isso, não podia perder qualquer chance de observá-lo. Na faculdade, ele e alguns amigos montaram um jogo que chamaram de “dança das cadeiras” em que, a cada rodada, as posições num tribunal fictício eram mudadas e cada estudante passava de réu a advogado, de advogado a promotor, de promotor a testemunha. Naquele momento, ele iniciaria uma nova “dança das cadeiras” e jogaria com Ikki, alternando os papéis de vítima e promotor. Todavia, precisava que o moreno não percebesse isso. Precisava ser convincente. Mas como seria se também se sentia perdido naquele momento? Shaka nunca se achou tão confuso em relação a outra pessoa. Ikki, de certa forma, o surpreendia. Todas as vezes que pensou que ele se aproveitaria da sua fragilidade ou mesmo imprudência, o moreno se mostrou compreensivo e preocupado. Shaka conseguia lidar com a violência, com o olhar de superioridade, com a raiva, com o sarcasmo, mas com isso, não. E agora havia aquele nome. A quem pertenceria aquele nome? Provavelmente a um outro prisioneiro. Talvez fosse apenas um lapso do moreno e não devesse dar importância a isso. Mas em seu íntimo, algo lhe dizia que precisava descobrir quem era o tal Hank. Entretanto, não era o momento de falar daquilo, então continuou sentado, esperando a resposta de Ikki.
– Eu... ahn... — Ikki não podia acreditar no que estava acontecendo. Ele estava hesitando? Shaka enfim começava a ceder, aceitando fazer uma refeição em sua presença, por livre e espontânea vontade e ele, Ikki Amamiya, estava duvidando se deveria estar aceitando ou não? Mas o que estava dando nele, afinal? Não, não. Isso não poderia continuar. Ele precisava voltar ao seu modo normal. Respirou fundo, mas tentando não deixar que o loiro percebesse sua necessidade de se acalmar. E, buscando a voz mais neutra que conseguiu, respondeu, o mais assertivo que conseguiu fingir ser: — Claro. Eu fico aqui. — disse e se sentou em uma poltrona que ficava em frente à mesinha de centro, onde tinha depositado a bandeja. Shaka estava sentado na poltrona que também se posicionava diante dessa mesa, de modo que os dois agora estavam, basicamente, frente a frente.
O loiro pegou uma xícara e derramou o chá que desprendeu uma fumaça perfumada sobre os dois. Eles se encaravam como se um esperasse o outro dar o primeiro passo. O jogo começava e Shaka sabia que deveria ser ele a iniciar aquela dança perigosa que se propôs a fazer.
Provou o chá lentamente e depois suspirou de prazer, sorrindo.
Posição vítima:
– Posso adivinhar, maçã, canela e raspas de laranja. É o meu favorito. É o chá que uma babá indiana que tive fazia pra mim na infância... Você gosta de chá, Ikki? Deixe-me responder: não, você gosta de café. Acertei? – tentava não se desviar de sua estratégia. Uma conversa banal que talvez levasse a uma conversa mais íntima, mais interessante.
– É, eu... gosto de café. — instantaneamente, procurou pelo líquido revigorante sobre a bandeja e logo se lembrou de que não havia nada ali para ele; afinal, tinha imaginado que Shaka comeria sozinho. Remexeu-se sobre o assento — Eu sei que é seu chá preferido. Temos uma série de papéis que falam tudo sobre você, lembra? — não sabia por que tinha sido tão rude agora. O loiro estava cedendo. Não deveria amenizar o tom também? Sim, deveria. Mas não estava em pleno controle de si no momento. Inquieto, fez um sinal para um de seus homens — Mande Khan me trazer café. — falou, ríspido.
Shaka sorriu internamente. A resposta atravessada evidenciou que Ikki não estava completamente à vontade naquele momento. Isso era bom, mas também poderia ser um entrave, então ele precisava manter um tom ameno, por mais que continuasse a investigá-lo.
Posição promotor:
– E eu sei que você sabe. Talvez até soubesse o significado dele pra mim... – sorriu do mesmo jeito simples de antes, sedutor, sem ser apelativo; da mesma forma que costumava fazer no tribunal para ganhar a simpatia e a confiança de uma testemunha. – O que tem gosto de infância pra você, Ikki? Tem algo especial que te lembre de casa?
Isso era esperado. Ikki já tinha, como uma das suas metas, chegar a esse ponto. Uma das formas de ganhar a confiança do prisioneiro, era travando conversas íntimas. Claro que esse estágio apenas era alcançado depois de um tempo e depois de o seu cativo ter conhecido seu lado teatralmente cruel. O moreno sentiu-se um pouco confuso, no entanto. Shaka já tinha alcançado tal estágio? Bem, não poderia demonstrar confusão agora. – Muitas coisas. Bola de futebol, doces, correr na rua... – como sempre fazia, de acordo com um roteiro previamente construído, Ikki ia dando as respostas costumeiras, bastante evasivas, nitidamente vagas, mas que, mesmo assim, eram suficientes para criar algum laço com o aprisionado. Entretanto, sem saber como ou porquê, sentiu a necessidade de acrescentar uma frase; necessidade que lhe brotou no peito exigindo ser enunciada e que, diante do sorriso de Shaka, que parecia tão inocentemente convidativo, não pôde ser contida. E, sem pensar demais, acrescentou, com um meio sorriso nos lábios e um olhar algo perdido — Correr... na chuva...
– Adoro a chuva – Shaka disse, sorvendo mais um gole do seu chá. – Acho que a chuva é o que mais me lembra a infância, mas não são lembranças boas porque eu não podia sair de dentro de casa nos dias de chuva. Acho que eu gostaria de correr na chuva... – disse, um tanto distraído, mas rapidamente voltou a sua posição sedutora de advogado durante o interrogatório de uma testemunha. – Cresceu aqui mesmo? Digo, nessa cidade? Eu, como você já deve saber, cresci aprisionado numa mansão. Pobre menino rico – riu mais abertamente, pegando uma torrada integral na bandeja e começando a passar geleia nela. De forma suave, continuava na posição promotor, mas sabia que necessitava ter cautela. Ainda assim, precisava chegar a um ponto e não poderia manter a frivolidade por muito tempo. Talvez não tivesse tanto tempo assim.
– Não sabe o que perdeu. — nesse instante, Ikki recebia seu café. Seu sorriso alargou-se, ele bebeu um gole e logo pareceu mais tranquilo. Entretanto, em vez de assumir sua condição dominadora de sempre, Ikki apresentou um olhar sonhador e distante — Correr na chuva traz a maior sensação de liberdade que eu já conheci. — falou, em um tom extremamente distinto do que normalmente usava. Bebeu mais um pouco do café e então respondeu: — Cresci em outra cidade. — outra vez, dizia uma verdade. Mas não se importou, essa informação não dizia praticamente nada a seu respeito...
– Pais e irmãos? – Shaka indagou, mas sabendo, por meio de reação anterior, que aquele era um terreno mais delicado, tratou de emendar de maneira mais amena. – Eu não tive irmãos, minha infância foi muito solitária, na verdade... sou uma pessoa solitária... – acabou desviando-se do plano traçado e não soube bem o motivo de ter feito aquilo. Baixou o olhar, um tanto constrangido consigo mesmo, e mordeu sua torrada, mastigando lentamente, sem mais olhar o outro. Voltava a ser a vítima agora; desconfiada, ressentida, encurralada. Não gostou dessa sensação.
A pergunta de Shaka fez com que rapidamente voltasse a si; era pessoal demais. Porém, quando já se preparava para dar uma resposta atravessada e talvez até grosseira, Ikki ouviu o que o advogado disse logo em seguida. As palavras do loiro soaram diferente do tom que costumava usar e o fato de ele corar levemente logo em seguida atingiram o moreno em cheio. A emoção se sobrepôs à razão e o poderoso dono da mansão falou:
– Eu tive um irmão. Tive pai e mãe. Tive uma família. — soltou, sentindo-se de certa forma leve com essa confissão abrupta. Fazia tanto tempo que não dizia essas palavras em voz alta... O simples pronunciar delas trouxe-lhe certo alento ao coração. Viu então que Shaka aparentava surpresa diante do que acabava de dizer — É; imagino o que esteja pensando. Até os monstros têm família... — sorriu, mas tristemente.
– Eles morreram – não foi mais uma pergunta. Shaka afirmou. Ao mesmo tempo que ele queria manter aquela conversa, sua mente começava a pensar demais naquele assunto. Família; eis um ponto capaz de mexer com o advogado. Talvez por nunca ter tido uma família de verdade. A solidão sempre o acompanhou e ele até gostava dela, mas talvez, como até o próprio Ikki já tinha notado, essa mesma solidão o deixasse um tanto distante das pessoas, excluído da afetividade dita normal. Pigarreou. Precisava manter a “dança das cadeiras”, Ikki estava se abrindo. Contudo, uma das características do jogo era a eterna alternância de papéis e ele não estava escape disso. Terminou o café, tentando continuar tranquilo. Ikki permanecia em silêncio. Quando finalmente pousou a xícara, encarou o moreno e resolveu mudar de assunto, já que ele não parecia disposto a responder a pergunta.
– Quero ir lá fora. Gostaria de ver o cachorro, posso? – pediu. Ainda mantinha a altivez de sempre, mesmo tentando ser um tanto mais condescendente. De sua dignidade não abriria mão e achava que o moreno entenderia isso.
Ikki, que travava uma viagem interna por conta daquela conversa, olhou para Shaka interrogativo. Franziu o cenho, tentou analisar a figura do loiro, mas ele estava, como sempre, daquela forma que nunca conseguia desvendar por inteiro. Suspirou, frustrado por sentir que, se aquela conversa era um avanço, por outro lado, não conseguia ainda compreender ao certo quem era Shaka Phalke. Ele ia muito além de todos aqueles relatórios que tão cuidadosamente havia estudado, isso era fato. – Você está sendo castigado pelo seu comportamento, lembra? Não deveria ter saído sem minha permissão. Desobedeceu à minha ordem expressa. Agora, tem de arcar com as consequências... – Ikki falava e se surpreendia em perceber como não conseguia, mesmo tentando, parecer autoritário nesse momento, conforme deveria. Sua fala e seu tom soavam quase como um pedido de desculpas por ter de se negar ao pedido feito.
– Esqueceu que havia revogado meu castigo pouco antes de eu quase me afogar? – Shaka sorriu um tanto sarcástico, não com aquele sarcasmo que tinha por objetivo espezinhar o outro, mas por perceber que Ikki realmente deveria estar confuso para esquecer aquilo. – Vamos, Ikki, Khan ficará chateado se tiver que me trazer lençóis e toalhas o dia inteiro – e riu mais abertamente, de um jeito novo, sapeca, de alguém que fez uma grande molecagem. Estava perdendo o controle, sabia. Naquele momento não sabia se representava ou se realmente a sensação de bem-estar que o acometia tinha outros motivos que pequenas vitórias.
As posições se alternavam sempre. Sempre.
– Hum... — Ikki precisava reconhecer; estava confuso. Sua relação com Shaka não era de muito tempo, mas já estava cheia de altos e baixos. E, quando começava a achar que não se surpreenderia com mais nenhuma atitude do loiro... lá vinha o advogado deixá-lo sem reação outra vez. O sorriso jovial e brincalhão de Shaka era tão inesperado quanto cativante. Pego de surpresa por esse sorriso e envolvido pelo seu brilho que naturalmente atraía, o moreno não conseguiu evitar e acabou sorrindo de volta, meio tímido a princípio, mas terminou abrindo-se um riso mais largo e, por que não dizer, verdadeiro? — É, você está conseguindo deixar Khan cansado. Coitado, ele só está seguindo ordens... — nesse mesmo instante, sua perturbada mente fez questão de acrescentar para si mesmo: "Assim como você, Ikki. Não leve para o lado pessoal. Não faça isso." Entretanto, como se ignorar seu instinto não fosse nada de mais agora, Ikki prosseguiu: — O problema em liberá-lo desse castigo é que nunca sei se posso esperar que você se comporte como deveria. — a frase, embora repreensiva, soou quase como uma bronca divertida, mais leve, demonstrando que a negativa de Ikki em ceder não seria dificilmente derrubada.
Shaka também sorriu abertamente e estendeu a mão, quase que inconscientemente, tocando a mão do moreno. – Eu prometo me comportar – disse e só depois que percebeu um pequeno sobressalto em Ikki, foi que realmente se deu conta do que fazia, recolheu a mão, um tanto constrangido, desviando o olhar dele, sem jeito, e esperou sua resposta.
– Eu... é... tudo bem. — Ikki respondeu meio sem pensar; o toque em sua mão não tinha sido esperado. E o mais estranho era ele ter ficado tão sobressaltado. O que havia de mal em um toque? Em todos os outros casos, ele buscava exatamente isso, uma proximidade que se concretizava quando um lado de seus prisioneiros passava a criar certa confiança nele, buscando por ele, por um toque seu. Ikki sabia, como poucos, usar a Síndrome de Estocolmo a seu favor. Dizia se orgulhar dessa sua "qualidade", mas a verdade é que não sabia se a palavra correta seria essa. Possivelmente não. Provavelmente não. Entretanto, não queria pensar demais a respeito. Não valeria a pena. Afundar-se em culpa? Não achava que isso pudesse fazer alguma diferença. Em verdade, essa era uma desculpa esfarrapada que criara para si mesmo; dizia não se importar, lembrava-se de que havia uma causa maior em jogo e assim ia seguindo, sem ter de enfrentar sua própria consciência, que fazia questão de ignorar solenemente. Era claro que ele não conseguiria fingir que sua consciência não existia para sempre. Uma hora teria de encará-la. E sabia bem que isso iria destruí-lo quando acontecesse. Então, não havendo saída, evitava. Fugia. Sobrevivia assim.
De qualquer modo, o toque de Shaka em sua mão foi diferente. Sua guarda estava baixa, sua consciência lutava para se fazer ouvir... Nesse instante, o que ocorreu foi simples. Shaka não tocou na dura couraça, na forte armadura forjada para ele se proteger e não sentir. Shaka conseguiu tocar em um Ikki despido de tudo isso, vulnerável, humano. E fazia muito tempo que o moreno não sentia um toque assim, que o surpreendesse verdadeiramente. Se por um lado se repreendeu, por não ter antevisto isso, por outro... Ele gostou. A pequena, porém agradável surpresa, fez com que ele sentisse um pouco de como era estar vivo e não ter todo um roteiro de cada ato seu e daqueles que o rodeiam.
Por tudo isso, concordou sem pensar. Aceitou dar um fim ao castigo. Agia por impulso. E não pensava nas consequência. — Está bem então. — falou, com a voz tranquila — Vamos sair. — fez um gesto para que o loiro fosse com ele para fora daquela sala.
Shaka sorriu, embora estivesse um tanto sem jeito pelo gesto, e se ergueu, saindo animado do quarto. Desceu as escadas, sendo seguido de perto por Ikki. Quando eles ganharam a área externa, o loiro procurou com os olhos um caminho a seguir. Sabia onde ficava a piscina, então imaginou que o canil deveria ficar do lado oposto e foi para lá que ele seguiu ao lado do seu contestável algoz.
Título: Não gosta de doce quem não prova o amargo.
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