Natural Disaster
32 Capítulo 32 - Inferno. Parte 1.
Notas iniciais
– Martinez, pegue o celular desse moleque! – Ernesto ordenou a um de seus capangas enquanto tragava o cigarro. – A identidade, os cartões de crédito, eu quero tudo... Absolutamente tudo. – O capanga obedeceu imediatamente, retirando de forma rude tudo que havia nos bolsos do jovem e jogando os objetos em cima da mesinha de madeira.
– Você é ridículo! – Derick proferiu com rispidez. – Se você quer dinheiro, a minha família tem de sobra, nós te damos e você desaparece. Pra quê esse joguinho!? Diz logo o seu preço, impossível que um ser tão desprezível não tenha um! – Martinez se virou imediatamente, apontando a arma para o garoto. Só então Derick caiu em si, notando a gravidade da situação em que estava, o ódio o havia deixado cego, impossibilitado de enxergar os riscos que corria falando daquele jeito com um homem capaz de cometer atrocidades. No entanto, ele já havia dito, não teria como voltar atrás e jamais pediria desculpas a Ernesto Bellini.
– Calma Martinez. – Gargalhou Ernesto, jogando o cigarro no chão e o apagando com o pé. – Deixa que eu ensino ao bebezinho a como respeitar os mais velhos. – O homem parou de gargalhar e foi andando lentamente em direção a Derick com um sorriso irônico e nojento no rosto.
O natural seria que o garoto estivesse tremendo de medo ao vê-lo se aproximar, mas não estava. O som de cada passo de Ernesto o fazia lembrar-se de todas as reportagens que ele havia lido no dossiê de Cath, sobre os abusos que ele cometera tanto a ela quanto a Helena. Amor, ódio e vingança encorajam, ainda mais quando os três estão tão entrelaçados como naquela situação.
O homem finalmente se aproximou a menos de um metro de Derick. Estavam os dois, face a face, se encarando. Ernesto permanecia sorrindo diabolicamente, enquanto o jovem o olhava como se fosse fuzilá-lo. O coração do garoto batia em um ritmo absurdamente acelerado e mal conseguia respirar tamanha era a adrenalina que sentia no momento. Rangia os dentes e fechava os punhos com força, tentando assim controlar a vontade que sentia de avançar em Ernesto Bellini, porque sabia que seria burrice. Estava na mira das pistolas dos capangas daquele homem, que não hesitariam em atirar, caso fizesse qualquer movimento mais brusco. Teria que ser frio. Teria que conseguir.
Ficaram por alguns segundos se confrontando apenas com olhares até que finalmente o homem cruel se revelou. Num movimento rápido e repentino, Ernesto encostou o cano gelado de seu revolver calibre 38 na testa de Derick. O rosto do homem agora já não era mais sorridente e debochado, era uma expressão ameaçadora e rude, seus olhos já não mais piscavam. Apertou o gatilho. Todos olharam tensos para aquela situação e Derick fechou os olhos automaticamente, sentindo medo pela primeira vez.
Aquela situação durou apenas quatro ou cinco segundos que para ele pareciam uma eternidade. Quando se está diante da morte é que se vê o real valor da vida. Naqueles segundos eternos houve tempo de sobra para que passeasse sobre as memórias de sua infância, lembrasse de que ainda gostaria de que seus pais e seus irmãos se orgulhassem dele, se arrependesse de todas as burradas que havia feito na vida, até que sua mente foi parar onde sempre parava, em Catherine Bellini.
Ele se recusava a crer que morreria ali, sem ao menos dizer tudo que gostaria de ter dito, sem beijá-la uma última vez ao menos, sem se despedir daquele sorriso e daqueles olhos lindos. Não sabia como, mas não a deixaria sozinha sem pelo menos livrá-la daquele homem. Iria dar um jeito de libertá-la. Talvez amar alguém fosse isso mesmo. Fosse ter medo da morte por nunca achar que passou tempo suficiente com quem se ama e ao mesmo tempo não temer que a morte te leve se for pra proteger a pessoa amada. Para ele era isso, não sabia ser diferente, vivia e morria por Cath. Respirava-a.
Quando ele finalmente abriu os olhos, Ernesto o acertou com uma coronhada, o derrubando no chão.
– Amarrem ele! — Os outros marginais obedeceram, arrastando Derick até uma pilastra de ferro, onde o mesmo foi amarrado com uma corda pelos punhos. O golpe havia doído, mas nada perto do que viria a seguir.
Assim que foi amarrado, o homem começou a torturá-lo, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Ernesto o acertava socos e chutes em sequência e em todas as partes do corpo. Derick mal conseguia falar enquanto o sangue escorria por sua face. Ernesto sentia prazer naquilo, e a cada golpe utilizava mais força. Sua própria mão havia sido cortada pelos dentes do garoto durante um dos socos, mas nada disso era suficiente para detê-lo. Derick apenas tossia sangue, sentindo uma dor imensurável em cada milímetro de seu corpo. Seus olhos estavam tão inchados que mal conseguia abri-los.
– Já tive de tudo que quis com Helena, já a possuí de todas as formas, já a escutei gritar de dor em meus braços, por horas seguidas. – O homem o queria acordado e consciente, para que soubesse de tudo que iria fazer dali em diante. — Catherine é minha. Sempre foi minha. Sempre será. – Ernesto disse em tom baixo, próximo ao ouvido esquerdo de Derick. – A cada dia que se passava ela se tornava mais bonita... Sinto falta de arrancar a roupa dela e observá-la inconsciente. Tocá-la, sentir seu cheiro, ver aquele corpo de menina tomar forma de mulher... Ganhando as mesmas curvas que tinha a mãe dela quando éramos jovens.
– Como consegue falar e sentir essas coisas!? É doentio! – Derick gritou com as últimas forças que restavam em si. – Ela é sua filha. Você é um monstro. – Ele disse já mais fraco, cuspindo o sangue que já havia acumulado em sua boca. – Ela nunca será sua.
– Seu imbecil! – O psicopata o acertou com outro golpe no rosto. – Você está em minhas mãos e eu vou fazê-la vir aqui. Você foi a isca, você irá trazê-la até mim! – O homem voltou a sorrir. – Talles, me dê o celular desse playboy! – O comparsa indicado o entregou rapidamente o aparelho. – Ela virá correndo quando souber que você está precisando de ajuda para cuidar do seu amiguinho Giulio, que está tendo convulsões de tanto se drogar... É uma boa garota... – Ernesto era inteligente, sabia que um celular daquele possuía senha e logo colocou o chip do garoto em outro aparelho que estava em seu bolso. – Ela agora está com o mesmo corpo que Helena tinha, dessa vez eu quero tudo...E você vai adorar assistir enquanto eu faço o que bem quiser dela.
Ao ver o homem digitando no celular, provavelmente para enviar uma mensagem que fizesse com que Catherine fosse para aquele lugar, Derick, que já estava sem forças, sentiu uma forte tontura e sua vista escurecer até que desfaleceu.
–
– Dona Fátima, não fique triste, os jovens são mesmo assim. – Lilian tentou consolar a sogra, que parecia inconformada com o comportamento de Derick diante da família. – E ele está apaixonado... Normal que queira ficar perto da noiva, não acha?
– Eu só espero que meu neto volte cedo, porque amanhã pelo que sei a rotina recomeça e ele não pode ficar dormindo fora de casa.
– Eles já devem estar chegando! – Fátima iria passar a noite lá, e apesar das diferenças que haviam tido no passado, pode-se dizer que com o tempo e a convivência, passaram a cultivar uma amizade.
As duas resolveram então papear sobre o noivado dos jovens e ambas comemoravam pelo fato de Derick ter deixado uma vida baseada em festas e drogas e assumido uma postura mais madura, estavam muito satisfeitas.
De repente o telefone da mansão Becker tocou. Uma das empregadas o atendeu e logo o passou para Lilian.
– Oi Lilian, tudo bem? Me desculpe por ligar esse horário, é a Cath.
– Mas você não morre tão cedo, estávamos eu e minha sogra conversando sobre o noivado de vocês. – Catherine riu graciosamente no outro lado da linha. – Você e o Derick estão precisando de alguma coisa? Não o deixe voltar tarde, por favor.
– Como assim voltar tarde? – A garota ficou sem entender. – Ele foi pra ONG, já é quase meia-noite e ele ainda não me deu notícias, não consigo falar com ele pelo celular. Ele está bem?
– Ué... – A mãe respondeu surpreendida, sentindo seu coração apertar. — Ele voltou da ONG e depois saiu rápido, dizendo que iria te encontrar...
– Alguma coisa aconteceu, não pode ser... – Catherine disse secando a lágrima que escorria de seu rosto. – Posso ir pra sua casa? Eu não vou agüentar esperar ele aqui.
Lilian concordou com a garota e enviou o motorista para buscá-la em casa. Estava muito preocupada, pois não havia motivo aparente para que Derick mentisse. Onde ele havia ido? A mulher acordou seu marido e Peter, que já tinham ido dormir, levando todos para a sala de estar. A família então se reuniu para pensar onde o garoto poderia ter ido que precisasse esconder de todos e utilizar Catherine como álibi. Tentaram inúmeras vezes contatá-lo pelo telefone celular, mas todas foram em vão, visto que as ligações não eram atendidas.
Não demorou muito para que Cath e Helena chegassem à mansão. Já era início de madrugada e elas se uniram aos Becker para esperar que Derick chegasse. Catherine estava exausta do dia de trabalho no laboratório, mas ao mesmo tempo estava ansiosa demais para dormir.
– Peter, você não tem ideia de onde ele possa estar mesmo? – Perguntou Cath de forma aflita.
– Não, mas a gente poderia tentar procurar alguma pista no quarto dele. – O menino a olhou fixamente, como se estivesse tentando fazer contato por telepatia. – Vamos? – Ela não havia entendido muito bem o recado, achava que não poderiam encontrar nada de proveitoso que pudesse lhe fornecer pistas sobre o paradeiro de Derick. Só o acompanhou após um gesto discreto do garoto que expressava algo como “depois eu te explico”. Catherine então o acompanhou até o quarto de seu noivo.
Subiram a grande escada em silêncio e Peter só se manifestou ao pisarem no cômodo, com medo de que alguém os ouvisse:
– O que foi, Peter? Por que quis vir até aqui comigo? – Ela indagou.
– O Giulio também sumiu. Não responde mensagem alguma, ligações, não está em lugar nenhum, ninguém sabe, ninguém viu. Nós dois havíamos marcado de sair com umas garotas no final de semana que vem e ele... – A garota pensou por três segundos e matou a charada.
– Já sei... – Ela disse sentando-se na cama do namorado, esgotada. – Giulio está com dívidas e hoje mais cedo pediu ao Derick que ajudasse a pagá-las, eles estão juntos, mas pode ter acontecido algo grave com ele, por isso o sumiço e a demora! Temos que falar com o seu pai e chamar a polícia!
– Polícia Cath!? Falar com o meu pai!? Enlouqueceu!?
– Por que!?
– Primeiro que se meu pai souber que ele foi pagar dívida do Giulio com traficantes, ele ta ferrado. Mas o pior mesmo é a polícia. Ele está respondendo criminalmente por crime de tráfico, a polícia nunca irá acreditar nessa versão de que ele foi ajudar um amigo... Se você falar para a polícia, ele está arruinado!
– E agora? – Assim que terminou a pergunta angustiada, Catherine sentiu seu celular tremendo no bolso. Pegou o aparelho e observou que tinha uma nova mensagem. Havia acabado de chegar uma mensagem de Derick, para o alívio dela e de Peter.
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