Nefasto
10 O Jolly Roger
Após segundos que pareceram intermináveis, o homem me olhou nos olhos e abriu ainda mais seu sorriso.
— Ah, onde estão meus bons modos?! — curvou-se numa reverência solene e prosseguiu. — Capitão...
— Gancho. — o interrompi.
Era inacreditável. Peter Pan e Capitão Gancho na Terra do Nunca. Extremamente previsível e, mesmo assim, inacreditável.
— O que disse? — Gancho me encarou surpreso e desconcertado.
— Capitão Gancho. É quem você é, certo?
— Nem sempre fui. — ele endireitou o corpo e ergueu o queixo levemente, observando-me de cima. O sorriso, que sumiu por um breve instante, voltou a aparecer. — Vejo que ouviu falar de mim. E você, como se chama, senhorita?
— Ana. — respondi, evitando seu olhar.
— Ana... E você é nova por aqui, não é?
— Como sabe?
— Não é muito comum ver meninas por aqui, sabe? Com o bando de meninos idiotas. Garotas têm uma cabeça forte demais para seguir a de Pan.
— O que você quis dizer...
— Não, não estou te julgando, gracinha! Acho até que você é um ótimo exemplo disso, já que nadar com sereias não faz bem o estilo de Pan, faz? Você não devia estar seguindo muito bem as ordens... Mas aquele afogamento foi bem feio.
Àquela altura eu havia esquecido do episódio com Nayra. As memórias voltaram de repente, e se organizaram de um jeito confuso.
— Foi você quem me tirou da água?
Gancho estreitou os olhos e ergueu a sobrancelha, com um ar insolente e presunçoso, enquanto gesticulava com a mão.
— Não há de quê, milady.
— Por quê? — questionei, atônita. Gancho não é o vilão aqui? Que caça, maltrata e mata meninos perdidos?
— Que tipo de pergunta é essa? — sorriu, ainda que seus olhos expressassem certa confusão. — Eu não deixaria uma donzela em perigo se afogar!
Enquanto eu devia estar com o semblante mais perplexo da terra diante daquele salvamento e todos os apelidos que ele usava, o homem caminhou até o pé da cama e apoiou o gancho na estrutura de madeira.
— Vamos dar uma volta pelo navio. O Jolly Roger é muito bonito, você vai gostar.
Com a cabeça, Gancho apontou para a mesa. Procurei o que ele estava tentando indicar.
— Tomei a liberdade de pedir a Taylor que fizesse uma roupa para você. Acho que você não deve se importar, afinal, suas roupas estão bem sujas.
Encarei meu próprio corpo — ele tinha razão, estavam imundas. Além de toda a terra e a fuligem acumuladas, o sal do mar não ajudou muito com a limpeza.
— Obrigada, capitão.
— Ora, ora, a mocinha tem bons modos! — ele sorriu e começou a se afastar em direção à porta. — Te darei uns minutos. Sou um cavalheiro, não vou invadir a privacidade de uma dama. Fique à vontade e saia quando se aprontar, estarei no corredor.
Piscando para mim, Gancho saiu do cômodo, deixando-me sozinha. Levantei da cama e andei até a mesa, pegando o conjunto dobrado. Havia uma calça preta de couro, uma camisa de botões branca e um longo sobretudo ocre. Vesti-me e calcei as mesmas botas que estava usando antes. Depois de olhar bem para a bandeja prateada, peguei um pedaço de algo que parecia um pão recheado. Tinha um gosto doce, que lembrava muito morango. Saí do quarto e Gancho me esperava do lado de fora, apoiado à parede.
— Aí está ela! Bom, docinho, podemos começar pelo deque inferior do navio. Nada muito interessante, só cargas. Venha.
Com um longo gesto circular com o braço, indicou o caminho à frente, em direção a uma escada de madeira no fim do corredor. Durante todo o percurso, o pirata explicou cada canto do navio, de proa a popa. O deque inferior guardava o armazenamento de água, comida, munição e outras coisas para manutenção do Jolly Roger. Por sua vez, o deque no qual estava o quarto em que acordei — que descobri ser a cabine do capitão — possuía várias cabines para o resto da tripulação e ainda uma enfermaria no lado norte, que não tinha muitos recursos, no entanto servia para cuidar de quem adoecia durante as navegações. Gancho percebeu meu olhar de admiração.
— Está assim por causa do tamanho? Não quero ser modesto, o Jolly Roger é realmente magnífico, porém não é o maior navio que existe. — ele riu.
— Que bom, imagine se isso aqui fosse o Titanic. — murmurei.
— O que disse?
— O Titanic. Aquele navio enorme, que bateu e afundou. Que bom que o seu navio não é um monstro também.
Aparentemente, aquele era um homem que não fazia ideia do que era o Titanic, porque seu rosto mostrava completa confusão.
Subimos mais uma escada e passamos rapidamente por um enorme corredor cheio de canhões, que Gancho preferiu não mostrar com detalhes pois, segundo ele, "moças tão novas não deviam sujar suas mãos com armas tão bárbaras", e meu olhar de insatisfação não provocou qualquer reação que o fizesse mudar de ideia.
Finalmente alcançamos o convés principal. Os mastros eram imensamente maiores do que eu podia imaginar. Não havia muitos marujos, talvez uns dez, e estavam atarefados limpando o chão ou cuidando das velas. Gancho subiu em um grande caixote de madeira e, apoiado no mastro de ré, gritou:
— Companheiros, a garota está bem!
Houve um brado de alegria ensurdecedor. Todos os homens pararam seus afazeres e olharam para mim com sorrisos (alguns um tanto incompletos) e saudaram seu capitão levantando os punhos no ar.
— Nossa missão é mantê-la à vontade. Finjam que não são porcos embriagados, seus patifes! — risadas ecoaram por todo o convés. — Quero que ela seja tratada com a dignidade que uma dama merece. Enquanto estiver aqui, ela é minha convidada de honra!
Cada membro da tripulação me direcionou uma breve reverência ou retirou o chapéu em sinal de respeito. O homem que estava no cesto da gávea jogou para mim um lenço vermelho, que amarrei como uma bandana na cabeça.
Eu não sabia até quando ficaria no navio, ainda assim não tinha visto até então qualquer motivo para apoiar a rivalidade entre Pan e Gancho. Esperava que isso se mantivesse assim quando eu retornasse ao acampamento, pois naquele momento eu estava excepcionalmente confortável fazendo parte da tripulação.
{...}
Ao cair da noite, depois de comermos muito e cantarmos algumas velhas canções piratas que me ensinaram, o capitão me convidou para uma conversa perto do leme.
— O que achou do dia?
— Foi divertido. Acho que é minha primeira vez num navio pirata. — ele levou minha frase a sério, então sorri.
— Não há muito a se fazer quando estamos aportados. Só resta limpar, comer e cantar. Vez ou outra podemos explorar a ilha, mas preferimos evitar conflitos com o bando de Pan.
— Eles não arrumariam encrenca se vocês não provocassem, certo?
Gancho me encarou com seriedade. Colocou sua mão no casaco e tirou de lá uma pequena garrafa, que cheirava a álcool. Ele tomou um gole e voltou a falar, ainda com o frasco na mão.
— Minha menina, parece que você ainda não vê algumas coisas. Pan é um garoto muito nefasto. Você sente coisas ruins chegando assim que ele se aproxima. Será necessário tempo para que perceba isso, mas espero que você não precise chegar nesse ponto.
— Desde que eu cheguei, ele não me fez nenhum mal. Até tomou algumas atitudes estranhas, sim, mas no final ele sempre parecia estar no controle de tudo, como se sempre soubesse que eu não ia me machucar. É difícil, mas dá pra aprender a conviver.
Depois de me analisar com cautela e dar mais uma golada na bebida, o pirata completou:
— Ele está te moldando, assim como fez com os outros meninos. Mas aqueles lá não têm mais salvação. Você tem mais cabeça.
— Acha que ele está me enganando?
— Tenho plena certeza, minha querida. Pan pode parecer um garoto, mas é um demônio.
— Ele é só um moleque que vê graça no perigo, assim como qualquer outro menino dessa idade. Não vejo nada de ameaçador nisso.
Depois de um longo terceiro trago, Gancho guardou a garrafa de volta no casaco e chegou mais perto de mim, ficando a centímetros. Abaixou o rosto para ficar na altura do meu e sussurrou, sério:
— Tudo que aquele maldito Pan faz é para seu próprio benefício. Ele é manipulador, mentiroso e egoísta. Não caia naquela lábia. Você vai me agradecer depois.
Ao se afastar, deu um sorriso meio preocupado e ajeitou o gancho com a mão.
— Particularmente, acho que a roupa de pirata serve muito melhor em você que os trapos daquele acampamento. — e sem me dar qualquer chance de resposta, continuou. — O motivo pelo qual te chamei até aqui pode te interessar. Não vai demorar para que eu e meus homens levemos o velho Jolly Roger de volta à Terra. Gostaria de zarpar conosco?
Aquilo me pegou de surpresa. Ir embora? Mal fazia quatro dias da minha chegada, e tudo ainda estava tão bagunçado! Os meninos perdidos nem me conheciam direito, Pan era um mistério, a cena de Nayra me afogando voltava sempre à mente buscando explicações e agora eu estava com Capitão Gancho no Jolly Roger, algo que uma semana atrás eu diria que é impossível.
— Zarpar? Mas acabei de chegar na ilha.
— Pode ter certeza que muitos meninos perdidos gostariam de sair daqui, meu amor. Não é como se Pan desse muitas oportunidades para eles irem embora. Estou te dando essa chance, mas não quero te sequestrar, não é?
Não havia o que pensar: eu não queria ir embora agora. A conversa com Gancho sobre Peter Pan me assustou de início, contudo não teve nenhum efeito além de me deixar alerta. Por anos eu sonhei com essa ilha e essas pessoas. Meu corpo já absorveu fogo, um lago seco me carregou junto com as estrelas, conheci algumas sereias, cantei em volta de uma fogueira quase encantada. E eu voei! Nunca tive um sonho maior na vida que o de voar. Nada que Gancho dissesse poderia me convencer a abandonar a chance de voar de novo, mesmo que acompanhada.
— Desculpe, capitão. Eu vou ficar na ilha.
Seu olhar se entristeceu.
— Partiremos em dois dias. Ainda terá tempo pra pensar até lá. Eu gostaria que ficasse no navio hoje. O que acha?
— Claro, sem problemas. — se Pan realmente sabia sobre tudo naquela ilha, já devia ter adivinhado onde eu estava e, por isso, não faria mal ficar uma noite a mais no Jolly Roger.
Gancho sorriu e se virou em direção à proa.
— Senhor Smee!
Ele só podia estar brincando comigo. O sr. Smee também está aqui?! Em questão de segundos, um homem da minha altura, de olhos muito azuis e uma barba castanha mal feita se aproximou de nós. Usava um gorro vermelho e tinha um lenço azul pendurado no pescoço. Suas roupas eram bem semelhantes às minhas, com exceção do colete marrom e das luvas de couro que tinha.
Sorriu para mim e depois virou-se para Gancho.
— Sim, capitão?
— Prepare uma nova cabine para nossa pequena bucaneira. Ela ficará ainda esta noite.
— Com todo o prazer. Pode me acompanhar, senhorita Ana? Mostrarei seus aposentos.
{...}
A noite tinha sido agitada para mim. O leve balanço do mar era confortável, mas lidar com os estranhos sonhos sobre o ataque de Nayra estava sendo difícil. Por várias vezes despertei durante a madrugada, ofegante, sentindo que estava me afogando. A vela que Smee deixara acesa em minha cabine me ajudou várias vezes a sair do estado de pânico, me lembrando que estava a salvo na cama.
Consegui descansar tranquilamente apenas por algumas horas antes que a claridade do dia invadisse as janelas que estavam atrás de mim, porém não foi a luz que me acordou. Foram os gritos dos marujos.
— Capitão, vão invadir o navio!
Havia uma grande movimentação no convés bem acima de mim. Passos apressados, o tilintar de metais pesados e exclamações raivosas contrastavam com risadas muito altas que ecoavam mais ao longe. Sem entender nada, rapidamente joguei para o lado o edredom no qual eu estava enrolada até então e me pus de pé, calçando minhas botas com pressa.
Assim que cheguei ao corredor, pancadas fortes soaram nos costados de ambos os bordos, e a falta de janelas naquela parte do barco me impediu de ver o que estava acontecendo. Corri até a escada no fim do deque e subi depressa até a parte de cima do Jolly Roger. Ali, tudo estava um completo caos.
Os homens corriam para todos os lados, tentando se livrar dos baldes e esfregões e pegar suas armas enquanto, pela borda, cordas atracadas na embarcação sustentavam meninos perdidos que subiam à bordo com sorrisos atrozes e espadas nas bainhas. Eles vieram atacar...!
Passei os olhos ao redor, tentando localizar Gancho naquela confusão. Ele estava parado no través, desembainhando uma enorme lâmina com um olhar furioso fixo no céu. Virei-me na direção de seu rosto e vi Pan descer no ar em direção ao navio.
— Por que seus moleques estão sujando o meu navio com as patas, amigo? — o capitão ironizou, assumindo uma voz tomada de raiva.
— Ora, Gancho! Isso é jeito de receber suas visitas? — Pan pousou elegantemente no chão do convés e ergueu uma sobrancelha, fingindo uma expressão ofendida.
— O que quer com meus homens?
Eu ainda não havia subido toda a escada, de modo que apenas metade do meu corpo estava no meio da cena, saindo diretamente do buraco à bombordo do navio. Meninos contra marujos, duelos foram se formando por toda a superfície e espadas começavam a se chocar em volta das duas figuras principais — Capitão Gancho e Peter Pan.
— Não ligo para os seus homens. — o garoto retomou, sorrindo. — Eu precisei vir fazer um... resgate.
Então eles vieram me buscar. Soltei uma exclamação involuntária, porém ninguém se virou para mim. Eu continuava no ponto cego de todos.
— Eu não raptei ninguém para que isso seja necessário, companheiro. — Gancho esbravejou, entredentes.
— É claro que não! — Peter Pan apenas riu, divertido. Começou a andar, rodeado pela cacofonia das batalhas e, mesmo assim, sua voz sobressaía. — Mas também não devolveu ao lugar que ela pertence.
Aos poucos, os ruídos das lâminas foram silenciando e, um a um, todos piratas terminaram da mesma forma: encurralados na borda do barco pelos meninos perdidos, com suas jugulares perigosamente próximas das espadas. Pan parou de andar e se posicionou frente à frente com Gancho, seus rostos a centímetros. Com o silêncio, o garoto abaixou o tom de voz.
— E que feio, capitão, tentou levar minha garota embora daqui?
Não pude mais assistir a cena quieta. Subi na plataforma e todos se viraram simultaneamente para mim, espantados, com exceção de Pan, que parecia apenas estar esperando o momento da minha chegada. Gancho abaixou a cabeça e parecia decepcionado.
— Ana! Como vai? O acampamento não é o mesmo sem a nossa menina perdida.
— Vocês não deviam ter invadido o Jolly Roger desse jeito. — retruquei, irritada. — Eu já ia voltar.
— Claro que você ia! — mais uma vez, a risada do menino ressoou. — Mas eu tinha que colocar esses piratas no lugar deles.
— Eles salvaram minha vida!
— Não que você precisasse disso.
— O que você quer dizer?!
Ele arqueou ainda mais a sobrancelha e seu olhar me atingiu em cheio. Com um movimento da mão direita, um grande jato de água surgiu ao lado do navio e voltou a descer para o mar.
— Precisa usar mais a cabeça, Ana. A nossa noite no lago não foi por acaso.
Só naquele momento percebi que ele tinha razão. Se no lugar de desespero eu tivesse raciocinado, lembraria de quando tirei o fogo da clareira, e quando as estrelas e o Lago do Silêncio me selaram: magia — a minha magia — teria me salvado. Um segundo de lógica e eu mesma poderia ter me tirado daquela situação com a sereia.
— Bom, já se divertiu o suficiente sendo pirata, certo? — Pan prosseguiu. — Ainda te deixei ficar em paz aqui ontem, olha como sou legal!
Encarei Pan com irritação. Agir com tanta superioridade me incomodava, e pior ainda era o fato de que ele podia fazer isso pelo poder que possuía na Terra do Nunca.
— Vou deixar você se despedir dos seus amigos marujos, se quiser. Vamos, meninos. Podem descer.
Os garotos soltaram os piratas imediatamente e andaram até as cordas, ainda ancoradas no casco da embarcação, e desceram. No meio deles, vi Ethan, que me direcionava um semblante entristecido, como quem se desculpa. Depois que todos já haviam desembarcado, Pan se manteve ali, apoiado no mastro de traquete com os braços cruzados, me esperando. Ignorei sua presença, busquei Sr. Smee pelo convés e sorri para ele, que retribuiu. Em seguida, caminhei até Gancho.
— Desculpe a bagunça, capitão. Obrigada por tudo.
— Ficarei feliz se mantiver a cabeça firme, meu amor. Pan é traiçoeiro. Mas eu acredito em você, e não interfiro nas decisões de uma donzela.
Dito isso, o homem estendeu a mão no ar, esperando que eu entregasse a minha e, logo que a ofereci, Gancho depositou um beijo em seu dorso e delicadamente a soltou.
— Boa sorte, milady.
— O mesmo pra você, capitão.
Afastei-me do pirata a passos lentos, andando de costas. Senti a mão de Pan tocar meu braço e me virei. Ele sorriu docemente.
— Não se preocupe. Ele apenas tentou te confundir. Sua melhor escolha foi ficar na Terra do Nunca.
Com um breve aceno cínico para os piratas, Pan segurou minha mão e sem aviso se pôs a voar.
— Por que não estamos indo atrás dos meninos? — protestei ao ver Pan passar diretamente da praia para o meio da floresta, por sobre as árvores.
— Acho que eles sabem chegar ao acampamento sozinhos. — debochou o garoto.
— E pra onde estamos indo então?
— Pode ficar tranquila, você está em boas mãos. Vamos sair em outra de nossas aventuras em dupla.
Tudo ia ficando acumulado. Seu sarcasmo, o tiro ao alvo, o fogo, a invasão do Jolly Roger e ele me arrancando de lá só por saber que eu decidi permanecer na ilha. Isso contrastava com minhas lembranças do cuidado dele comigo no acampamento e na casa-da-caverna, nossos voos na floresta e o Lago do Silêncio. Um misto desordenado de picos de raiva e abrandamento que Pan me causava corria pela minha mente sem controle. Ali, pendurada no ar apenas pela mão do menino, era desesperador não conseguir decidir se eu podia confiar nele ou pensar melhor a respeito das palavras de Gancho.
As árvores lá em baixo começaram a ficar mais espaçadas e fomos perdendo altitude, até pousarmos logo à frente de um enorme despenhadeiro. O cenário lá em baixo era sinistro, com estruturas de pedra enormes e pontiagudas.
— O que estamos fazendo aqui?
O andar de Peter Pan podia intimidar qualquer um se ele quisesse, e aparentemente era isso que estava tentando naquele momento, me circundando enquanto me examinava, calado, parecendo pensar sobre mim. Subitamente, falou:
— Espero que você não esteja com medo.
— Não estou. — menti. Era impossível adivinhar o que Pan queria ali.
— Que ótimo. — ele parou de andar e me encarou de frente, sorrindo. — Seja bem-vinda ao Penhasco.
O vento soprava forte. Eu evitava olhar lá para baixo, com medo que a visão me puxasse para o abismo.
— Não podemos esperar para sempre.
— Esperar o que? — questionei, confusa.
— Certas coisas. Algumas precisam de paciência, mas outras pedem um esforço maior. É preciso um empurrãozinho para funcionar.
O sorriso de Pan se alargou de forma ameaçadora, e eu fiquei paralisada. Ele apoiou a mão em meu ombro e olhou dentro dos meus olhos.
— Agora, preste muita atenção.
Uma pausa aumentou a expectativa do momento. O silêncio crescia, junto a um mal presságio.
— Tenha pensamentos felizes.
Com um sorriso, sem que eu pudesse prever, Pan usou a mão que me segurava para me atirar no abismo.
O ar passava rápido por mim, quase me sufocando. Gritei a plenos pulmões e queria fechar os olhos para não ver o destino que me aguardava. A queda parecia acelerar cada vez mais e eu só pensava em não morrer. Quando dei por mim, já estava a poucos metros do solo.
|Vocabulário náutico (a-z)
bombordo: lado esquerdo.
bordos: laterais do barco.
cesto da gávea: cesto no topo do mastro.
convés: parte superior da embarcação.
costado: superfície externa do casco.
deque: andares.
leme: peça utilizada para guiar o navio (timão).
mastro: [de ré] mais próximo da popa; [de traquete] mais próximo da proa.
proa: frente de um navio.
popa: parte de trás.
través: meio do convés.
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