Nelumbo nucifera

16 Nemo potest duobus dominis servire


Notas iniciais
Olá, queridos leitores, Inicialmente, preciso pedir desculpas pelos quase um ano de hiatus. Como vocês sabem, a fic é feita em parceria, e a Lua Prateada, minha querida companheira, não mais teve tempo para continuar com a escrita. Muitas vezes, a vida real nos obriga a dar um tempo nos hobbies e focar em coisas mais práticas e foi isso que aconteceu com ela. Contudo, depois de tantos meses, eu decidi que já era o momento de tomar as rédeas da fic, mesmo sozinha. Conversei com a Lua, que me deu total apoio nisso e que resolveu me auxiliar na empreitada, da forma que ela puder, já que seu tempo ainda continua comprometido. Ou seja, continuaremos a história, ela escreverá quando puder e o restante eu farei, dentro do possível. O Ikki até o momento continua nas mãos da Lua, o restante da fic ficará em minhas mãos. Quando algo mudar nessa organização, isso será avisado a vocês. Espero que compreendam e que continuem conosco. Boa leitura do novo capítulo e, se não for pedir demais, deixem comentário! Sion Neblina

Nemo potest duobus dominis servire

Chapter 16

Embora tão intenso, o beijo não durou muito. Foi o tempo de um susto – apesar de ter parecido bem mais que isso. O blackout em que seu cérebro se viu não durou tanto. Logo, sua mente voltava a funcionar. E a primeira mensagem que seu cérebro enviou ao restante do corpo era para que parasse! Que largasse Shaka, que se afastasse! O corpo demorou ainda a obedecer, mas terminou acatando as ordens. Ikki partiu o beijo violentamente, como se houvesse acabado de cometer uma verdadeira heresia. Soltou Shaka, deu dois passos para trás, como se a figura do loiro o assustasse. Os olhos escuros estavam nublados. Ikki respirou fundo uma, duas, três vezes. Foi o bastante para ganhar voz novamente. Sem olhar nos olhos do outro, ele disse, com a voz irreconhecível:

—Você ganhou. Não terá que me ver mais. Outro membro do nosso grupo será enviado para cuidar de você. Eu... Eu não posso mais. – falou, tentando resgatar os fiapos de racionalidade que lhe restavam. Não poderia mais continuar. Céus, o que tinha feito? O que tinha feito?? De novo??? Não, não poderia ser!!!

Mas não foi só a mente de Ikki que sofreu um blackout com aquilo, Shaka não pensou em nada no tempo que durou o beijo que foi de uma impetuosidade incrível, tão crítica que ele pareceu sofrer um choque forte e perder o domínio dos sentidos e das suas ações... Durou pouco, mas não rápido o insuficiente para que ele não sentisse o gosto da boca do moreno ou não percebesse a forma possessiva com que ele agia e seus angustiantes sentimentos. Quando Ikki o libertou, Shaka estava ofegante e com as pernas bambas de uma maneira que nunca havia ficado na vida. Como assim? Ele o beijou?! Como?!! Estava preparado para um soco, um tapa, que ele voltasse a torcer seu pulso, qualquer coisa, mas não um beijo. Aquilo estava errado, muito errado! E mais ainda, não estava preparado para as sensações que aquilo lhe causou, a familiaridade que veio junto com a estranheza num paradoxo tão intenso quanto perigoso. Não conseguiu se controlar, não conseguiu controlar a situação, e mesmo que tudo tenha sido rápido demais, sabia que havia, de alguma forma, correspondido àquele momento de descontrole. Sim, também se descontrolou e permitiu que a situação chegasse ao limite e... permitiu muito mais.

Horrorizado com seus próprios atos, Shaka afastou-se, os olhos arregalados para o outro, sem conseguir pensar em nada coerente naquele momento.

— Por que fez isso?... – sua pergunta foi um sussurro perdido, enquanto ele caminhava para trás e apoiava as costas na árvore. Tinha medo que suas pernas falhassem. Não conseguia entender nada do que o moreno dizia agora, sua mente simplesmente não conseguia concentrar-se em nada que não fosse nas batidas aceleradas do seu coração.

— Eu não sei. – Ikki respondeu sem pensar, por reflexo. E disse a verdade, não sabia por que tinha feito isso. O que estava acontecendo com ele? Hank o tinha afetado tão profundamente assim? Ou era algo mais? O que Shaka tinha feito com ele? Afinal, era fato, Shaka o tinha afetado. Tanto ou mais que Hank, possivelmente... e Ikki não tinha percebido isso para valer. Agora estavam aí, em uma situação na qual o moreno não tinha a menor ideia do que fazer. Suspirou. Não havia muito a fazer agora. Era preciso espaço. Tinha de colocar as ideias no lugar. E obviamente nas condições em que se encontrava, Ikki jamais poderia estar numa posição tão importante quanto delicada dentro da operação engendrada pela Sociedade. Precisaria se afastar.

Sabia disso muito bem. O estranho era sentir, como há muito não lhe ocorria, uma verdadeira cisão dentro de si. Sabia o que devia fazer... Porém, o que ele queria... Isso já era bem distinto. Dividido entre o querer e o dever. Ikki normalmente não passava por isso. Quando ele sabia o que devia fazer, fazia e pronto. Não tinha interesses pessoais relevantes. Ou melhor, todos os seus desejos sempre estiveram em perfeita harmonia com o que deveria fazer, porque havia se tornado praticamente uma máquina obcecada por alcançar aquela meta. O que A Sociedade queria era o que ele queria; o que devia fazer era sempre o que queria fazer.

Ao menos, até agora...

— Isso foi um erro, eu sinto muito. Você é bom, Shaka. Mas não podemos libertá-lo; não ainda. Entretanto, fique tranquilo. Vai acabar tudo bem se você cooperar. – Ikki falava em um tom apressado, mas meio mecânico. E seus olhos não encaravam o loiro de forma alguma – No entanto, não sou agora o mais talhado para "trabalhar" com você. Enfim, você conseguiu. Não terá mais que me suportar nessa casa. – como se terminasse o que tinha para dizer, deu meia-volta assim, simplesmente, e começou a voltar para a mansão.

Shaka ficou no mesmo lugar. Seu coração batia forte e depois de toda a confusão e sensações que sentia, uma profunda angústia começou a se apossar do seu coração. Sentou-se debaixo da árvore e apoiou a cabeça entre as mãos, tentando encontrar uma saída, mas não achava nenhuma, a angústia, o nervosismo e o desespero cresciam intensamente dentro dele. Sentia vontade de gritar, bater a cabeça naquela árvore até perder os sentidos. Os sentimentos eram tão intensos que Shaka se sentia nauseado.

Ergueu-se, estava tão perturbado que simplesmente andou para dentro da mansão, sem saber exatamente o que fazer, apenas entrava, atravessava corredores até que chegou à cozinha.

Nunca tinha estado ali, era enorme e havia pessoas demais. Ele mirou uma mulher que parecia dar ordens a todos os outros, mas que ao mirá-lo, parou o que fazia e mandou todos saírem, demonstrando certo nervosismo.

Shaka a encarou e seus olhos deviam carregar desespero demais, pois a mulher o fitou por um tempo, antes de parecer tentar fingir que se distraía e ameaçar deixar o local.

— Espere! Qual seu nome? – ele a impediu com um pedido trêmulo e ofegante. – Por favor, fale comigo... Eu não vou te fazer mal, eu prometo... – disse, já nem sabia o que falava direito. Tentava manter a voz calma, mas por dentro estava gritando de angústia.

A mulher, uma rechonchuda senhora que deveria estar perto dos sessenta anos, mas que tinha cabelos muito negros, naturais ou não, era muito rosada e de aparência benevolente. Ela estava perto da porta que a colocaria fora da cozinha, mas, ao ouvir o apelo de Shaka, pareceu ponderar sua atitude. Recolheu a mão que estava quase alcançando a maçaneta e então virou-se para o advogado. Seu semblante então assumiu uma expressão mais tranquila que, fingida ou não, era capaz de trazer calma ao seu interlocutor.

— Senhor Phalke, não temos permissão de falar com o senhor. Mas... acho – a mulher deixou essa frase inacabada – Meu nome é Faustine, meu rapaz.

— Meu nome é Shaka. Pode me chamar só de Shaka – disse, engolindo a angústia que o. – Não quero criar problemas pra ninguém, eu só... – Shaka tinha dificuldade de encontrar as palavras – Eu preciso entender... Por que estou aqui? Quem foram os outros?... Henry... Henrick... Hank! Quem foi Hank?! Foi esse o nome... Hank! É Hank... – e agora falava mais para si mesmo, como se tentasse lembrar algo muito importante, como se soubesse, de alguma forma, que aquele nome fosse a chave de tudo. – Quem foram os outros, senhora...?

A cozinheira ouvia o que Shaka dizia com um semblante enigmático. Sua expressão era gentil, porém não seria difícil perceber que essa fosse talvez uma excelente tática para despistar seu interlocutor. De todo modo, se Faustine estava pensando em desviar o rumo da conversa, a boa senhora empalideceu ao ouvir o nome "Hank", o que a impediu de mudar o assunto.

— Você... Você disse... Hank? – era impossível esconder sua surpresa. O susto estava estampado em sua face. A cozinheira levou a mão aos cabelos, em um gesto que tentava fingir calma, mas sem muito sucesso, ajeitando seu coque, com os olhos agitados – Como sabe dele? Ninguém aqui está autorizado a falar dele... – essa última frase era uma mistura de afirmação com indagação – O que significa que... – Faustine arregalou um pouco os olhos – Ikki falou de Hank para você?! – ela perguntou, demonstrando toda a sua surpresa nisso que era mais uma constatação que uma dúvida.

Shaka demorou um pouco a responder, mirando a mulher desconfiado. Tinha receio de dar mais um passo e acabar perdendo-se das suas reais intenções, até porque estava muito nervoso. Precisava se acalmar, pensar. Respirou fundo, relaxando os ombros tensos, embora ainda tremesse.

— Ele me chamou de Hank... – disse uma meia verdade. Não sabia se Ikki o havia chamado assim ou apenas resmungado algo que trazia esse nome, mas talvez distorcer essa informação o ajudasse mais. – Se ele matou esse Hank, é provável que venha a me matar também... Sei que corro esse risco, por favor, me ajude. – Voltava à dança das cadeiras e agora encarnava a vítima desesperada, amedrontada e frágil, se bem que não sabia até que ponto não estivesse de fato nessa posição.

A cozinheira não respondeu de imediato. Permaneceu em silêncio por algum tempo e não se preocupou em esconder de Shaka que ponderava o que dizer. Entretanto, o rosto aflito do loiro era convincente o bastante:

— Ah, meu rapaz... – ela retirou os óculos para limpar as lentes no seu avental branco – Ikki não vai matá-lo. Quanto a isso, pode ficar despreocupado – Faustine suspirou tristemente. – Então ele o chamou de Hank? Eu sabia que ele não tinha esquecido esse rapaz, embora seja isso o que ele fala para todo mundo... – Faustine parecia falar consigo mesma e seus olhos estavam perdidos no vazio. Porém, subitamente se recordou da presença de Shaka ali. Com seus olhos miúdos, estreitou um olhar perscrutador no advogado, e disse: – Está me falando que ele o chamou por esse nome? Hum... Fora o fato de também ser loiro, não vejo tanto em comum entre vocês. – Faustine falou, parecendo pensar em voz alta.

— Quem é Hank? – Shaka insistiu – Por que estou aqui? Eu não fiz nada de errado, não fiz nada a ele, nada a você. Não sou um criminoso para ser encarcerado! Me ajude!

Apesar de já está minimamente mais calmo, Shaka ainda tinha uma perturbação entranha dentro de si, causada por aquele beijo. Maldito fosse Ikki por aquele beijo roubado! Por que ele fez aquilo? Será que o confundira com o tal Hank mais uma vez?

— Senhora Faustine... – murmurou ainda incerto se deveria dizer aquilo. Respirou fundo, tentando pensar direito, mas não conseguia – Ele... Ele me... – Shaka tinha dificuldade de articular aquela informação, então mordeu os lábios e se calou, puxou uma cadeira e sentou-se, pois suas pernas tremiam – Preciso de um copo d’água, por favor.

Faustine suspirou pesadamente. Então balançou a cabeça negativamente, como se estivesse repreendendo algo ou alguém mentalmente. Foi até a geladeira, tirou dali uma garrafa com água, alcançou um copo em um armário e o encheu para Shaka. Ao entregar o copo para o loiro, a velha senhora tinha um olhar compreensivo, apesar de ainda muito enigmático:

— Meu rapaz... Eu entendo que esteja confuso. Acredite, eu compreendo o quanto toda essa experiência pode ser assustadora. Entretanto... – a mulher lançou um olhar preocupado ao redor, como se estivesse averiguando alguma coisa – Não há muito que se possa fazer. Veja bem, tudo isso é muito grande, maior do que pode imaginar. Eu mesma não sei de tanto... Estou aqui apenas por causa de Ikki. Sobre ele, sim, eu posso lhe dizer algo, embora não devesse... – a cozinheira deu um risinho de leve e depois sacudiu os ombros – Ikki não quer que eu fale demais e Khan ficará enfurecido se souber que lhe confidenciei alguns fatos, mas... – a boa senhora levou uma mão terna à franja de Shaka, retirando-a dos olhos, para fitar melhor o jovem advogado – Você tem olhos puros. Olhos bons. Não merece ficar tão angustiado, embora eu saiba que isso faça parte... – outro suspiro, e Faustine continuou – Se Ikki lhe chamou de Hank, e isso não ocorreu por mera semelhança física... Então você deve tê-lo lembrado do outro rapaz. – a mulher sorriu melancólica, como se acabasse de ser assaltada por uma lembrança – Na verdade, que estupidez da minha parte. Deveria ter percebido antes. Eu soube que você tem dado muito trabalho ao Ikki; muito mais do que o esperado. Foi exatamente o que ocorreu com o Hank... e... no final, Hank se transformou em alguém que... – o sorriso então desapareceu do rosto da cozinheira – Bem, bem... Eu espero que não faça com o meu menino o mesmo que Hank fez. Ikki não merece isso. Não sei se viverei o suficiente para um dia vê-lo feliz de novo; mas se for para viver uma felicidade falsa novamente, prefiro que não aconteça. – Faustine finalizou, em tom de alerta. Mal percebia a cozinheira o que acabara de fazer; Shaka chegara ali na posição de vítima e perturbado por tudo o que Ikki representava e a velha senhora simplesmente fizera com que toda a situação se invertesse, de modo que Ikki parecesse ser a pessoa que necessitasse de alguma proteção.

Entretanto, não houve possibilidade de haver mais qualquer troca de palavras, pois Khan adentrava a cozinha esbaforido:

— Sua velha maluca, o que pensa que está fazendo?! Sabe muito bem que não deve falar com o prisioneiro!! – exclamou o mordomo.

— Eu sei muito o bem o que fazer e o que não fazer Khan. E não preciso que venha me repreender, eu não fiz nada de errado – a cozinheira deu as costas para o mordomo e foi buscar uma panela em outro armário.

— Não se faça de desentendida, velha! O que falou para ele?

— Nada de mais. Apenas estávamos conversando amigavelmente. Aliás, muito me espanta que tenhamos conseguido trocar mais de duas palavras. Está ficando velho, Khan? Demorou para você aparecer aqui para nos interromper, chato como sempre... – Faustine falava enquanto separava agora alguns temperos.

— Sim, eu demorei. – o velho mordomo ainda estava um pouco ofegante – E sabe por quê? – Khan retirou um lenço de seu bolso e secou sua testa – Código Vermelho.

— Como?! – Faustine mostrou-se finalmente exaltada, voltando-se para encarar o mordomo.

— Isso mesmo que você ouviu. Demorei porque o senhor Ikki acabava de me dar essa última ordem. Código Vermelho.

— Mas... mas então... – a cozinheira gaguejava, parecendo perdida – Para quando?

— Para agora, velha. Vamos; devemos partir imediatamente. – Khan posicionou-se próximo da porta, aguardando a senhora que olhava para os utensílios na cozinha, como se analisasse o que estava lá – Vamos, Faustine! Você sabe que não deve levar nada! O senhor Ikki já partiu e nos quer com ele o quanto antes!

A cozinheira não ofereceu qualquer resistência; rapidamente se encaminhou até onde estava Khan. Este abriu a porta para que a senhora passasse e ela, demonstrando grande confusão, sequer teve tempo de olhar para Shaka em tom de despedida. Quando Faustine já havia deixado o recinto, Khan lançou um último olhar para o advogado, antes de se retirar:

— Espero que esteja satisfeito, rapaz. Se buscava retirar o senhor Ikki de seu convívio, conseguiu. Você nunca mais o verá. – lá fora, o barulho de um helicóptero se fazia notar no grande jardim, que, pelo visto, possuía um heliporto – Mas não pense que saiu ganhando com isso! – Khan elevou o tom de voz, para conseguir se fazer ouvir – Sei que não acreditava, mas estava em melhores mãos com o senhor Ikki por aqui. Agora, entretanto... – o semblante do mordomo era impassível – Agora sim, meu jovem... Finalmente compreenderá que não deveria brincar com quem não deve. Terá de lidar diretamente com eles, sem intermediários. Boa sorte. – Khan finalizou o que disse e não deu espaço para respostas; saiu apressado da cozinha e, no instante seguinte, o ambiente foi tomado por seguranças que cercaram o advogado, como se estivessem ali para impedir que Shaka saísse de lá ou fizesse qualquer coisa que não devesse.

Shaka permaneceu no mesmo lugar por um longo tempo. Parecia haver um buraco negro o sugando embaixo dos seus pés. Ele nem mesmo reagiu quando Khan passou todas aquelas informações. Simplesmente ficou apático e limpou a mente, ou enlouqueceria. Precisava achar o rumo dos pensamentos e saber o que faria dali para frente.

Depois que os seguranças chegaram, ele finalmente ergueu o olhar. Ouvia o barulho do helicóptero partindo e isso o angustiava de maneira profunda. Ikki e Khan, tudo que conheceu durante o tempo de cativeiro, estavam partido e isso lhe causava uma dor estranha, tão intensa e ao mesmo tempo tão confusa, que ele não conseguia reagir. Shaka sempre foi um homem forte, decidido, calmo. A calma, que alguns consideravam frieza, era sua marca registrada, mas tudo mudou desde que ele foi sequestrado. Desde então, confrontava-se com uma parte sua que não estava acostumado, que o assustava. E parecia que era exatamente esse outro eu quem havia ferrado tudo agora. Estava ganhando a confiança de Ikki, talvez com um pouco mais de tempo, conseguisse obter respostas mais eficientes, mas agora... Agora teria que começar do zero fosse lá com quem fosse.

Negar que estava com medo seria pior. Medo não era um sentimento comum ao poderoso advogado criminalista, acostumado a sofrer várias ameaças de morte. Mas naquele momento, estava exposto e pisava em um terreno desconhecido, cheio de minas terrestres. O medo era real, quase palpável. E dentro de todo esse contexto desesperador, ainda havia sentimentos estranhos, sentimentos nos quais ele se negava a pensar... Eis algo em que era completamente inábil: analisar os próprios sentimentos e resolver problemas sentimentais. E até por essa razão sempre fugiu de relacionamentos complicados, inclusive fugia do relacionamento com seu própria pai, pois não conseguia resolver os conflitos que esse relacionamento gerava. Era um relacionamento que não o fazia rir e se divertir simplesmente, que não lhe fazia... bem. Qualquer sentimento que não conseguisse controlar, entender ou que fosse conflitante demais era deixado de lado. Alegava que tinha coisas mais importantes a pensar que problemas sentimentais, mas não era a verdade; perfeccionista, Shaka sempre fugiu de qualquer coisa em que não fosse o melhor e, definitivamente, ele não era bom com sentimentos. Por isso, pouquíssimos namorados, por isso, Kanon, e não Saga, por isso, a distância pacífica, mas voluntária, do pai, por isso... Por isso.

Ergueu-se, depois de terminar de beber sua água, precisava meditar.

— Posso ir pro meu quarto? — perguntou. Aqueles homens geralmente não o respondiam, mas não havia mais ninguém a quem se dirigir. Ainda assim, ele passou por eles, já caminhando em direção ao quarto, sem esperar resposta. A resposta não veio de qualquer jeito.

Entrou no quarto e foi para o chuveiro, ficando um longo tempo sob a água fria. Depois vestiu-se com uma calça leve e uma camiseta, mas não foi meditar, algo que faria em outros tempos, simplesmente se jogou na cama e procurou na gaveta da cômoda algo que teria em sua casa: remédio para dormir.

Shaka sempre sofreu de insônia, pois se acostumou a trabalhar até tarde durante os casos mais difíceis e isso acabava afetando seu sono. Geralmente, depois de um tempo esse problema era regularizado espontaneamente, mas, às vezes, quando estava muito cansado, recorria aos remédios. Como imaginava, encontrou um único comprimido em vez da cartela – deveria ser por segurança –, então o engoliu e jogou-se na cama. Não demorou mais que 10 minutos antes de apagar.

Naquele momento, no térreo da casa, a nova equipe chegava para assumir o lugar que até então era de Ikki. Mu fez questão de interrogar os funcionários que ficaram na casa, mas eles pouco sabiam do que fez Ikki deflagrar o código de retirada. O líder da operação mordeu os lábios e tratou de dar um importante telefonema. Avisando ao seu superior o ocorrido e tentando manter os ânimos calmos.

— Não sei os motivos do Ikki, mas posso garantir que a situação está sob controle. Ele apenas avisou do código vermelho, não deu detalhes do que havia acontecido para agir dessa forma. Sim, já pedi que ele permaneça no cenáculo até que possamos entrevistá-lo e entender tudo isso. Escolherei outro membro da equipe para cuidar de Phalke. Não sei qual o seu estado, ele está dormindo, pelo que sei. Manterei contato.

Mu desligou o celular e respirou fundo. O que será que havia acontecido com Ikki para que ele tomasse uma decisão tão drástica? Não era como se não soubesse. O código vermelho era acionado quando uma operação ficava pesada demais para um dos membros da sociedade e ele precisava de apoio. Não importava os motivos, geralmente. Fosse por razões emocionais, operacionais ou psicológicas, uma equipe saía e outra assumia. Era a regra. Mas geralmente eram os líderes quem deflagravam o código. Nunca antes aquilo tinha sido feito por um membro direto da operação. E ainda mais Ikki, o mais metódico e confiante de todos eles. Ikki era o único dos “garotos d’A sociedade” que trabalhava sozinho. Ele preferia assim e, devido a alguns conflitos anteriores, foi acordado que seria dessa forma o seu trabalho. Sem intromissões, dentro do possível. Por isso, Mu, que liderava aquela operação, a mais importante de todas dentre muitas d’A sociedade, deu total liberdade para o melhor dos cavaleiros, como eles chamavam os operadores de campo, que tinha. Ikki era formidável em convencer pessoas, fosse por sedução ou pela força. Tentava entender o que dera errado dessa vez. Suspirou, pensativo. Sabia que Phalke não era “qualquer um”, na verdade, sabia exatamente o quão difícil ele poderia ser. Mas pensou que Ikki, um homem experiente em vários campos, fosse conseguir domar um “garoto mimado”, mesmo que esse garoto mimado tivesse uma poderosa personalidade. Shaka Phalke era astuto, inteligente, sedutor. Era o advogado perfeito, o tipo que conseguia representar num tribunal os mais diversos papéis; fosse o do advogado inexperiente e frágil, para conquistar as testemunhas, fosse o acusador implacável e impiedoso. Talvez o houvesse subestimado, ou superestimado as habilidades de Ikki. Entretanto, a verdade era que, agora, Mu estava perdido naquele momento. Precisava de ajuda. E ainda havia Ikki.

Pegou o telefone e discou rapidamente, esperando alguns segundos até que alguém atendesse do outro lado.

— Oi. Preciso que mande alguém para interrogar Ikki. Nenhum membro da operação pode fazer isso. Sim. Afrodite e Angelo farão o mesmo com Phalke e Aldebaran cuidará dos empregados. Os espectros? É mesmo necessário? Não estou questionando, eu só... Certo. Aguardo.

Mu desligou o celular e deixou a mansão. Tinha problemas maiores para resolver e ao que tudo indicava, Phalke estava em boas mãos. O grande problema era que o tempo estava cada vez mais curto.

00**00

Shaka não soube o quanto dormiu, mas quando acordou, parecia ser dia claro. Ele moveu-se na cama, espreguiçando-se, e se sentou. Foi quando percebeu que não estava sozinho.

Havia um homem sentado numa poltrona. Seu semblante era sereno, ele era muito bonito e sorriu quando Shaka o encarou.

— Bom dia. Que bom que acordou, deseja alguma coisa? Água? — cumprimentou, indagou e apontou com o queixo para o lado da cama, mostrando uma bandeja com o café da manhã.

— Quem é você? — Shaka perguntou, alerta. Rostinhos adoráveis não o convenciam. Já conhecera assassinos em série que sorriam do mesmo jeito.

— Você pode me chamar de Afrodite. É como meus amigos me chamam. Vim saber se precisa de alguma coisa, antes de pedir que desça para conversarmos. Sua rotina continua a mesma, Shaka. Tome um banho, vista-se e depois desça para conversar comigo.

O homem bonito se ergueu e deixou o quarto com passos elegantes. Shaka ficou olhando para as costas dele e sentiu um vazio estranho dentro de si, como se as coisas não se encaixassem direito. Levantou da cama e foi fazer o que o tal Afrodite havia mandado, afinal, a única coisa que podia fazer era obedecer.

No andar inferior, mais propriamente na imensa cozinha, os membros d’A sociedade estavam reunidos. Milo apoiava-se numa bancada de mármore com os braços cruzados. Camus, como sempre, recebia informações das outras células através de um laptop, Mu parecia pensativo, enquanto Angelo e Aldebaran mostravam-se agitados. As coisas ainda não estavam claras. Nada fora resolvido e por isso eles ainda estavam ali. Recebiam as últimas instruções da central, antes de iniciarem a nova fase da operação Phalke.

— Ele acordou — Afrodite disse, aparecendo na cozinha com um sorriso doce, um sorriso que todos ali sabiam ser de um sadismo desconcertante. — Não parece tão ruim. Está magro, mas nada que uma comidinha nutritiva não resolva. Metidinho e nariz em pé como sempre... Não parece traumatizado, molestado ou torturado de alguma forma – concluiu o loiro.

— Acho que você não está se dando conta do nosso problema — Milo disse, lançando um olhar zangado ao companheiro. — Não temos tempo! Deu merda! O melhor é soltarmos o doutor Phalke e desaparecermos no mundo antes que ele nos denuncie. Ele não vai cooperar. Se Ikki não conseguiu...

— Está nos subestimando! — Angelo disse com um sorriso de troça. — Ikki falhou, todos os homens falham em algum momento da vida. Ele deixou o emocional comandar suas ações...

— Não sabemos ainda o que aconteceu — Aiolia falou, puxando uma cadeira e se sentando. — Ainda não podemos julgar a conduta dele. Não seja precipitado, Mask.

— Mas algo sério aconteceu. Ikki não é homem de sair assim com o rabo entre as pernas, algo grave aconteceu aqui e precisamos descobrir. — Aldebaran concordou.

— Que inferno esse homem tem para conseguir abalar um de nós?! — o sangue quente italiano de Angelo falou mais alto. Seu senso de fraternidade era notório. — Mu, me dê uma semana! Uma semana! e o doutor Phalke entrega os pontos!

Só nesse momento Camus ergueu seus olhos frios para os companheiros, detendo-se em Mu. O hacker parecia esperar um posicionamento do líder que terminasse com aquela balbúrdia.

— Calem-se. Eu ainda não sei o que fazer. Preciso pensar — Mu resmungou. — Os espectros vão cuidar do Ikki.

Agora todos se entreolharam.

— Como é que é? – Milo foi quem primeiro questionou. — Vamos deixar um de nós nas mãos daqueles lunáticos?! Que porra é essa, Mu?!

— Não foi uma decisão minha. Na verdade, nem foi uma decisão da cúpula, ao que parece veio de mais alto – o líder mordeu os lábios, dando mostras de preocupação. – Não precisamos nos preocupar, estamos falando do Ikki, do Ikki, entenderam?

Um silêncio pesado ficou entre eles por um tempo, era notório que todos estavam revoltados com aquela situação e frustrado pela impotência diante de ordens superiores.

— Pedi que Phalke descesse, e acho que ele não deve encontrá-los aqui. Deixemos essa reunião para outro momento, senhores. – Afrodite disse, cruzando os braços.

— Verdade. Não é sensato que ele conheça todos nós. — Camus voltou a falar enquanto passava a mão nos seus cabelos ruivos. — Mu, realmente não temos muito tempo.

— Suborne quem for preciso, Camus — o líder disse com sua voz calma como sempre. — Segure ao máximo isso até que o doutor Phalke esteja pronto. Angelo e Afrodite, temporariamente ficarão responsáveis por ele. Têm uma semana para conseguir que Phalke colabore. Tentem tirar dele o que aconteceu aqui para que Ikki deflagrasse o código vermelho. Os demais venham comigo. Por hoje, nossa missão aqui terminou.

— Preciso de uma cozinheira! Ikki levou a dele! — Afrodite falou e Mu moveu os braços num notável “te vira”. — É, acho que hoje ficaremos com macarrão instantâneo a não ser que você queira cozinhar, Angelo.

— Nem vem!

— Tudo bem. Deve ter algumas das copeiras que saibam fazer uma gororoba! – o sueco deu pouca importância ao fato.

— Providencie o almoço, Afrodite. Enquanto isso, eu vou trabalhar de verdade – o italiano falou, deixando um sorriso sádico escapar dos seus lábios.

Afrodite franziu a testa.

— Mas já?

— Só vou me apresentar — Máscara da morte riu de leve, saindo da cozinha, em direção à sala de jantar.

Título: Ninguém pode servir a dois senhores.

Notas finais
Agora prometo não demorar, o próximo já está em curso, talvez saia ainda esta semana. Obrigada a todos que leram e um grande beijo! Sion