Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis

16 Capítulo 16 - Damnatio memoriae


Flórida, Quartel General da Ordem do Sol Nascente

Juliette bebia uma xícara de chá no salão principal.

Era a tarde do mesmo dia em que ela acordara. Apesar de sentir-se um pouco tonta durante as horas que se seguiram ao seu despertar, naquele momento Juliette estava revigorada. Almoçaram faisão – o que era total novidade para ela –, beberam hidromel e, depois, Gadric empurrou-a em um passeio pelo Quartel General. Tudo era muito bonito, bem organizado e limpo. E todos pareciam felizes.

– Sabe, a magia que encerra esse lugar é inesgotável. Enquanto houver bondade e esperança no mundo, nós estaremos a salvo – disse ele quando se aproximavam de uma grande macieira.

Gadric colheu uma maçã e entregou a Juliette.

— Obrigada – sussurrou ela.

Ele sorriu, e pareceu o sorriso mais bonito dentre todos os que Juliette já vira. A maçã estava muito saborosa. Havia muitas delas nos galhos, e espalhadas pelo chão. Nenhuma, contudo, parecia apodrecer. Poderia pegar aquelas do chão e comer sem problemas.

— Deveria saber que havia algo de especial em você – disse Gadric.

Juliette encolheu-se um pouco. Sim, há algo de especial em todo mundo, se você procurar direito.

— Já não me parece tão especial assim.

— Juliette Christine Von Bauer – disse ele. – Você é uma alma privilegiada. Faz parte de um clã em extinção. Provavelmente é a última de sua linhagem, tem consciência de como isso é ser especial?

Os octavós de Juliette se mudaram da Romênia para a França, depois para a Inglaterra, ainda durante a Idade Média. Descobriram que o mal original não era Vlad Tepes, mas algo muito maior e mais perigoso. Seu septavô morreu tentando derrotar esse mal, como revelou o oráculo de Valáquia, deixando grávida uma prostituta. Mais tarde, em 1912, seus avós se mudaram da Inglaterra para o Brasil. Seus pais morreram em um acidente de carro, e ela foi parar em um orfanato. Do orfanato, foi adotada.

— Às vezes parece mais uma maldição – disse ela.

— Não pense nisso agora. Tem ideia de como Kassius se sentiu quando descobriu sua identidade?

Juliette não tinha ideia. Na verdade, sequer sabia se vampiros ainda podiam sentir medo – embora acreditasse que sim. A existência não combina com a ausência total de sentimentos.

— Ele tentou me matar, e fez todos acreditarem que foi um acidente – confessou.

Gadric concordou com os olhos. Sim, essa era a reação que esperaria de um verme asqueroso como Kassius. Sempre ardiloso. Sempre agindo nas sombras.

— Mas agora está tudo bem, você está segura, e eu irei protegê-la – disse ele. – À noite, preciso que vá até a biblioteca. Preciso te mostrar uma coisa.

Gadric deixou-a em seguida, pois precisava resolver alguns problemas.

Isso foi de manhã, mas parecia ter acontecido há muito mais tempo. Há séculos. Agora, Juliette bebia seu chá, admirando as tapeçarias que ornamentavam as paredes do salão.

— Acha mesmo que conseguirão derrotar Kassius? – perguntou uma voz feminina.

Juliette olhou para trás e viu Luna se aproximar. O arco estava pendurado junto às costas, como se ela estivesse sempre pronta para a próxima batalha. Ela parecia ainda mais bonita do que antes. Tudo ali parecia resplandecer a cada olhar.

— Eu não sei...

— Tudo bem que vocês têm um trunfo, afinal, não é todo dia que se encontra um Von Bauer. Mas isso não foi suficiente há mil anos, e não me parece suficiente agora.

Juliette olhou para sim própria. Não era uma guerreira, como os outros. Não tinha a coragem de Clarissa, a astúcia de Douglas ou o equilíbrio de Evan. Mas sabia que tinha um papel importante a desempenhar (não apenas porque o oráculo dissera), antes disso, quando chorava sozinha naquele orfanato, sabia que sua existência não era vã. Não sobrevivera a um acidente de carro para uma vida medíocre.

— Sei que não sou a solução para este problema...

— E é um grande problema, se me permite – disse Luna, recostando-se à mesa.

Olhava Juliette de cima, com os braços cruzados. A expressão no rosto de Luna era de uma raiva contida – uma raiva que ela não sabia como suscitara. Simplesmente acordara, a vira e então aquilo emergira.

— Se todas as nossas esperanças dependerem de você, nós estamos perdidos.

— Por que você me odeia, Luna? – perguntou Juliette.

— Eu não te odeio, estrangeira. Como poderia odiá-la quando todos a amam?

Luna não deixou que Juliette respondesse. Deu as costas e saiu do salão. Antes que ela saísse, entretanto, Juliette percebeu algumas lágrimas brotando de seus olhos. Eram bem discretas, e também as lágrimas mais belas que a Juliette jamais vira.

***

A biblioteca era o lugar mais obscuro de todo o Quartel General.

Quando Juliette entrou, não havia ninguém. Começou a caminhar entre as estantes abarrotadas de livros a perder de vista. Encontrou Gadric no alto de uma escada. Ele acenou brevemente para ela, e quase perdeu o equilíbrio. Mas não caiu.

— Sabia que não resistiria ao meu convite – disse ele do meio da escada.

— Você sabe mesmo como conquistar uma garota – brincou ela, se arrependendo depois.

Gadric terminou de descer as escadas. Já diante de Juliette e com um enorme volume debaixo do braço, encarou-a com um ar de seriedade.

— Convites para ir à biblioteca nunca falham – brincou ele. – Vamos por aqui?

Havia uma mesa preparada para eles, com abajures acesos, uma garrafa de água e alguns sanduíches. Parecia mesmo um protótipo de jantar romântico idealizado por um nerd.

Ele depositou o enorme livro sobre a mesa, e sentou-se. Juliette sentou-se na cadeira do lado. Estavam muito próximos, talvez até demais para dois sujeitos que se conheciam há menos de vinte e quatro horas.

— Pronta para viajar para o seu passado? – perguntou.

— Sempre pronta.

O livro abriu-se com um gemido. Um pouco de pó saltou de dentro do volume, e as folhas amareladas espalharam-se sobre a mesa. Um cheiro quase insuportável de mofo invadiu as narinas de Juliette, que espirrou e desviou o rosto.

— Acho que a magia não se estende a todos os objetos deste lugar – confessou Gadric, oferecendo um lenço. – Os livros estão apodrecendo, mesmo com todo o cuidado.

Juliette agradeceu e limpou o nariz.

— Ou a magia está nos deixando... O mundo está perdendo a bondade e a esperança na mesma medida? – questionou-se ele.

— Acho que bondade e esperança são duas coisas que nunca se perderão por completo.

Ele concordou com um movimento da cabeça. Folheava o livro, procurando por uma parte específica. Parou em um capítulo intitulado “Os Von Bauer”, então encarou Juliette.

— Vou ler para você. Mas saiba que nem tudo o que está aqui é verdade. Você precisa saber no que acreditar. Esteve com o oráculo, não esteve?

Os olhos de Juliette se estreitaram.

— O oráculo de Valáquia mentiria para mim?

As luzes bruxulearam como se fossem as chamas de velas ao vento. Um sopro frio pareceu percorrer a extensão da biblioteca. Gadric aparentava rezar mentalmente, como se a simples menção ao oráculo fosse suficiente para apavorá-lo.

— O oráculo não mente – disse Gadric. – Porém, há outras forças agindo sobre você. O oráculo não consegue prever tudo, pois essas forças são como interferências no sinal de recepção de uma televisão.

— Entendo – sussurrou Juliette.

— Além disso, somente a linhagem masculina foi registrada, o que explica a crença de que os Von Bauer estavam extintos logo após a morte de seu septavô – continuou ele.

— Mas não estamos – disse Juliette. Você precisa saber no que acreditar.

Gadric assentiu. E começou a ler.

Sua história começa na região que seria, no futuro, a Romênia. Seu tridecavô, Ion Von Bauer, por volta do ano de 900, vivia sob a ameaça de ataques vikings. Nessa época os vampiros assolavam a Europa, aterrorizando vilarejos e se alimentando de humanos a certo e a torto. Ion, um fazendeiro criador de ovelhas, descobriu sua vocação para matar vampiros quando derrotou o primeiro deles, espetando-o com uma forquilha e, depois, perfurando seu coração com uma estaca de madeira.

O ano 1000 foi trágico, não apenas para sua família, mas para toda a Europa. Havia presságios do fim dos tempos em todos os lugares, todos acreditavam que o Apocalipse se aproximava. Cometas cruzavam o céu e crianças deformadas nasciam, e as pessoas sequer imaginavam se tratar dos primeiros híbridos. Seu dodecavô, Piers Von Bauer, em 1033, aproveitando-se de um eclipse solar que supostamente aumentava sua magia, tentou uma investida contra o que ele acreditava ser a origem do mal na Romênia: uma família de aristocratas. Morreu enforcado, acusado de bruxaria e fornicação.

Por volta de 1100, seu undecavô, Dmitri Von Bauer, vivia em uma Europa que começava a se recuperar. As cidades cresciam, as condições de vida melhoravam e as pessoas tinham alimentos mais nutritivos em suas mesas. E isso também valia para os vampiros, que começavam a se organizar em clãs. Se os humanos estavam evoluindo, seu predadores também precisavam evoluir. Dmitri viveu nas sombras, sem grandes feitos contra os vampiros. Não há registros de sua morte.

As coisas não andavam muito bem na Europa. Como apenas os primogênitos tinham direito a herdar os feudos, os demais filhos dos senhores feudais se tornavam vagabundos. Havia uma grande quantidade de assassinos, ladrões e estupradores à solta. A Igreja Católica precisava recuperar Jerusalém, que estava sob domínio árabe. Então, em troca do perdão de seus pecados e uma porção de terra, diversos homens foram enviados nas chamadas Cruzadas. Em 1270 seu decavô, Hamon Von Bauer, participou da última Cruzada, com o objetivo de libertar Jerusalém, agora sob domínio turco. Foi um fracasso total. Hamon morreu com uma espada encravada no peito.

Por volta de 1300 seu nonavô, Ranko Von Bauer, viveu em meio à peste negra. Agora, os vampiros não eram a maior ameaça aos humanos. Os doentes caíam de cama, com febre e espasmos, e vinte quatro horas depois – no máximo trinta e seis –, aqueles que não haviam se levantado, jamais se levantariam novamente. Claro que os vampiros continuaram com suas atividades, se aproveitando da epidemia para saírem das sombras. Não preciso dizer que Ranko morreu de peste.

Por volta de 1400, Samo Von Bauer e sua esposa, Mira Von Bauer (a primeira e única mulher neste registro) se mudaram para a França. Descobriram que Vlad Tepes não era o verdadeiro mal a ser combatido. O Primeiro que precisavam destruir, aquele que precisava ser detido, às custas de lançar todas as mazelas sobre a humanidade, esse estava em território francês, mais precisamente em Avignon. Samo atentou contra a vida do vampiro, e sucumbiu. Foi acusado pela Igreja de heresia e associação com o demônio, e terminou em uma fogueira em praça pública.

O último registro do livro é sobre seu septavô, Simon Von Bauer. Simon foi levado pela mãe à Inglaterra, logo após a morte de Samo, e deixado em um orfanato. Adotado, logo se viu órfão novamente. Em algum momento de sua vida ele enfrentou o mal supremo, desta vez em Roma. Amaldiçoado, recebeu a damnatio memoriae. Mas não foi completamente varrido da história, pois o oráculo de Valáquia o incluiu neste relato. Sua memória, contudo, se confunde com as invenções dos inimigos para desqualificá-lo. Inventaram que ele se casou com uma prostituta, e teve uma filha deformada que se tornou sua amante. Que se deitava com um vampiro. Idólatra. Sodomita. Fornicador. Bêbado.

Quando terminou de ler, Gadric encarou Juliette.

— Os relatos terminam aqui – disse ele.

— O que ele fez para merecer damnatio memoriae?

Juliette estava assustada. Todos os Von Bauer tinham destinos terríveis. Forca. Fogueira. Peste. Realmente, agora não tinha muitos motivos para se sentir especial. Sentia-se amaldiçoada.

— Não contei isso para desanimá-la. Apenas para alertá-la. O mal que se coloca à nossa frente é muito mais poderoso do que supomos, e se torna cada vez maior a cada dia.

— Então, o que estamos fazendo aqui? Precisamos unir nossas forças e destruir Kassius. Por que a Ordem do Sol Nascente prefere se esconder a lutar? – perguntou ela, cerrando os punhos.

Gadric negou com um movimento da cabeça. Não, não é tão simples assim. Nunca foi.

— Criança, não sabe o que dizes. Não podemos simplesmente nos render ao calor do desafio, e correr para os braços de Kasssius – sussurrou ele. – Você esteve com o oráculo de Valáquia, não esteve?

— Sim, ela nos recebeu quando estivemos na Romênia.

— E o que ela disse sobre a Ordem do Sol Nascente? Ela previu nossa vitória sobre Kassius, como fez no passado?

Juliette cerrou os lábios. As previsões eram alteradas por causa dos ruídos. Era isso. Clarissa, Douglas, Evan e ela, talvez eles fossem os ruídos que interferiram. O oráculo nunca erra. Mas o tempo não segue sempre nos mesmos trilhos.

— Sinto muito...

A expressão de Gadric desmoronou em sua face. Ele se levantou, e caminhou até a janela. Permaneceu de costas por um tempo, fitando a escuridão da noite, como se ela tivesse as respostas para suas indagações mais profundas.

— Quais foram as palavras exatas dela? – perguntou ele.

— O traidor a Ordem do Sol Nascente derrubará. O Paraíso será salgado. Damnatio memoriae para seu líder.

Ele virou-se devagar. Encarou Juliette, cuja expressão de desolação só não era pior do que sua voz sumida.

— Um traidor, entre nós?

— Foi o que ela disse. Nunca esquecerei.

— Deus. A Ordem do Sol Nascente cairá – disse ele. – A profecia dizia que nós venceríamos. O que pode ter mudado?

O cavaleiro pareceu afundar-se em seus pensamentos. Por cinco minutos ficou em silêncio, como se digerisse tudo o que acabara de ouvir. Andava de um lado para o outro, e seus passos eram os únicos sons que reverberavam pela biblioteca. Juliette permanecia em silêncio. Havia outra coisa que ela não esquecera.

— Por que não me contou tudo? – perguntou Juliette.

— Do que está falando?

— Simon Von Bauer não foi o primeiro a ter sua memória atacada pelo inimigo. Antes dele, Dmitri Von Bauer, foi chamado de traidor. Foi assim que o oráculo de Valáquia se referiu a ele quando revelou meu passado.

Gadric pareceu consternado. Esboçou um sorriso.

— Todos os Von Bauer são considerados traidores pela Igreja, isso não pe nenhuma novidade.

— Mas o oráculo me disse para ter cuidado com Dmitri Von Bauer, o Traidor.

— Às vezes o oráculo fala por enigmas, criança. Precisa saber no que acreditar.

Juliette repetiu a frase em sua mente. Sim, preciso saber no que acreditar. Mas, antes disso, em quem acreditar parece ser mais importante.