Juliette deixou a biblioteca pensativa.

Ainda não entendia completamente o porquê de Gadric ter contado a ela todas aquelas coisas. Desde que se encontrara com o oráculo de Valáquia estava ciente de sua linhagem, e da responsabilidade que tinha. Era a última dos Von Bauer, um clã de matadores de vampiros que não obtivera sucesso em sua empreitada, e cujos fins eram sempre terríveis. Apesar disso, também sabia que era uma época diferente. Talvez seu fim pudesse ser diferente.

Pensava nisso quando Luna apareceu de repente e segurou-a pelo braço.

— O que está fazendo? – perguntou Juliette, assustada.

— Venha comigo – sussurrou Luna, puxando-a.

Juliette não resistiu. Deixou-se puxar por Luna. Era um pouco mais alta que a cavaleira, porém não tinha a força de luta de uma guerreira. Assim, foi levada por um estreito corredor iluminado apenas pela luz da lua.

O corredor terminava em um discreto jardim, com um chafariz seco em seu centro e bancos de carvalho dispostos em círculo. Iluminando os jardins havia dois postes com lâmpadas de brilho amarelado.

— Desculpe-me se a assustei. Não queria que ninguém nos visse. As pessoas daqui podem ser um pouco intrometidas, você sabe – disse Luna, sentando-se em um dos bancos.

A lua parecia iluminada por mil lâmpadas – uma enorme esfera observando-as. Juliette sentou-se ao lado de Luna.

— Sabe, chamamos isso aqui de Paraíso, todo mundo se entende, não existem barreiras linguísticas, a comida cai do céu, todos sempre estão felizes... Mas, às vezes, eu sinto como se estivesse no inferno – disse Luna.

— O que está dizendo, Luna?

— Estou dizendo que não sou feliz. É isso.

Juliette desviou os olhos dos de Luna. Simplesmente não sabia o que dizer. Imaginava que era a causa da infelicidade dela – embora ainda não soubesse exatamente por que.

— Sinto muito se a prejudiquei de alguma forma, eu...

— Antes de vocês chegarem eu era completa, sabe. Eu não pensava em nada mais além da minha missão aqui: me preparar para enfrentar o mal. Então, você e Evan chegaram. Quando eu o vi... Nem sei se deveria estar te contando essas coisas...

— Luna...

— Quando eu o vi, eu me apaixonei por ele. Foi assim, à primeira vista. De repente eu esqueci minha missão, o porquê de estar aqui, de existir... Então, Gadric me designou para o treinamento básico do Evan. Mal sabia ele o que fazia. Sabe, eu estava perto daquele sujeito encantador, ele estava ali, do meu lado... E você dormia.

Enquanto falava, lágrimas escorriam pelo rosto de Luna, e Juliette achou que a lua também parecia mais brilhante. Parecia chorar. Luna enxugou as lágrimas com uma das mãos.

— Uma noite, eu segui Evan até a enfermaria. Ele foi vê-la. Evan ajoelhou-se diante da sua cama, puxou sua mão e beijou-a. Ficou lá durante muito tempo, contemplando seu rosto, falando com você. Naquele momento eu soube que, se você acordasse, eu não teria chance alguma com ele. Desejei que você jamais acordasse.

Juliette encolheu-se um pouco. A lua pareceu menos brilhante.

— Eu não sabia... Sinto muito...

— Antes de você chegar aqui, meu irmão Gadric só tinha olhos para nossa comunidade. Agora, ele está sempre com você. A estrangeira. Confesso que sinto inveja de você, Juliette Von Bauer.

— Você não tem que olhar as coisas por esse ângulo. Será que não percebe que você é tudo o que eu gostaria de ser agora? – disse Juliette, segurando o rosto de Luna e olhando dentro dos olhos dela.

— O que está dizendo?

— Estou dizendo que eu é que sinto inveja de você, Luna. Você é uma guerreira treinada para lutar contra as forças do mal. E eu, o que sou? Uma estudante secundarista que mal consegue se manter de pé... E que tem o peso de um clã de matadores de vampiros sobre os ombros... E que provavelmente vai falhar miseravelmente e acabar morta...

Juliette calou-se. Chorava também. De repente as lágrimas desceram, e ela não tinha a menor intenção de contê-las.

— Desculpe-me – sussurrou Luna. – Acho que eu exagerei... Você tem seus próprios problemas...

— Está tudo bem. Não precisamos ser amigas, se é o que te aflige.

— Não mesmo.

Luna levantou-se. A capa e a espada caíam bem nela. Tinha a postura perfeitamente ereta, e uma expressão de sobriedade encantadora.

— Quer que eu a acompanhe até seus aposentos, Juliette Von Bauer?

— Não precisa, obrigada.

Luna assentiu com um movimento dos olhos. Então se foi, deixando Juliette sozinha no pequeno jardim.

No céu, a lua parecia ainda maior e mais brilhante.

***

Flórida, Estados Unidos, 2020

Deus, o que estou fazendo?

Isaac acabara de lançar a mochila no vazio.

Douglas respirou profundamente. O vampiro caminhava na direção dele, e ele não sabia o que fazer. Seus instrumentos estavam fora de alcance, e sentia que ficava sem tempo. E, ainda que tivesse os instrumentos em mãos, não poderia atentar contra a vida de Clarissa.

Precisava de um plano. Talvez prendê-la em um cômodo até que conseguisse pensar em algo... Contudo, tinha que considerar a possibilidade de Isaac machucar Clarissa. Ele poderia desistir daquela investida (por enquanto) e trucidá-la. Pelo menos teria parte de sua vingança, ainda que não conseguisse o corpo que tanto desejava.

Se isso acontecesse, Douglas jamais se perdoaria.

Contudo, precisava correr esse risco. Com Isaac à solta não havia meios de exorcizá-lo do corpo de Clarissa.

— Então, parece que voltamos ao nosso impasse inicial – disse Isacc, se aproximando lentamente. – Sabe, talvez eu devesse ficar com esse corpo. Dá até para ganhar um dinheiro com ele, sabia?

— Você é doente, Isaac. Eu devia ter percebido isso enquanto você fingia estar do nosso lado.

— Você devia ter percebido tantas coisas, Douglas. Tantas que sequer consegue imaginar quantas. Devia ter percebido, por exemplo, que Clarissa tinha uma quedinha por você.

Douglas negou com um movimento da cabeça.

— Nós somos feito irmãos – justificou.

— Mas não é assim que ela o vê, seu idiota. Ela estava apaixonada por você, e o que você fez? Machucou o coração dela. Sabia que Juliette gostava do Evan, mas, mesmo assim, você a beijou e Clarissa presenciou tudo. Naquela noite Clarissa conheceu Kassius...

— Está me dizendo que eu sou o responsável por Clarissa ter conhecido Kassius?

— Bem, se ela não tivesse saído sem rumos naquele fatídico dia, talvez não estivéssemos aqui, agora, lutando por nossos corpos – disse Isaac.

Não poderia ser verdade. Clarissa jamais tocou naquele assunto. Ela teria dito algo. Se ela tinha por ele sentimentos dessa natureza, deveria ter dito alguma coisa.

— Você mente, está tentando me confundir...

— Você sabe que não, no fundo sabe que falo a verdade. E não pode fugir da verdade. É a única coisa da qual não se pode fugir.

O vampiro encarou Douglas e então sorriu. Estalou o pescoço e então avançou com tudo para cima do adversário. Douglas lançou-se para o lado, caindo no corredor que ligava os quartos e a cozinha. Isaac se chocou contra uma mesinha, espatifando-a.

Douglas imediatamente se levantou, e correu na direção da sala. O plano de prender Isaac em um cômodo não parecia viável. Precisava de um crucifixo, e das palavras corretas. Talvez houvesse alguma coisa no corredor. Ele se lançou contra a porta da sala, que estava destrancada e abriu-se facilmente. Ainda sentiu a mão de Isaac roçar em suas costas, antes de precipitar pelo corredor.

— Não pode fugir de mim! – gritou Isaac.

Estavam no corredor. Douglas corria na frente. Isaac estava logo atrás. Duas mulheres gritaram quando os viram passar. Chamavam a atenção – logo a polícia estaria ali. Era tudo o que não precisavam naquele momento.

No final do corredor havia um enorme espelho. Correndo na direção do espelho, Douglas via o corpo de Clarissa persegui-lo. Mas era a alma de Isaac que se refletia no espelho. Sua expressão era de uma profunda raiva, a boca aberta, os dentes à mostra, os olhos brilhando feito duas chamas na escuridão.

Isaac alcançou Douglas e empurrou-o. Ambos se chocaram contra o espelho, que se espatifou em centenas de pedaços, com um som estridente. Os dois caíram de qualquer jeito sobre os cacos.

— Douglas, por que é tão insistente? Se entregue a mim! – gritou Isaac, se levantando. Sua face (a face de Clarissa) sangrava nos pontos em que o vidro penetrara, rasgando a pele.

Douglas começou a se arrastar sobre os cacos, enquanto o vampiro ainda o perseguia. Sentia os braços arderem, o os cacos de vidro cortavam sua pele. Sangrava.

Quando os braços de Isaac estavam prestes a se fechar sobre Douglas, um homem saltou sobre o vampiro, empurrando-o para longe.