Namoro por Aluguel
29 Se a Cora me atacar, eu vou atacar
Notas iniciais
Apesar dos acontecimentos, fiz questão de ir à faculdade quando a segunda feira chegou. Um babaca teve uma atitude ridícula? Sim, mas isso não significava que eu devesse perder um dia de aula da faculdade que pago com muito suor e lágrimas. E, graças a Deus, eu não estava me lamentando e chorando o tempo todo, na maioria das vezes estava com os nervos à flor da pele, imaginando como seria divertido se a vida fosse um Mortal Kombat e eu tivesse que dar o golpe final em Tobias para elimina-lo da face da Terra.
— Eu ainda não acredito nesse absurdo. — Disse Melissa, assim que descemos do ônibus. — Quero dizer, o Tobias? Jamais ia saber que faria uma coisa dessas.
— Pessoas conseguem ser muito falsas quando querem. — Falei, sem ânimo algum. — E outras tem poder de te surpreender de uma boa maneira.
— Miguel Belafonte chora em filmes românticos, quem diria. — Melissa disse, rindo.
— Poxa Mel, te conto um relato enorme e essa é a única parte que consegue guardar?
— Desculpa, mas ele não parecia ser sensível, muito menos um amigo tão bom. — Amigo? — Indaguei.
— É. Vai me dizer que não o enxerga como um amigo mesmo depois de toda essa ajuda?
— Não somos amigos, eu acho. Se ele tivesse me contado um pouco de seus segredos, talvez...
— Segredos? Quem ele é, um bad boy? Para de ser iludida,amiga, ele não tem segredos obscuros. Não é como se fosse um cavaleiro solitário com um passado trágico e todo esse clichê.
— Ei. — Repreendi. — Assim você me ofende.
— Essa foi a intenção.
Após dizer isso, partiu em direção a um grupo de amigos de sua sala, me deixando sozinha. Ajeitei a bolsa nos ombros e acelerei meu andar, estava muito sol para que eu andasse devagar. Já estava no corredor de minha sala quando alguém puxou-me para trás pelo braço.
— Ei! — Gritei.
— Calma, sou eu, Tobias.
E ele ainda tinha a audácia de falar comigo? Quem pensava que era?
— Ah não, é muita cara de pau mesmo. — Falei, em um misto de raiva e vontade de rir. — Você perdeu a vergonha na cara de vez?
— Eu só queria conversar...
Pela primeira vez desde o dia, encarei-o. Seus cabelos estavam penteados para trás, do jeito que eu sempre gostei. Se fosse semana passada, teria me derretido toda, mas agora só conseguia sentir nojo.
— Converse com alguém que ainda te enxergue como uma pessoa decente. Com licença.
Desprendi-me de sua mão e saí batendo os pés, fazendo questão de esbarrar minha bolsa nele com toda a força. Minha cabeça parecia prestes a explodir, sentia o sangue correr quente em minhas veias ao mesmo tempo em que os olhos marejavam. Ótimo, era tudo o que eu precisava agora: Chorar de raiva como uma criancinha do maternal.
— Ana!. — Gritou Miguel atrás de mim. — Ei!
Virei-me, dando de cara um rapaz ofegante e de cabelos bagunçados.
— Meu Deus, eu te procurei por todo o campus. — Fez uma longa pausa para respirar. — Oi.
— Oi. — Respondi, sem entender. — E posso saber o porquê de querer tanto me encontrar?
— Vi o carro do Tobias no estacionamento e queria te encontrar para que ele não se aproximasse de você enquanto estava sozinha, sabe? Se ele chegasse perto, ia ter que lutar contra dois ninjas altamente treinados.
— Bom, acho que seu plano já pode ser abortado. Acabo de sair de um encontro desagradável com ele.
Miguel, que ainda arfava apoiado nos joelhos, encarou-me.
— O quê?! Ele teve essa cara de pau? O cara não tem o mínimo de dignidade?
—Pois é...
Miguel continuou sobre o quanto aquilo era ridículo.
— Cara, eu não quero atrapalhar seu monólogo, mas falta um minuto para que a aula comece.
— Eu só queria ajudar...
Não sei bem o motivo, mas algo em sua expressão me deu vontade de rir.
— Vamos logo.
* * *
A aula havia se acabado há cinco minutos quando saí da sala. Miguel, entediado, esperava do lado de fora.
— Que demora. — Reclamou. — Estava contando para o professor cada cena do Titanic?
— Não. — Dei-lhe a língua. — Precisava conversar sobre um trabalho...
— Blá bá blá, tanto faz. Quer me fazer o favor de andar um pouco mais rápido? Nós precisamos ir até a cantina e...
— Nós? — Indaguei, parando de andar imediatamente. — Que eu saiba, não preciso ir à cantina.
— Tecnicamente, você é minha namorada por isso deveria me acompanhar para onde quer que eu fosse.
— Tecnicamente, isso não está no meu contrato.
Miguel revirou os olhos.
— Você leva o contrato tão a sério sempre ou hoje é um dia em particular? Qual é, Ana, quebra esse galho para mim. Lá está cheio de ex-ficantes, não é bom lugar para se entrar desacompanhado. Nunca se sabe quando uma delas vai se revoltar e te dar uns tapas.
— E isso algum dia já aconteceu?
— Certas cosias devem ser mantidas em segredo.
E, enquanto eu resmungava, ele puxou-me pelo braço corredor adentro.
Sempre odiei cantinas, desde a época da escola. Se você for comprar um lanche, ela é cheia demais, e se for lá apenas para “acompanhar” alguém, a imagem de alguém mordendo um salgado recheado de frango te deixa com vontade de comer, o que faz com que o problema número um seja retomado. Comecei a odiar ainda mais conforme as “ex-namoradinhas” de Miguel apontavam para nós e me encaravam, cheias de ódio.
— Viu o que eu tenho que aguentar todos os dias? — Ele disse em meu ouvido.
— Você buscou por isso, cometeu o crime de ser indiferente à elas e agora deve pagar a pena.
— Mas eu nunca fui indiferente. — Disse, na defensiva. — Sempre disse que não queria nada sério. Se elas se iludiram, não foi por falta de aviso.
Revirei os olhos.
— Tanta experiência com garotas e ainda não as conhece? Você me surpreende.
— Sou cheio de surpresas, Srta. Ana Clara. — Miguel zombou.
Um rapaz de cabelos raspados acenava ao longe. Depois de nota-lo, meu amigo andou mais rápido até ele, deixando-me esperando sozinha. Encostada na parede, mal notei quando uma garota se aproximou.
— Nossa, ele ainda está com você? Achei que fosse um lance de uma semana. — Disse alguém que reconheci imediatamente. Cora, a ex-ficante que me atormentara alguns meses atrás.
Ah, não.
— Oi? — Indaguei, confusa.
— Você sabe do que estou falando, garotinha. Só vou te dar uma aviso: fique longe dele. Quem é você para se colocar entre almas gêmeas? Além disso, está sendo iludida, ele me ama.
Reprimi a vontade de rir.
— Almas gêmeas? Isso foi poético.
— Não é poético, é a verdade. Fique longe antes que algo de ruim te aconteça.
Então, saiu batendo os pés. Uma garota sentada em uma das mesas me encarava com cara de riso.
— Ela é louca, nem precisar se importar. — Disse, rindo. — Embora seus conselhos possam ser válidos. Miguel não tem uma boa reputação para moças que procuram compromisso. Posso dizer por mim mesma.
E, com a naturalidade de quem comenta sobre o tempo, mordeu seu pão de queijo.
* * *
— Vai querer uma carona até o trabalho? — Indagou Miguel, apontando para seu carro.
— Não precisa, o Mocca Café fica apenas à algumas ruas daqui. — Respondi, por educação. É claro que eu queria carona, fazia um calor de 38 Co e eu não estava disposta a chegar à cafeteria suada.
— Tá bom. — Falou, entrando no carro. — Tchau.
Filho da mãe.
Abri a porta do passageiro e me sentei.
— Mas o que...
— Sem perguntas. — Falei. — Apenas dirija.
Ele deu a partida.
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