Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis

18 Capítulo 18 - Volta para casa


Clarissa assistiu a tudo, impotente.

Viu Isaac tentar sufocar Douglas. Viu Douglas expulsá-lo de cima de si, temporariamente, com um banho de água-benta. Viu Isaac pegar a mochila de Douglas e atirá-la pela sacada.

Agora, via Douglas e Isaac se encarando mutuamente.

Sabia que precisava fazer alguma coisa se quisesse que Douglas tivesse alguma chance. Mas, para fazer alguma coisa, precisava de um corpo. E todos os corpos ali já estavam ocupados por outras almas.

Só havia um corpo disponível.

Clarissa voltou o mais rápido que pode para o navio. O corpo do jovem que Kassius assassinara – e no qual costurara a cabeça de Isaac – ainda estava dentro do banheiro. Repousava na banheira. Ela entrou nele – primeiro sentiu um formigamento, como quem acaba de acordar. Depois, sua alma foi se esticando, as pontas dos dedos se encaixando, como se Clarissa vestisse luvas.

Abriu os olhos assim que se sentiu à vontade. Então, movimentou um dos braços, segurando a borda da banheira. Tentou se erguer, mas precisava calibrar seus movimentos. Escorregou e afundou-se na água – por um ou dois instantes submergiu completamente, então retornou à superfície, ofegante. Esse era o preço por voltar a ocupar um corpo biológico. O outro preço era a putrefação, pois aquele corpo começava a se decompor – as extremidades já estavam arroxeadas, e exalava um fedor de cadáver.

Clarissa conseguiu se levantar. Acostumava-se a andar novamente – há menos de meia hora flutuando e, de repente, ela só queria se locomover dessa forma. Entendia porque tantos que praticavam a projeção astral se perdiam para todo o sempre de seus corpos.

Escorando na parede, conseguiu chegar ao quarto. Arriscou-se a andar sem apoio e caiu para frente, tendo sua queda amortecida pelo carpete. Levantou-se novamente e, desta vez, ficou de pé. Não tinha muito tempo para se acostumar com aquele corpo, por isso, assim que se sentiu segura o bastante, procurou por vestimentas e deixou o quarto. No corredor, tentou ser rápida o bastante para não ser notada. Tinha que deixar o Gigante dos Mares.

Clarissa seguiu pelo longo corredor, até alcançar escadas. Poderia subir ou descer e, como precisava sair do navio, imaginou que jogar-se do deck era a melhor opção. Por isso subiu. Três lances de escadas depois e ela estava no deck. Havia muita gente por ali, tomando banho de piscina ou simplesmente repousando ao sol. Ignorou-os e seguiu em frente.

Clarissa simplesmente se jogou no mar. Ouviu gritos, e algumas pessoas correram para olhá-la. Agora que já tinha aprendido a andar, precisava aprender a nadar. Assim, desajeitadamente, Clarissa se pôs a nadar na direção da praia, a despeito das bóias salva-vidas que lançavam ao mar. O Gigante dos Mares seguia rumo às Ilhas Virgens Americanas.

Ela seguia rumo ao desconhecido.

***

Quando chegou ao Porto de Tampa, Clarissa estava exausta.

Durante um tempo simplesmente deixou-se arrastar pelas ondas, sem forças para nadar. Naqueles momentos pensava na possibilidade (quase real) de nunca conseguir alcançar seu objetivo – que era matar Kassius. Tentava afastar esse pensamento, mas é muito fácil pensar somente em coisas boas quando se está em terra firme, e difícil é não pensar na morte quando tudo o que se vê é água, para onde quer que se olhe.

Quando finalmente percebeu que se aproximava do porto, Clarissa retomou seu nado obtuso, imprimindo todas as forças que tinha na tentativa de sobreviver. Assim, viu enormes navios aportados, e procurou por escadas que possibilitassem vencer as altas paredes de concreto. Logo as encontrou, e jogou-se contra uma pequena base de concreto. Estava exausta, queria descansar, mas sabia que Douglas precisava de sua ajuda. Levantou-se em seguida, e começou a subir as íngremes escadas.

Estava no porto.

Era um homem molhado, com a cabeça que não combinava com o resto do corpo, e cujo cheiro lembrava a todos que o sentissem do inescapável destino de tudo o que está vivo. E esse homem corria pelo porto, sem saber exatamente para onde ir.

Pelos lugares por onde passava atraía os olhares das pessoas. Mas Clarissa não estava preocupada com o que os outros poderiam pensar – não mesmo. Tudo o que ela queria era ajudar Douglas, da melhor forma que conseguisse. Assim, correndo desgovernadamente pelo porto, ela procurava por uma saída. Sabia que o tempo era seu inimigo – mais um, aliás. E isso a assustava mais do que tudo.

Depois de cerca de dez minutos correndo, Clarissa viu uma grande placa que dizia ESTACIONAMENTO. Não teve dúvidas e se dirigiu para lá. Não seria nada fácil roubar um carro sem chave para ligá-lo. Andando pelo estacionamento, Clarissa viu um senhor estacionando lentamente seu Volvo XC60.

Lembrou-se, então, que estava no corpo de um homem. Um homem grande e assustador, com uma cabeça desproporcional. Não seria difícil conseguir o que queria. Pensando nisso, Clarissa aproximou-se do senhor que saía do carro recém estacionado.

— Eu preciso deste veículo – disse.

O homem virou-se com uma expressão de total pânico. Tentou fechar a porta, mas Clarissa puxou-o para longe do carro – aprendera a andar, a correr, a nadar e agora tinha que aprender a brigar com aquele corpo.

— Por favor... Leve minha carteira...

— Eu preciso apenas do carro – disse Clarissa, segurando o homem pelo colarinho.

— Por favor, não me mate!

— Eu só quero as chaves!

Ela pegou a chave à força, e empurrou o homem para longe. Ele caiu de qualquer jeito, e ficou lá, no chão. Clarissa entrou no carro e fechou a porta. Deu a partida. Agora, tinha que aprender a dirigir com aquele corpo. Não seria muito difícil, pois o carro era automático. Só tinha que manter o controle das coisas. E não era isso que tentava fazer desde sempre? Conseguiu sair da vaga com um solavanco e quase acertou o carro estacionado do outro lado. Então, acelerou, e quase atropelou o homem que, naquele momento, acabara de se levantar.

Clarissa dirigia pelo estacionamento. Por duas vezes quase acertou outros carros que iam na direção oposta. Então, viu a cancela da portaria de saída. Era eletrônica, ela sabia disso. Aproximou-se devagar, esperando que ela se levantasse automaticamente. Mas ela permaneceu lá, exatamente onde estava. Então, ela olhou pela janela e viu um pequeno aparato, feito uma superfície de vidro, onde a mão da pessoa deveria ser colocada. A cancela não abriria, ela não tinha a mão correta.

Clarissa deu ré no carro e encarou a cancela. Então acelerou com tudo o que tinha. O choque da cancela contra o vidro do carro provocou um trincado no canto superior esquerdo. Ela chegou à rua pouco movimentada do porto, e foi na direção do trânsito.

Não tinha a menor ideia da direção do hotel onde estavam hospedados.

***

Depois de apertar diversos botões, Clarissa conseguiu ligar o GPS. Esperou o carregamento terminar e então uma voz feminina perguntou qual era o destino. Clarissa pensou no quanto essa pergunta poderia ser ampla.

— Hotel Sundance.

A rota apareceu na tela do GPS. O trânsito estava bom. Apenas cinco minutos de viagem. Esperava chegar a tempo de salvar Douglas. Precisava chegar a tempo.

Clarissa deixou o carro na rua em frente ao hotel e saltou. Havia muito movimento no hall de entrada. Pessoas corriam, e a atendente falava ao telefone – estava muito nervosa. A palavra “vampiros” foi pronunciada quando Clarissa passava perto da atendente, indo na direção da piscina.

Clarissa pegou a mochila de Douglas na área da piscina e foi para os elevadores mais próximos. Quando entrou, duas mulheres saíram correndo – provavelmente presenciaram alguma coisa. Clarissa apertou o botão do andar onde estavam e esperou o elevador subir. Quando as portas se abriram, ela os viu.

Douglas e Isaac estava no corredor, sobre os cacos de vidro do espelho recém-quebrado. Isaac – usando o corpo dela –, se preparava para atacar Douglas.

Clarissa não pensou duas vezes. Largou a mochila, correu o mais rápido que pode e se jogou sobre Isaac.

***

Saltando sobre Isaac, Clarissa Valverde conseguiu afastá-lo de Douglas.

Segurou-o com obstinação, porém, sem a intenção de machucar seu corpo. Puxou os braços de Isaac para trás, e pressionou seu rosto contra o chão. De relance, viu Douglas se levantando. Estava ferido – estavam, na verdade, pois ela se incluía nessa constatação.

— Douglas! – gritou.

Douglas olhou para Clarissa por um tempo. Claro, era a alma dela em um corpo masculino. Ele se aproximou.

— Você está bem? – perguntou.

— Estarei quando voltar para o meu corpo! Sua mochila está no final do corredor.

Douglas foi o mais rápido que pode e logo retornou com a mochila. No chão, Isaac contorcia os lábios. Tentava se libertar de Clarissa.

— Você pode deixar meu corpo deliberadamente, Isaac, ou se exorcizado. O que você prefere? – perguntou Clarissa.

A criatura se contorceu, e pareceu sorrir.

— Vejam só se não é uma bela reunião de amigos... Vamos pedir pizza?

Douglas negou com um movimento da cabeça. Isaac não sairia daquele corpo por nada neste mundo, a não ser para roubar um corpo melhor.

— Então, será pelo jeito mais difícil – disse Douglas, retirando um livro de dentro da mochila.

Folheou-o rapidamente. Ali estava. O encantamento de exorcismo.

Douglas retirou um frasco de água-benta de dentro da mochila e molhou o dedo. Fez uma cruz na testa de Isaac – ainda no corpo de Clarissa. O vampiro gritou, e pronunciou palavras incompreensíveis. Douglas começou a ler as palavras mágicas. Enquanto lia, Isaac ria e gritava obscenidades. Então, em certo momento, o espírito de Isaac deixou o corpo de Clarissa. Imediatamente Clarissa deixou o corpo que ocupada até então, e retornou para o seu próprio.

Foi como voltar para casa depois de muito tempo longe.