Nascida nas Sombras
12 Capítulo 11
CAPÍTULO 11 — APENAS CORRA.
–Você ainda parece pálida, sabia? – Anna comentou carregando seu jantar na bandeja com o nome da escola, em direção a uma mesa afastada – Não imaginava que realmente não acreditava.
–Hm, ahã...
–Florence, você está me escutando?
–Estou.
–O que eu disse?
–Alguma coisa sobre minha roupa.
Anna suspirou, frustrada. Mas, de certa forma, não culpava Florence pela própria confusão e falta de atenção. Se ela realmente não acreditava em tudo aquilo, era difícil começar. Afinal, descobrir sobre uma realidade completamente diferente do que se estava acostumado, não é fácil.
Elas continuaram a caminhar em silêncio. Quando estavam finalmente chegando perto da mesa, duas garotas – uma loira e outra morena – se sentaram primeiro. Ainda, como se não fosse o bastante, sorriram vitoriosas.
Florence e Anna pararam no mesmo instante. Uma raivosa com a situação e outra chateada com a atitude desrespeitosa e nada amistosa das garotas. Respectivamente nessa ordem.
–Desculpe, tico e teco, mas nós iriamos nos sentar ai – Florence vociferou – Acho que até mesmo vocês poderiam ter deduzido isso.
–O quê disse, monstro? – a loira perguntou, fingindo inocência – Ah, me desculpe, eu não entendo você.
–Acontece quando se tem um grau de QI muito a baixo da média, mas não se preocupe, vou falar de um jeito que você irá entender rapidinho – Florence deu um passo na direção da garota, mas Anna a interceptou.
–Senhorita Willis – Minerva falou, com a voz rouca contra o microfone, logo depois – O que está acontecendo ai?
Ninguém respondeu, apenas continuaram se encarando.
–Se não está acontecendo nada, então por que estão paradas no meio do salão?
Anna empurrou Florence para o lado, antes que a loira perdesse um pouco do seu maravilhoso cabelo.
O problema era que não havia outra mesa. Claro, haviam várias e várias cadeiras espalhadas pelo local, mas todas estavam nas mesas em que Florence não era bem vinda. Ela não comeria com todos aqueles olhares em sua direção, embora estivesse com muita fome.
Ela avaliou o salão mais uma vez. Sem muitas opções.
Sem pensar duas vezes, Florence seguiu para uma mesa do outro lado do salão onde sua supervisora Mayre Lys e Alexander conversavam animadamente. Anna a seguiu.
–...Então realmente acredita nisso? – Mayre dizia – Porque eu realmente acho bem improvável.
–Se você pensar um pouco mais, vai perceber que tem aquele... – mas ele se interrompeu, quando seus olhos encontraram os de Florence. Rapidamente sua expressão relaxada deu lugar a uma carranca. Mayre percebeu essa mudança e olhou em direção a razão dela. Florence, por outro lado, não se importou com nenhum dos dois e se sentou na mesa sem pedir licença; Anna, meio incerta, também puxou uma cadeira.
–Me desculpem se interrompemos algo – Anna era educada e gentil demais para simplesmente se sentar em uma mesa ocupada sem dizer nada, como Florence parecia disposta a fazer – Realmente essa situação está complicada e não achamos um lugar para sentar.
Florence cortou um pedaço de sua carne e então o comeu, ignorando tudo ao seu redor.
–Sem problema – Mayre não parecia satisfeita com as duas ali, mas também não parecia se opor a isso – Acho que vou conversar com Minerva sobre a situação de Florence. Os alunos estão se tornando petulantes e impertinentes.
–Não me impressiono, devo confessar – Alexander comentou, recebendo um olhar mortal de Florence.
Os quatro ficaram em silêncio mais uma vez. Mas enquanto todos pareciam desconfortáveis, Florence apenas continuava a mastigar sua comida normalmente.
Anna chutou seu pé, instigando-a a falar algo educado.
Florence ignorou.
Anna chutou de novo.
–Anna, algum problema com a minha perna? – Florence perguntou.
–Pode ser, você quem tem que me dizer – Anna respondeu – Fale algo educado, já que estamos na mesa deles.
–Não precisa... – Mayre começou.
–Bem – Florence interrompeu – Algo educado você diz? Tudo bem. Então, essa mesa era a única nesse salão estupido com pessoas que mal me conhecem e que me odeiam, onde eu poderia sentar perfeitamente bem. Obrigada por não reclamarem, embora se assim o fizessem eu iria ignorar e continuar sentada aqui, porque eu posso já que pago essa escola e sou uma aluna como vocês. A comida não está particularmente horrível essa noite, caros amigos? Eu realmente acho. Bem, mas tenham uma ótima refeição.
Ao final do discurso, Anna estava com a boca aberta, assim como Mayre. Já Alexander apenas revirou os olhos, quanto Florence sorriu docemente.
Todos recomeçaram a comer, tentando deixar de lado o ambiente em que se encontravam.
–Ah, sim – Mayre quebrou o silêncio – Então, eu soube que hoje foi sua primeira aula e que você ficou impressionada, Florence.
–Eu não fiquei impressionada! – protestou ela.
–É claro que ficou – Anna interveio, feliz por ter algo a falar – Acho que quando desci das cordas, eu consegui ver o boca dela aberta.
Mayre riu.
–Vocês fizeram o Exercício das Cordas? – depois disse – Que legal! Theresa realmente queria causar um impacto. Mas, me conte, o que passa na sua cabeça?
–Meus pensamentos são como diários secretos e se eu os contar a você deixaram de ter a magia do mistério – Florence disse.
–Por que você simplesmente não assume que está assustada com o novo conhecimento? – Alexander se meteu.
–Porque eu realmente não estou – Florence rebateu – Já vivi coisas na minha vida muito mais surpreendentes que isso.
–Nossa, poucas pessoas podem dizer isso – ele continuou – Mas que coisas são essas? Ah, posso chutar? Foi quando você pegou a sua melhor amiga e seu namorado juntos?
Florence congelou.
Como ele poderia saber daquilo? Era completamente um segredo. Isso estava aguardado tão bem que ela se esquecia as vezes. Florence não contou aquilo há ninguém, como seria...
–Oh, acho que acertei em um bom ponto fraco, eu vejo – ele disse, se saboreando com a expressão chocada da garota.
–Como vo...
–Como eu sei? – ele perguntou por ela – Bem, é simples. Quando soube que estava vindo para cá, me certifiquei de conhecer meu inimigo perfeitamente. Sua amiga, me desculpe, ex-amiga, não sei se sabe, mas contou para todo mundo de sua antiga escola esse triste acontecimento, incluindo o argumento de que esse era o motivo de sua saída. Nossa, deve ser bem complicado, imagino.
–Eu superei.
–Percebo isso. – ele apoiou os cotovelos na mesa e se inclinou em direção a garota — Então pode me contar qual foi a sensação que sentiu quando viu que os dois estavam no seu quarto? Confesso que essa história me deixa curioso.
Florence se recusou a continuar ali, porque ela mentiu. Realmente não tinha superado aquilo e falar parecia doer mais. Sem dizer nada, ela saiu com passos rápidos do salão, apenas ouvindo seu nome ser chamado por Anna inúmeras vezes.
[...]
Talvez a Noite realmente desse um tipo de Força. Florence puxou o ar e seus pulmões inflaram no mesmo instante. Com o céu enfeitado de estrelas em cima de sua cabeça e sozinha com seus próprios pensamentos, se sentia bem melhor.
Ela passou parte do tempo que ficou afastada de todo mundo, caminhando pela propriedade, tentando entender o porquê de Alexander agir como agia. No final, ela resolveu aceitar que talvez perder um pai deveria ser complicado, ainda mais quando era obrigado a olhar para a filha de quem ele acreditava ser o assassino.
Florence continuou caminhando pelo pequeno bosque da escola, totalmente envolvida com a beleza que a paisagem possuía a noite. A flores ganhavam cores novas e as árvores um contraste mais sombrio.
Ela fechou os olhos.
Era engraçado estar ali, sentindo a noite. Ela nunca havia feito isso na vida, estava ocupada demais com os amigos e com as festas para ir. Agora ela não tinha isso. E olhando de outro ângulo, aos poucos, começava a ficar sem sentido ter uma vida baseada apenas naquilo. Claro que Florence não se arrependia de nada do que havia vivido, mas estava começando a achar que poderia ter mudado algumas coisas. Como os amigos. Anna era legal, mas ela a conhecia a pouco tempo. Florence, na verdade, queria mesmo era poder contar com alguém que realmente confiasse para desabafar o que ficava rondando em sua cabeça várias e várias vezes.
Então abriu seus olhos novamente.
–Por favor – alguém suplicou baixinho e Florence estreitou as sobrancelhas. Ela achava que estava sozinha no jardim, apenas ela e as árvores – Por favor, por favor.
Florence poderia jurar que aquela voz lhe era familiar. Como uma canção que você deixou de cantar, mas que ainda lembra da letra.
Uma risada soou pelo lugar.
Florence ficou tão assustada com a frieza nela, que se escondeu atrás de uma árvore, sem ter coragem para ir olhar.
–Não faça isso – a voz suplicante voltou a se pronunciar.
E então um grito agudo e doloroso, que fez com que a Florence fechasse os olhos sentindo toda aquela dor também. Ela só os abriu, quando um baque calou o bosque inteiro.
Ela não queria ir até de onde vinha os barulhos, mas quando tudo permaneceu continuou em silêncio por longos minutos, ela sentiu essa necessidade. Talvez tudo não passasse de brincadeira e diversão dos alunos malucos daquele lugar. Não deveria ser nada.
Caminhando com calma, Florence foi se aproximando.
E desejou que jamais tivesse feito isso.
Uma garota loira estava caída perto de uma árvore com sangue ao seu redor. Havia alguns arranhões em sua perna e em seus braços e seus olhos estavam dolorosamente fechados. Mas não era exatamente essa cena que a aterrorizou. Ao lado do corpo, uma sombra se mantinha encolhida com poucos movimentos.
Oh, Meu Deus, era uma pessoa! Parecia uma pessoa!
Essa pessoa, ao que tudo indicava, estava mexendo em algo perto do corpo. Florence não poderia dizer se era um homem ou uma mulher porque aquele ser estava coberto de preto dos pés a cabeça.
Florence decidiu que não poderia mais ficar, sem dúvida tali havia acontecido um assassinato e ela poderia ser a próxima se não fugisse.
Mas, assim que deu um passo para trás, acabou pisando em algumas folhas secas e fez tudo o que desejou que não fizesse. Barulho.
Devagar, a sombra deixou o que estava fazendo e se virou em sua direção.
Florence começou a tremer.
Era realmente uma pessoa e ela realmente não queria que ninguém soubesse quem era. Seu rosto também estava coberto, apenas deixando seus olhos verdes a mostra. Embora estivesse muito assustada para confirmar, Florence pode jurar que ela estava sorrindo, porque seus olhos se tornaram menores e o pano qeu cobria o que deveria ser sua boca se esticou.
Era a hora.
Florence precisava correr.
Respirou mais uma vez e foi o que fez. Virou para qualquer lado e tentou correr, mas não conseguiu nem mesmo começar. Algo agarrou seu pé e ela caiu.
A pessoa estava em cima dela, com uma rapidez nada humana e a aprendeu contra o chão.
Florence pode percebe-la melhor, embora não fosse o momento para isso. Não havia muita coisa para ver, porque tudo estava coberto, mas havia algo na garganta de quem quer que fosse aquele assassino. Parecia um microfone e parecia bem preso a roupa.
–Que..Quem é você? – Florence conseguiu dizer.
–Achei que fosse suplicar pela sua vida, como sua amiga – a voz era rouca e parecia como uma máquina. Definitivamente não era uma voz humana, parecia gravada – Mas vejo que é curiosa.
–Quero saber o nome do meu assassino antes de morrer.
–Pode me chamar de Escuro – então se aproximou e encostou a boca no ouvido da garota – E não morrerá tão cedo, Florence Willis. Não pode morrer. Você será a volta.
A garota queria ter dito mais alguma coisa, mas o assassino passou em sua frente e colocou um lenço molhado em sua boca. Ela apenas fechou os olhos sem conseguir ter forças para o contrário.
O assassino satisfeito com o próprio trabalho, sorriu para uma Florence totalmente inconsciente. Depois caminhou até o corpo de Deborah Smith e terminou de escrever a mensagem que acreditava ser a frase do futuro. ‘’FLORENCE SERÁ A VOLTA’’.
Assim que acabou, percebeu que nada mais tinha a fazer ali e ainda rindo deixou o lugar, para que em breve alguém encontrasse aquela maravilhosa obra prima.
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