Namoro por Aluguel
28 Homem não chora?
Notas iniciais
— BOM DIA, BELA ADORMECIDA! — Gritou Miguel, chocalhando-me pelos ombros.
Controlando a vontade de esticar o meu braço e depositar um tapa em sua face, enterrei a cabeça no travesseiro.
— Ei, eu não sabia que ser mal educada com quem ficou esperando você acordar fazia parte das etapas do desapontamento amoroso.
— Cala a boca, Miguel.
— Não seja grossa comigo, princesinha, só quero ajudar.
— Me ajudará se ficar bem quieto.
— Não me peça o impossível. Agora levante e vá lavar o seu rosto, têm cinco ligações de sua mãe para responder.
Como se fosse um paciente com parada cardíaca que recebe o choque do desfibrilador, dei-me conta do perigo. Cinco ligações perdidas de uma mãe só podiam significar duas coisas:
Ela está MUITO brava.
Ela acha que você foi sequestrada e já deve ter informado a polícia
Mandei uma mensagem para minha mãe, explicando que logo chegaria em casa e que estava sã e salva. O “ok” com ausência de coisas como “beijos, filha” ou “abraços” enviado por ela depois só serviu para me mostrar que minha morte estava próxima. E, em minha humilde opinião, eu era jovem demais para morrer.
— Não se preocupe, se ela te matar eu garantirei que os jornais coloquem uma manchete bem legal. — Disse Miguel, analisando a tela do celular atrás de mim. — Algo como “Jovem passa a noite na casa do rapaz mais lindo da cidade e é morta pela mãe”.
— Rapaz mais lindo da cidade? Isso é sério?
— Jamais disse algo tão sério em minha vida, querida.
Revirando os olhos, joguei o celular na bolsa, colocando-a sobre o ombro.
— Obrigada por toda a ajuda e os filmes melosos que só me fizeram chorar, mas eu realmente tenho que ir.
Antes que eu alcançasse a porta, Miguel entrou em minha frente.
— Aonde pensa que vai,mocinha?
— Embora.
Ele deu uma risada forçada.
— Não vai, não. Sua fase de raiva foi tão curta que nem chegou a estraçalhar o ursinho do Tobias...
— O urso não é dele, fui eu quem conseguiu derrubar no tiro ao alvo. E não ouse dizer que minha raiva foi curta, pois ela continua pulsando por meu corpo, a única coisa que me impede de ir até a casa dele e partir aquela cara de panaca em mil pedaços é meu auto-controle.
— E o fato de não ter a mínima ideia de onde fica a casa dele.
— É, isso também.
— Deixe-me fazer uma pequena observação: Se a raiva está “pulsando por seu corpo” como sabe que não vai acabar descontando na sua família?
— Ora — Falei. —Eu não vou.
— É aí que se engana...
— Não ouse me dizer que estou enganada, você não me conhece.
— Você fala enquanto dorme. À proposito, quem é Enzo?
— Meu vizinho. — Menti. Na verdade, Enzo era minha “paixonite” de jardim de infância.
— Não foi isso que ouvi...
Contive-me para não perguntar sobre a garota da lista de primeiras vezes.
—Não me importo com o que ouviu ou deixou de ouvir, Miguel. O que interessa é que vou sair daqui e ir para a minha casa.
— É?
— É. — Respondi. — Agora saia da porta.
— E o que acontece se eu não sair?
— Isso. — Disse eu, empurrando-o. Em seguida, disparei pelas escadas até chegar à porta de entrada da casa. De lá, corri até o lado de fora do condomínio, dirigindo-me até o ponto de ônibus mais próximo.
Algumas coisas não faziam sentido em minha cabeça (seria mais alguma etapa de desapontamento amoroso que Miguel se esquecera de citar?). Por que ele teria sido gentil comigo? Não é como se fôssemos amigos, ele não tem nenhuma obrigação em zelar pelo meu bem estar ou sentimentos destroçados por um babaca (leia-se: Tobias). Por que iria passar a noite chorando por filmes românticos com uma garota que nem sua amiga era ao invés de se divertir com alguma gata da faculdade? Apesar desses pensamentos, as atitudes de Miguel não eram a coisa mais importante, as de Tobias sim. Poxa, ele sempre fora tão gentil, educado e fofo comigo, por que faria algo assim? Por que me desrespeitaria e tentaria fazer uma coisa para a qual eu não estava preparada?
O ônibus chegou, mas não dispersou meus pensamentos.
***
Ao abrir ao porta da sala da minha casa, percebi o quão ferrada eu estava. Era como um dejá-vu de todas as vezes em que fiz alguma besteira e minha mãe descobriu, de todas as vezes em que ela, em pé ao lado da TV, me encarava antes de dizer alguma coisa.
— É bom que tenha uma ótima explicação por não ter voltado para casa ontem, Ana Clara.
— Eu estava na casa da Melissa. — Falei, lembrando-me da mentira que Miguel havia inventado.
— E decidiu do nada? Apesar de ser maior de idade, você ainda vive sob e meu teto, tem de obedecer às minhas regras. — Disse meu pai, ao lado de minha mãe.
— Eu posso explicar...
—É bom que possa,mesmo. — O homem disse, claramente nervoso. — Faz ideia do quão preocupados ficamos?
— Mas eu avisei...
— Nem uma palavra, Ana Clara. Deixe o seu pai falar. — Disse minha mãe.
“ Deixe o seu pai falar” significava quase meia hora de uma bronca que eu merecia somente em partes. Quando ele finalmente terminou de falar, pedi para ficar a sós com a minha mãe. Contei toda a verdade sobre ontem, apenas trocando o nome “Miguel” por “Melissa” (se minha mãe descobrisse que passei a noite na casa de um garoto, seria uma morte horrível e dolorosa para mim).
— Ah, querida. — Disse ela, no exato momento em que acabei .— Por que não nos ligou? Poderíamos ter ido te buscar.
— Eu queria, mãe, acredite em mim. Mas Melissa me disse baboseiras sobre essas etapas e não permitiu que eu fizesse isso.
— Que se danem as etapas, você é minha filha. E se um filho da pu... mãe fez isso com você, eu deveria ser a primeira a saber e dar uns tapas na cara dele.
— Pode xingar, mãe, eu não tenho mais nove anos de idade.
— Eu sei. — Ela falou, me abraçando. — Eu sei.
E naquele abraços tão familiar, deixei todas as lágrimas rolarem.
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