Notas iniciais
E quando seu amigo está em apuros, o que você pode fazer é ajudá-lo a sair dessa!

Após o jantar Natasha levou Luca para a cama e contou algumas histórias até que o garoto pegou no sono, com relutância, pois ele queria que ela lhe contasse mais. A morena tinha algumas histórias em mente, mas hoje o garoto lhe pediu para lhe contar sobre seu tempo no FBI e ela falou sobre alguns casos em que trabalharam e algumas viagens que fizeram perseguindo bandidos. O neto às vezes lhe perguntava como foi aquela época e Natasha sentia saudades e falar sobre alguns momentos era um pouco doloroso, então, ela focava nas partes boas e empurrava as tristezas para longe.

Ela foi se deitar e pegou um livro que estava em sua cabeceira para continuar a leitura. Então fechou os olhos e voltou mais uma vez ao seu passado.

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— O que você está dizendo, Reade? – Natasha estava no vestiário ouvindo o rapaz explicar a situação. – Ela não considera um caso?

— Ela disse que Freddy será massacrado no tribunal e ficará arrasado.

— Mas você disse que ele está sóbrio.

— Está no momento, mas não podemos garantir que continuará até o final do julgamento. – Reade leva as mãos ao rosto desanimado. – O que vou dizer a ele?

— A verdade. – Tasha aconselha. – É o melhor a fazer.

Reade contou ao amigo que a promotora negara pegar o caso contra o treinador Jones que abusou e provavelmente ainda abusava de vários garotos há anos.

— Eu já sabia que não daria em nada mesmo. – Freddy respondeu desanimado. – Por que você não testemunha? Você está bem, é influente, seria uma testemunha confiável.

— Do que você está falando, Freddy? – Reade fica confuso.

— Você estava lá. Não se lembra do que aconteceu?

— Do que está falando? Não me lembro de quê? – Reade não entendia onde o amigo queria chegar.

— Por isso você está bem, não está na merda como eu e provavelmente como os outros. Você não se lembra. – Freddy explica. – Você era um de nós, um dos que foram abusados.

Reade perdeu seu chão. Não sabia o que pensar. Como ele não se lembrava? Era possível que tivesse bloqueado essa parte da sua vida? Ele não entendia e não queria acreditar que fosse verdade. Voltou para o trabalho e tentou se concentrar, mas as palavras de Freddy não saíam de sua cabeça. Por mais que ele tentasse não conseguia se concentrar.

No final do dia Tasha encontra Reade no vestiário.

— Falou com Freddy?

— Sim.

— O que ele disse? – Ela continuou. – Você está aéreo o dia todo...

— Não quero falar sobre isso, Tasha. – Ele fala com firmeza.

Tasha caminha rumo aos armários com tristeza e Reade se arrepende da forma como falou com ela. Ele vai até ela e lhe conta o que houve.

— Freddy disse que eu fui uma das vítimas. – Ele fala e se mostra mais triste ainda.

— Reade... – Tasha tenta falar para tentar consolar o amigo. – Eu... eu sinto muito.

Eles apenas se abraçam e permitem que as lágrimas escorram de seus olhos. Não existiam palavras para esse momento. Nada que Tasha falasse deixaria o momento melhor para o amigo, então apenas o abraçou o fazendo perceber que estava com ele e que isso não mudaria em nenhuma situação.

Os dias que se seguiram não pareciam nada fácil para Reade, Tasha o percebia cabisbaixo e desatento em muitas situações. A morena fazia de tudo para estar por perto e deixar com que ele soubesse que ela estaria ali e não o deixaria, por mais que ele pensasse que era um exagero da parte dela.

Ela soube que Reade estava conversando com Borden, o terapeuta do FBI. Com certeza era a melhor coisa a fazer, procurar ajuda de um profissional. Ela sabia por experiência própria que era muito difícil sair sozinho de uma situação como essa.

— Reade, só estou dizendo que não é culpa sua. – Tasha conversava com Reade durante o trabalho. – Você não deve nada a ele.

— Ele só precisava de um sofá e eu tenho um. – Reade justificou. – Ele brigou com a namorada. Um dia não vai fazer mal.

— Você sabe que não será apenas um dia!

Reade havia deixado Freddy ficar na casa dele, por um tempo segundo ele. Tasha sabia que Reade se sentia culpado por não conseguir levar o caso Jones a julgamento. Isso não era culpa de Reade, o único culpado por tudo isso era Jones.

Em uma perseguição durante um caso, Reade quase matou um cara com socos. O moreno se mostrava extremamente nervoso e violento nos últimos dias e todos estavam de olho nele, inclusive Weller que chegou a conversar com o rapaz oferecendo alguns dias para ele descansar e tentar esfriar a cabeça.

— Não precisa, Kurt. Eu estou bem! – Reade negou.

— Vou acreditar em você dessa vez!

Mas a falta daquela lembrança perturbava Reade de uma forma que fazia com que Natasha se preocupasse ainda mais com seu amigo. A morena se viu no direito de interferir, pois sabia que essa situação não estava fazendo bem a ele.

— Freddy, certo? – Ela disse ao bater na porta de Reade e ser atendida pelo amigo do rapaz que estava hospedado lá.

— Sim, eu te conheço? – Ele perguntou desconfiado enquanto ela entrava no apartamento.

— Sou a parceira de Reade. Ele está aqui?

— Não voltou o dia todo. – O rapaz respondeu.

— Você está dando uma festa? – A morena perguntou ao ver um frasco de um pó branco com parte do conteúdo derramado sobre a mesa de centro da sala.

— Só estou me despedindo de uns amigos. – Freddy falou.

Aquela situação fez Natasha sentir tanta raiva. Com tudo o que Reade vinha passando, ele se ofereceu para hospedar o amigo em casa e ela o vê aprontando uma dessas.

— Eu sei que você passou por muita coisa, mas esse momento já está sendo duro o suficiente para Reade também. – A garota tentou manter a calma. – Talvez fosse melhor você tentar resolver seus problemas em outro lugar.

— Sem problema. – Freddy entendeu o recado e recolheu todas suas coisas que estavam espalhadas pela sala. Antes de sair se dirigiu à Tasha. – Diga adeus a ele por mim.

A morena continuou ali por um momento. A verdade é que viera atrás de Reade, pois ele havia saído mais cedo do trabalho e ela estava preocupada. Ela não sabia mais o que fazer para ajudá-lo, mas se sentia um pouco aliviada por ter colocado Freddy pra fora da casa dele.

No dia seguinte Reade não apareceu no trabalho e conversando com Weller o mesmo explicou que havia permitido que ele ficasse alguns dias em casa. No meio da tarde a morena estranha quando recebe uma ligação.

— Aqui é Josh. – O rapaz do outro lado da linha era um amigo seu da época em que trabalhara no NYPD. – Registraram queixa contra seu parceiro. Ele estava importunando um tal de Mike Jones no Brooklyn Heights esta manhã. Mas deixou o local antes da polícia chegar. Eu só queria informá-la.

— Eu vou cuidar disso. – Natasha falou. – Obrigada!

— Por nada.

Ela tentou falar novamente com Reade, mas só caixa postal. Deixou um recado e desligou o telefone. O que Reade estava pensando? Não seria assim que conseguiria justiça pelo que Jones fizera.

— Weller. – Ela chamou seu superior no corredor. – Tenho um problema pessoal para resolver.

Ele permitiu que ela fosse, pois havia outras pessoas para cuidar do caso em que estavam trabalhando. Natasha saiu para tentar encontrar Reade, mas quando conseguiu chegar no local já estava escurecendo.

Conseguiu localizar o amigo através do GPS que a levou até a casa de Jones. As luzes da casa estavam apagadas e a porta apenas escorada. Natasha sacou a arma e empurrou a porta devagar. A sala estava escura e ela não viu nada ali. Avistou uma porta que dava passagem para os cômodos restantes da casa e entrou desconfiada. Qual não foi seu susto ao ver Jones caído no chão todo ensanguentado. E à sua frente Reade estava parado observando a cena.

— Reade... – Ela falou num fio de voz. – Reade! O que aconteceu?

— Não fui eu. Eu estava no porão e euvi um barulho, subi aqui e o encontrei assim. – Ele falou confuso. – Temos que pedir ajuda.

— Não! – Tasha altera a voz ao falar. – Você e o Jones têm um passado. Você o andava perseguido, invadiu a casa dele.

— Eu não o matei!

— Está de pé ao lado do cadáver com luvas nas mãos e sangue nos sapatos. – Tasha explicou rapidamente. – Já teve gente inocente que foi presa por muito menos.

Tasha só queria tirar o amigo daquela situação. Não importa qual era a explicação para o que havia acontecido. Ela sabia que eles deviam dar o fora dali. Eles vêem pela janela um carro parando na frente da casa.

— É a segurança do bairro. Temos que dar o fora daqui. – Tasha avisa. – Você tocou em alguma coisa?

— Acho que não.

— Tirou algo do lugar?

— Não!

Tasha o olha com repreensão por toda aquela situação. Reade tem os olhos arregalados em preocupação pelo que acabou de acontecer.

— Espere, Zapata! – Ele a chama. – Isso é loucura! Somos do FBI! Isso deve valer alguma coisa. – Ele tenta explicar.

— Reade. – Ela o segura pelo colarinho o olhando nos olhos bem perto. – Eu sou sua amiga. Eu acredito em você. Será que alguém mais vai acreditar?

Reade olhou pra ela e ficou em silêncio. Então olhou para o chão onde o corpo de Jones jazia e pensou por um momento em toda aquela loucura. Ele soube que Zapata tinha razão. Ninguém acreditaria nele!

Os dois deram o fora dali pela porta dos fundos e correram para onde o carro de Reade estava estacionado. Entraram no carro apressados com Tasha no banco do motorista, pois ela sabia que Reade não tinha condições de agir e ela agiria por ele e o tiraria dessa situação terrível.

— A fita! – O rapaz falou desesperado assim que ela ligou o carro. – Deixei no video cassete. Preciso buscar.

— Não! Os guardas estão na casa! Que fita é essa? – Ela gritava. – O que você estava fazendo na casa de Jones?

— Eu estava procurando... – Ele explicou com calma. – Precisava de provas contra o abuso. Encontrei a fita com nomes dos garotos. Pareciam fitas de treino, mas estavam escondidas em uma parede falsa. Vou buscar. – Reade colocou a mão na maçaneta da porta e Tasha o impediu. – Uma delas tinha meu nome.

— Você assistiu? – Ela perguntou ainda segurando o braço dele.

— Não, eu queria, mas não consegui... – Reade parecia muito abalado. – Eu ouvi um barulho alto. O assassino deve ter fugido ao me ouvir.

— E agora tem uma fita com seu nome no videocassete. – Tasha falou com calma. – Se a polícia a descobrir, saberá que esteve na casa. Não importaria se você não estivesse lá, mas esteve.

Natasha arrancou com o carro e eles deixaram o lugar em direção ao apartamento de Reade.

— Temos que nos livrar dessas roupas. Quem sabe com o que entramos em contato?

A morena sugeriu enquanto retirava as próprias roupas e colocava dentro de um saco plástico. Reade fez a mesma coisa com as roupas dele.

— Por que falta uma faca? – Ela perguntou ao perceber que havia um espaço vazio no suporte de facas que ficava sobre o balcão da cozinha de Reade.

— Ela quebrou e eu joguei fora. – Ele explicou.

— Nunca a substituiu? – Natasha queria acreditar nele, mas estava ficando difícil.

— Peço comida pronta, Zapata. Por que preciso de treze facas? – Ele explica.

Tasha pensa por um momento e sabe que deve deixar de lado a desconfiança e tentar um meio de tirá-lo totalmente da situação em que se encontrava.

— Sei como recuperar a fita. – Ela fala. – Entramos como sendo do FBI.

— Mas isso não seria uma boa explicação.

— Tem ideia melhor? – Ela o desafia.

— Sim, a verdade.

— Não! Não podemos fazer isso. A polícia vai começar pelo corpo. Não tem nenhuma razão para olhar o videocassete. Podemos colocar a fita no lugar antes que saibam do sumiço. Só temos que esperar que a cena do crime se torne oficial.

— O que fazemos até la? – Reade perguntou com o olhar perdido.

— Queimamos nossa roupa, dormimos e vamos trabalhar normalmente.

Parecia muito simples ao ouvir ela falar, mas Reade sabia que não era nada simples. Ele estava confuso, seus pensamentos o perturbavam. Ele não sabia o que fazer com tudo aquilo. A sorte era que Tasha chegara naquele momento, senão ele certamente já estaria preso.

— Tasha. – Ele falou quando voltaram após queimarem suas roupas em um local abandonado ali perto.

— O que foi?

— Você se importaria de ficar aqui hoje? – Ele pediu falando baixo.

Tasha pensou em fazer uma brincadeira, mas sabia que não era o momento. Apenas entrou no apartamento com ele. – Tudo bem. Eu fico. – Ela sorriu fraco.

Aquela não foi uma noite normal como as que eles assistiam jogos e bebiam. Tudo o que fizeram foi em silêncio. Tasha tomou um banho primeiro enquanto Reade preparava algo para comerem. Depois foi a vez de Reade tomar banho. Ele voltou do banheiro apenas de calça de moletom e sem camiseta. Tasha não pode deixar de reparar no quanto ele era forte. Mais cedo enquanto eles se trocavam depois do acontecido ela não teve tempo e nem cabeça pra isso. Mas agora que pareciam mais calmos ela o observou melhor. Quando percebeu que ele a olhava ela engoliu em seco e desviou o olhar tentando pensar em outras coisas.

Os dois jantaram e mantiveram a TV ligada em um canal de notícias, mas o volume estava tão baixo que nenhum dos dois prestava atenção. Tasha queria estar ao lado dele sempre, mas essa situação era um tanto estranha e incomum.

— Eu vou pegar lençóis e cobertores pra você. – Ele disse após recolher os pratos após o jantar.

Reade trouxe lençóis macios que traziam o mesmo cheiro dele. Ela ajeitou o sofá para se deitar.

— Obrigado. – Reade disse a encarando.

— Nada. – Ela sorriu. – Estamos aqui um pelo outro. Sempre. – Ela enfatizou essa última palavra e o viu sorrir.

Natasha se deitou mas não conseguia pregar o olho. As lembranças dos acontecimentos do dia não saíam de sua mente. E ainda tinha esse maldito travesseiro que trazia o cheiro de Reade e ela fechava os olhos e o visualizava sem camisa em sua frente.

A morena não sabia se ele havia dormido ou se também estava repassando toda a situação em sua cabeça. Ela queria chamá-lo pra se sentar com ela no sofá e assistirem algo porque a cabeça dele também devia estar a mil por hora, mas tentou afastar esses pensamentos e já eram altas horas quando adormeceu.

Notas finais
Obrigada por lerem!!!