Notas iniciais
Eu já tinha os capítulos a certo tempo, me desculpem. Prometo tentar postar mais rápido.

CAPÍTULO 10 — ALGUMAS PESSOAS SÓ ACREDITAM VENDO, POIS ENTÃO VEJAM!

–Tudo bem, o que você quer vestir? – Anna perguntou, visivelmente animada. Florence, deitada em sua cama, particularmente ainda estava tentando entender o motivo de toda aquela animação – É o seu primeiro dia de aula, então tem que ser algo do tipo... ‘’Uau, Florence, você é linda’’.

–Acho – Florence respondeu – que dificilmente alguém diria isso pra mim. De qualquer jeito, temos um uniforme lembra? Não posso usar outra roupa e se eu usar, Minerva não vai gostar nada disso.

–Bem, é verdade – Anna torceu os lábios, pensativa, enquanto olhava para uma roupa jogada em cima da cama de Amélia, de quem Florence ainda não tinha notícias – O que faremos com esse horror?

–Anna, ei, se acalme. Até que o uniforme é legal.

–Eu discordo. Olha só – ela o pegou como se estivesse com nojo – Cinza e branco.

–E?

–E que parece que estou indo para um enterro e não para uma aula super legal em uma escola muito mais legal ainda.

–Anna, tudo bem, se continuar assim vamos nós atrasar – Florence se levantou e puxou seu uniforme das mãos dela, conseguindo um protesto que ignorou – Você deveria se apressar e ir se arrumar de uma vez. Não quer causar uma má impressão a Minerva, não é?

–Não.

–Então vá.

–Certo, certo. Mas, no final de semana, você é minha. Eu vou escolher sua roupa e você vai arrasar corações.

–Você sabia que eu ganhei uma competição de alunos, na minha ex-escola, de mais bem vestida?

–Nossa, se você é a mais bem vestida da sua ex-escola, eu realmente não quero ir lá nunca.

–Tchau, Anna – ela disse, acenando, impaciente.

–Entendi, estressada – e pisando duro, saiu do quarto.

Florence se permitiu rir.

Ela não entendia porque aquela garota ainda continuava querendo ser sua amiga e isso a confundia um pouco, mas não iria repeli-la. Pelo menos, não agora. Já havia pessoas a odiando o suficiente.

Ainda rindo por causa de Anna e seu comportamento exagerado, ela caminhou até o banheiro, parando em frente ao espelho.

A imagem que se refletia ali não parecia a garota com a vida perfeita de antes. Parecia só uma menina qualquer, com muitos problemas . Os cabelos vermelhos antes motivo de cobiça mereciam, agora, apenas pena, com tantos nós quanto possível. Seus olhos não possuíam mais o brilho da juventude e a auto confiança de antigamente. Ela apertou a beirada da pia, com raiva. Aquela escola estava consumindo sua aparência, assim como seu espirito. E ela estava naquele lugar a tão pouco tempo. Mas não importava. Ela não iria ir embora. Não mais.

Depois da morte de Lindsay, Florence havia percebido que queria saber mais sobre tudo aquilo que parecia a rodear. Ela ainda estava preocupada com a reputação de seu pai, claro, mas parecia, para ela, que essa história era um pouco mais complicada do que aquilo e precisava saber o quanto.

Ela escutou a porta se abrir e foi até lá, pronta para fazer algum comentário que deixasse Anna envergonhada por ter esquecido alguma coisa no quarto de outra pessoa.

–Anna, você esqueceu o q... – mas ela se interrompeu.

–Ah, você ainda está aqui – Amélia disse, olhando-a dos pés a cabeça. – Posso voltar depois.

–Por que faria isso? O quarto é tão seu quanto meu, não faz sentido.

As duas ficaram em silêncio. Florence, esperando uma resposta. Amélia, procurando uma.

–Eu tenho medo de ofendê-la – Amélia disse, por fim.

–Como?

–Linds...Lindsay discutiu com você e na mesma noite acabou morta no meio da escola. Não quero acabar assim, Florence.

–Eu não fiz isso.

–Eu não quero me arriscar acreditando em você. – ela caminhou até a porta e segurou na maçaneta – Volto quando estiver ido embora.

Florence não disse nada, apenas deixou que ela fosse.

[...]

–Eu acho essas saias tão desconfortáveis – Anna comentou, olhando para uma garota que acabara de passar – Ainda bem que estamos com a roupa de aula prática.

–Esses shots são tão desconfortáveis quanto as saias, não sei porque está tão satisfeita com eles – Florence disse, ganhando um olhar de desaprovação.

–Eles são legais, eu gosto.

Anna era uma boa guia, embora fosse uma novata assim como Florence. Ela sabia exatamente onde ir e as coisas que deveria perguntar aos veteranos, caso precisasse de ajuda. E as pessoas pareciam gostar muito dela, como se ela fosse uma amiga antiga de todo mundo. Florence já tinha experimentado aquela sensação de ser querida e popular em sua escola, mas com Anna era diferente. Eles pareciam gostar de verdade dela.

Elas dobraram em mais um corredor.

–Você fala com muitas pessoas –observou, Florence, inocentemente.

–Falo – Anna confirmou, sorridente – As pessoas aqui são tão legais!

–Só se para você.

– Tudo se trata de gentileza. Se você for gentil com as elas, elas serão de volta .– continuou – Você tinha que ter visto ontem. O primeiro dia de aula, eu já tinha escutado, é sempre muito animado. Vários alunos pegaram violões e cantaram, houve danças e comida.

–E a Minerva?

–Bem, ela encerou com tudo assim que viu.

Florence riu.

–Ei – protestou pelo deboche – Mas nos divertimos muito antes disso.

–Imagino.

Elas andaram mais alguns metros, até que, de repente, Anna soltou um grito, fazendo Florence se segurar na parede para não cair com o susto – que, depois, respirando com dificuldade, se virou para Anna esperando vê-la em perigo ou algo do tipo. Mas estava errada. A garota dava pulinhos de felicidade e sorria de orelha a orelha olhando para uma porta preta em sua frente.

–Você enlouqueceu? – Florence falou, irritada, mas Anna continuou a sorrir – Quase me matou.

–Eu que quase morri – Anna corrigiu – Finalmente. Finalmente.

–O quê? Finalmente o quê?

–Essa sala – ela apontou para a porta em sua frente – É uma sala de treinamento.

–Não era em um lugar desses que seria nossa aula?

–Dã, é aqui – ela puxou a amiga com força, fazendo-a entrar sem respirar fundo algumas vezes para se acalmar. Anna e Florence realmente tinham sorte, porque assim que colocaram os pés dentro da sala, a campainha soou pela escola, avisando que os atrasados ficariam para fora.

O lugar estava cheio. Talvez 25 pessoas ou mais, não havia tempo para contar.

E enquanto Florence se sentia intimidada com tantos olhares, Anna parecia relaxada falando com uma mulher alta, de cabelos castanhos e olhos verdes – possivelmente a pessoa que daria a aula.

–E muito prazer – ela terminou, apertando a mão da professora, que se limitou a rir.

–Você – a mulher chamou, assim que Anna foi embora – Florence Willis, certo? – a garota acenou – Venha.

E ela foi.

–Bem, eu sou Theresa – ela disse – E sou sua professora de Defesa Pessoal. É uma aula realmente importante, levando em consideração nossa realidade. Se estiver em perigo e não tiver ninguém por perto, terá que contar apenas com seus próprios conhecimentos. E eu estou aqui para isso. Transformar você em algo forte e que possa cuidar de si mesma.

–Vamos lutar uns contra os outros? Eu nunca fiz nenhuma luta e eu particularmente não gos...

–Faremos mais que isso. Vamos além.

–Como assim ‘’além’’?

–Todos nessa sala nasceram em famílias de Filhos da Noite e isso é obvio.

–Tudo bem, mas e dai?

–E dai que todos aqui sabem um pouco sobre Defesa Pessoal e eu não vou ter que começar do zero.

–Legal, mas eu...

–Professora – um garoto, alto e com cabelos loiros, chamou. Theresa se virou em sua direção imediatamente – Podemos começar? Estamos demorando muito e eu particularmente estou ansioso.

–Eu também! Eu também! – Anna saltitou, no fundo da sala, também animada.

–Eles tem razão – Theresa segurou nos ombros de Florence, carinhosamente. E sorriu! Que absurdo! Ela não a odiava como todos? – Sei que não sabe muito sobre nosso mundo, mas aposto que aprende rápido.

–Se eu fosse você, não apostava nisso – Florence resmungou, baixo.

–Gente, vamos – a professora chamou, se dirigindo para o meio da sala vazia – Todos aqui no centro, bem em minha frente. Vamos, sem preguiça, a noite já chegou e os seus poderes os deixarão preparados.

Florence se colocou ao lado de Anna, claramente entediada. Aquilo era pura bobagem. Noite? Poderes? Por favor, ela queria estudar matemática ou história, algo mais real e que a deixasse com sono, como em escolas normais.

–Tudo bem – a professora continuou quando os alunos fizeram silêncio – Agora uma pergunta crucial. Quem aqui não acredita nos Filhos da Noite?

Algumas pessoas riram.

–Eu sei, parece desnecessário perguntar – Theresa disse – Mas, vocês devem saber, que alguns alunos vem aqui não acreditando em nós. Bem, alguém não acredita?

Florence pensou em se manter neutra, sem dizer sua verdadeira opinião, apenas deixando que todos acreditassem que ela achava que os Filhos da Noite eram reais. Ninguém parecia disposto a levantar a mão e ela não queria ser a única. Mas, acabou desistindo dessa ideia. Eles já não gostavam dela, não é? Então duvidar do que eles achavam que eram, não iria aumentar muito mais o ódio que sentiam por ela.

Determinada, levantou a mão.

–Florence – a professora a encarou – Não acredita nos Filhos da Noite?

–Eu deveria? – ela perguntou, abaixando as mãos – Eu não vejo motivo, nunca tive prova alguma. Vocês falam e falam, mas eu sinceramente não tenho certeza.

–Por favor, você poderia ficar ali perto da porta?

–Por quê? Vai me colocar de castigo ou algo assim?

–Pelo contrário. Esse vai ser o lugar privilegiado para você assistir ao show.

Florence tentou não rir, enquanto caminhava para onde a mandaram. Tudo bem, show? Sério? Por favor.

A professora, com um enorme sorriso, caminhou até a sua mesa e mexeu com alguma das gavetas. No mesmo segundo, o teto tremeu um pouco e começou a se abrir, deixando a sala com um comprimento ainda maior que antes. Tudo bem, aquilo era algo legal, mas Florence ainda não acreditava neles.

Theresa esperou que o teto falso sumisse completamente e então mexeu em outro lugar. Por sua vez, quando ela fez isso, algumas cordas foram caindo aos poucos. Mas essas cordas não tocaram o chão, pois uma de suas pontas estava presa ao novo teto. Agora a sala que antes estava completamente vazia, a não ser pela mesa e cadeira da professora, possuía uma imensidão de cordas espalhadas como um labirinto de fios e mais fios.

Florence cruzou os braços, encarando aquela cena sem expressão. Não tinha como prever o que iria acontecer e nem sabia se queria.

–Certo – a professora gritou sobre os comentários animados de sua turma – Quem quer começar?

O garoto loiro, que alguns minutos atrás tinha interrompido a conversa de Florence, levantou a mão rapidamente.

–Lucas – Theresa observou, anotando, logo em seguida, seu nome em uma caderno – Quem será seu desafiante?

–Posso escolher qualquer pessoa? – ele perguntou.

–A vontade – a professora respondeu – Menos a senhorita Willis, é claro.

–Eu escolho Anna Jones.

Florence não gostou nenhum pouco da escolha de Lucas. Se a aula era de Defesa Pessoal, isso queria dizer que Anna seria um tipo de inimigo a Lucas e isso era ruim, já que ele possuía bastante músculos e uma altura considerável – totalmente ameaçador.

Anna, por outro lado, não viu aquilo daquela forma. De onde estava, caminhou até o garoto, cheia de sorrisos e transbordando alegria, recebendo boa sorte por onde passava, até ficar ao seu lado.

A professora foi até eles.

–Sabem as regras, não é? – os dois concordaram – Escolham suas armas no baú a direita e depois se coloquem no lugar que preferirem, quem for derrubado primeiro perde.

–Uou, uou – Florence interrompeu – Calma ai, como assim derrubado? Eles não vão subir ai e então tentarem se matar, vão?

–Florence, me desculpe, mas de sua parte quero apenas o silêncio. Você é apenas a plateia, por ora. E durante um espetáculo, a boa plateia permanece quieta – Theresa parecia maluca, porque mantinha um pequeno sorriso nos lábios diante de um absurdo daqueles.

Florence olhou mais uma vez para o teto onde as cordas estavam presas e se assustou quando alguns buraquinhos começaram a aparecer do lado delas. Através dele, a luz da noite entrou pela sala.

–A noite é nossa Força – a professora pareceu perceber a confusão da novata – Devemos deixa-la entrar.

Quando Florence se virou para Anna, essa já possuía uma adaga prateada em uma das mãos, assim como Lucas. Ambos pareciam muito satisfeitos, assim como todo mundo.

Sem dúvida alguém morreria ali, porque era uma altura propicia a isso. E Florence tinha medo que fosse Anna, ao mesmo tempo que tinha certeza.

–Em seus lugares, Filhos da Noite – Theresa disse, fazendo Lucas ir para um canto da sala e Anna para o oposto. – E que Nyx sempre os proteja. – então apenas silêncio – Já!

O coração de Florence parou, diferentemente do cômodo ao seu redor, que parecia carregado de energia. A garota acompanhou Anna Jones sem desviar o olhar um segundo sequer e o que ela fazia era completamente espantoso. Ela agarrou a corda tão rápido e subiu com tanta rapidez que Florence teve que piscar algumas vezes para ter certeza de que aquilo estava realmente acontecendo. Com Lucas não foi muito diferente.

Anna, animada e ansiosa, segurou na corda mais próxima e pulou, fazendo Florence quase desmaiar. Lucas foi mais ousado e pulou para a corda mais longe que poderia conseguir. Ele cause caiu, mas ninguém ali naquela sala pareceu ter ficado preocupado, além de Florence Willis.

E então, em questão se segundos, os dois já estavam bem próximos, apenas metros de diferença. Anna enrolou sua corda nos pés e segurou sua adaga com uma das mãos. Usou o corpo para se balançar de um lado para o outro e atingiu Lucas antes que eles pensasse em atingi-la. Ele, nada contente, passou para outra corda e puxou a adaga. Ambos tentavam, pulando de corda em corda e desviando dos ataques que recebiam, acertar o outro, mas ninguém teve sucesso.

Ficaram assim por mais alguns minutos, até que Anna errou a mão e acabou escorregado, perdendo altura em sua corda. Ela não chegou a cair, porque se segurou, mas o caminhou ficou livre para Lucas usar sua adaga e cortar a corda que segurava ela no alto. E foi o que ele fez. Mas para o alivio de uma Florence quase histérica, Anna previu esse movimento e pulou para uma outra corda próxima assim que ele o fez.

Florence agarrou a ponta de sua blusa, esperando que a preocupação diminuísse.

Anna conseguiu se recuperar e agora tentava atingir Lucas novamente. Ela, que desde pequena foi ensinada a perceber o ponto fraco das pessoas, logo percebeu o de seu companheiro e resolveu usar isso contra ele. Com uma estratégia muito bem preparada em sua cabeça, Anna pulou para uma corda mais afastada de onde Lucas se agarrava e cortou a que se encontrava antes, deixando o caminho mais perigoso e dificil. Se ele quisesse pegá-la, agora, teria que pular para uma corda bem ao lado dela e bem mais longe. Ele, confiante, não pensou duas vezes. Mas assim que o fez, no momento em suas mãos tocaram a corda, Anna a cortou.

Lucas não conseguiu se segurar em mais nenhuma e caiu no chão.

Florence escutou quando o corpo dele e o chão se encontraram, e evitou o impulso de ir até lá e gritar por alguém. O garoto estava com os olhos fechados e o corpo imóvel. Ela olhou para onde Anna sorria e gritava alguma coisa e percebeu que era realmente alto e que qualquer pessoa provavelmente morreria com uma queda daquelas.

Mas então, Lucas respirou fundo e abriu seus olhos, se levanto no mesmo segundo em que Anna desceu. Os dois apertaram aos mãos e cada um foi para seu lado, como se nada tivesse acontecido.

Florence estava com a boca aberta, tinha certeza, mas não fez nenhuma menção em fechá-la. Aquilo era... Era impossível!

–Bem, pela sua cara, Florence Willis – a professora disse – Acho que agora acredita nos Filhos da Noite, estou certa?

Florence não respondeu imediatamente. Havia muita coisa em sua cabeça e ela mal poderia organizar. Ela tinha certeza que nenhuma pessoa normal poderia subir aquelas cordas de forma tão rápida e se manter nelas com tanta facilidade e por tanto tempo e, sem falar, da queda de Lucas. Ele deveria ter morrido! Mas então por que parecia tão bem?

–Estou certa? – A professa repetiu sua última pergunta.

–Completamente – Florence respondeu a verdade.