Nelumbo nucifera
15 Amor et potestas impaciens consortis
Notas iniciais
Amor et potestas impaciens consortis
Chapter XV
– Só há o Falcon ou há outro cão? – Shaka indagou, procurando o local com os olhos, dando evidências do quanto era atento, ao citar o nome do cão, que só ouvira uma vez.
– Só o Falcon. – respondeu Ikki, apreciando verdadeiramente o fato de Shaka referir-se ao seu cão pelo nome. – Eu o tenho desde quando ele era um filhote. Estava na rua e um bando de pivetes que não tinha mais o que fazer o estavam perseguindo, tacando pedras e latinhas nele. – o moreno bufou, demonstrando que, mesmo tantos anos depois, esse evento ainda mexia com ele – Eu espantei os garotos e fiquei com Falcon para mim. Nunca fui uma pessoa apaixonada por cães ou animais, de modo geral. Só adotei Falcon porque... ele era diferente. Era como eu. Um sobrevivente. – nesse momento, chegaram ao canil, que era enorme, digno de uma mansão como aquela. Falcon era mesmo o único cachorro ali e, percebendo que Ikki se aproximava, correu na direção da porta que lhe daria acesso para fora do canil. Ikki liberou o animal, que avançou para cima dele, parecendo esquecer de seu grande porte, pulando como se fosse pequenino o suficiente para caber nos braços do moreno. Ikki riu gostosamente, genuinamente. Abraçou seu cão com vontade, afagou-lhe o pelo carinhosamente e sorrisos saltavam-lhe dos lábios o tempo todo. – Em um mundo como esse, nós nos encontramos. – Ikki falou, fazendo uma carícia mais vigorosa no seu labrador, encarando-o com alguma melancolia – E nunca vamos deixar o outro. Certo, garotão? – abriu um novo sorriso, algo nostálgico.
Shaka observou-o atentamente, tentando desvendar as nuances daquele homem, que poderia ser tão rude às vezes e também tão generoso a ponto de resgatar um cão abandonado e cuidar dele com tanta devoção. Passou uma mão nos cabelos, sentindo-se confuso em relação ao que sentia, mas sem conseguir tirar os olhos dos dois. Em sua mente passava mil coisas ao mesmo tempo e uma sensação angustiante o tomava. Tentava desvendar um mistério. Ikki era um homem contraditório e enigmático.
– Eu nunca pude ter um cachorro... — disse, pensativo, mas depois sorriu, tentando se libertar daquela sensação e manter a leveza daquela conversa “despretensiosa”. — Meu pai dizia que eu precisava me concentrar nas coisas certas. Havia um gato, mas um gato não é tão divertido quanto um cachorro. — agachou-se, chamando Falcon para brincar. O cachorro pareceu desconfiado de início, mas depois se aproximou dele, o farejando, e Shaka começou a afagar-lhe o pelo, coçando atrás da orelha dele. – Nossa! Daqui de baixo você parece enorme, garoto! — riu, continuando a brincar com ele. O cão ergueu as patas e as apoiou nos joelhos do loiro, fazendo o advogado desabar na grama. O cachorro então passou a sacudi-lo com a grande pata, como se o loiro fosse uma criança disposta a brincar. Shaka começou a rir, rir de verdade, enquanto Falcon, curioso, apoiava as patas em seu peito e o sacudia de leve. Naquele momento, realmente ele esquecia-se de que era um prisioneiro e de que estava ali contra sua vontade, dedicando-se a brincar com o cão, rolando um pouco na grama, cada vez que ele tentava prendê-lo com a pata, não se importando em sujar a roupa impecável que vestia e nem muito menos com Ikki. Ficou alguns minutos brincando com Falcon, girando o corpo, segurando as patas do cão, até que se deu conta de que o moreno o observava com uma expressão obscura. Então, pigarreou, sem jeito, e sentou-se na grama, limpando a roupa, enquanto o cachorro procurava mais brincadeira.
– Chega, garoto, já chega – disse, um tanto constrangido, mas sem ser rude.
Ikki, em um primeiro momento, havia gostado muito de ver como Shaka demonstrou interesse em se aproximar de Falcon. Até chegou a abrir um sorriso quando seu cachorro começou a brincar com o advogado. Entretanto, à medida que o loiro ia rolando mais e mais animado com Falcon pela grama, mais Ikki sentia que algo ali não estava certo. O moreno sentiu-se confuso; o que poderia estar errado? Essa não era meta? Criar algum laço, algum vínculo? Construir uma ponte? Ganhar a confiança do prisioneiro? De certa maneira, não começava a caminhar para isso? Estava sendo bem sucedido, afinal! Por que então não sentia a satisfação de ver que conseguia cumprir sua missão? O que estava errado ali?
Não foi difícil descobrir a resposta. Não havia nada de errado com a situação. Tantas vezes, aconteceu exatamente assim e, em todas elas, estivera tudo conforme o esperado. Porém, dessa vez... Dessa vez, havia um problema, sim. E o problema estava nele mesmo. Ele estava mudado. Odiava admitir, mas ele, o maldito Hank, conseguira mexer com ele em um nível profundo o bastante para balançar suas estruturas. Tudo o que Ikki era, tudo em que havia se transformado... tudo nele tinha mudado. Nem mesmo o poderoso dono daquela mansão saberia dizer ao certo quem era. Sabia apenas que seu lado humano tinha sido revivido. Maldição. Tanto tempo, tanta devoção para se tornar quase uma máquina, tanto esforço construindo aquela couraça, tanta dedicação para aprender a não mais sentir... e ia tudo por água abaixo.Hank iniciou o processo... E Shaka, mesmo que sem querer, dava continuidade a ele. Sem saber, Shaka estava minando tudo o que Ikki era, tudo o que ele representava. Sendo tão semelhante a Hank, fazendo indiretamente que Ikki questionasse tudo o que Hank o levou a indagar... E com o acréscimo de que, em Shaka, tudo isso era verdadeiramente real e não um jogo engendrado por um espião... Considerando tudo isso... Ikki via-se mais perdido que nunca.
Ele via o lado humano do advogado. Não conseguia mais enxergá-lo como mera peça de um jogo de tabuleiro. Agora, Ikki fazia o contrário de tudo o que lhe havia sido ensinado. Ele enxergava o homem, o ser humano. Indagava-se, contra sua vontade, sobre sua vida. Buscava, sem perceber, pontos em comum com o outro. Começava a sentir empatia pelo outro. Isso não era bom. Isso iria destruí-lo e Ikki sabia disso muito bem. Entretanto, essa consciência que lhe acometia agora transbordava de si e não seria possível contê-la, aprisioná-la novamente. Ela já o preenchera por completo. Restava a Ikki apenas lidar com isso.
Esse era o problema. Ele não tinha ideia de como agir. Não era mais capaz de confiar em suas atitudes. Seu instinto o traía...
Nesse momento, um segurança apareceu para falar com ele. Certamente era algo importante, porque Ikki dava ordens expressas de jamais ser interrompido quando estivesse na presença de algum prisioneiro. O único que poderia falar com ele nessas horas era Khan e, ainda assim, em situações muito específicas. Contudo, bastou que esse segurança lhe dissesse umas duas palavras para Ikki empalidecer por um segundo. Logo se recompôs, dizendo para si mesmo, em tom baixo "O que ele está fazendo aqui?". Aprumou-se e, ignorando o fato de Shaka estar ali, dirigiu-se para o visitante que já se encaminhava para onde estava, encontrando-se a apenas alguns passos de distância. Ikki não sorriu, mas foi polido em seu cumprimento, a ainda uns três passos de distância indagou:
– Mu! O que faz aqui?
Mu caminhava com passos tranquilos e seus olhos estavam em direção ao advogado e o cachorro não a Ikki. Só olhou o companheiro quando este falou diretamente consigo.
– Bom dia, Ikki — disse com o mesmo tom polido de sempre. – Precisava conversar com você. Você sabe. Precisava também ver como as coisas estão se desenvolvendo aqui, mas ao que vejo, parece não haver motivos para preocupação, há? – não havia por que mentir. Ikki não era tolo. Então, após dizer isso, Mu direcionou um novo olhar a Shaka, que a essa altura já estava de pé e mirava aquele homem esquisito, atentamente.
Quem seria ele? Indagava o advogado. Ele se vestia também de forma elegante e tinha todo aquele jeito militar que também percebia em Ikki. Sim, embora eles fossem muito diferentes, havia algo que os tornava estranhamente próximos, parecidos. O homem que chegava era jovem como o moreno, mesmo que tivesse certeza que ambos fossem um tanto mais velho que ele, algo em torno de 30 a 32 anos, não mais que isso. Todavia, o visitante tinha um semblante mais relaxado, diria assim, que seu sequestrador, menos agressivo e embora fosse sério, não tinha aquele ar feroz e sarcástico do moreno. Shaka fez toda essa análise nos segundos em que seus olhos e os de Mu se encontraram. Não era quem era por ser desatento, manipulável ou tolo. Sua mente trabalhava numa rapidez fantástica. Contudo, resolveu ser cauteloso. Não sabia quem era aquele homem e não se arriscaria a desafiar Ikki; não naquele momento, em que estava avançando em alguma coisa, mesmo que não soubesse em quê. Aproximou-se a passos tranquilos, mas manteve-se a uns dois passos do moreno e seu estranho visitante. No entanto, ficou a uma distância suficiente para “fotografar” toda a feição de Mu.
– Olá – Shaka disse, incerto. Percebia que Ikki estava desconfortável com a presença do outro, mas não sabia o motivo. Rezava para que o moreno não o tirasse dali, afinal, aquela era uma possibilidade única de descobrir mais.
Mu sorriu para o loiro – Olá. – respondeu apenas, examinando-o com atenção, querendo saber se o advogado estava realmente bem. Ele estava magro, com certeza, mas não parecia doente.
Isso era, definitivamente, tudo de que Ikki não precisava agora. Justo quando ele tentava encontrar alguma ordem e equilíbrio em seus desconexos pensamentos, Mu aparecia ali. E Mu não fazia isso. Não era de seu feitio.Obviamente, nada o impedia. Aliás, como chefe da operação, era até mesmo lógico que ele visitasse a mansão para averiguar como andavam as coisas... Contudo, isso nunca foi necessário. O trabalho de Ikki sempre fora impecável. Com exceção do ocorrido com Hank, mas isso era um caso à parte. Mu nunca tivera de ir até lá. Nunca houvera tal necessidade. Ao menos, não até o presente momento.
Certamente, isso não era nada bom.
– A que devo sua visita, Mu? – Ikki indagou, em seu tom razoavelmente polido, mas sem sorrir nem fazer qualquer gesto que ocultasse sua insatisfação. Mesmo que reconhecesse que estava fugindo da linha, era orgulhoso e ficava mesmo uma fera quando feriam seu ego – Eu não o estava esperando. Ninguém me avisou que viria. Se eu soubesse, poderia ter me preparado melhor para recebê-lo. – falava, de forma vaga, mas bem incisiva. E então percebeu que Shaka parecia curioso demais ali. Não que isso fosse um problema, não havia nada de mais em Shaka ver outro membro d' A Sociedade. Isso sempre poderia ser contornado. A questão é que, considerando seu estado, saber que Mu via Shaka agora mexeu com Ikki. Mu era muito perceptivo e Ikki temeu que, naquele momento, ao simplesmente olhar para os dois, Mu compreendesse tudo o que estava acontecendo ali.
E isso quando nem Ikki sabia ao certo o que acontecia ali.
– A presença dele lhe incomoda? Quer que eu chame Khan para levá-lo para dentro? –perguntou já fazendo um gesto para que chamassem o mordomo.
– Não! – Mu foi rápido em evitar que Shaka saísse do seu campo de visão. Analisou mais uma vez o advogado e sorriu de leve. – Você sabe que é por ele que estou aqui, então vamos parar com as perguntas retóricas, companheiro. – disse, sem agressividade, ironia ou sarcasmo, apenas de forma direta e franca como costumava fazer com todos. – Entenda, Ikki, que por mais que confie em você, a segurança do doutor Phalke é vital demais e tivemos dois... incidentes preocupantes – ele falava, olhando para Shaka e não para Ikki, o que já estava irritando o advogado, mas ele não ousava sair dali, pois queria escutar tudo. Qualquer informação era vital. – Eu precisava vir – e essas palavras foram quase um pedido de desculpas. Ele também estava sendo pressionado para cuidar daquele caso mais de perto e achou melhor ir pessoalmente que enviar um dos sócios.
Shaka encarava o estranho também sem nenhum pudor, o analisando. Ele estava muito distante de parecer um criminoso. Tinha voz suave e aparência delicada, um pouco mais baixo que Ikki e também mantinha uma postura menos agressiva. Quem seria aquele homem? Mu, nome estranho, parecia estrangeiro, ele parecia um estrangeiro...
– Não, Mu. Você não precisava e sabe bem disso. O que vocês estão fazendo é... – Ikki começou a falar, mas se interrompeu porque percebeu que Shaka prestava atenção demais ao que conversavam — Enfim. Dane-se. Você veio, está aqui. Vamos entrar então. – Ikki não disse em voz alta, mas, para ele, isso representava uma enorme quebra de confiança. Aparecendo ali, Mu dava um fim definitivo a todo o jogo que tentava engendrar. Shaka agora o veria como alguém subordinado a outra pessoa, começaria a compreender que não eram apenas eles dois que estavam envolvidos nesse jogo. Isso o faria perder a faceta mais dominadora diante do loiro? Possivelmente... Se bem que Ikki já não estava lidando bem com tudo isso mesmo. O que ele queria saber agora era qual o novo plano traçado. Pelo visto, A Sociedade estava interessada em um novo plano de atuação, um em que Shaka não precisasse criar um elo de confiança com aquele que o aprisionou... Talvez, essa parte do teatro tenha ficado para trás. Isso era até bom. Contudo, preocupava-se com os novos rumos que isso poderia representar.
Interessado em ver qual a postura que Mu adotaria – porque isso já diria muito ao moreno, sobre os novos rumos da conspiração –, Ikki alegou que Mu e Shaka fossem à frente, pois ele iria levar Falcon para o canil. Mesmo que ganhando apenas algum espaço de distância, queria observar o tipo de contato que o líder do grupo estabeleceria com o prisioneiro.
A partir daí, Ikki pensaria no que fazer de agora em diante.
Shaka olhou na direção do moreno. Estava confuso. Tentava entender o que acontecia, mas com a rapidez do acontecido sua análise foi comprometida. Quem era aquele homem, um sócio, um chefe? Ficou alguns segundos parado, tentando organizar os pensamentos. Estava ganhando um terreno importante com o moreno, reconhecia que fizera progressos nos últimos dias, mas aquela mudança brusca o deixava desconfortável. Estava pronto para desvendar Ikki, mas não para um novo personagem.
– Doutor Phalke, venha comigo – a voz de Mu o obrigou a se mover e ele o acompanhou. Ao que parecia, o homem andava de forma aleatória pela mansão, procurando algum lugar onde sossegar. – Como o senhor tem passado? Está melhor?
Obviamente, Shaka já esperava que ele soubesse do ocorrido, por isso não se abalou com a pergunta. Seguia ao lado dele da mesma forma que ele seguia ao seu lado, os braços cruzados atrás do corpo, só que Shaka mantinha as mãos nos bolsos, e o olhar adiante, sem encará-lo.
– Quem é você? – indagou, seco. Não tinha intenção de ser gentil, sabendo que aquele homem fazia parte da maldita máfia que o mantinha ali.
– Como deve ter ouvido, me chamo Mu, sou um amigo do Ikki.
– Sócio?
– Chame como desejar, posso dizer que estamos juntos no que diz respeito a você. Espero que meu amigo o esteja tratando bem.
Shaka sorriu com certo sarcasmo. – Haveria como ser infeliz num lugar como esse? – indagou ácido.
Mu sorriu de leve, percebendo que Shaka era exatamente o que o moreno relatara: muito mais complexo do que eles imaginaram e que tinha uma personalidade difícil e dominante. Ele era um leão que fazia questão de dominar a savana, mesmo em desvantagem. Mu sabia analisar as pessoas muito fácil e rapidamente também e ainda havia todos os relatórios e relatos do moreno.
– Você me entendeu, Shaka – usou o primeiro nome e sorriu amigavelmente. – Não vim aqui confrontá-lo, nem irritá-lo – sorriu novamente, simpático, parando sob uma amoreira frondosa. – Se não deseja conversar comigo, o deixarei em paz.
Shaka encarou os olhos verdes de Mu com firmeza, depois sorriu charmoso, um sorriso de quase flerte, assumindo a posição promotor na dança das cadeiras novamente. Seduzir era uma artimanha muito válida na sua profissão. Obviamente não a sedução sexualizada, mas era preciso sempre conquistar pessoas e despertar a confiança delas. Ele já estava acostumado.
– E perder a chance de conhecê-lo melhor? Nem brincando! – provocou, fazendo Mu rir mais abertamente e até ruborizar um pouco pelo inesperado. – Você poderia ser mais simpático que seu amigo e me dizer de vez o que estou fazendo aqui?
– Ikki fará isso no tempo certo – Mu disse, ainda sorrindo amigavelmente. – Garanto que pode confiar completamente nele. Não vou estragar as coisas contando tudo – seu tom também foi cheio de charme e flerte, repetindo o feito pelo promotor. Não estava à frente a uma das operações mais importantes d’A sociedade por ser ingênuo e manipulável.
– O que ele é, seu homem de confiança? – o loiro indagou, fingindo despreocupação.
– Não. Ele não é meu subordinado, como já disse... Nesse caso... Eu sou o subordinado dele. Colabore e tudo dará certo.
Dito isso, Mu encarou Ikki que se mantinha a certa distância, desde que eles pararam, parecendo dar alguma instrução a um grupo de seguranças. Sabia que aquele era um “posicionamento estratégico” e achou melhor não se alongar na conversa. Phalke estava bem, até mesmo emocionalmente bem, o que não esperava realmente, sinal de que as desconfianças d’A sociedade eram infundadas. Ikki sempre fazia o trabalho dele. Houvesse o que houvesse.
Ikki buscou se manter ocupado, porque procurava avaliar a situação em que se encontrava. Entretanto, não precisou fazer muito, pois em pouco tempo, Mu afastava-se de Shaka, indo embora pelo mesmo caminho em que viera. Então se apressou para alcançar o líder do grupo e, assim que se viu próximo dele, o moreno começou a falar, com uma cara não muito simpática:
– Posso saber de quem foi a ideia estúpida de você vir até aqui? Eu já tinha dito que não havia necessidade de qualquer intromissão! Afinal, vocês não confiam mais no meu trabalho, é isso? Porque, se for assim, é melhor me falar logo! Se estão insatisfeitos, eu saio dessa mansão hoje e deixo vocês se arranjarem com esse advogado por conta própria, está bem? Só aí vocês vão entender como estou penando com ele!
Mu encarou o outro nos olhos, mas sem nenhum resquício de irritação.
– Não leve para o lado pessoal. Phalke é caro, você sabe. Estamos todos preocupados aqui e acho que você também deveria. Ele não é um simples peão, Ikki, é a base de toda a pirâmide. E a ideia estúpida foi minha, pode reclamar – disse e voltou a andar, dando aquela conversa por encerrada. Se Ikki quisesse continuar com as perguntas fizesse isso numa reunião, na sede d’A sociedade.
Ikki odiava a forma como Mu conseguia demonstrar-se assim, sempre tão calmo, tão impassível. E o moreno sabia muito bem que poderia falar o quanto quisesse; Mu não se importaria, suas palavras, ainda mais tão agressivas e algo irracionais agora, não surtiriam qualquer efeito no outro. Por isso, Ikki respirou fundo e apenas acompanhou com os olhos o resto da trajetória percorrida por Mu. Assim que o outro membro d' A Sociedade sumiu de seu campo de visão, Ikki deu meia-volta e regressou para perto do loiro. Vinha bufando, embora houvesse tentado se acalmar. No fundo, apesar de não admitir para si mesmo, não tinha gostado da visita de Mu não apenas por isso mexer com seu orgulho, mas porque havia sentido uma pontada de ciúmes ao vê-lo conversando com Shaka. Até então, somente ele tinha contato com o advogado; não gostou de dividir esse privilégio. Ademais, não deixou de notar os olhares e sorrisos que esses dois trocaram em tão poucos segundos de conversa!
Assim, quando se viu perto da amoreira, onde Shaka permanecera, Ikki falou, com a voz um tanto ríspida:
– E então? Gostou da visita? – indagou, demonstrando em um tom de voz agressivo exatamente como estava se sentindo.
Shaka encarou o moreno e recostou-se ao tronco da árvores, ainda mantendo as mãos nos bolsos. Apoiou um pé na árvore, tentando demonstrar uma postura indiferente enquanto o encarava, curioso por toda aquela irritação demonstrada.
– Se você me disser quem é ele e por que ele veio aqui, fato que obviamente o desagradou, eu posso ser sincero sobre minhas impressões sobre o senhor Mu. – Jogou. Sabia que era um jogo perigoso, já que Ikki poderia simplesmente voltar a sua postura autoritária, como o tom de sua voz levava a crer que ele faria, e obrigá-lo a lhe dar uma resposta, mas o fato era que já começava a gostar daquele jogo; o jogo perigoso de provocar aquele homem.
Shaka era um advogado brilhante e não alcançou o status que tinha por ter medo de embates. Sempre foi alguém tranquilo, disciplinado. Sempre soube o que seria e como chegaria lá. Muitos o consideravam frio, mas ele não era frio, ao contrário, era dono de um gênio agressivo, que ele mantinha sob controle entre sarcasmo e indiferença. Isso tudo havia mudado quando fora levado para aquela mansão e agora queria retomar as rédeas, as rédeas de quem era. Não permitiria que Ikki mexesse com seu emocional novamente, essa era sua decisão mais acertada, tinha certeza. Mantendo o equilíbrio conseguiria sair dali, sabia que conseguiria, precisava apenas calcular cada passo.
Ikki não era a pessoa mais equilibrada emocionalmente. Sua forma fria de agir, que tinha se tornado característica de sua personalidade, só era possível de ser cultivada graças ao coração de pedra que se orgulhava de possuir. Ao menos, era o que dizia. Às vezes, chegava a acreditar nisso, embora, lá no fundo, soubesse que era mentira. Porém, precisava crer que tinha matado seus sentimentos dentro de si. Afinal, sua maior fraqueza, seu maior defeito era justamente esse: não saber lidar com o que sentia, não saber fazer bom uso dos sentimentos. Sempre acabava ferindo e sendo ferido...
No momento, esse seu lado viera à tona com toda a força. Sentira ciúmes de Shaka, de forma completamente irracional. E nem estava muito preocupado com esse detalhe agora. Simplesmente, começou a dar vazão a esse sentimento corrosivo:
– Ficou assim tão interessado no Mu? – ele tentou sorrir, demonstrando um controle de situação que não possuía – Acontece, Phalke, que ele não é para você, está bem? – falou, despeitado – E é engraçado que você esteja assim tão interessado em saber quem ele é. Mu não é muito diferente de mim. Não em se tratando de você. Temos os mesmos interesses em você, guardadas as devidas proporções. Aliás, ele seria até pior, se olhar por certa perspectiva. – Ikki falava sem medir palavras. Seu lado racional o alertava para tomar cuidado e não se trair nas palavras usadas, mas o emotivo predominava e guiava suas ações como, durante tanto tempo, não acontecera mais.
Shaka percebeu o quanto o moreno estava irritado, mas achava que aquilo era devido à interferência do outro em seus projetos, nunca imaginaria que fosse algo fora isso. Sorriu, movendo os ombros de forma displicente com aquele jeito malicioso de pessoas que se sabem muito mais esperta que as demais.
– Ele me pareceu gentil – falou como quem desdenha das informações que lhe são fornecidas. – E sabe, eu sei que pra vocês dois eu sou somente uma peça num tabuleiro, não pense que sou idiota... A gentileza do senhor Mu não chegaria a tanto... – encarou o moreno com um sorriso sarcástico. – E ele é bem bonitinho, na verdade, mas meu interesse nele não é esse e você sabe – riu, provocativo, mesmo que não achasse aquele tipo de provocação nada adequada. Que diabos estava acontecendo consigo? Não era para provocá-lo! Era para tentar tirar informações dele! Está ficando idiota, Shaka Phalke? Repreendia-se por pensamento por fazer algo que estava completamente distante dos seus planos.
– "Gentil"? "Bonitinho"? – Ikki repetiu as duas únicas palavras que pareceram ser absorvidas da fala do advogado e que ele estava tendo dificuldades para digerir. O moreno não conseguiria explicar, nem se quisesse, o que se passava dentro dele agora. Apenas compreendia que tais palavras, vindas da boca do loiro, soaram tão completamente absurdas, como se não pudesse, não devesse, não fosse permitido ao prisioneiro usar de palavras tão positivas para se referir a qualquer membro d'A Sociedade. – Ora essa! Era disso que precisávamos para domar você? Só isso? Bastava ser "educadinho" e ter cara de anjinho para dobrar essa sua personalidade insuportável? – Ikki nunca se mostrou tão verdadeiro em suas palavras. Esse era seu verdadeiro "eu", tão bem escondido por todo esse tempo. Alguém que falava sem pensar, que explodia em sentimentos intensos que se mostravam em um tom de voz que misturava perfeitamente angústia, vulnerabilidade e raiva — Se soubéssemos disso antes, eu não teria sido escalado para esse papel! Aliás, eu nem me candidataria para estar aqui! Que estúpido, não? –riu cinicamente, mas de um modo agressivo; agressividade essa que, no entanto, parecia buscar agredir ao próprio moreno, em um gesto meio autodestrutivo – Fizemos tudo errado! Você venceu, Phalke! Conseguiu enganar um bando de caras que se dizem especialistas em desvendar pessoas; mostrou-se ser o que não é... É, enganou todo mundo!!! Me enganou... – e essa frase soou bastante dolorida, porque trazia lembranças passadas que vinham no pior momento; um momento de grande fragilidade de Ikki – Mas isso não é grande coisa viu? – riu novamente, mas o riso foi mais triste do que sarcástico – Você não foi o primeiro a conseguir me enganar. Eu devo estar ficando mais tolo à medida que os anos passam. É; deve ser isso. Que ridículo, não? Que figura patética, Ikki. – já falava apenas consigo mesmo. E nem se preocupava em avaliar se estava falando demais. Tinha aberto as comportas dos seus sentimentos e, quando isso acontecia, era impossível voltar atrás. Portanto, nem se preocupou em avaliar o estrago que acabara de fazer. Apenas manteve um olhar perdido no nada, depois de permitir que sua alma desabafasse, em um momento nada oportuno.
Shaka estava completamente desarmado agora com aquela reação. Não conseguia entender e tentava absorver o que o moreno dizia de forma tão desordenada. – Só pode ser brincadeira isso... – falou com um sorriso meio irônico, meio perdido e chocado. – Se eu venci, me deixa ir embora então! – falou, um tanto quanto ofendido com aquelas palavras, embora lutasse para não entrar naquele jogo, sim, para ele era tudo um jogo, sempre um jogo! Mas já havia perdido, fora alvejado por aquele rompante do moreno, alvejado! E já não sabia como fazer o próximo movimento no tabuleiro.
– Qual é a tua, me diz? Por que de repente está tão nervoso com a visita do seu amiguinho? – devolveu no mesmo tom e partiu para cima do moreno, inclusive fisicamente, andando até ele, até estar a centímetros perigosos do seu corpo, o encarando, como fazia com um criminoso que quisesse desestabilizar num tribunal. – Está zangado por que ele se mostrou mais eficiente nisso que vocês chamam de “me domar” do que você?! Vamos, Ikki, responda! O que quer de mim?! Por que a visita do Mu o incomodou tanto?! É por que ele se mostrou gentil para me iludir? Acha mesmo que me iludi com isso?! – riu, nervoso, e não podia ficar nervoso, mas já estava! A proximidade com aquele homem o afetava, tinha que admitir, mas não desistiria daquele embate. Estava disposto a ganhar um terreno importante ou se perder de vez.
Ikki não estava, definitivamente, no seu controle habitual. Estava passando por um momento de tamanha confusão, de tal forma que já não sabia mais discernir o certo do errado; o que era dever e o que era querer... E Shaka, alheio a tudo isso, tomou a pior decisão possível para um momento como esse. A proximidade de que ele fez uso foi a gota d'água. Ikki sequer escutou ao que ele dizia; nesse instante, o poderoso dono da mansão era apenas instinto. Os olhos escuros enxergaram o que, racionalmente, ele sempre buscava se negar. O advogado loiro o atraía, atraía demais, em uma medida difícil de ser controlada. O semblante agressivo do loiro não o intimidou; pelo contrário, fez apenas com que Ikki enxergasse nele algo que também fizera com que a atração que o moreno sentia pelo loiro crescesse ainda mais: essa força, esse vigor, esse modo tão altivo de ser, imponente, admirado. E Ikki o admirou por isso. E também o desejou secretamente, tão secretamente que só vinha se dar conta disso agora, em uma explosão de sentimentos crescentes que transbordavam, impossíveis de serem contidos.Passado e presente misturaram-se, Hank veio-lhe à mente, mas em uma fração de segundos, seu rosto transfigurou-se e Ikki se viu abraçado não a Hank, mas a Shaka, e essa sensação, e essa imagem, e essa confusão foi enlouquecedora demais. Ikki não mais pensava, seu corpo ganhava vontade própria. Sua mente entrava em pane e, como se houvesse um verdadeiro apagão em seu cérebro, o moreno simplesmente não pensou mais: os braços puxaram o loiro para si e trouxeram Shaka para um beijo fogoso, desesperado, apaixonado...
Título: O amor e o poder não querem sócios.
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[SINOPSE]Numa época de trevas e depravação em que as forças mais poderosas eram a superstição e o medo, a pureza deveria ser não apenas combatida, mas... convertida. Luxúria, traição e morte numa história tão erótica quanto profana. Sebastian é um demônio com uma missão: tentar, enlouquecer e perverter um jovem monge.

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