Naruto: O Caminho do Coração espadachim
8 Capítulo 8 — Laços e Lâmina
Capítulo 8 — Laços e Lâmina
O cheiro de sândalo suave misturado a aço queimado ainda pairava no ar, memória distante da batalha recente. Mas, naquela manhã, o som que despertou Ryoma foi outro — mais macio, mais perigoso.
— Sai da cama, preguiçoso — sussurrou uma voz baixa e cortante, como brisa carregando perfume de flor e ameaça velada.
Yugao.
Ryoma abriu os olhos com lentidão. A luz filtrada pelas cortinas de linho desenhava sombras na parede, e o vulto de sua esposa já se movia pelo quarto. Ela vestia o uniforme ANBU, faixa roxa frouxamente amarrada à cintura, cabelos presos num coque malfeito.
— Eu nem dormi, na verdade — murmurou ele, a voz rouca de cansaço acumulado.
Ao pé da cama, Tsumi soltou um rosnado preguiçoso, virou de lado e cobriu os olhos com a pata. Ryoma esboçou um sorriso curto.
Yugao riu, suave.
— Até o Tsumi já desistiu de você. Tá ficando velho, Ryoma.
— Ele só tá respeitando meu luto… — disse, com tom solene falso. — Quando um homem não pode mais dormir depois de quase ser esfaqueado por areia, o mundo perdeu sua honra.
Yugao se ajoelhou ao lado da cama e encostou a testa na dele, silêncio escorrendo entre os dois. A respiração dela era quente, tranquila, como se o mundo lá fora não importasse por um segundo.
Tsumi, agora acordado, pulou sobre a cama com um salto leve. Enfiou a cabeça entre os dois, farejando com ciúmes descarado.
— Tá com ciúmes, parceiro? — murmurou Yugao, afagando as orelhas do cão.
— Sempre teve esse lado carente — Ryoma respondeu, coçando atrás da mandíbula de Tsumi. — Mas não se preocupa, Tsumi. Você é meu primeiro casamento.
Yugao riu alto. Aquela risada era um som raro, precioso. Ela se levantou em seguida, pegando a máscara ANBU sobre a cômoda. Prendeu a espada nas costas.
— Kurenai vai no bar hoje com os outros. Se você for, não chega fedendo a treino.
— Prometo só sangrar um pouco antes de ir.
— Idiota — disse ela, já sorrindo antes de desaparecer pela porta.
Ryoma permaneceu imóvel por mais um instante, olhos fixos na luz que invadia o quarto. Depois se levantou devagar, sentindo os músculos responderem com rigidez. Tsumi o observava, já em posição, cauda erguida, atento.
— Vamos trabalhar, parceiro. O moleque vai apanhar hoje.
Tsumi latiu baixo. A missão do dia era clara.
Campo de Treinamento do Clã Inuzuka
O cheiro de terra molhada ainda estava no ar. Kiba chegou se espreguiçando, tentando parecer relaxado, mas estacou ao ver Ryoma já esperando de braços cruzados no centro do campo. A expressão era relaxada demais. Aquilo era sinal de perigo.
— Tio Ryoma… — murmurou Kiba, o suor já brotando na testa.
— Tenho duas notícias — disse Ryoma. — Uma boa… e uma boa ao extremo. Qual você quer primeiro?
Kiba tentou recuar.
— Tio, minha perna ainda tá meio ruim, sabe?
Ryoma o agarrou pelo colarinho com uma mão só.
— Você não quer aprender um jutsu rank A?
— O quê?! — Kiba arregalou os olhos. — Tava brincando! Que jutsu? Aquela parada do Compartilhamento Selvagem?
— Não. — Ryoma o soltou. — Um que eu criei antes daquele. Uso até hoje.
Ryoma apontou para uma rocha próxima. Socou com a mão aberta: rachadura leve. Recuou um passo, respirou fundo, golpeou de novo — mesma forma, mesmo ângulo. A pedra quebrou com um estrondo.
— Mesma força. O que mudou foi a sincronia.
— Hã?
— Esse é o jutsu: Aprimoramento Selvagem. Um segundo. Dois no máximo. Nenhum selo. Nenhum brilho. Só o controle absoluto do seu corpo e chakra. O impulso vem de dentro.
Os olhos de Kiba brilharam.
— Bora aprender!
— Ótimo. Porque só quatro do clã dominam. Sua mãe é uma delas. Se conseguir, será o mais jovem.
— Tio… você dominou com quantos anos?
— Quinze. E criei ele no mesmo ano.
Kiba se calou por um instante.
— Então… todo aquele inferno que você me fez passar na infância…?
— Era pra isso mesmo. Se não tivesse base sólida, esse jutsu te destruiria por dentro.
Ryoma lançou uma kunai no chão.
— Corre. Vinte voltas na clareira. Depois me ataca com tudo. Se eu não sentir intenção real, você volta e corre de novo.
Kiba começou a correr. Tsumi observava em silêncio. Ryoma esperou até a décima volta, e então falou:
— Primeira fase: resistência.
Na vigésima volta, Kiba parou arfando.
— Agora me ataca.
Kiba investiu. O golpe era rápido, mas desequilibrado. Ryoma desviou sem esforço e deu uma rasteira seca. Kiba rolou pelo chão.
— De novo.
Mais uma vez. Mais uma queda.
— Outra.
Terceira tentativa. Kiba tentou um chute giratório. Ryoma bloqueou com o antebraço e empurrou o garoto contra a árvore.
— Ainda pensa demais antes de agir. Você precisa reagir antes do cérebro dar o comando.
Kiba gritou de frustração. Seu chakra explodiu, instintivo. Ele avançou de novo, rápido. Ryoma sorriu.
Esse é o começo.
Kiba girou no ar. Chute descendente. Ryoma bloqueou, mas o impacto foi real. O garoto caiu de pé.
— Sentiu isso? — Ryoma perguntou.
— Foi… diferente.
— Esse foi o seu corpo tentando entrar no estado certo. Quando aprender a canalizar esse impulso com controle, você vai sentir o mundo desacelerar por dois segundos.
Kiba respirava com dificuldade.
— De novo? — murmurou.
— Até o chakra nos seus ossos lembrar como fazer.
A manhã inteira passou em suor, gritos, impacto e queda.
À Noite – Bar dos Jōnins
O bar de madeira nos arredores da vila era discreto, reservado aos jōnins. A luz era quente, as mesas cheias de copos e histórias.
Ryoma entrou com Tsumi ao lado. Kurenai já estava sentada com Asuma. Kakashi lia seu livro. Guy fazia pose mesmo parado.
Yugao chegou logo depois, e sem cerimônia, pegou o copo de Ryoma.
— Você ainda fede a treino — comentou.
— Sangrei só um pouco, como prometido.
Asuma tragou o cigarro.
— O moleque sobreviveu?
— Kiba? Tá respirando. Já é muito.
— Ele vai ficar forte — disse Kurenai. — Desde que não morra antes.
— O que seria uma pena — completou Kakashi, sem desviar do livro.
Guy sorriu, levantando o copo.
— Um brinde à juventude em crescimento!
— Um brinde ao cheiro de cachorro molhado — Ryoma murmurou.
Risadas.
Yugao encostou o ombro no dele.
— Vai treinar ele até quebrar?
— Até ele se reconstruir sozinho.
Ela assentiu.
Tsumi se acomodou aos pés de Ryoma, suspirando.
Por uma noite, não havia guerra. Só companheiros, risos, copos erguidos e laços.
E Ryoma, mesmo silencioso, sabia: era por aquilo que valia a pena lutar.
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