— O seu o quê?

Ainda no carro, Juily conta a Malaya o motivo pelo qual não teria mais que se preocupar.

— Eu vou me casar, Maly — repete, pacientemente — Não seremos as únicas lá! Não precisa ficar preocupada. Claro, minha mãe demonstrará interesse em você, já que...

— Já que o quê? — pergunta, quando vê que a outra se cala.

— Oras! Eu já lhe expliquei! — ela ajeita o saree, nervosa — Você é minha amiga e indiana.

— E qual o nome do garoto? — murmura.

— Nahin! Eu não posso! — diz, sorrindo envergonhada.

— Você não pode dizer o nome de seu marido depois do casamento! — contradiz.

— Baguan Keliê! Não é tão ignorante quanto finge ser! — retruca, querendo desviar de assunto.

— Ah! Por favor! Me conte! — ela implora.

— Devanand — murmura Juily.

— O que disse? — provoca Malaya.

— Devanand! — ela diz, mais alto — Ele é um Hamidi! Da casta dos brâmanes!

— Arebaguandi! — exclama — Tiraste a sorte grande!

— Não seja exagerada! — ela ri — Pare! Está me envergonhando!

Apesar de rir, Malaya sente-se extremamente aliviada por não ter todas as atenções viradas para ela, como pensou que seria.

— Chegamos, sahib — disse o motorista, virando-se levemente para ela.

— Shukriya! — Juily sai do carro, antes que o homem pudesse sair e abrir as portas para ela — Tchalô, Maly! Estamos atrasadas!

“É incrível como nos aproximamos tanto em apenas... Uma semana? Duas?” pensa Malaya, sorrindo, antes de ir atrás dela.

— Shukriya! — ela repete, sorrindo.

A casa não é dos padrões americanos, sem sombra de dúvidas. A família de Juily arrumou uma maneira de trazer a Índia consigo, nos mínimos detalhes. As pilastras só vistas daquela forma em museus. O local está com uma decoração simples, mas cheio de flores, de nomes com diferentes significados.

— Juily — murmura Malaya, aproximando-se da amiga — Você está noivando antes de seu bhaya?

— Tik he! — ela responde, cobrindo o rosto com a ponta do saree, os olhos esquadrinhando o lugar, em procura de seu noivo.

— Não são os mais velhos primeiro? — ela pergunta, novamente.

— E quem disse que Nirvan é mais velho? — ela retruca, dando uma piscadela cúmplice.

— Certeza de que não convidou Alarice também? — pergunta Malaya, desconfiada.

— Nahin! Não posso! Eu gosto muito dela, não me entenda mal, mas é uma firanghi! Não quero que ela fique constrangida — responde.

“Eu sou uma firanghi” pensa, perguntando-se como eles reagiriam.

Talvez não estivesse tão longe assim de descobrir.

— Atchá, Juily! — uma mulher surge, com expressões sérias — Já pensei que estava fugindo do compromisso.

— Nahin! Nunca, mamadi! — responde, abaixando o rosto, constrangida.

— Tchalô! — ela puxa o braço da filha, e vira-se para Malaya, sorrindo — Fique à vontade, djan!

— Shukriya! — ela consegue dizer, antes de sua amiga sumir.

Sem a presença de sua amiga, Malaya encontra-se no meio de um bando de pessoas desconhecidas, com tradições completamente diferentes das suas, embora ela finja que isso não é verdade.

— Está linda!

Ela cora, vendo como Nirvan vai para perto de si.

— Shukriya! — ela consegue dizer, desviando o olhar — Também está!

— Vamos dançar? — ele sugere, fazendo-a paralisar.

— Nahin! Não! Eu sou muito desastrada! — diz, tentando escapar.

— Eu te ensino — ele ri do seu desconcerto.

— Os homens dançam diferente das mulheres — retruca.

Apesar de suas negativas, ela acaba sendo arrastada para o meio, rindo ao vê-lo dançando da forma estranha dos indianos.

— Faça esse movimento — uma garota, em torno dos nove anos de idade, passa dois dedos na frente do rosto, rapidamente.

Ela repete, rindo do quão desajeitada é.

— Para quem diz não saber dançar! — provoca Nirvan.

— E não sei mesmo! — Malaya retruca, sentindo-se incapaz de parar de rir.

— Mas sabe se mexer — murmura a garota.

— Vallari! — uma mulher a repreende, e ela afasta-se dos dois.

Pela forma de agir dos indianos ali presentes, Malaya percebe que é um povo bem animado, apesar das tradições serem bem restritas.

— Acho que minha didi não lembrou deste detalhe. Provavelmente, seus pais vão querer que você dance para eles! — diz, quando eles resolvem caminhar um pouco, do lado de fora da casa.

— Talvez ela tenha pensado que eu já sabia... — ela dá de ombros.

— É difícil encontrar alguém que esteja passando pelo que você passa — ele responde.

“Você não tem a menor ideia” pensa Malaya.

Ela tenta ignorar a dor latejante em seus pés, por usar salto alto. Depois de anos usando apenas sapatilhas e tênis, é difícil reacostumar-se com um calçado tão diferente dos outros.

— Está pensativa! — observa Nirvan, olhando-a atentamente.

— Não sei como vou conseguir seguir com isso... — ela murmura, sentando-se em um banco.

— Talvez — ele hesita — a solução seja, simplesmente, contar a verdade.

— Eles nunca me perdoariam... — ela diz, olhando fixamente para a frente, sem prestar real atenção ao que estava vendo.

— Não seja exagerada! São os seus pais! — ele insiste, sem perceber que não é esse o problema dela.

— Certo... — Malaya sente-se mais acordada, ao escutar a última frase dele — Tik he. Porém, eles culpariam aos meus tios, e isso daria um enorme drama familiar.

— Suniedy, — “escute”, Malaya traduz mentalmente — minha didi não será proibida de receber visitas, ao casar-se. Além do mais, o casamento demorará algum tempo para se realizar. São muitas coisas para se ver... É difícil realizar um casamento tradicional indiano no meio dos Estados Unidos.

— Tik he — diz, distraída.

— Ela vai conseguir te ensinar a dançar. E também tem o chai — completa.

— Are Baba! O chai... — ela resmunga — É! Nós não pensamos em tudo. Na verdade, não pensamos em metade do que fazer.

— Não fique assim! — Nirvan diz, sorrindo compreensivo — Tchalô! Vamos voltar...

— Juily vai anunciar o noivado, ou algo assim? — ela pergunta, curiosa, levantando-se.

— Nahin! As coisas não são assim! — ele ri — É só uma festa. Na verdade, não é muito tradicionalista fazer uma festa antes do casamento. Ela acontece depois, mas meus pais quiseram fazer essa socialização. É incrível quantos indianos tem por aqui!

— Tik he! — ela sorri, forçadamente.

Eles entram, novamente, na casa, pela porta dos fundos.

— Maly!

Ela surpreende-se ao encontrar Alarice.

— O que está fazendo aqui? Pensei que Jui... — ela não consegue terminar de falar.

— Preciso falar contigo. Com licença — ela sorri sem graça para Nirvan, antes de empurrá-la de volta para fora.

Antes que a porta se fechasse, Malaya congela, ao escutar em alto e bom som:

— Tios? Nós somos os pais dela!

A voz de sua mãe era reconhecível de qualquer lugar.

— Precisamos sair daqui agora! — Alarice diz, desnecessariamente.

— Baguan Keliê! — ela desespera-se, enquanto elas contornam o jardim, apressadas — Como? Como eles souberam?

— Parece que rastrearam o seu celular! — responde, preocupada.

— Rastrearam o meu celular? — indigna-se — Como eles puderam fazer isto comigo? Agindo como se eu fosse uma traficante!

— Eles pensavam que você estava se envolvendo com um traficante — diz Alarice, olhando para trás, mas logo volta o olhar para ela, ao perceber que não há ninguém lhes seguindo.

— Como se eu não tivesse bom senso — murmura Malaya, sentindo as lágrimas começarem a descer de seus olhos.

— Acalme-se! — ela diz, pegando o celular da bolsa dela, e jogando em um canto do jardim — Pronto! Diremos que você o perdeu!

— E eles não foram em sua casa? — pergunta.

— Eu disse que você tinha saído, e eles surtaram. É só dizermos que você foi resolver algo da loja. Veremos na hora.

Elas chegam ao carro, e abrem a porta. Quando Malaya vai entrar, ela sente uma mão puxando-a.

— Você mentiu para mim! — grita Nirvan, doído.

— Eu... — ela não sabe o que dizer.

— Não se aproxime mais de mim, nem de minha irmã, Malaya. Se é que este é mesmo o seu nome...

Ela fica paralisada, vendo como ele se afasta. Precisa ser guiada pela amiga, para conseguir sentar-se no banco de trás.

— Eu trouxe uma roupa mais confortável! — diz Alarice, tranquilamente.

— Eles sabem que eu fui até lá, Lari — murmura, desconsolada — Você os ouviu! Eles falaram com os pais dele!

— Bobagens — ela dá de ombros.

— Minha mãe me viu de bindi! — ela grita, irritada.

— Se você não manter a cabeça fria, não vai ajudar! — retruca, o tom de voz controlado, e as mãos apertando o volante com força.

Ela tira o anarkali, sem cerimônia, e troca pela camiseta e short simples. Os seus braços movem-se vagarosamente, passando o lenço pelo rosto, tirando a maquiagem e o bindi. Puxa o elástico do cabelo bruscamente, fazendo com que os fios caem sobre seu rosto, grudando-se na pele com as lágrimas caídas.

Assim que o carro para na frente da casa da amiga, ela desce do carro, deixando tudo dentro, e vai direto para a porta, ignorando os chamados de Alarice. Sobe as escadas, sem notar a presença dos donos da casa na sala, e fecha a porta do quarto, jogando-se na cama, por baixo dos cobertores.

XXX

— Você errou, e agora é hora de enfrentar as consequências de seus atos — declara seu pai, batendo a porta com força.

Há cinco dias, aconteceu a festa.

Há cinco dias, toda a farsa foi descoberta.

E, há cinco dias, ela não aparecia na faculdade.

— Querida, por que fez isso? — pergunta sua mãe, mais branda, acariciando os seus cabelos, com delicadeza.

— Eu não sei... — murmura, cansada de chorar — Alarice insistiu tanto... Eu acabei entrando na onda.

— E gostou — completa sua mãe, compreensiva.

— Eu só não gostei da forma como tudo acabou... Eu acabei como a naja da história! — ela afunda o rosto no travesseiro.

— Naja? — repete, confusa.

— É uma cobra venenosa! — explica.

— Ah! — exclama.

Ela permanece calada, sentindo o carinho da mãe, e a maciez de seu travesseiro.

— Você não pode trancar a faculdade, minha menina! — ela inclina-se para murmurar para a filha.

Malaya vira levemente o rosto, fazendo-o desgrudar do travesseiro.

— Mãe, por favor... — murmura, de olhos fechados — Eu não posso me transferir?

— Você não pode fugir de seus problemas para sempre, Malaya! — diz, severamente.

— Entendi... Vou ter que ouvir tudo o que eles tem a me dizer — ela dá um riso seco.

Sua mãe não responde, ainda acariciando-a. Depois de um certo tempo, ela suspira, afastando as mãos do cabelo da filha, e levantando-se.

— Vamos! Você vai se atrasar... — diz, antes de sair do quarto.

Quando ela chega na faculdade, percebe que enfrentar a Nirvan e Juily é o menor de seus problemas.

— Senhora, por favor! — sua mãe vai na frente, parando a mulher, que ia em sua direção — Deixe a minha filha em paz. Eu sei que ela errou, mas...

— Eu preciso conversar com Malaya — diz a mãe de Nirvan, inflexível, ajeitando o saree sobre sua cabeça — Meu filho também está sofrendo, não posso ignorar isso.

XXX

— Você fingiu muito bem — diz a mulher, por fim.

Elas estão sentadas nos bancos, na frente da faculdade. Malaya engole em seco, sem olhar para a mulher.

— Você não pensou em nenhum momento na vergonha que isso indicaria para a minha família — ela continua dizendo — A desonra que isso seria. Mesmo que meu filho seja homem, deixamo-nos enganar por uma firanghi. Isso refletirá em nossa família por muito tempo.

— Se a senhora veio dizer-me isso, com licença, pois tenho coisas melhores a fazer — interrompe Malaya, irritada, levantando-se.

— Sente-se! — a outra diz, firmemente, mas é ignorada.

“As chances que eu conserte as coisas são nulas. Não ficarei aqui escutando isso...” pensa, afastando-se.

— Acha que pode continuar fingindo?

— O quê? — ela vira-se, incrédula.

A mulher levanta-se e vai até ela.

— Na Índia, dizemos que a paixão é a perdição dos jovens, leva à insanidade. Os casamentos tradicionais impedem que isso aconteça — ela diz — Você começa sem sentimento, e vai construindo-o com o passar do tempo.

— Eu sei disso — responde, ajeitando a bolsa no ombro.

— Meu filho apaixonou-se por você, e você foi a perdição dele. Nenhuma outra mulher fez isso com ele, e em tão pouco tempo — ela para de dizer — Então, eu lhe pergunto: acha que pode continuar fingindo?

— Não é um fingimento. Não mais — retruca.

— Pensei que diria isso — ela dá um sorriso leve, contrariada — Diga a sua mãe que irá para a casa de sua amiga. Eu irei busca-la hoje.

Antes que possa dizer algo, a mulher vai embora, o tecido do saree ondulando com a passagem do vento.

XXX

— Oi, amiga! — Alarice sorri, apenada, colocando a bolsa na carteira ao lado dela.

O olhar de Malaya desvia-se para trás dela, onde Juily observa-a, paralisada, antes de ir para seu lugar, desviando o olhar.

— Ah! — murmura Alarice, seguindo o seu olhar — Eu sinto muito! Isso tudo foi culpa minha...

— Como você disse antes: eu quis — diz Malaya, querendo que aquele assunto termine, o que acontece quando o professor bate no quadro.

— Quem não responder à chamada, receberá falta! — ele declara, antes de pegar o papel, e começar a dizer os nomes.

— Conversamos depois... — diz Malaya, fazendo a amiga sentar-se.

XXX

— Vejo que trouxe a sua amiga — diz a senhora Kaiser, tão altaneira quanto no começo do dia.

— Tik he — responde Malaya, quase que por impulso — Sim.

— Você quem a maquiou? — pergunta a Alarice.

— Sim — responde, nervosa.

— Uma dica: nós, indianas, não usamos lápis. Usamos kajal, ele é mais forte — ela esclarece — Você pode fazer o resto da maquiagem, mas deixe o kajal comigo.

— Senhora, eu não estou... — Malaya tenta falar.

— Você vai levar o chai para Nirvan hoje — diz a mulher, sem dar maiores explicações, mas Alarice parece entender o que aquilo significa.

— Vou pegar o saree, que ficou lá em casa — diz.

— Não será necessário! Apenas vamos! — nega a mulher, indicando que elas entrem em seu carro.

O resto da viagem é tomado pelo silêncio. Quando chegam à casa, vão direto para a cozinha, pela porta dos fundos.

— Sahib... — é a única palavra que a empregada consegue dizer, antes que sua patroa erga a mão.

— Chupt karo! Nem mais uma palavra! — ela sussurra, séria — Deixe que nós faremos o chai hoje!

— Tik he! — diz a empregada, assustada.

— Tchalô! Pegue os ingredientes — ela entrega uma chave a ela — E nem uma gracinha!

Depois ela puxa a Malaya pelo braço, levando-a para o andar de cima.

XXX

O saree já não é mais um problema para Malaya. Entretanto, ela não pode evitar sentir um nervosismo, ao pensar que será a primeira vez que reencontrará a Nirvan, depois do que aconteceu. A bandeja treme todas as vezes em que ela tenta erguê-la.

— Eu não consigo! — ela sente que começará a chorar.

— Nada de borrar a maquiagem! — Alarice aproxima-se dela, apressada — Oh! Vamos! Não se desespere!

— Eu o amo, Lari — sussurra, sentindo os olhos lacrimejarem, embora tente evitar — Eu o amo como você não tem ideia. E sei que meus pais dirão que é cedo demais para dizer isso, mas é o que eu sinto. Bem aqui... E eu não me importo se não aceitarem. Eu não me importo! Tik he?

— Não vamos pensar nisso agora — ela diz, um pouco assustada — Eu... Vou deixa-la... Com o chai! Isso! Com o chai!

Então, ela estava sozinha na cozinha. Ela olha para a decoração da cozinha, tentando distrair-se, mas não consegue. Respirando fundo, ela pega novamente a bandeja. No começo, ela fica rente, mas, logo depois, começa a estremecer.

— Baguan Keliê — murmura, tentando mantê-la em suas mãos, mas ela começa a tremer de forma perigosa.

Quando ela vai colocá-la de volta, em cima da mesa, vê como duas mãos apoiam as suas, deixando-as paradas.

— Você tem muito a aprender — diz Nirvan, atrás de si.

— Não pode tocar em minhas mãos — ela consegue dizer, sentindo a garganta fechada.

— Ninguém está nos vendo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!