Nelumbo nucifera

18 Anceps fortuna belli


Notas iniciais
Olá, leitores! Muito obrigada aos que deixaram um comentário no capítulo anterior. Boa leitura.

Anceps fortuna belli

Capítulo 18

Bleeeeeeeeeeem... Bleeeeeeeeeeem... Bleeeeeeeeeeem...

— Um, dois, três... quinhentos... Quinhentos e noventa e nove... — Shaka tentava contar. Manter a mente ocupada, ignorar o barulho infernal daquela sirene. — Seiscentos e trinta... — Bleeeeeeeeeeeem... — Seiscentos e trinta e dois... — ele batia a cabeça levemente contra a parede de azulejos fria. Estava muito frio ali, mas ficava estranhamente quente assim que seu corpo começava a entorpecer. — Fechou os olhos, o corpo cambaleou para frente e para trás. Ele estava quase dormindo e então, dessa vez não foi a sirene, foi a água. Um jato de água fria que o fez gritar e esmurrar as paredes até os nós dos seus dedos esfolarem. — Dois dias... Quatro dias... cinco... — havia perdido a noção do tempo que estava ali. Mas sabia que estava sendo torturado. Torturado para falar alguma coisa. Alguma coisa que não sabia o que era.

— Shaka... — a voz era mansa como um veludo espinhento — Se nos disser o que queremos, tiramos você daí... — havia uma caixa de som na sala. Uma caixa que ele não conseguia alcançar para quebrar aos pedaços.

— O que querem de mim?... — murmurou, mas sabia que eles poderiam ouvi-lo, embora não pudesse vê-los. Eram fantasmas, estavam em toda parte. Estavam ali com ele. Estava ficando louco.

— O que aconteceu na mansão?

Shaka passou os nós dos dedos no rosto, numa tentativa de manter-se acordado, manchando a face com seu próprio sangue.

— Eu...estava... — tentava entender a pergunta, mas ficava mais difícil entender alguma coisa a cada momento. — Quem são vocês?

— Responda a pergunta.

— Vão pro inferno! — gritou, grunhiu, cobriu a cabeça com as mãos. Precisava dormir. Só precisava dormir. Mas a sirene voltou. Bleeeeeeeeeeem... Bleeeeeeeeeeem... — ele não podia dormir.

Ikki estava com ódio, muito ódio. Mas o ódio principal era voltado para si mesmo. Malditas pílulas, que o deixaram vulnerável! Se estivesse, desde o início daquela droga de interrogatório, sóbrio como de costume... Se estivesse na sua melhor forma... Definitivamente, não estaria naquela situação.

A raiva que sentia, naquele momento, era providencial. Afinal, não era uma raiva incontida. Era uma raiva controlada. Do tipo a que ele se habituara em seu período de treinamento para fazer parte d'A Sociedade. A raiva era sua amiga. Sua velha conhecida. Depois que foi aprendendo a controlá-la, era ela quem o mantinha desperto. Concentrado. Sim, estranhamento, um sentimento tão capaz de desnortear havia se tornado, em Ikki, responsável por colocá-lo em uma forma de autocontrole. Porém, não era autocontrole de fato. O que o moreno fazia era acumular toda a raiva que estava sentindo, guardando esse sentimento tão nocivo em algum recôndito dentro de si, para que depois essa raiva pudesse explodir violentamente. E era a expectativa por esse momento, que Ikki sabia que chegaria, que o fazia manter-se aparentemente tão controlado. Todos os seus sentidos ficavam sob controle porque, em sua mente, um único pensamento tinha espaço. Vingar-se. Vingar-se de quem estivesse lhe fazendo mal. Vingar-se do inimigo. Era assim que ele funcionava, e funcionava muito bem.

Agora mesmo, Ikki recebia mais um jato de água fria. Bufou, nervoso. Respirava profundamente. Praticamente não se movia. Sabia como aquilo funcionava. Não daria a esses homens o prazer de vencê-lo. Isso, nunca. Moveu os olhos pelo recinto. Os azulejos brancos já se tornavam um borrão novamente. Fechou os olhos. Respirou fundo. Procurava sentir a raiva, o ódio crescente em seu peito. E pensava em como se vingaria de quem estivesse controlando a maldita "geladeira". Esses pensamentos eram o que o mantinham, de alguma forma, consciente e sob controle. Não era fácil. Mas não era sua primeira vez.

— Ikki. Você sabe que podemos continuar com isso por quanto tempo for necessário. Você sabe como isso funciona. Por que prolongar esse sofrimento? Vamos, é só responder o que queremos saber.

Aquela voz. Toda vez que ela ressoava, Ikki se concentrava ainda mais. Fechava os olhos. Tentava ouvir com atenção, para se recordar dela com perfeição quando a ouvisse novamente... Fora daquela sala. E aí, iria se vingar.

— Vamos, Ikki. Conte-nos. Por que precisou dar o Alerta Vermelho? O que aconteceu entre você e Shaka?...

Radamanthys era quem falava com Ikki. Estava ficando impaciente. O prazo terminava e não conseguia arrancar nada do cavaleiro. Bufou, sorvendo o uísque em seu copo e mirando Minos que continuava com seus relatórios.

— Cinco dias. É o regulamento — Minos lembrou.

— Ainda faltam algumas horas. Continuarei até o último minuto. Se ele estiver escondendo algo pode comprometer tudo.

—Você é um dos paranoicos!

—Prudente, apenas.

Minos balançou a cabeça e nesse momento a porta se abriu e alguém entrou, observando os dois homens e depois a grande tela à frente deles, que exibia Ikki dentro do quarto branco.

Mu respirou fundo e mordeu os lábios. Nunca concordou com aqueles métodos dos espectros. Não entendia por que A sociedade estava fazendo aquilo. Por mais importante que fosse Phalke, eles nunca tinham ido tão longe com seus próprios membros, nem com nenhum refém. Havia coisas naquela operação que nem mesmo ele entendia e das quais estava proibido de perguntar.

— Cedo, Gyatso — Radamanthys disse, erguendo-se e encarando o outro. — Tenho mais cinco horas com ele.

— Você vai devolver meu cavaleiro agora — Mu disse, sem se intimidar, arrancando um sorriso de canto de Minos.

— Com qual autoridade? — Radamanthys ergueu uma sobrancelha.

— Você receberá um telefonema — Mu simplesmente disse, abrindo a porta novamente. — Agora eu vou buscar o Ikki, não tente me impedir.

O espectro bufou, mas tentou se recordar de que ele e aquele homem, por mais que não gostasse dele, estavam do mesmo lado.

Mu atravessou o corredor escuro, acompanhado por dois dos seguranças do local e chegou à “geladeira”, abrindo a pesada porta de ferro e acendendo as luzes.

— Ikki — ele disse, mirando o companheiro, compadecido. — Eu vim buscá-lo. O círculo autorizou a sua reintegração. Desculpe-me por isso, foi contra a minha vontade.

Ao ouvir a voz conhecida, Ikki moveu o rosto, devagar, na direção da porta. Seu corpo inteiro lhe doía. Mas não gemia, não reclamava daquele sofrimento com o qual, dentro do possível, ia se acostumando, com algum esforço. Piscou os olhos várias vezes, porque sua visão estava bastante prejudicada. Quando a imagem diante de si foi se tornando mais nítida, sentiu um alívio no peito, embora não demonstrasse isso em sua fisionomia.

— Mu. —Ikki disse, com a voz enrouquecida. Sentiu então que alguns homens jogavam sobre si uma espécie de cobertor. Sabia o que era aquilo, era um tipo especial de coberta que ajudaria a regular sua temperatura corporal o mais rápido possível. Começou a tentar levantar-se, mas suas pernas estavam trêmulas. Percebeu que Mu levou os braços até ele, como se o quisesse ajudar. — Não. Eu me viro sozinho. — a voz não conseguia passar toda a força desejada, mas as palavras deixavam claro que Ikki não queria o apoio do outro. Embora Mu tivesse dito que tudo isso tinha ocorrido contra sua vontade, Ikki não queria nem saber. Para ele, agora, eram todos traidores.

— Ajudem-no — Mu ordenou, mesmo que Ikki não quisesse. Sabia como o companheiro se sentia. Era difícil confiar em alguém depois daquilo, e Ikki sempre foi naturalmente desconfiado. Desde sempre. Conheciam-se há tantos anos, e nenhum deles parecia se conhecer de fato.

Seguiram pelo corredor até chegarem a uma escada que descia para uma parte subterrânea onde havia quartos confortáveis e bem equipados. Era como se fosse uma clínica de reabilitação. Ali havia tudo que era necessário para que o cavaleiro se reestabelecesse.

Aldebaran já esperava por eles e, rapidamente, sem pedir permissão, guiou Ikki até a cama e se sentou ao lado dele, prendendo uma agulha na mão dele. Era uma espécie de soro especial que hidrataria o colega rapidamente.

— Tome isso — ele entregou uma garrafinha com um composto proteico. — Depois disso vai estar novo em folha — sorriu levemente. Nenhum dos “cavaleiros” estava feliz com a situação do colega. Sentiam-se de certa forma traídos ao serem entregues aos espectros. Havia certa rivalidade dentro da organização.

Ikki detestava sentir-se assim, tão fraco, tão dependente. Porém, precisava reconhecer que, naquele momento, não poderia simplesmente dar as costas a tudo aquilo e dizer que não precisava de qualquer um deles. Afinal, a verdade era que ele precisava e muito de todo o apoio no momento. Seu corpo havia atingido o limite; não estava forte o suficiente para poder se isolar e se restabelecer por conta própria. Era preciso engolir o orgulho e aceitar a ajuda oferecida. Entretanto, não pretendia agradecer ou dizer qualquer palavra afável. O ódio, bem guardado ali dentro, estava pronto para transbordar. Mas isso, no momento certo.

— Quem foi? — perguntou de repente, olhando para o soro ligado ao seu braço — Quem mandou que me prendessem? Quem foi que me colocou naquela merda de geladeira? — sua voz, embora ainda rouca e sem o tom ameaçador usual, possuía uma frieza que era capaz de assustar.

— A ordem veio d’O círculo. Está além de Shion. Além de mim — Mu falou, mirando um quadro expressionista que decorava o ambiente. Sentia-se revoltado internamente, mas ele era o tipo que implodia silenciosamente. Mirou mais uma vez as cores fortes naquele quadro. Era um barco velejando em um mar vermelho como fogo. Era um barco à deriva, parecia. — Eu sinto muito. Eles não acreditaram em seus motivos para deixar a operação. Espero que agora estejam convencidos e já que te tiraram da geladeira, espero que façam o mesmo com o doutor Phalke, se você... — Mu engoliu em seco. Odiava aquela operação. Esperava que ela terminasse logo. — Bem, você precisa descansar, recuperar-se. Depois o colocaremos a par das novas diretrizes da operação Phalke.

Ikki ia ouvindo cada palavra, atentamente, para absorver cada detalhe, a fim de planejar sua vingança contra aquele que tinha ousado se meter com ele. Estava ainda mantendo sua frieza adquirida como membro d'A Sociedade, mas assim que ouviu o que Mu comentou sobre Shaka, seu autocontrole desapareceu imediatamente:

— O quê?? Jogaram Shaka na geladeira também??? — arrancou a agulha do seu braço e, mesmo sem estar com as pernas fortes o bastante, fez menção de que saltaria fora da cama — O que vocês estão fazendo?? Ficaram loucos??? Vocês querem matar o Phalke?? Não sabem lidar com ele??? — dizia em voz alta, completamente descontrolado.

Aldebaran levou a mão ao peito dele, evitando que ele saísse da cama. Mu o encarou, franzindo a testa.

— Está tudo bem. Angelo e Afrodite são quem estão com ele, ainda. E não vão passar dos limites. Também não foi ideia nossa, mas O círculo deixou claro que ele não deveria ser ferido seriamente. Ele está seguro, ao menos por enquanto...

— Relaxa, cara — Aldebaran disse, tentando recolocar o soro preso à mão do outro cavaleiro.

Mu respirou fundo e ficou pensativo por um tempo. Não estava acreditando no que estava acontecendo. Nunca antes tiveram tantos problemas e agora havia questões internas que atrapalhariam toda a gestão daquela operação. Respirou fundo, ouvindo o que o cavaleiro dizia e dirigindo-se a Ikki novamente:

— Você nunca se importou. Nunca. Parecia feito de pedra, mais que qualquer um de nós... — observou, mas não teve coragem de prosseguir com os próprios pensamentos — julgamentos? — Parecia que havia acabado de tirar do colega a resposta que os espectros não foram capazes de tirar dele, e que Afrodite e Máscara da Morte não foram capazes de arrancar de Phalke.

Ikki estava com a respiração acelerada e, depois de tanto tempo se segurando, esse desaguar de emoções foi exaustivo demais. Aldebaran nem precisou se esforçar muito para conseguir contê-lo. Ikki precisou fechar os olhos e se concentrar novamente na própria respiração. Passados alguns segundos, voltou a abri-los e notou claramente o olhar interrogativo de Mu sobre si. Tinha ouvido o que ele dissera. E percebeu que havia se exposto demais.

— E eu não me importo. — falou, tentando usar um tom de voz frio, com alguma dificuldade — Eu me preocupo com a missão, apenas isso. — falava, mas percebia que não estava sendo bem sucedido. Mu nunca acreditaria no que dizia agora. E sustentar essa mentira estava se tornando complicado. Deixou que o ar abandonasse seus pulmões pesadamente — Mu, ele... é diferente. — baixou o rosto — Não sei se Afrodite e Máscara sejam os mais indicados para lidarem com ele. — falou, em um tom esvaziado de raiva, mas com um toque de preocupação. Falava com sinceridade agora. Não estava necessariamente admitindo qualquer coisa ao dizer tais palavras. Apenas demonstrava que, de fato, não confiava no trabalho daquela dupla.

Mu ficou um tempo olhando para o companheiro, mudo. Aldebaran pigarreou, e com isso dizia que aquele não era o momento para aquela conversa. Precisava que Ikki estivesse minimamente bem para que fosse reintegrado, e não conseguiria isso se Mu continuasse questionando o outro.

— Eu vou ligar, pedi pra tirar o doutor Phalke — deu ênfase a expressão —, da geladeira. Mas Afrodite e Angelo continuam com ele. Confio neles, sabem que não devem machucá-lo. Além disso, já chegou o momento do nosso hóspede conhecer parte das suas funções n’A sociedade. Não temos muito tempo e estou cansado disso.

Mu afastou-se e pegou o celular. Longe dali, Afrodite e Máscara da morte observavam as ações de Shaka pela câmera na cela.

— Mil e trinta e cinco, Mil e cinquenta e três... Mil e sessenta... Eu preciso dormir... — Shaka andava de um lado a outro dentro daquele lugar claro demais, uma claridade tão excessiva que doía tudo. Refletores pairavam sobre ele como se fossem grandes discos voadores, e ele só fazia rodar ali dentro. Às vezes batendo a cabeça na parede, mas nunca forte o suficiente para machucar-se. Apesar de tudo, ele mantinha a sanidade numa linha tênue, mas mantinha. Tentava se lembrar do tempo em que estava ali... cinco, seis dias, não tinha como saber exatamente...

As lembranças da infância invadiam sua mente e fazia-o vomitar algumas vezes o que o debilitava. Tentava respirar fundo como aprendera a fazer sempre que era exposto a uma situação gatilho, mas a claustrofobia se instalava algumas vezes e parecia que aquelas paredes brancas se fechavam sobre ele.

— Mil e setenta e cinco, mil e setenta e seis... Brahma, Vishnu e Shiva... Criação, manutenção e destruição... Mil e setenta e sete...

— Shaka, diga-me o que aconteceu na mansão? O que aconteceu entre você e Ikki?

— Mil, dois mil, três... Certo... — respirou fundo — Eu conto...

Silêncio. Silêncio. Silêncio. Mil e sessenta e um, mil e sessenta e dois...Febre... Febre... Ânsia... as paredes se fecham... Azia... Vômito... Queda...

— Shaka?

— Nós dois... — riu — estávamos... em lua de mel... com a vadia da sua mãe! Vocês sabem o que aconteceu! Eu era um refém! O que devia acontecer, seu idiota?! — o riso foi acompanhado por um novo jato de água e a total escuridão.

Frio. Muito frio. Encolheu-se. Sentia-se nauseado com o cheiro do seu suor e sangue.

Afrodite esmurrou a mesa e encarou Angelo depois daquilo.

— Ou realmente Ikki está falando a verdade, ou esse “menino mimado” como chamamos é bem mais casca grossa do que pensávamos. Faz cinco dias, Angelo! Não podemos mantê-lo mais. Ele pode enlouquecer de verdade e não queremos isso. Eu não suporto mais isso.

— Certo. Vamos tirá-lo da geladeira, mas eu continuo com ele. Precisamos pensar em outra coisa.

Afrodite suspirou, pondo as mãos na cintura.

— Charme não funciona, força também não. Não sei mais o que podemos fazer para dobrá-lo. Temos pouco tempo para deixá-lo macio. Não vejo forma de fazer isso.

O celular de Afrodite começou a tocar e ele atendeu a ligação de Mu. Sentiu-se aliviado naquele momento.

— Boas notícias! Ikki está fora da geladeira dos Espectros, e temos que tirar Phalke também. Confesso que isso já estava me incomodando.

— Certo. Eu vou levá-lo de volta pra casa. — Angelo disse e depois suspirou exaurido. Casa não era bem o que a mansão era. Prisão seria um nome mais apropriado.

Ikki não se recordava exatamente de quando Mu e Aldebaran deixaram o quarto em que estava. Também não lembrava bem de como havia adormecido. Estava tão esgotado que simplesmente apagou, assim que foi possível. E agora acordava sem ter a menor noção do dia, do horário. Mas, ao menos, sentia-se bem melhor. Seu corpo ainda reclamava dos recentes acontecimentos, mas Ikki já estava habituado a lidar com isso. Sabia recuperar-se rápido. Não era à toa que recebera o apelido de Fênix na época em que treinava para entrar n'A Sociedade. Quando todos achavam que seria impossível ele continuar, Ikki provava que estavam todos errados. E não seria diferente agora.

Levantou-se da cama, tomando o cuidado de examinar o próprio corpo, averiguando os danos. Depois, encaminhou-se ao banheiro, onde tomou uma ducha revigorante. Em seguida, abriu as portas de um armário de onde retirou algumas vestes. Nada elegante, nada daqueles trajes refinados. Ali, havia apenas algumas calças jeans, camisas de flanela, botas. Ikki sorriu. Essas roupas tinham muito mais a ver com ele. E sabia que era exatamente aquilo que encontraria ali. Embora nunca houvesse estado nesse local antes, ele era muito semelhante ao centro de treinamento de quando era apenas um aspirante a entrar n'A Sociedade.

Terminou de se vestir e então respirou fundo. Agora, não tinha tanta certeza do que esperar. Mas não era homem dado a se deixar vencer por qualquer temor. Respirou fundo e abriu a porta do quarto, a fim de ver o que ou quem lhe aguardava do lado de fora.

Do outro lado da porta havia cheiro de café e um ambiente bem iluminado e decorado com simplicidade, como se fosse uma casa humilde do interior. Quem estava ali eram Milo e Aiolia, mas enquanto Aiolia terminava de encher as canecas de café e por sobre a mesa cheia de papéis, Milo cuidava de recepcionar Ikki.

— Enfim acordou! Bem, não era por menos, venha! Sente-se. Tem muita coisa que precisa saber — ele disse.

— E fazer — completou Aiolia, de forma menos animada que Milo, empurrando uma caneca de café para Ikki. — Aqui estão as novas diretrizes para você — ele empurrou também uma pasta.

Milo sorriu levemente, antes de experimentar seu café e comentar:

— Está com sorte! Definitivamente fora do programa Phalke! Sério, cara, aquele garoto dá muito trabalho.

— É, dizem que o Angelo já perdeu a paciência e deu uns tabefes nele — Aiolia riu, sentando-se e provando seu café também. — E a gente que tinha reclamado por você ter apenas torcido o pulso do mala! Eu... Não sei, não. E se não conseguimos fazê-lo colaborar?

— Vamos conseguir — Milo replicou.

— E se não conseguimos? — Aiolia insistiu. — Ele é um perigo... uma ameaça...

Milo bufou — Pare de bobagens, Aiolia, sempre conseguimos — disse e mudou de assunto para o relatório que Ikki tinha em mãos. Não queria chegar ao cerne da questão que preocupava o colega: se Phalke não colaborasse o que fariam com ele?

Ikki não fez a menor questão de cumprimentar os outros. E o aroma do café, sempre muito bem-vindo, ajudou-o a ter paciência com a falação dos companheiros. Ao receber a pasta, abriu-a e começou a folheá-la, sem muito interesse. Sua mente estava inteiramente voltada para o que ouvira de Mu, antes de adormecer. O que estavam fazendo com Shaka? Pensava em como perguntar a respeito, mas não sabia como fazê-lo sem se expor ainda mais. E foi então que ouviu o que Aiolia disse sobre Shaka ter apanhado:

— Como é? — dessa vez, mais descansado, desperto e com café em mãos, Ikki conseguia voltar a ser o Ikki de sempre. Ou quase. O tom de voz era verdadeiramente controlado, sua fisionomia não demonstrava qualquer emoção, mas a pasta que segurava começou a ser apertada com força demais. — Vocês estão... machucando o hóspede? Desde quando estão adotando essa postura? Pensei que A Sociedade não agisse assim. Ainda mais em se tratando da peça mais importante de todo o jogo. — finalizou, conseguindo, a muito custo, manter uma fala pausada e aparentemente tranquila e fria.

— Nada de importante, Angelo só perdeu a calma, sabe que ele não é a pessoa mais calma do mundo, mas Afrodite contornou a situação — Milo explicou. — Aiolia fala demais.

— Foi apenas uma observação irrelevante. Pouco importa o rosto bonitinho de Phalke, que por sinal, recebe as diretrizes dele hoje. Vamos torcer para que o futuro promotor aceite os termos. Se isso acontecer, conseguiremos ter o aliado que precisamos, até porque não vamos conseguir mantê-lo mais tempo em cativeiro. Um dia isso tem que terminar. — Aiolia observou.

Milo encarou Ikki que continuava com um olhar duro e interrogador.

— Phalke foi posto na geladeira. Foi a última tentativa de fazê-lo colaborar. Ele passou cinco dias, mas não sofreu nenhuma violência real...

Ikki riu. — Nenhuma violência real? De quem vocês acham que estão falando, de um de nós que foi treinado para isso? Phalke é um civil, mais que isso, ele é um garoto que nunca passou por um mínimo arranhão, esquecem disso?! A geladeira poderia quebrá-lo e deixá-lo inapto para o que queremos. De quem foi essa ideia estúpida?!

Mu e Aiolia se entreolharam, não sabiam se deveriam falar sobre as mudanças que estavam acontecendo dentro d’A sociedade. Até porque sabiam pouco, mas Ikki era um deles e tinha direito de conhecer o pouco que sabiam.

— O círculo.

— O círculo? O que eles tem a ver com isso? O círculo não operava aqui, o que está acontecendo? O que aconteceu a Shion?

— Ao que parece, O círculo solicitou sua inclusão nessa operação. Você sabe que sempre houve uma rivalidade entre Shion e Hades pelo comando das operações. Shion está resolvendo diretamente com o alto comando, mas Hades ganhou poder na operação e, como deve saber, foi autorizado que ele assumisse a missão agora, juntamente com Shion.

— O alto comando sabe que Phalke e eu estivemos sob tortura?

— Eu não sei, Ikki — Milo respondeu. — Creio que nem Shion saiba. Mas Mu pediu que nos calássemos por enquanto, a coisa já está bem tensa sem que comecemos uma guerra interna. A prioridade era proteger você e Phalke e finalizar a operação.

Ikki calou-se analisando aquelas informações. Se Mu estava calado era provável que aquela violência realmente partisse do alto escalão d’A sociedade. Isso aumentava potencialmente sua ira. Desde quando A sociedade agia dessa forma? O que era tão importante para que torturassem um civil inocente?

— Preciso falar com Mu — Ikki disse somente, indo buscar mais café.

Milo deu de ombro, sorvendo seu café em um silêncio pensativo. Na mansão, Shaka acordava depois de não sabia quantas horas de sono. Sentia-se melhor, mas seu maxilar latejava. Lembrou que levou um soco e riu. Havia batido primeiro, é verdade, mas foi mais por um reflexo ao sair daquele lugar que por uma tentativa de agressão. Estava tão frustrado e cansado, que simplesmente golpearia qualquer coisa que passasse na sua frente. Percebeu que havia curativos em suas mãos e que estava de volta ao seu antigo quarto bonito. Teve a impressão de que Khan iria abrir a porta a qualquer momento e chegou a sentir saudades disso, o que o assustou. Antes, o clima era sempre do seu agrado ali dentro, agora estava frio demais.

Ergueu-se e foi para o banheiro. Olhou-se no espelho, vendo as profundas olheiras que dividiam lugar com o hematoma deixado pelo punho do tal Máscara da Morte. Tocou o próprio rosto, tentando se reconhecer naquela imagem decadente de olheiras, hematomas e barba por fazer. Aquele não era ele. Respirou fundo e abriu a gaveta, tirando o creme depilatório que havia ali, o mesmo que usava: eficiente e antialérgico, era o que dizia na embalagem. Exatamente o que usava sempre. Seguiu a rotina matinal, embora não soubesse se fosse realmente manhã. Vestiu-se numa roupa confortável, uma bata e uma calça leve, diferente dos ternos que usava no trabalho, e sentou-se para meditar, mas estava com muita fome, e não passou 20 minutos, antes que descesse as escadas em busca de alimentos.

—Doutor Phalke — a voz suave de Afrodite interrompeu seu percurso por um tempo, mas logo Shaka seguiu em direção à cozinha.

— Estou com fome — declarou, altivo, tentando não demonstrar a debilidade física natural, depois de cinco dias confinado num cubículo, comendo pouco, bebendo pouca água, surtando e vomitando o tempo todo.

— Esperava que estivesse. Venha, o café está na mesa — Afrodite o puxou pelo braço, interrompendo o seu percurso. — Vamos comer e vamos conversar um pouco.

Shaka o seguiu desconfiado, mas estava com muita fome para opor qualquer resistência.

— Onde está o italiano? — indagou, enquanto eles se sentavam.

Afrodite sorriu com o canto dos lábios, provocador.

— Gostou dele?

Shaka sorriu, sarcástico. — Gamei com o soco que ele me deu.

— Você bateu primeiro, se bem que não estava em seu melhor estado. — Ele está fora. Não soube lidar com você muito bem. Agora é comigo — o loiro sorriu com candura e tirou um envelope de uma pasta e entregou ao advogado.

— O que é isso? — Shaka retirou os papéis rapidamente, mas preocupado em comer do prato maravilhoso à sua frente que em ler papéis.

Afrodite cruzou as mãos sobre a mesa.

— Isso é a sua missão, Phalke. Bem-vindo à Sociedade.

Título: A sorte na guerra é incerta.