Nefasto
11 Morte Iminente
Ao olhar para o chão lá embaixo, não pude evitar fechar os olhos. O vento ainda batia com força em meu rosto, e eu sabia que sentiria o impacto da terra a qualquer momento.
Ele te jogou! Empurrou você do abismo!
Eu não entendia. Por que Pan me tiraria do Jolly Roger pra me jogar à morte de um jeito tão estúpido?
Cair de um penhasco na Terra do Nunca. Ótima forma de morrer.
Aquele garoto era uma confusão. Será que eu devia mesmo estar esperando que ele viesse voando atrás de mim? Porque essa esperança estava crescendo a cada instante durante a queda, de forma descontrolada, enquanto eu tentava desesperadamente me agarrar à ideia de ainda haver chance de salvação. Minha mente continuava em discussão consigo mesma.
Você não vai morrer. Não agora, não aqui e não dessa forma. Pan é um demônio, foi o que Gancho disse, e você devia ter ouvido, Ana. É um menino inconsequente brincando com a vida dos outros só porque a dele é monótona demais. Mas não pode ser tão tarde, faça alguma coisa, qualquer coisa! Você já absorveu fogo, certo? Deve ter um jeito de absorver ar, de repente? Talvez você flutue? Meu Deus, que ideia idiota. Pense melhor.
Um estalo em minha cabeça me fez raciocinar. Pan, aquele selvagem detestável, estava mais uma vez brincando com a minha vida, e havia me dado a resposta de como escapar há apenas alguns segundos.
Tenha pensamentos felizes.
É uma coisa complicada tentar trazer algo bom à cabeça quando seus ouvidos estão zunindo com uma queda de mais de 30 metros. No entanto, o próprio objetivo podia ser um pensamento feliz: voar. Nunca, em toda minha vida, um desejo foi tão forte quanto esse. Voar foi o que mais desejei, desde sempre. Naquele momento, essa vontade era ainda maior — e necessária. Se Pan me atirou de cima da montanha, ele confiava que eu conseguiria? Foi por esse motivo que me empurrou? Eu precisava tentar, era a única chance que eu tinha.
Voar. É só isso. Qualquer coisa mais leve que o ar é capaz de voar. Eu só preciso esvaziar a cabeça. Esvaziar tudo. Esquecer a raiva aqui dentro, porque ela já está acumulando. Isso vai acabar comigo, preciso de controle.
É só esquecer.
E controlar.
Eu estava sentindo domínio. O ar começou a passar um pouco mais devagar por mim. Ao invés de sentir o vento me açoitar, agora ele parecia estar me sustentando e tentando me segurar para que eu não caísse. Mesmo assim, eu ainda estava indo para baixo. Respirei fundo.
Posso sair dessa.
Uma onda de calma passou por mim. Não havia mais o desespero de acabar morrendo ali, eu estava freando. Mesmo que não conseguisse parar a queda, o máximo que aconteceria agora seria uma contusão ou algo do tipo. Nada para me preocupar, eu sairia viva. E poderia xingar Pan.
Pensamentos felizes, certo?
E aí, eu parei.
O chão devia estar a uns bons seis ou sete metros de mim, e eu não estava afundando nem mais um centímetro. Flutuava no ar da maneira mais bizarra possível: meus braços e pernas estavam esperando pela queda e se agitando de forma estranha para se proteger, enquanto meu tronco estava congelado e minha cabeça se inclinava para trás, afastando-se o máximo que podia do chão. A sensação era de que haviam cabos de aço me segurando pelas costas, causando uma pose estranha e falsa, como em cenas de filmes.
Precisei de alguns segundos até firmar a postura, o que exigia certo esforço, pois a única parte realmente leve em meu corpo era o tronco, o resto pesava com a gravidade. Quando me ajustei na vertical, Pan estava bem à minha frente.
— Ora, ora, conseguimos um pássaro.
Eu o agarraria pelo pescoço ali mesmo, se soubesse ao menos como me mover no ar.
— Qual era seu grande plano? — prossegui. — Me empurrar do penhasco pareceu uma boa lição de voo pra você?!
— Na verdade, funcionou perfeitamente.
Ele estendeu a mão para mim. Já havia se tornado hábito.
— Nem pensar. Já se foi minha paciência com você, Pan. Fogo, flechas, duelos e piratas, um penhasco. É o suficiente.
— E fará o que? Vai voar até o chão? Se conseguir, ganha pontos extras na lição de voo.
— Seu... — por pura polidez, não completei a frase.
Como única saída daquela situação constrangedora (eu já estava cansada de forçar minhas pernas no ar), segurei a mão de Pan, que me puxou para o solo sem qualquer cerimônia.
— Vamos esclarecer as coisas. A minha visão sobre seu Triângulo não falhou uma vez sequer desde que você chegou. Com o fogo, com as estrelas ou com os piratas, e hoje não foi diferente. Você é uma altiorem, e nada do que eu fizer vai te matar ou te colocar em perigo se confiar em mim. — o garoto soltou minha mão e olhou em meus olhos, sério. — Além do mais, cada vez que você insiste em encenar uma explosão de raiva, eu me divirto. Em poucas horas você volta à sua ideia fantasiosa adolescente que saiu do livro, com doces meninos perdidos e a mágica Terra do Nunca. Logo sua raiva some.
Eu estava levando uma bronca de Peter Pan?
— Aqui vai algo que você nunca mais vai ouvir aqui, Ana: cresça. Esse não é seu conto de fadas.
Fiquei calada. Ele estava sendo muito mais duro do que jamais fora comigo antes, e eu não tinha reação.
— Confie em mim. — ele suavizou a expressão, e agora falava quase como um pedido. — Eu sei o que faço, e você também sabe disso. Seu desespero por sobrevivência não pode cegar sua razão. Você está na minha ilha, e se eu te quisesse morta, você já estaria.
Essas últimas palavras provavelmente tinham intenção de me acalmar, porém foram, no mínimo, amedrontadoras.
— Por que essa cara assustada? Ora, vamos. — ele sorriu. — Seu humor já esteve melhor! É porque te tirei daquele pirata sujo? Não me diga que gostou de Gancho.
— Eu não...
— É claro que gostou. Ele tem esse poder de conquistar as pessoas.
Pan apenas deu uma risada contida e se virou, apontando para o vale à nossa frente, cheio de pedras pontiagudas enormes, tão grandes que atingiam a altura do penhasco do qual eu havia acabado de despencar. Árvores se empurravam para crescer no meio das estruturas e sua folhagem abundante impedia que qualquer mínimo feixe de luz passasse ali. Mesmo à luz do dia, tudo estava escuro.
— Nós vamos seguir por aqui. — ele continuou. — Hoje vou te levar a um lugar que ainda não fomos.
— Já não tínhamos conhecido a ilha?
— Acha mesmo que só naquela caminhada daria para ver a ilha inteira? — Peter deu uma risada aguda e voltou a olhar para mim. — Você não tem mesmo ideia do tamanho da Terra do Nunca. Agora vamos entrar na Floresta Negra.
Com um sorriso, o menino deu alguns passos para a frente, enquanto eu avaliava a densidade da floresta e o quão perigosa ela parecia ser, antes de finalmente me mover para acompanhá-lo.
— É muito escuro aqui. Como vamos nos guiar?
— Não tem problema. — Pan se aproximou (demais) de mim e se inclinou em direção ao meu ouvido. Continuou, quase sussurrando. — Se ficar com medo, pode segurar minha mão.
Olhei para seu rosto, que mostrava a mais transparente expressão de deboche. Eu estava fazendo uma força descomunal para não arrebentar a cara dele.
— Ótimo, Tarzan, rei da floresta. Vai na frente, então.
Foi uma tirada péssima, mas eu não tinha mais o que dizer. Apenas o segui, e em poucos minutos estava tão escuro que, até acostumar minha visão, realmente precisei segurar a blusa de Peter para não perdê-lo na mata.
Não sei por quanto tempo andamos. Sendo sincera, pareceram horas. Enfim, quando um feixe de luz atravessou as árvores eu soube que tínhamos chegado ao fim da Floresta Negra. Caminhamos mais alguns metros, até uma pedra grande que se assemelhava a um portal. Parecia ser a entrada de uma caverna.
— E aqui estamos. A Caverna do Eco.
— Vou ser jogada aí também?
— Pra falar a verdade, — Pan elevou o olhar, pensativo, e pôs as mãos na cintura. — teria sido uma boa ideia.
Ele realmente estava testando minha paciência.
— Mas não, aqui não. — ele voltou a olhar pra mim, e seu rosto ficou sério. — Aqui resolveremos outro assunto.
Sem fazer perguntas, o garoto segurou minha mão e me levou para dentro da caverna. Era um lugar enorme, escuro e úmido, com um abismo imenso. Nem tentei me aproximar da beirada para estimar o tamanho, pois de onde eu olhava já parecia não ter fundo.
Pan se encontrava bem ao meu lado, e deu um longo suspiro antes de começar a explicar.
— A Caverna do Eco é conhecida assim não pelo seu tamanho. É uma metáfora. A verdade ecoa na cabeça das pessoas, e quando é dita em voz alta, ecoa na mente de todos que ouviram.
— E o que a verdade tem a ver com a caverna?
— Bom, para chegar ao centro da caverna você precisa admitir algo muito verdadeiro.
— Parece simples. Mas não sei por que eu iria querer chegar ao centro da caverna.
— Não tem um motivo especial hoje. — ele riu. — Só te trouxe aqui para entender que o que vou te contar é verdadeiro.
Pude sentir meus braços enrijecerem e minha pernas ficarem tensas. Uma estranha sensação de desconforto tomou meu peito. Não consegui imaginar nada que fosse tão importante a ponto de Peter Pan sentir a necessidade de provar que dizia a verdade para mim. Mais cedo eu havia sido atirada de um penhasco, e pouco importou se eu confiava nele.
Obviamente, ele percebeu minha mudança de postura.
— Ei, não precisa disso. Relaxe. Vamos até o outro lado.
Com passos longos, Pan se aproximou e estendeu a mão. Quase involuntariamente, segurei-a. No mesmo instante, nossos pés deixaram o chão e flutuaram até o grande rochedo no meio da caverna.
O menino se abaixou e sentou com as pernas cruzadas, e eu o imitei. Peter estava esperando o momento certo para começar a falar. Um longo silêncio se seguiu enquanto seus olhos verde-escuros e profundos me analisavam, até ele finalmente abrir a boca.
— Já faz séculos que estou vivo. Talvez milênios, eu já perdi a conta, e nunca vou ter certeza. Um homem que vive cinquenta anos já faz um monte de besteiras, então imagine alguém como eu.
Não pude evitar um sorriso teimoso.
— Há muito tempo, muito mesmo, eu vivi na Terra. E não era uma boa pessoa. As pessoas me conheciam como um jogador, daqueles que sentam na rua e oferecem aos outros que apostem muito dinheiro em "onde está a dama". Eu era o cara que dava as cartas, ganhava dinheiro sujo, e mais tarde gastava tudo que tinha em algum bar acabado da região, pra esquecer os meus problemas e meu mau caráter.
Houve um barulho enorme e o chão tremeu rapidamente. Um grande pedaço de pedra se materializou à minha esquerda, aparentemente construindo (do nada) o início de uma ponte, que se estendia em direção à entrada da caverna. Foi assim que eu soube que Pan estava dizendo a verdade.
Essa história era a última coisa que eu estava esperando. Aparentemente, o menino reparou que meus olhos se perderam no vazio por um instante, bastante surpresa, pois tocou levemente meu joelho e, com o semblante sério, assentiu, indicando que entendia minha reação e esperaria que eu assimilasse tudo antes de prosseguir. Respirei fundo e fiz com a cabeça um sinal positivo.
— Preciso que você mantenha a calma agora. Isso não vai fazer nenhum sentido de início, mas você verá que é verdade. Já que eu não sei exatamente como chegar nessa parte sem te chocar ou assustar, a melhor forma de dizer é apenas dizer. Eu vivi na Terra até meus 40 anos...
E mais mil na ilha. Que diferença faz?
— ...e tive um filho.
— O quê?!
Mais uma vez, a terra balançou. Outro enorme pedaço de pedra formou mais um trecho da ponte. Era demais para eu sequer processar. Meus braços tremeram e minha visão enturvou por poucos segundos. Peter Pan estendeu sua mão — que estava gelada — e segurou a minha tentando me acalmar. Ficamos pelo menos três minutos em silêncio, o que é muito tempo quando se está calado. Eu sacudia a cabeça, a qual era a única parte do meu corpo que não paralisara completamente, tentando afastar da minha mente o que tinha acabado de descobrir. Só então tomei fôlego e disse, com minha voz falhando mais do que eu esperava:
— Que tipo de coisa você é?
Pan me dirigiu um olhar perplexo e um sorriso leve se formou em seu rosto. Ele soltou uma risada fraca.
— Coisa? Ora, Ana! — riu mais uma vez. — Você não está entendendo direito. É claro que eu vivi até ficar adulto, mas é disso que se trata a história, sabe? A verdade é que nunca fui realmente... adulto.
— Não crie um monte de enigmas. É só explicar. — minha cabeça pesava e meu cérebro estava exausto.
— Certo, certo. Vamos por partes. Eu tive um filho. A mãe dele foi embora logo depois que ele nasceu. Um dia, deixei o menino na casa de algumas senhoras que teciam fios, porque já tinha virado costume. Naquela noite, quando nos encontramos, ele me disse que queria fugir da Terra para algum lugar onde ninguém nos conhecesse, já que todos aqueles que sabiam quem eu era não confiavam mais em mim, e por isso eu não conseguia um trabalho pra criar meu filho.
Eu estava tentando absorver as palavras, porém essa era uma tarefa que se tornava cada vez mais difícil. A ponte continuava a crescer.
— Mesmo aos 40 anos, mesmo com um filho, mesmo bêbado e fracassado como um velho, eu ainda queria ser jovem. Sentia minha juventude, e talvez toda essa imaturidade tenha sido a motivo de tanto sofrimento quando vi a vida adulta bem na minha frente, sendo que eu nem a desejava. Eu poderia viver setenta ou oitenta, até mil anos: a juventude nunca me deixaria.
— Onde você está tentando chegar?
— Meu filho havia conseguido, sabe-se lá onde, um feijão mágico. Você deve conhecer de contos antigos. Esse feijão tem o poder de abrir portais entre mundos, milhares de dimensões, uma vida nova. Nós íamos recomeçar tudo, juntos. Foi o que fizemos.
Dessa vez, a pedra não se moveu. Prestei mais atenção.
— Bom, esse era o plano na verdade. Quando criança, eu sempre tinha sonhos com uma ilha mágica, onde eu era livre. Nadava, corria e, principalmente, voava. Era tudo que eu queria. Voar.
Pan abaixou a cabeça e começou a olhar para a pedra, aparentando estar abatido ou um tanto quanto desnorteado.
— E foi assim: chegamos aqui. A Terra do Nunca. O lugar dos meus sonhos e dos sonhos do meu filho, e de toda criança de todo lugar. Mas fiz uma descoberta cruel. Eu não podia voar.
A ponte cresceu mais.
— O que aconteceu?
— Aconteceu que... bem, ao chegarmos na ilha, descobrimos que a Sombra já morava aqui. Ela ajudava as crianças em seus sonhos a voar. E quando me encontrou, me ofereceu isso.
Uma longa pausa se seguiu. Peter levantou a cabeça e me olhou nos olhos de modo profundo.
— Para voar, eu teria que retroceder. Voltar de fato à minha juventude, em meu corpo.
O chão sacudiu, se preparando para construir o próximo pedaço da enorme pedra.
— É claro que eu aceitei.
E outra vez, a ponte chegou mais perto da entrada da caverna.
— Logo depois, ela pegou meu filho e o levou de volta para a Terra. Só um de nós podia ficar. Pessoas jovens não têm responsabilidades nem preocupações. Não têm filhos. Ao olhar para mim, tinha novamente meus 19 anos, roupas estranhas e uma voz de menino. Lembro de ter sorrido enquanto chorava por ter perdido meu garoto.
No entanto, agora o chão parecia esperar. Antes de completar sua trajetória até a saída, aguardava alguma coisa, algum detalhe da história que ainda faltava. Ela não se mexeu mais. Da minha boca, não saía o mínimo ruído.
— Apenas alguns minutos depois disso, eu fui levado pela Sombra até a Pedra da Caveira. Lá, ela me explicou que ninguém jamais tinha decidido morar na ilha, afinal esse era um lugar para visitar em sonhos. No centro da Caveira, uma enorme ampulheta de areia dourada havia surgido, e seus grãos caíam muito devagar.
O garoto prendeu a respiração e soltou lentamente.
— Aquela — fechou os olhos. — é a ampulheta da minha vida.
Finalmente, o chão estremeceu pela última vez, preenchendo o espaço que faltava entre a pedra onde estávamos e a porta da caverna. Encarei Pan nos olhos, desorientada.
— Como... — e me calei. Não tinha nada a dizer.
— Você agora sabe toda a verdade, e apenas você. Por favor, não comece a me tratar como alguém diferente, ainda sou Peter Pan. Sou um menino perdido, um morador da ilha. Eu cometi erros, mas todos têm uma história. Essa é a minha, e agora você a conhece e também faz parte dela.
Ainda estava em silêncio, atônita.
— Ah, vamos Ana! O que são quarenta anos na Terra pra quem já viveu milênios aqui, mesmo com o tempo parado? Você não me olhava e via um homem milenário quando chegou. — ele sorriu.
Não sei por quanto tempo ficamos quietos antes que eu decidisse falar.
— Tem razão.
— O que? — Pan pareceu extremamente surpreso.
— Você tem razão. Não faz diferença quanto tempo você viveu na Terra, não é novidade que já passou séculos na ilha e ainda assim continua... jovem. Assim como você, os meninos perdidos vão viver por milênios. Eu não me afastaria de você por isso.
— Bom, isso é...
— Mas os meninos nunca, jamais, vão cometer os mesmos erros que um adulto pode cometer, porque esses são muito piores. Gente jovem é idiota, inconsequente. O que te torna diferente deles é isso. Você teve a chance de cometer erros de adulto. Ter tido um filho de quem não cuidou, ter sido um jogador compulsivo e um bêbado.
Pela primeira vez desde que cheguei à Terra do Nunca, vi Pan me encarar com um olhar de dor. Dava pra ver em seu semblante que seu coração pesava naquele momento. Ele baixou o rosto. Pude sentir uma pontada de culpa em meu peito, que se foi tão rápido quanto veio. Não dava para sustentar qualquer pena diante daquela situação. No entanto, eu ainda não sabia o que Peter pretendia.
— Pan, por que me contou tudo isso?
Seus olhos deixaram de fitar o chão. Agora examinavam os meus.
— Eu já estou morrendo.
Não esperava por essa. A caverna inteira foi tomada por um silêncio nefasto.
— A areia na ampulheta já está chegando ao fim. Quando se vive nessa ilha, esquecemos como é conviver com a ideia de que a morte um dia chega, porque ela nunca vem. Essa é a verdade, Ana. Toda a verdade. Minha história está diante de você, e o final é o mais patético possível: o protagonista morre.
Desde o início da conversa eu senti uma atmosfera feral, e não sabia de onde estava vindo. Claro que qualquer diálogo num lugar escuro, úmido, silencioso e fechado traz essa ideia, mas estava forte demais. Finalmente veio a explicação.
— Eu não quero morrer. É algo tão óbvio que nem sei porque estou dizendo isso em voz alta. Ana, não tenho escolha nenhuma. — respirou fundo e seus olhos desfocaram. — Preciso da sua ajuda.
Por essa eu não esperava.
— São poucas as opções que eu tenho pra me livrar disso. Você sabe que existe a Profecia, eu te contei no Lago. De certo modo, as duas histórias se encaixam. Quero que você confie em mim, sabendo que eu não vou fazer mal a você, já que é o mais perto que tenho de qualquer salvação.
Era um motivo razoável para confiar nele. Contudo, era precipitado demais acreditar cegamente em Pan outra vez, depois de tantas situações nas quais me coloquei por causa dele.
— É muita coisa. Coisa demais. Eu preciso... pensar.
— Pensar?
— Pan, você é um poço de "mentiras inofensivas". É tão contraditório que não dá pra te entender. Você me coloca no grupo, mas não quer que eu seja uma dos perdidos. Quase fui queimada quando você quis me forçar a descobrir que tenho um triângulo altiorem. Você quis me ensinar a voar me jogando de uma montanha! Sempre que faz alguma coisa, tem outra por trás. Eu não sou idiota, achou que ia levar quanto tempo até que eu começasse a tomar cuidado com você e o que diz?
Surpreendentemente, ele sorriu.
— Você realmente acha que eu te subestimo, não? — o garoto se levantou. — Eu nunca te envolveria nisso se você não fosse esperta o suficiente.
Sua mão estava estendida no ar, oferecendo-se para me ajudar a levantar. Recusei e me pus de pé sozinha. Peter Pan estava com seu melhor e mais altivo olhar de "eu sei que você não consegue me odiar".
— Então, ficamos por aqui. Você sabe a verdade mais que qualquer um na ilha, com exceção, talvez, da Sombra. É isso que me dá esperança de que você entenda que eu confio em você, Ana. E por isso, você também pode confiar em mim.
Pan piscou para mim e se virou em direção à saída. Começou a caminhar pela ponte, por onde o segui, até vermos de novo a estranha claridade acinzentada do céu da Terra do Nunca. Assim que atravessamos, a ponte se desfez em pó, levando consigo todas as verdades que eu ouvi ali e ninguém mais ouviria.
{...}
Já estava escuro quando chegamos ao acampamento, onde alguns meninos cortavam lenha para acender a enorme fogueira. Do outro lado, Ethan me viu assim que entrei na clareira, e correu em minha direção.
— Olha quem apareceu!
— Oi, Ethan. — dei um sorriso sincero, mas fraco. Minha mente estava agitada.
— Aparentemente você não está tão feliz em me ver. — o menino riu.
— Não é isso, — tentei expressar que a presença de Ethan era realmente agradável. — só tive um dia... longo. Muita coisa pra processar.
— Vai parecer bizarro, mas nem vou perguntar o que aconteceu. Você e Pan sumiram o dia todo, e ele só costuma sair sozinho com Félix. Normalmente ninguém questiona as coisas particulares dele.
— Eu juro que te contaria. Mas acho que essa não é a melhor hora, não antes de absorver e encaixar tudo.
— É justo. Vou te deixar em paz, preciso voltar a arrumar a comida antes que Dominic venha brigar comigo. Ele é o cara que cuida dessa parte, nem sei por que me enfiaram lá hoje. Boa sorte, senhorita.
Senhorita? Ri.
— Obrigada, senhor.
Ethan abriu um sorriso largo, feliz por arrancar de mim uma risada com algo tão bobo, e saiu em direção a um grupo que segurava cestos de frutas e pães.
Continuei no mesmo lugar, na beirada da clareira, perto de alguns arbustos altos. Repentinamente, senti uma pontada em minha cintura e congelei. Muito devagar, virei a cabeça para tentar ver o que estava encostado em mim. A ponta de uma lâmina velha, mas extremamente afiada, reluzia suavemente. A pessoa que segurava a lança, ainda escondida atrás das folhas, claramente não queria me matar, pois eu já estaria dura no chão a essa altura. Uma voz sussurrou, de trás dos arbustos.
— Fique acordada e espere Pan sair. Não durma depois da celebração. Você virá comigo hoje.
Era a voz de uma mulher.
Fale com o autor