Nelumbo nucifera

3 “Aquila non captat muscas”


Notas iniciais
Olá, querido leitores, Antes de tudo, gostaríamos de agradecer àqueles que leram e tiraram um tempinho para deixar uma review carinhosa. É muito gratificante saber que vocês gostaram dos dois primeiros capítulos. Obrigada aos que estão acompanhando e que favoritaram também. Esperando retribuir o carinho de todos. Bem, mais um capítulo! Beijos no coração e uma ótima leitura! Sion e Lua

“Aquila non captat muscas”

Capítulo 3

Algumas horas mais tarde, o moreno estava em sua biblioteca particular, com um copo de dry Martini em uma mão, o celular em outra. Discutia de forma fervorosa e hostil. Quando finalmente finalizou a ligação, bufou zangado, levantou-se da sua cadeira presidencial, contornou a enorme mesa de mogno e caminhou até a enorme janela de vidro, que dava para o gigantesco jardim da propriedade. Olhava sem parecer enxergar, quando percebeu uma presença atrás de si. Sem precisar se voltar, bebeu mais um gole da bebida e perguntou:

– Já ligou para Carlo?

– Sim, senhor. – respondeu o mordomo.

– E ele confirmou presença?

­– Eu disse que o senhor exigia a presença imediata. Amanhã mesmo ele estará aqui, senhor.

– E quem virá com ele?

– Bem, meu senhor... Ele tentará entrar em contato com todos. A princípio, ele me assegurou que trará consigo Shura e Afrodite. Os dois irmãos, Aiolia e Aiolos, são sempre muito ocupados, mas acredito que Carlo será convincente o bastante para trazê-los também. Não será difícil, eles lhe são muito leais, senhor. Mu e Aldebaran deverão vir, se Camus e Milo também aparecerem.

– Ótimo. – o moreno bebeu mais um gole do Martini e olhou em seu relógio de pulso – Ele já comeu?

– Ainda não, senhor. Estávamos esperando por alguma ordem sua e...

– Eu vou até lá. – interrompeu o elegante e poderoso homem – Já faz mais de 24 horas que ele não se alimenta. Agora talvez esteja mais dócil. – dizendo isso, deixou o local e encaminhou-se para o aposento designado ao loiro. Em frente à grande porta, não bateu. Indicou ao segurança que guardava o local que abrisse a porta e entrou. O quarto estava escuro e ia acender a luz quando viu que a porta da varanda estava aberta. A luz da lua iluminava a figura do loiro, que se via estática ali. O moreno avançou até lá, mas parou à entrada da varanda. Por algum motivo, não soube como agir num primeiro instante. Shaka parecia em paz. Isso acabou por o irritar, e ele terminou de avançar os passos restantes. Contornou o local em que Shaka estava sentado, escorou-se na varanda e ficou de frente para o loiro: – Posso saber o que está fazendo? – perguntou.

Shaka já estava no estado meditativo em que os primeiros nuances da realidade começavam a ficar mais evidentes e por isso ele conseguiu escutar a voz grave, mesmo que ela parecesse distante ainda. Continuou o ‘processo de retorno’ lentamente, sem que a pergunta do ‘intruso’ interferisse na velocidade dos seus pensamentos, até por que, depois dela, tudo se tornou silêncio.

Abriu os olhos lentamente, piscando os longos e negros cílios e visualizando a figura imponente à sua frente.

– Meditando. – Disse sem sair do lugar. – Deve saber que eu sou yogi, não sabe? – Sorriu irônico. – Ou isso não consta no seu ‘ relatório sobre a vítima’?, senhor psicopata. – Falou sarcástico e se ergueu da mesma forma elegante de sempre, tencionando seguir para o quarto.

– Pare de me chamar de "psicopata". Eu não gosto. – o moreno não se moveu, apenas observando o loiro ir se levantando devagar – Mas você está certo em um ponto. Eu tenho um relatório sobre você e, provavelmente, sei mais de você do que você mesmo, Shaka. – o seguiu para dentro do quarto – Enfim; eu vim saber se você está disposto a comer agora. – perguntou em um tom tranquilo, tranquilo demais, como quem não quer nada.

– Devo supor que me envenenar ou drogar não está em seus planos, senhor...? Ah, não devo chamá-lo do que é, um psicopata, então que tal me dizer seu nome? – Indagou abrindo o closet e procurando algo para vestir.

O moreno observou calado por alguns instantes enquanto o loiro ia até o closet se vestir. – Ikki. – Falou, por fim, em um tom neutro. – É só o que precisa saber. Não há necessidade de conhecer meu sobrenome, nem nada mais a meu respeito. Bem, vista-se rápido. Vou mandar que coloquem a mesa para você. E não demore, eu vou estar esperando. – voltou o rosto para trás, com um sorrisinho provocante – Porque, é bom que fique logo sabendo, você fará todas as suas refeições na minha presença. E eu não gosto de esperar. Então, arrume-se logo. Khan, meu mordomo, estará à sua espera do lado de fora. – finalizou e saiu, fechando a porta atrás de si.

– Olá, rapaz. – o mordomo entrou alguns segundos após Ikki deixar o aposento – Precisa de ajuda com algo? – o homem grisalho indagou, gentil.

Shaka sorriu para o idoso.

– Não, obrigado. Eu vou tomar um banho e já retorno. –Falou e foi para o banheiro. Tomou um banho rápido e voltou ao quarto, começando a vestir a roupa que havia selecionado:uma calça preta e uma camisa azul escura. Suspirou. Parecia que aquele louco selecionou as peças com cuidado e de acordo com seus gostos pessoais. Perguntava-se como ele sabia tanto de si. Não era possível. Ele deveria ter passado meses o investigando. Shaka sabia que era dessa forma que a maior parte dos sociopatas escolhiam suas vítimas.

Saiu minutos depois, encontrando o tal Khan o esperando com sua postura sempre distinta.

– Estou pronto. – Sorriu e seguiu ao lado do mordomo em direção a extensa escada. – Diga-me, senhor Khan, o senhor tem consciência que vai para cadeia quando descobrirem o que o seu patrão está fazendo? Claro que tem. Você é cúmplice dele. Como advogado eu pediria a pena máxima para os dois, já que sequestro e tortura são crimes hediondos e nem adianta dizer que apenas cumpriu ordens, foi isso que os nazistas condenados à morte disseram – continuou com a voz pausada e suave de sempre. Queria saber quem era aquele homem também e simplesmente fingir cordialidade não iria funcionar.

O homem de cabelos grisalhos riu de leve, de forma quase amigável.

– Meu rapaz, você não sabe do que fala... Eu sei exatamente o que está acontecendo aqui, assim como todos os criados e empregados dessa casa. Assim como também sei dizer que nada do que me está ameaçando irá acontecer. – o mordomo guiava Shaka pelo mesmo caminho da outra vez, em direção à sala de jantar – Em primeiro lugar, o nosso senhor não pode ser preso. Para isso, ele teria que... existir, de fato. E isso, em um mundo tão cheio de burocracias, não ocorre. O nosso senhor não existe em papéis; você mesmo, um rapaz tão esclarecido, não deve nunca tê-lo visto antes... – o mordomo deu de ombros – Mas esse nem mesmo é o grande ponto em questão, senhor Phalke. Tudo de que você nos ameaçou nunca irá se cumprir, simplesmente porque, quando você finalmente sair daqui, não irá fazer absolutamente nada disso. Não irá nos incriminar, processar ou qualquer outra coisa do tipo. E isso porque você somente sairá daqui quando o nosso senhor julgar que esteja pronto. E você só estará pronto quando ele tiver alcançado seu objetivo. E, quando ele alcançar... – haviam chegado à frente da porta da sala de jantar – E, só para que saiba: ele sempre alcança... Bem, quando ele alcançar, você não será uma ameaça. Acredite, eu sei perfeitamente bem do que estou falando. Ou acha mesmo que o senhor é o primeiro que ele traz aqui, sob essas circunstâncias? – o mordomo olhou de forma sugestiva, indicando que não foram poucos os que ali estiveram antes — O nosso senhor alcançou o posto em que se encontra por vários motivos... Um deles é o fato de que ele soube criar bons "contatos" com algumas pessoas que passaram também por uma estadia aqui. – finalizou o mordomo, no mesmo tom pausado e tranquilo de sempre.

Shaka viu-se desarmado diante daquelas afirmações. Pior, sentiu-se acuado e isso era a pior coisa a se fazer com uma pessoa como ele.

– E se eu matar você e o seu senhor? – estreitou os olhos de maneira perigosa. – Porque pra mim vocês são bem e odiosamente reais. Eu não terei piedade por você ser um velhinho, saiba disso. E eu nunca farei o que esse psicopata atrás da porta quer, tenha certeza. Se ele já fez isso antes, tanto melhor, eu vou mostrar a ele que nem sempre as pessoas são iguais. Eu não tenho medo dos contatos dele e nem de fantasmas, senhor Khan. – Falou tudo isso num sussurrar perigoso, mas depois sorriu com doçura. – Vamos, estou com fome!

O mordomo preparou-se para abrir a porta, mas hesitou por um leve instante.

– Senhor Phalke, permita-me fazer um alerta... A casa e toda a propriedade é protegida por inúmeras câmeras, visíveis ou não. Qualquer gesto em falso do senhor acarretará não muito boas consequências. Então, ouça meu conselho, se quiser que sua estada aqui não seja traumática em seu início... Obedeça. Apenas obedeça. Nosso senhor detesta ser contrariado. Outros foram impetuosos a princípio, como o senhor deseja ser. No final, todos eles terminaram exatamente como o meu senhor desejava que ocorresse. Entretanto, foi um processo... doloroso. E não precisa ser assim. Enfim; é o meu conselho. – dito isso, abriu a porta do salão. Ikki estava sentado à mesa, com um livro em mãos. Assim que a porta se abriu, ele depôs o livro sobre a mesa e, com a mão direita, fez um gesto para que o loiro se sentasse a seu lado, exatamente como tinha feito da outra vez. O mordomo silenciosamente deixou o aposento, fechando a porta em seguida.

Shaka caminhou resoluto,com seu jeito elegante e imponente e o queixo erguido, mirando diretamente para o moreno e se sentando ao seu lado como o indicado. Ficou em silêncio, tenso, esperando pela próxima jogada. Aquilo era um jogo, sim, era um jogo e ele precisava de cautela.

– Conheço bem seus hábitos alimentares. Mandei que preparassem algo a seu gosto. – Ikki disse, mirando Shaka de volta, enquanto falava com a voz em um tom suave, como se fosse apenas um bom anfitrião recebendo um convidado. Fez então um sinal e, no mesmo instante, criados entraram trazendo os pratos para servir o loiro. Realmente, deveria haver câmeras ali que nem mesmo eram vistas, pois os empregados surgiam repentinamente, após um simples sinal do moreno. Faziam rapidamente seu trabalho e desapareciam logo. Quando se viram novamente a sós, Ikki voltou a falar, olhando fixamente para o rosto do advogado – Espero que esteja tudo de acordo com seu paladar. Fui bastante enfático sobre o modo de preparação. Você tem gostos peculiares e, certamente, não ficaria satisfeito com uma refeição feita de qualquer forma. Entretanto, se alguma coisa não estiver dentro do que você considera como bom, não hesite em me dizer. Cuidarei para que isso seja devidamente resolvido o quanto antes. – Ikki falou em um tom tão cordial que chegava a confundir quem o ouvisse. Ergueu então a taça de vinho que bebia e sorriu de um modo cavalheiresco – Bom apetite.

Shaka apenas encarava toda aquela encenação do moreno calado, o mirando fixamente, sem desviar o olhar nem mesmo uma vez sequer. Pegou os talheres com cuidado e começou a comer muito lentamente. Mesmo que a comida estivesse maravilhosa, e deveria estar, ele comia mecanicamente, apenas porque sabia que precisava estar fisicamente bem, então somente empurrava o alimento para o estômago. Como era vegano, sempre precisava comer mais, porque as quantidades de proteínas nos vegetais eram bem inferiores a das carnes. Ele também não consumia nenhuma outra fonte de proteína animal, como os laticínios, por princípios.

Continuou a comer calmamente, provando a água, vez por outra, mas sem dirigir nenhuma palavra ao homem ao seu lado. Queria fazer perguntas, mas sabia que não seria respondido, então se calava.

– As roupas lhe caíram muito bem. – Ikki prosseguiu falando, lançando um olhar cobiçoso para o loiro – Fico feliz. As medidas passadas para os alfaiates foram de alguns meses atrás; mas, pelo que vejo, você se cuida bem e seu corpo não sofre graves mudanças com o passar do tempo. – o moreno disse e se serviu de mais vinho. Como Shaka permanecia calado, continuou falando – Depois do jantar, eu vou à minha biblioteca ler um pouco. Você vai comigo. – não perguntou; afirmou.

– Hum... biblioteca? – não conseguiu segurar mais a língua, até porque, aquele olhar o incomodou, talvez tenha sido a primeira vez que ele se sentiu incomodado de fato na presença poderosa daquele homem. Shaka não era de se abalar facilmente e nem se deixar intimidar, mesmo admitindo que o outro fosse um grande adversário e que com certeza causasse impacto. Dessa vez, contudo, foi diferente e ele teve que levar o copo aos lábios antes de prosseguir: – Quer que eu leia pra você? Então essa será uma das minhas atribuições? Acho que posso ajudar, alfabetizei algumas crianças na Índia, imagino que não será difícil, senhor Ikki. – Disse em um tom cordial. – Posso perguntar algo? Estou autorizado a fazer pergunta ao grande psicopata senhor Ikki? – Provocou.

Ikki riu brevemente e depois se ateve a ficar olhando de forma mais intensa para Shaka.

– Sempre que tem a oportunidade, você gosta de me atiçar, não é? Que ótimo. Eu vou gostar muito mais disso tudo. – O moreno sorriu enigmático, mas havia algo de provocativo naquele sorriso. – Não, você não vai ler para mim. Vai ficar lá, comigo, porque eu quero assim e porque será assim sempre que eu quiser. Você está nessa mansão para ficar na minha presença sempre que eu assim desejar e para fazer o que eu quiser da forma que eu mandar. Se me obedecer, vai correr tudo do modo mais simples. Do contrário... – Ikki riu novamente – Do contrário, você vai se arrepender muito de não ter feito as coisas do jeito que eu queria. Mas, se continuar obediente como está agora, nossa convivência será tranquila. Até lhe permito fazer perguntas, como pediu agora. – o olhar de Ikki se aprofundou no loiro.

Shaka sorriu irônico, mas depois mordeu os lábios para controlar a vontade de cuspir na cara daquele homem. Obedecer a ele? Ele não sabia com quem estava lidando.

– Eu posso acompanhá-lo sim, afinal não tenho muita escolha. – Olhou para o lustre luxuoso sobre a própria cabeça com um sorrisinho incrédulo. – Senhor Ikki sem sobrenome, eu advirto que homens maiores que o senhor e muito mais... Deixe-me achar a palavra correta, muito piores! Já tentaram me intimidar e não conseguiram. Claro que eles não tinham capangas armados e uma mansão como fortaleza, como você, mas advirto, isso não vai funcionar comigo. Diga-me, acha mesmo que tem algum poder sobre mim? – encarou o outros com firmeza. – Você não tem. Manter-me aqui forçado quando se tem um monte de capangas que se comportam como cãezinhos leais e podem quebrar meu braço, caso eu me negue a fazer o quer não é poder, senhor Ikki. Se impor pela força só mostra o quanto é fraco e doente. Mas já que posso perguntar algo, eu queria saber como me encontrou, o que em mim lhe chamou atenção, porque “o que eu sou” o incomodou a ponto de você querer me torturar psicologicamente?

– Você fala demais. Mas tudo bem, eu já devia estar esperando por isso. Você tem um temperamento difícil, mas preciso admitir que pessoalmente está sendo mais interessante do que eu esperava. Bem, vamos ao que interessa. Sim, eu tenho poder e controle. Independente do que você disser, eu tenho poder sobre você e vou usá-lo como quiser. Agora, que fique claro. Você NÃO tem liberdade de me chamar de louco ou fraco. Não faça isso, entendeu? – embora o tom de voz não houvesse se alterado, as palavras, soaram bem ameaçadoras – Eu vou deixar passar dessa vez, mas que fique claro: Não ultrapasse esse limite. Você diz que já esteve com outros homens que o intimidaram mais? Eu duvido. Você ainda não me conhece. Não tem noção de quem eu sou, não imagina pelo que já vivi, pelo que já passei e pelo que fui capaz de fazer para sobreviver. Acha que mantenho o respeito de meus homens apenas por dinheiro? Engana-se muito. Então é o meu alerta, pela última vez. Tome mais cuidado com suas palavras.

Ikki se levantou da cadeira e em pé, parou atrás da cadeira do loiro. – Sobre sua pergunta, que foi mais de uma, eu vou ser gentil e lhe conceder uma resposta. Em primeiro lugar, não foi difícil encontrá-lo. Você é uma figura notória já há algum tempo. Ainda mais tão jovem, tem incorrido em algumas proezas que o deixaram bem à vista. Bom, seu lado "paladino da justiça" certamente me chamou atenção, mas o fato de vir de uma boa família também. Você tem uma vida perfeita. É perfeito. Perfeito... demais. – ele apoiou as mãos nas costas da cadeira e se inclinou, aproximando-se do loiro assim – Eu não gosto de perfeição. Nem dessa pureza que você parece exalar. E não preciso explicar por quê; é bom apenas que você saiba que eu não gosto. E vou acabar com isso em você. Isso não é tortura, como você disse. Não pretendo torturá-lo. Vou tratá-lo muito bem, se você me obedecer. Apenas não irei aceitar que continue me desacatando. Se fizer tudo certo, poderemos nos entender muito... bem. – falou bem próximo de Shaka, de modo que sua voz se tornasse rouca.

O corpo do loiro estremecia à medida que ele falava tão próximo à sua nuca daquela forma baixa e ameaçadora. A proximidade daquele homem de certa forma o desconsertou e o afastou da sua tão conhecida racionalidade. Não houve tempo para pensar numa resposta inteligente, sarcástica e ensaiada e fez o que mais detestava: agiu por instinto.

Rapidamente, Shaka pegou o garfo sobre a mesa e antes que qualquer um dos dois pudesse prever sua reação, ele direcionou o talher para a jugular do moreno, segurando-o pelo pescoço com força de forma que ele não conseguisse se soltar facilmente, embora reconhecesse que isso fosse uma questão de tempo se acaso se distraísse, pois o louco era bem mais forte que ele e a posição em que estava era ruim.

– Escuta aqui, seu louco, psicótico, psicopata, filho da puta! – grunhiu como um lobo enfurecido, os olhos flamejando de ira. – Você também não tem noção de quem eu sou! Saber de tudo isso não lhe dá vantagem alguma sobre mim, porque eu vou te matar! Vou furar sua jugular e beber seu sangue se você não me deixar sair daqui! – Ele tremia agora, de raiva, de revolta, mas também... de medo do que aquele louco pudesse fazer consigo, porque, sabia, não iria colaborar nunca com ele. Tentava controlar essas sensações, mas a intensidade delas agora não lhe davam muita prudência.

Num primeiro instante, Ikki arregalou os olhos, verdadeiramente surpreso. Era verdade que, até aquele momento, estivera apenas fazendo uma espécie de reconhecimento de território. Conhecia sua presa, por assim dizer, mas sabia bem que conhecer na teoria era diferente de conhecer na prática. Queria entender um pouco mais a fundo algumas das nuances que mais lhe tinham interessado no perfil do loiro. Entretanto, a reação de Shaka o havia realmente surpreendido. Contudo, a surpresa, mesmo que grande, foi efêmera. Logo se sentiu novamente dentro do próprio controle. Então riu:

– Você é realmente corajoso. Muito corajoso. – falava sem se mover, sentindo a proximidade do garfo – Eu vou adorar subjugá-lo... Entretanto, seja um pouco mais inteligente. Há inúmeras câmeras aqui. Sabe por que meus homens ainda não entraram? Por que estão apenas esperando por um sinal meu. Mas eu não dei qualquer sinal porque não preciso, ainda tenho o controle da situação. É por isso que eles ainda estão ali, parados à porta, está vendo? – notou que, por reflexo, Shaka lançou um rápido olhar na direção da porta. Foi o bastante de distração de que necessitava. Em um movimento prático, tomou o loiro em posição contrária, segurou-o contra si, pegando-o pelas costas e segurou com mais força o braço que estava com o garfo. Levou o braço do loiro para as costas, forçando-o para trás e causando muita dor, ouvindo-o gemer e resistir, até que a mão de Shaka terminou por largar o garfo. Aí então Ikki agarrou o corpo do loiro contra si, segurando com um braço o corpo agitado e, com a outra mão, imobilizou-o pelo pescoço. – Então você quer brincar? – falou no ouvido do loiro, com a voz mais alterada – Você não entendeu ainda? – virou o loiro contra a parede, colando o rosto dele ali e prensando seu corpo por trás, usando o próprio corpo como forma de aprisioná-lo – Você está mesmo querendo ver até onde eu posso chegar, Shaka...? – falou o nome do loiro por entre os dentes, com uma ameaça explícita.

Shaka sentia uma dor insuportável no pulso que fora torcido. Como foi tolo ao se distrair com as palavras do outro, deveria ter furado a garganta dele logo, mesmo que morresse depois. Sua respiração estava descompassada, seus olhos flamejavam com tanto ódio que se umedeciam com lágrimas odiosas e revoltantes. Não queria que aquele idiota pensasse que ele estava com medo dele.

– Por que não me mata logo, desgraçado?! Me solta! – grunhiu como um animal enfurecido e ferido. – Eu odeio você, eu vou matá-lo assim que tiver uma chance, você nunca conseguirá o que quer, não comigo! – disse e ofegou de dor, de raiva, de revolta. – Tem gente procurando por mim, você sabe quem é meu pai, você não sairá em pune dessa!

Falou e fechou os olhos com força para conter as lágrimas de raiva que queriam sair. – Me solta! Você já mostrou seu poder, seu idiota! – tentou mover-se novamente, incomodado com o contato do corpo forte contra o seu.

Ikki sentiu o corpo agitado sob o seu e pensou em inúmeras coisas naquele momento. Coisas demais, na verdade. Soltou um suspiro pesado e deu um passo atrás, libertando o loiro. Abaixou-se em seguida e pegou o garfo caído no chão, para jogá-lo longe, com força e alguma raiva.

– NUNCA mais faça isso novamente. Entendeu? – viu o rosto afogueado de Shaka, mas não sorriu. Não era o que queria. Não desse jeito. – Venha comigo. – sem esperar resposta, tomou o loiro pelo pulso, o que não estava ferido, e o puxou consigo. Caminhou a passos largos e rumou para a biblioteca.

Título: Águias não caçam moscas.

Notas finais
OBRIGADA A TODOS QUE PASSARAM POR AQUI! BEIJOS E ATÉ MAIS! LUA E SION