Namoro à Indiana
2 Capítulo 2

— São lindos! — diz Juily, olhando para os sarees que elas compraram com aprovação.
— Você não pode continuar falando normal! Os seus pais vão estranhar! — exclama Alarice, fazendo o papel dela bem até demais — Veja só a Juily: ela ainda tropeça nas palavras.
— Ela acabou de chegar, eu estou aqui há anos! — protesta Malaya, querendo dizer outra coisa.
— Eu faço uma lista... Quando seus pais chegam? — pergunta Juily, o olhar ainda fixo nas roupas, em cima da cama.
— Eles não disseram... Talvez na semana que vem — murmura, olhando para o teto, desacreditada naquele plano.
— Ouvi seus tios dizendo sobre duas ou três semanas... — Alarice intervém, virando-se para Juily — Tem jeito, não é?
— É claro! Não se preocupe! — responde Juily, sorrindo — Seus tios são muito legais. Vocês têm uma relação legal... Parece até que são os seus pais.
O olhar de Alarice é o que mantém a Malaya calma, pois a frase da indiana a desespera de sobremaneira.
— Sim, eu tenho sorte — diz, vagamente.
— Vai ser legal conhecer os seus pais, quando eles vierem. Não tem muitos indianos pela área — ela continua falando, sem prestar atenção nas reações delas.
— Quem sabe não rola algum casamento? — provoca Alarice, recebendo o olhar fuzilante da amiga.
— Está interessada no meu bhaya? — Juily vira o olhar para ela, parecendo mais interessada.
— Não! Eu não! — defende-se, arregalando os olhos — Nem posso! Seus pais devem ser tradicionalistas...
— É... De fato, eles são — diz Juily, revirando os olhos — Não entendo tudo isso. Estamos em outra época! Sua tia deve ser hindu, e largou tudo para ficar com seu tio, não foi?
— Sim! — concorda Malaya, antes que a amiga resolva tomar as rédeas novamente.
— Uma história de amor bonita... Seus pais não devem ser tradicionalistas — ela continua dizendo, ainda de pé.
— Sente-se! Deve estar cansada de tanto ficar em pé! — oferece Malaya, ao perceber isso.
— Nahin! Está tudo bem! — responde, sorrindo.
— Eles são bem tradicionalistas, mas não tiveram opção. Resolveram fazer negócio fora, não foi, Maly? — Alarice volta a falar, virando-se para a amiga — Ela não fala muito sobre isso.
— Sinto muito. Deve ser difícil viver longe da família... — diz Juily, apenada — Agora entendo o seu desespero no telefone, mas não se preocupe. Eu vou te ajudar! Não vai decepcioná-los!
Elas sorriem, embora de formas diferentes.
— O que significa “nahin”? — Alarice pergunta, começando a “aula”.
XXX
— Você precisa ser mais convincente! — diz Alarice, assim que a porta de entrada é fechada, e Juily vai embora.
— Você é louca! — retruca Malaya, ainda com um sorriso sem graça no rosto.
— A louca que vai resolver a sua vida amorosa — diz Alarice, com voz de criança, apertando suas bochechas.
Malaya só se move para dar um tapa nas mãos dela, afastando-as de seu rosto.
— Veremos — diz, séria — Ainda precisamos resolver uma coisa: meus pais vão desconfiar das minhas roupas, eles sempre dão de cara comigo, quando vou sair para a faculdade.
— Fantasia, para descontrair a pressão — ela dá de ombros.
— Todos os dias? Meus pais não são trouxas! — retruca, cruzando os braços.
Alarice para por um momento, aproximando-se dela, em seguida, com a expressão bem séria.
— Se você não quisesse participar disso, teria dado um chilique. Fugido de mim! Você teria feito qualquer coisa! Eu te conheço. Ninguém te obriga a algo que não quer.
Depois de dizer isso, ela afasta-se, deixando a Malaya com seus confusos pensamentos.
— Louca — murmura para si mesma, negando com a cabeça.
XXX
— É muito tecido para esconder dentro da minha mochila — reclama Malaya, enquanto empurra o saree com força — Dane-se o que pensarem... Dane-se o que pensarem...
A buzina toca do lado de fora, e ela apressa-se.
— Filha! Onde vai? — sua mãe grita, enquanto ela aproxima-se da porta.
— Faculdade! Onde mais? — ela responde.
— Sem comer? — insiste a mulher, aparecendo na sala, de braços cruzados.
— Eu como no caminho, não se preocupe — ela dá um beijo rápido na mãe, antes de sair da casa.
— Que demora! — reclama Alarice, assim que a amiga entra no carro.
— Tinha que ser você mesmo... — revira os olhos, colocando o cinto de segurança — Impaciente.
— Lerda — retruca a amiga, pisando no acelerador, e mudando a marcha.
— Eu vou aprender a dirigir, e aí começarei a te encher o saco, que nem fazes comigo! — diz.
Alguns quilômetros longe da casa, Alarice para em um semáforo.
— O que foi? — pergunta Malaya, depois de perceber que ela lhe observava fixamente.
— Troque de roupa! — diz, como se fosse óbvio.
— O quê? Agora? — ela arregala os olhos.
— Juily, provavelmente, nos esperará lá na frente. Como explicará o fato de estar com roupas normais? Não tenho como te encobrir até o banheiro, não! Você precisa trocar de roupa, ou colocará o nosso plano por água abaixo — diz, rapidamente, olhando nervosa para a luz vermelha do semáforo.
— O seu plano — esclarece.
— E você está participando disso! — exclama, irritada.
“E já começo a arrepender-me” pensa Malaya.
Ela espreme-se para o banco de trás, já que está no banco da frente, ao lado da amiga. Sem olhar, Alarice joga a mochila em sua direção, acertando-lhe na cabeça.
Resmungando, ela começa a tirar o saree da mochila.
— Hã... Lari — ela diz, ao perceber uma coisa.
— O quê? — pergunta a outra, concentrada na rua, o carro voltando a andar.
— Como que eu visto isso? — pergunta.
Alarice não responde, fazendo a outra bufar.
“Vou ter que me virar” decide, tirando a blusa.
Dentro da mochila, junto com o saree, tem uma outra blusa, mas que só cobre os seios e tem uma manga curta, cobrindo o começo dos braços. Ela apressa-se a colocá-la, embora seja bem colada.
— Os indianos vestindo isso... — murmura para si mesma, tentando fazer com que o tecido passasse para baixo de seus seios.
— Malaya Griffiths, eu não acredito! — exclama Alarice, assim que a vê pelo espelho retrovisor — Você trouxe o saree! Era para trazer o salwar kameez!
— E qual é a droga da diferença? — pergunta Malaya, irritada.
— Ah! Dane-se! — murmura também irritada, parando o carro a alguns quilômetros da faculdade — Vamos! Ande logo! Ainda temos muito a fazer...
— Está explicada a sua pressa para virmos — comenta Malaya, terminando de ajeitar a blusa, e pegando o tecido fino.
— Tá vendo essas pregas? Prende na saia — instrui — Aliás, sua mãe não estranhou em te ver de saia?
— Ela não teve tempo de ter uma boa visão minha, antes de você me sequestrar — retruca, prendendo, com dificuldade, o tecido.
— Deixa esse tecido solto — Alarice a para, antes que ela continue prendendo.
— E o que faço com isso? — pergunta, impaciente.
— Envolve na cintura. Isso! Agora passa pelo ombro. Pronto!
Malaya observa pelo retrovisor, sentindo-se estranha com aquilo. A amiga, aproveitando de sua distração, puxa a ponta do saree, e joga sobre sua cabeça.
— Agora sim! — diz, satisfeita — Espere! Falta o toque final...
— Era o que temia... — murmura Malaya, sentando-se com cuidado no banco.
— Se tivesse vindo de salwar, isso não estaria acontecendo — retruca, abrindo a bolsa, e entregando algumas pulseiras para ela — Coloque.
— São muitas! — reclama, mas obedece, ao ver o olhar da amiga, dividindo-as igualmente entre os braços.
— Fique parada — ordena Alarice, por fim.
Malaya sente quando a amiga pressiona algo em sua testa, e passa uma leve maquiagem em seu rosto.
— Agora sim! Vamos! — exclama, indo para o banco do motorista — Espero ter cronometrado bem o tempo...
Elas são recebidas pelo sorriso de Juily, que parece surpresa com o trabalho que Alarice fez na amiga.
— Está linda! — elogia a Malaya — Uma perfeita indiana!
— Shukriya — ela agradece, sorrindo envergonhada.
— Ela confundiu o saree com o salwar — diz Alarice, revirando os olhos, mal humorada.
— Eu sabia que lembraria de algo que vocês não! — exclama Juily, chamando-as em um canto — Tome! Você não pode usar apenas sapatilhas.
— O que são? — pergunta Malaya, pegando as sapatilhas ornamentadas.
— Khussas — responde — Fique para você! Tenho várias dessas...
— Shukriya — agradece, novamente, trocando as sapatilhas.
— Agora sim! — ela sorri, olhando-a de cima a baixo — Tchalô! A sineta já vai tocar!
— Ela aprende rápido! — sussurra Alarice.
— Espero que eu também — retruca Malaya, afastando-se.
XXX
— Ele não tirou os olhos de você — diz Alarice, na volta da faculdade.
Como na ida, Malaya vai para o banco de trás, substituindo o saree pelas vestes normais.
— Ele pode aparecer na loja — comenta, casualmente.
— Eles mandariam a sudra da casa deles — retruca Malaya.
— Eles não estão na Índia — a amiga deixa no ar.
— A Juily já me viu por lá! Além do mais, é meu local de trabalho, não posso vestir roupas estrangeiras — retruca, calando-a.
Prendendo os cabelos em um rabo de cavalo alto, ela pega um lenço de dentro da bolsa, para apagar os resíduos da maquiagem.
— Não faça isso! Está linda! — resmunga Alarice, desgostosa.
— Linda para uma indiana — ela não dá ouvidos.
Quando ela passa o lenço pela testa, para apagar a base, vê um pequeno brilho caindo no chão do carro.
— Mas o que...? — ela inclina-se, pegando a coisinha minúscula.
— É o bindi! As mulheres indianas colocam na testa — explica Alarice, olhando pelo retrovisor.
Depois de um momento de indecisão, ela suspira, pressionando-o novamente contra a testa.
— Algo eu tenho que manter, suponho — diz, dando de ombros.
Para sua sorte, sua amiga não diz nem uma palavra, enquanto ela coloca as roupas de volta na mochila.
— Tchalô! — diz, abrindo a porta do carro — Está na minha hora!
XXX
Ela fecha a porta, vendo como as luzes de casa já estão apagadas. Apesar de não usar salto alto, seus pés estão doloridos pelas várias horas que teve que passar de pé, atrás de um balcão, dando casuais caminhadas, quando ia atender aos clientes.
— Querida, podemos conversar? — a voz de sua mãe a assusta, pela repentinidade pela qual surge.
— Claro! Algum problema? — pergunta, enchendo um copo d’água, e tomando em um só gole.
— O que é isso em sua testa? — ela faz um sinal, indicando o lugar.
Por um momento, ela esquece-se do que é, procurando com a mão livre.
— Ah! É um bindi! — ela dá de ombros — Você sabe... Quando eu era menor, e colocava aqueles adesivos na testa. Moda...
— Você está estranha. Tem algo que quer me contar? — ela insiste.
Malaya considera contar-lhe sobre a ideia louca da amiga, mas então percebe que sua mãe não aprovaria a mentira que estavam montando.
— Não! — ela diz, virando o copo para que as últimas gotas de água caíssem em sua boca.
— Certo — diz, simplesmente, virando-se — Sapatilhas bonitas!
A mãe afasta-se. Malaya fecha a geladeira, olhando para os pés, xingando-se por esquecer dos pequenos detalhes de sua nova aparência.
Apenas questão de tempo, para que sua mãe descubra.
XXX
— Deve ser difícil para você.
Ela surpreende-se ao virar, e encontrar Nirvan, sentando-se ao seu lado.
— Ah! Nem tanto... — ela dá de ombros — Só é constrangedor. Saber que eu não atendo as expectativas de meus pais, do meu baldi.
— Normal! Parece que nunca atendemos — ele ri levemente.
— Tik he — murmura, sem saber o que falar.
— Djan Malaya! — Juily aparece, sentando-se do outro lado dela — Não esperava encontrar-lhe aqui, bhaya. Bem, não importa! Por que você não vem jantar na nossa casa? Eu sei que seus pais ainda não voltaram de viagem, mas meus pais querem muito conhecê-la!
— Didi, o que você andou aprontando? — murmura Nirvan, olhando desconfiado para a irmã.
— Nahin! Nada! Eu só lhes disse sobre minha amiga! Qual é o problema com isto? — ela sorri de um jeito estranho.
— Nahin. Nenhum. Eu tenho que ir! Namastê! — ele levanta-se, unindo as mãos.
— Om Shanti — murmura Malaya, vendo como ele vai embora.
— Talvez eu tenha dito algo — diz Juily, rindo cúmplice.
— Baguan Keliê! Você também? — resmunga.
— Alarice, certo? Eu sabia! — ela comemora, feliz — Quando duas pessoas veem, é porque é verdade!
— Ou porque as duas são cegas! — retruca, nervosa — Eu preciso ir.
— Namastê — grita, enquanto ela afasta-se.
XXX
— Eu não posso fazer isso — ela engole em seco, olhando para o espelho.
— E por que não? — pergunta Alarice, de dentro de seu quarto.
— Eu ir para a casa deles? — diz Malaya, olhando para o teto — Eles são indianos tradicionais... Eles são xátrias. O pai deles é militar.
— A segunda maior casta da Índia... — murmura, surpresa.
— Eu vou ser desmascarada, e tudo isso terá sido uma diversão de... Uns cinco dias — comenta, desanimada.
— Você não vai ser descoberta! — diz, confiante.
Malaya ainda olha para o espelho, sem perceber que Alarice vai até o armário, puxado uma caixa lá de dentro.
— Venha até aqui! — ela pede, fazendo a amiga desviar o olhar da maquiagem, confusa.
— O que é isso? — pergunta, pegando a caixa, confusa.
— Anarkali, é usado para festas importantes. E isso é muito importante — ela sorri — Relaxe! Juily deve ter contado sobre a nossa história.
— Isso só torna as coisas piores... — murmura Malaya, tirando o vestido de dentro da caixa — É lindo!
A gola era dourada, como na maioria das roupas indianas, e o dourado era espalhado em finos bordados, indo de cima até embaixo do vestido, contrastando com o rosa claro. No final da saia, tinha um tom mais escuro de rosa, e o dourado era espalhado de forma horizontal. A manga ia até alguns centímetros abaixo dos cotovelos. Acompanhando, tinha uma espécie de echarpe.
Alarice ajudou-a a se vestir, e indicou que a echarpe deveria manter-se reta no ombro, sem dobrar nem nada do tipo.
— Eles chegaram! — diz, olhando pela janela.
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