Natural Disaster
33 Capítulo 33 - Inferno. Parte 2
Notas iniciais
– Anda Cath, me diz logo o que tem nessa mensagem, estou começando a ficar nervoso! – Disse Peter inconformado sem saber o que concluir do rosto sem expressão de Catherine ao ler a mensagem. – Acho que vou surtar de preocupação! – A garota nada respondeu, apenas passou o celular rapidamente para a mão do cunhado e colocou a mão no rosto, como se estivesse querendo fazer uma reflexão.
“Catherine, se você puder, avise aos meus pais que não poderei dormir em casa hoje. Deu tudo certo com o Giulio, resolvemos as coisas rápido, mas acabamos indo dar uma volta e esqueci de te avisar. Eu estava precisando relaxar mesmo, porque há tanta coisa acontecendo que às vezes acho que não vou dar conta. Precisava espairecer e estava com saudades de alguns amigos. Depois nos falamos, beijo.” – Derick Garrett Becker.
– Uffa! – Disse Peter aliviado após ler a mensagem. – Vou avisar aos meus pais, graças a Deus está tudo bem! É bem a cara do Derick mesmo fazer essas coisas, quer matar a gente de preocupação!
– Ainda bem mesmo... – O garoto ainda era muito imaturo e não se deu conta, mas Catherine estava séria. – Vamos avisar a eles então.
Ela se levantou da cama e andou vagarosamente enquanto Peter já estava descendo as escadas correndo, pulando e aos berros:
– GENTEEEEEEE!!!! Tá tudo bem com ele, ele só foi dar uma volta! Mandou mensagem agora! – Ao chegar na sala, todos já haviam escutado a notícia e estavam aliviados.
– Tudo bem que você esteja feliz, mas não é hora de ficar gritando por ai! – Disse Ralf sério, o repreendendo. – Eu só quero saber o motivo dele ter inventado essa história de que estava com a Catherine, isso é muito estranho...
– Mas pelo menos está bem, Ralf... As explicações ele dará amanhã. – Disse Lilian tranquilizando o marido.
Pouco tempo depois Catherine chegou na sala, com uma expressão de cansaço no rosto. Ela pôde notar que a tensão já havia se dissipado pelo ambiente e sua mãe conversava empolgadamente com Lilian e Fátima. Já Peter estava sentado em uma das poltronas reclináveis jogando em seu tablet totalmente despreocupado.
– Catherine, eu posso ver a mensagem que o Derick te mandou? – Ralf pediu, aproveitando-se do fato de que as mulheres já haviam se distraído com outras coisas.
– Pode. – Ela respirou fundo e entregou o celular ao sogro. – Relaxa, ele está bem. – Respondeu de forma objetiva.
O homem leu a mensagem enviada para o filho e achou que havia algo estranho, mas não sabia exatamente o quê.
– É, parece que está bem sim. – Ele disse a encarando, tentando encontrar pistas no olhar da garota. – Mas faz tempo que ele não faz isso, é muito estranho. – Confessou.
– É estranho mesmo. – Ela respondeu rapidamente, sem querer estender muito o assunto. – Eu vou indo para casa, vou pedir um taxi porque já está muito tarde.
– O motorista leva vocês, mas se quiserem ficar também não tem problema.
– Obrigada, eu estou exausta, mas ele deve estar cansado, e também não precisa, não é tão longe assim da minha casa.
Ralf insistiu e como não conseguiria convencê-lo, Catherine acabou aceitando. Pediu licença a Fátima e Lilian e chamou sua mãe para irem para casa, argumentando que estava exausta e precisava acordar cedo. Ela e Helena se despediram de todos e seguiram seu rumo junto ao motorista dos Becker. Chegaram em casa em poucos minutos, pois naquela hora já não havia mais transito.
Catherine estava completamente esgotada, e se jogou no sofá assim que pôs os pés no apartamento, se deitando de bruços para esconder o rosto. Pegou o celular e o olhou por 5 minutos, pensando no que poderia fazer para amenizar o forte aperto que sentia no coração. A mãe logo notou seu cansaço e foi para a cozinha preparar um leite quente para a filha, para talvez fazê-la se sentir melhor. Cath tinha dúvidas sobre se seria melhor enviar uma mensagem ou esperar mais um pouco, mas quando finalmente começou a esboçar uma mensagem, sua mãe adentrou a sala com a bebida quente nas mãos:
– O que está acontecendo? – Perguntou Helena ajoelhando-se em frente ao sofá enquanto acariciava os cabelos loiros de sua filha. – Eu te conheço, você não está bem.
– Eu to aqui passando mal de nervoso, preocupadíssima com o Derick, e ele me manda uma mensagem praticamente de madrugada falando que não ia dormir em casa, que precisava relaxar, espairecer com os amigos... – Ela virou o rosto, olhando nos olhos da mãe, pela primeira vez não tentando ocultar seus sentimentos. – Ele me chamou de Catherine, ele não me chama de Catherine, nunca. – Disse enquanto tomava um gole do leite, se segurando para não chorar. – Ele foi tão frio, parecia o Derick de antes, parecia que ele já não tinha mais certeza.
– Certeza do que filha? – Helena perguntou preocupada.
– Certeza de nós dois. – A mãe abraçou forte a garota, consolando-a. – Onde ele deve estar agora? Por aí com os “amigos”... – Ela revirou os olhos. — Talvez ofereçam bebida ou coisas piores, também não sei como foi tudo na ONG, não tenho certeza se ele está bem ou se ele está triste com alguma coisa...
– Acalme-se, ok? – Helena advertiu a garota. – Eu tive minhas desconfianças, mas pelo modo como ele cuidou de você quando você havia desmaiado, é muito improvável que ele tenha alguma dúvida sobre te amar. – A mulher sorriu. – Dorme filha, amanhã de manhã vocês se encontram e vai estar tudo bem.
– Que porcaria de vida! – A garota disse ironizando a si mesma. – Não consigo mais passar algumas horinhas sem esse menino que já fico pirada. – As duas começaram a rir. – Não ri não mãe, isso é triste, tá!?
– Tudo bem, não vou rir, vai que é doença! – Brincou Helena se preparando para fazer cócegas em Catherine. – Você é uma vergonha para o movimento feminista, quase tendo um ataque de choro por causa de um machinho!? – Ela atacou Cath, que ria sem parar, rolando de um lado para o outro no sofá.
–
Derick abriu os olhos com dificuldade, sentindo dores terrivelmente intensas em todos os membros de seu corpo. Seu rosto estava vermelho e o sangue já havia secado. Estava numa posição que mal podia se mover, primeiramente por conta das dores e em segundo lugar por conta da forma como haviam o amarrado. Notou que Giulio já havia acordado e também estava muito machucado.
– Me desculpe por ter te colocado nessa furada, Derick. – O amigo implorou aos prantos. – Foi minha culpa, você me pediu várias vezes pra sair dessa vida, mas eu preferi continuar sendo um vagabundo.
– Isso não tem nada a ver com você... – Derick estava sem forças, mal conseguia falar de tanta dor.
– Quer dizer que as mocinhas já acordaram pra fofocar? – Eles não haviam percebido, mas Ernesto estava atrás deles. – Catherine ainda não respondeu essa merda de mensagem! – Bufou o homem, dando um soco na pilastra em que eles estavam presos. — Será que ela vai ter que te ouvir apanhando para fazer o favor de vir aqui?
O sol estava nascendo naquele momento, fazia um pouco de frio e os garotos só puderam observar a claridade entrando através dos feixes de luz que atravessavam os buracos das pequenas janelas de madeira. Era provável que já fosse pelo menos umas 6 horas da manhã e a cabeça de Derick latejava, estava destruído: olhos e boca inchados, cortes e hematomas pelo corpo. Giulio gemia de dor e chorava ao ver aquele homem passando de um lado para o outro dentro daquele casebre.
– Não quero ouvir ninguém gemendo na minha cabeça! – Berrou o psicopata. – Cala a boca!
– Por favor, água! – Implorou o garoto, enquanto observava Derick completamente imóvel. – Nós vamos morrer! – Resmungou.
– Vão sim, vão mesmo! – Disse o homem já impaciente, pegando dois pedaços de pano imundos. – Mas vão morrer em silêncio. – Falou com ódio enquanto amordaçava Giulio.
Seus olhos estavam cada vez mais assustadores e saltados. Depois de amordaçar Giulio, fez o mesmo com Derick, utilizando ainda mais truculência e apertando o nó com muita força. Derick não se movia, não esboçava qualquer reação que fosse. A palavra ódio era insuficiente para exprimir o que estava em seus pensamentos, era algo tão agressivo e perturbador que ele tinha medo de perder a razão.
Tudo que ele queria era ter uma chance, apenas uma, um momento a sós com Ernesto, para poder se vingar. As horas passavam e ele via com prazer o homem se irritando com a demora de Catherine para chegar. Em meio a tantas dores no corpo, isso era um conforto.
O garoto estranhava o fato dela não ter chegado até aquela hora, mas isso era um bom sinal, sinal de que ela talvez tivesse desconfiado da situação e chamado a polícia. Acreditava que no fim do dia finalmente sairia dali e isso o aliviava, mesmo que estivesse sendo cada vez mais agredido na medida em que as horas se passavam e Cath não aparecia. Ernesto já não mais falava, apenas olhava para seu relógio de pulso e agredia Derick mais vezes.
Assim passaram manhã, tarde e noite. Sem comida ou água. Naquele local podre e sem ventilação. Amordaçados como dois animais ferozes, na mira das pistolas dos capangas e dos olhares dementes de Ernesto Bellini. As horas haviam se passado lentamente. Derick se perguntava onde estava Cath e as dores da dúvida, da saudade e do medo de perdê-la pareciam piores do que as provocadas por todas aquelas pancadas.
Derick pôde supor que já era madrugada por alguns fatores, havia contando a quantidade de vezes em que apanhava após o homem observar o relógio. Supôs que eram de hora em hora pela sensação de tempo transcorrido. Além disso, estava um silêncio de cemitério e metade dos capangas já tinham ido deitar. Por suas contas deveria ser 1 hora da madrugada. Ele estava quase certo, errou apenas por uma hora.
Eram 2 horas da madrugada quando Ernesto Bellini saiu de seu esconderijo, deixando os prisioneiros sob custódia de Martinez e Talles, os que ele mais confiava, além de mais três outros jagunços na parte de fora do local fazendo uma verdadeira vigilância. Ele os instruiu a ficarem de olhos abertos em um tom hostil, avisando que não perdoaria qualquer falha.
Giulio e Derick estavam debilitados, a ponto de desmaiar. Um dos capangas que faziam a segurança externa entrou deixando quentinhas para os outros dois.
– Valeu, a gente tava morto de fome mesmo. – Martinez segurou as embalagens.
– Essa merda já está até fria! – Resmungou Talles. – Eu vou esquentar, você quer?
– Não precisa irmãozinho. – Agradeceu com educação e Talles não insistiu, andando em direção à cozinha.
Martinez tentava comer aqueles pedaços de frango com batatas cozidas, mas ao olhar os dois garotos presos à pilastra naquele estado deplorável, a refeição parecia intragável e o enjoava. Ele os olhava com pena e de certa forma um pouco de remorso. Soltou as mordaças dos dois garotos, deixando-os apenas presos pelos braços e sinalizou para que permanecessem em silêncio. Fez com que os dois bebessem alguns goles de água e deu a eles um pouco de frango.
– Obrigado. – Derick sussurrou após terminar de mastigar o alimento.
–
O fato de não saber por onde Derick andava não estava sendo nada fácil para Catherine. Havia passado o dia inteiro e ele não aparecera no laboratório, obrigando-a a mentir para Robert Bailey, afirmando que o garoto estava doente e por isso não poderia comparecer na ONG. O pior mesmo era enviar mensagens e receber respostas apáticas e que não davam satisfações razoáveis. Ele dizia era que precisava pensar e que estava estressado, sendo muitas das vezes ríspido, como se estivesse de saco cheio das cobranças da garota.
Cath havia passado a madrugada inteira aos prantos, trancada em seu quarto, agarrada ao livro que o garoto um dia havia dado para ela. Perguntava-se incessantemente o que havia feito de errado para ele nem querer atendê-la. Todo aquele amor que ele jurava sentir havia desaparecido? Ela não conseguia acreditar nisso. Tentava repetir a si mesma que ele a amava e que todo aquele desespero que ela sentia era fruto de sua imaginação.
Já havia amanhecido e ela permanecia ali parada, olhando para o teto, sem vontade de fazer nada. Olhava para o relógio e sabia que deveria ter dormido, pois teria mais um dia intenso no laboratório, mas não estava com sono, não era culpa dela. Também não sentia raiva de Derick, só queria que ele aparecesse e esclarecesse tudo, pois seu coração tinha certeza de que ele teria boas explicações.
De repente a campainha de sua casa tocou, e ela correu para atender, talvez fosse seu noivo e suas preces tivessem sido atendidas. Foi um pouco decepcionante abrir a porta e se deparar apenas com Ralf, mas talvez ele tivesse boas notícias, talvez tivesse vindo avisar que Derick estava em casa:
– Ele apareceu? — Ela disse ansiosa enquanto coçava os olhos, que já estavam ardendo por conta do choro. — Ele deu notícias? Entre! – O homem entrou na sala e se sentou no sofá.
– Sinto muito, mas ele ainda não apareceu nem mandou notícias, mas hoje eu tive acesso a um documento que talvez esclareça um pouco as coisas. – Ralf disse cauteloso enquanto a entregava algumas folhas de papel grampeadas. – Acho que já sabemos por onde ele anda.
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