Necrofilia
10 Voe
Notas iniciais
Voe
Quando chegamos à Scurry o motorista me entregou uns trapos velhos para que eu pudesse me cobrir e me indicou onde ficava a delegacia da pequena cidade.
Meu fedor afastava as pessoas por onde eu passava e as deixavam intrigadas, se perguntando quem eu era, ou o que eu fazia ali.
O delegado Jacob me ouviu por minutos quase infindáveis, enquanto eu discorria sobre tudo que me havia acontecido. O homem parecia não dar importância ao que eu dizia, mas mesmo assim me ouviu. Quando finalizamos a conversa, ele quis que eu o levasse até o tal posto, eu tive medo de retornar, mas ele insistiu que eu fosse e eu não tive forças para dizer não. Voltei pela mesma estrada numa viatura de polícia, acompanhada pelo delegado e mais dois oficiais.
No caminho o delegado me explicou como a cidade era pequena e que quase nunca tinham uma ocorrência naquele lugar, que na maior parte do tempo as ruas estavam sempre vazias, com um ou dois carros passando de hora em hora e como o som das aves era a única coisa que predominava no ambiente.
***
Os irmãos estavam decididos a deixar o posto o mais rápido que pudessem, mas uma mensagem chegou ao celular de Leon antes que os dois saíssem para sempre do posto.
Leon pegou o celular; Mensagem de Idiota mostrava a tela do aparelho, entre as piscadas que ela dava.
— O idiota do nosso pai pegou a Carrie.
— Jura?! – Jack soara aliviado.
— Não, é pegadinha de primeiro de abril seu doente!
Os olhos de Leon se encheram de ironia.
— Sendo assim, já que o morto lá embaixo não pode te enrabar “frutinha”, acho que terei que traça-lo para que sua passagem por aqui não fique em vão.
Leon se inflou de ira, estava cansado das brincadeiras do irmão. Pegou-lhe pelo pescoço e o pressionou contra o balcão.
— Se me chamar de frutinha mais uma vez eu corto essa porcaria que você carrega no meio das pernas.
— Calma maninho. – A voz saiu rouca em meio ao aperto na garganta.
Leon o soltou sem pressa nos movimentos.
Jack tentou segurar o irmão pela garganta, mas o outro se esquivou.
— Tem que ser mais rápido que isso maninho. – E finalizou com uma rasteira.
Jack bateu com as costas no chão.
— Acostumei-me a ganhar de você desde pequeno. – Leon debochou.
Uma viatura estacionara no posto no instante seguinte.
O delegado Jacob desceu do carro acompanhado da moça e de mais dois oficiais. Carrie estremeceu ao ver o lugar de onde tinha fugido à pouco mais de duas horas, ela não achou que fosse revê-lo tão rapidamente.
Os irmãos deixaram o interior da loja de conveniência e se juntaram aos demais do lado de fora. Vestiam os mesmos casacões de sempre. Jack fitou a moça lançando um sorriso maldoso em sua direção. Ela se arrepiou no mesmo momento que as mãos de ambos os oficiais de policia se envolveram em seus braços erguendo-a e levando-a para dentro do posto.
— Soltem-me! – Ela gritava enquanto tentava se livras das fortes mãos dos policiais.
Carrie foi deixada novamente no quarto cheio de infiltrações, gritando e chorando, sem entender os motivos que a polícia tinha para larga-la ali de novo, completamente desamparada.
— Tiveram sorte dessa vez, crianças! – Disse Jacob com os olhares carregados de advertência. – Que isso não se repita.
— Não haverá uma segunda vez pai. – O tom de Leon soou confiante demais.
— Claro que não haverá, vou matá-la assim que passar por aquela porta. – Jack apontou a entrada da loja.
— Contanto que ela e nenhum outro tornem a fugir tudo bem. – Concordou o delegado.
Leon coçou a cabeça, pronto a dizer alguma coisa, os policiais resurgiram atrás dele, deixando o interior da loja.
— Há uma coisa que preciso contar para você – olhou para o pai –, fique um pouco mais.
Jacob fez sinal para que os policiais voltassem a cidade.
— Não se preocupem comigo, eu retorno em um dos carros que estão aqui.
Dito isso os dois oficiais tomaram a viatura e regressaram à Scurry. Jacob e os filhos entraram na loja de conveniência. O delegado sempre com a mão apoiada em seu revólver.
— Diga o que quer Leon, não tenho muito tempo.
— Se me permitem, tenho coisas a fazer...
— Fique Jack. – Leon pediu interrompendo o irmão.
— Se a minha presença é tão importante assim querido irmão, eu digo que fico.
De repente, Leon – que estava atrás do balcão – empurrou todos os objetos, doces e potes que estavam em cima da bancada, fazendo-os estilhaçarem ao contato com o chão, criando a distração necessária para que ele ganhasse tempo para pegar a espingarda calibre 12, pendurada na parede.
— Que diabos você está fazendo Leon Lamper?! – Perguntou o delegado percebendo logo em seguida que estava sob a mira da espingarda.
Leon disparou e um projétil riscou o ar, entrou no delegado pelo olho esquerdo e saiu deixando um buraco imenso na parte de trás de sua cabeça. O corpo de Jacob caiu desajeitado, esparramando miolos e sangue pelo piso.
— O que você fez Leon?! Ele não era grande coisa, mas era a merda do nosso pai cara!
Um segundo tiro riscou o ar e um segundo depois a boca de Jack tinha sido completamente destruída, pedaços de dentes, carne e ossos voaram, o frentista tombou sobre o pai, alimentando a enorme poça de sangue que corria pelo chão, sem direção. Nenhuma lágrima desceu dos olhos de Leon, seu semblante permanecera carrancudo o tempo todo, sem apresentar nenhuma emoção.
O frentista apanhou a chave do camaro de dentro de uma das gavetas do balcão e desceu para o piso subterrâneo do posto.
***
Eu ouvi dois tiros e depois um silêncio perturbador invadiu os meus ouvidos. Meu coração palpitou da forma mais intensa que conseguiu, minhas mãos gelaram e um suor frio escorreu pelo meu rosto. De repente as gotas de infiltração que caiam do teto se tornaram mais audíveis. Meu nervosismo aumentou quando a porta do quarto se abriu.
Leon passou por ela com uma espingarda nas mãos, eu sabia que era ele, seus olhos já me eram familiares.
— O que você fará comigo? – Perguntei num sussurro medroso.
— Voe – ele respondeu.
— Não estou entendendo.
As chaves na sua mão balançaram quando ele as lançou para mim.
Leon se aproximou e agachou, me olhando fixamente.
— Você é um pássaro bonito e eu sou um pobre menino sem migalhas para te oferecer. Voe. – Ele repetiu.
Voar? Para onde?
Seus lábios tocaram os meus com paixão e eu não me movi. Depois ele me entregou a espingarda, pondo-a sobre o meu colo.
— Mate-me, por favor! – Era uma súplica. Seus olhos se encheram d’água.
— Eu gosto de você.
— Mas não deve gostar. Há algo de ruim em mim, algo que você conhece, algo que não pode sobreviver. Mate-o.
Meus olhos também se encheram de lágrimas. Ele se afastou abrindo os braços e eu apontei a arma em sua direção. O tiro o acertou no estômago. Ele caiu.
Fiquei deitada sobre ele por um longo tempo, admirando a beleza dos seus traços, seu rosto bem formado, seus olhos que me tiravam o fôlego. Era estranha a maneira como eu havia me apegado a ele. Não o deixei ali, ele tinha me poupado e eu deveria agradecer de algum modo. Arrastei-o para fora daquele lugar imundo e passei horas cavando uma cova decente para o Leon. Enterrei-o nos fundos do posto e desde então voltei àquele lugar sempre que podia. Jurei não contar para ninguém o que vi ali, exceto para você.
Fim.
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