Necrofilia
9 Flechada
Notas iniciais
Flechada
Benjamin e Carrie estavam dentro do poço onde se colocava gasolina, mas havia muito tempo que nenhuma nova gota do combustível era posta ali. Aquele lugar lúgubre e fedorento era um armazém de corpos em putrefação e esqueletos gosmentos pela carne apodrecida. Diversos defuntos jaziam ali com expressões medrosas e melancólicas, porém muitos não tinham ao menos expressão, suas cabeças foram arrancadas e jogadas pelos cantos do imenso poço subterrâneo. Restos de animais decoravam algumas pilhas de corpos; cachorros, cervos e até vacas faziam parte da decoração.
Carrie ficara horrorizada com a cena, mas eles não podiam parar e pensar em tudo aquilo, era preciso correr.
Leon pegou o arco que guardava no balcão da loja de conveniência e desceu para o nível subterrâneo logo depois de ouvir os berros do irmão. Se Jack gritasse mais uma vez ele acertaria uma flecha no meio da sua garganta.
***
Eu e o Benjamin tivemos que amontoar mais corpos sobre uma pilha que já estava formada, só assim alcançaríamos o tampão do poço. Eu continuava pelada e minha pele branca estava vermelha e podre, estávamos cada vez mais enfiados naquele emaranhado de corpos nojentos. A visão era aterradora. Quando enfim conseguimos alcançar o tampão, colocamos toda nossa força para cima, tentando erguer o selo de ferro maciço, mas Leon saltou pela abertura na parede e entrou no cômodo.
— Vá Carrie! – Benjamin gritou, enquanto empurrava o meu corpo para cima da abertura.
— Onde pensam que vão? – Perguntou Leon.
Eu estava debruçada sobre a abertura, conseguia ver o exterior, um dia claro e sem nuvens.
***
Carrie se pôs para fora do poço com toda a agilidade que pôde e virou-se logo depois para içar o companheiro, mas antes que pudesse tocá-lo, algo aconteceu.
Leon ajeitou uma flecha em seu arco e mirou nas costas do rapaz, a flecha voou como um gavião, acertando Benjamin num ataque dilacerante. O objeto com a ponta de metal afiadíssima transpassou o homem com uma facilidade incrível e encravou-se ao seu corpo, de um lado a outro.
— Benjamin! – Carrie gritou ao ver seu corpo tombar para trás.
— Ca..aa..rri..e! – Ele disse com dificuldade, caído sobre a pilha de cadáveres.
Os olhos do rapaz se fixaram nos dela e assim ficaram até o momento que ela correra do local.
Leon deixou o poço, ajeitando o arco em suas costas. Jack continuou gritando enquanto ele se afastava depressa, mas o irmão nem ligou e rumou até o exterior do posto, olhando para todos os lados a procura da mulher, mas ela não estava em lugar nenhum.
***
Ao sair da linha de visão dos mortos olhos de Benjamin, corri o mais rápido que pude para longe daquele lugar maldito, indo pela pista em direção a cidade de Scurry. O sangue podre ainda escorria pela minha pele e eu tinha carne mole e mal cheirosa entre os tocos de unhas que me restaram. Ouvi um ressonante barulho de motor atrás de mim e parei de correr. Fiquei ali no meio da pista balançando os braços até que o caminhão parou diante de mim.
— O que houve senhora? – Perguntou o motorista quando desceu para me ver.
Fez uma careta ao sentir o fedor que eu exalava.
Eu não disse nada, estava atordoada e ainda tinha dúvidas se tudo aquilo era real. Ele pediu para que eu subisse na carroceria e continuamos a viagem, sem ao menos trocarmos uma palavra.
Fale com o autor