Naipes de Fogo
3 Nas quartas-feiras: Assassinato #2
Notas iniciais
Era tarde da noite, e as ruas estavam agitadas como uma floresta selvagem de carros quando estávamos nos vestindo para irmos para algum lugar que eu não lembro mais o que faríamos lá, estávamos eu, minha irmã, que agora chamavam ela de Rachel, e particularmente acho Rachel nome de vadia bem falsa, e com uma casca-dura chamada Paula, ou algo parecido, e a puta de olhos azuis e esbugalhados que mais parece uma pata choca que não sabia para onde ir.
Lembro-me vagamente ente um pensamento e outro de Rachel me acariciando no cabelo e dizendo que era justo que fosse minha vez de me vingar e perguntado como eu preferia que fosse a minha vingança especial, eu não sabia realmente o que respondê-la nem o que falar, e na verdade quando olhei a expressão mesquinha em seus olhos eu me lembrei de um dos meus filmes favoritos e soltei uma gargalhada escandalosa e sem qualquer ligação com o momento.
A outra garota que estava do lado de Rachel ficou com uma cara espantada e com uma expressão de que não era uma boa ideia continuar dando cabimento a minhas palavras, o nome dela era Paula... Não... Pala... Espera, quase isso, Plas... Parece o nome de plástico... Lembrei... Pallas era o nome da maluca que estava do lado de Rachel, e quando a outra garota se juntou a elas duas, formando assim um trio, elas me fizeram recordar uma frase épica de meu filme favorito.
Falei em voz alta: “Ela é a abelha rainha, as outras duas são os zangões dela” e olhei diretamente com um olhar sarcástico para elas. Rachel fez uma cara surpresa, mas logo aproveitou a situação para pesquisar um pouco, e como uma luz que iluminava o céu ela sorriu maliciosamente e disse a todas que se encontravam na sala de estar.
Rachel foi abordar uma breve sinopse do filme ‘Meninas Malvadas’ apontando que o principal foco era uma abordagem pela segregação de garotas no colegial e o fato delas lidarem com a popularidade, o que se encaixava perfeitamente no rumo que a vingança tomaria. Abordou ainda aspectos como um atropelamento massivo ou uma revelação pelo ‘Burn Book’ que queimaria a reputação de qualquer um.
Mas por fim, seu olhar perverso veio em outra direção e disse que havia pensado em algo mais perfeito ainda, porém precisávamos nos vestir a caráter... Seu olhar, sua expressão maquiavélica e espírito malévolo até se assemelhavam à grande antagonista icônica do filme, Regina George, e coincidentemente o codinome usado por ela era o nome da atriz que interpretava a vilã.
Enquanto fazíamos percursos que Rachel nos obrigara a fazer pensei em algumas frases do filme que se adequariam a cada momento como: “Get in loser, we’re going shopping”.
Aproveitando que as quatro estavam no apartamento de Rachel, saímos para fazer algumas compras no shopping, acho que Rachel até se prostituiu para ganhar dinheiro porque eu sei que ela não tinha grana nem para comprar seu próprio caixão.
Meus pensamentos estavam dispersos como poeira dispersa no ar, as luzes da cidade eram enormes e brilhantes, e cada nuance, cada mero detalhe era incrível, a sensação de ar livre, de adrenalina e de velocidade eram extremamente boas de provar, eu queria ter vivido uma vida de verdade, mas tudo ocorreu de forma vaga.
Depois das compras e das escadas rolantes giratórias que pareciam flutuar e nos levar para uma quinta dimensão saímos daquele lugar horroroso e sem um mínimo de diversão e fomos cambaleantes para casa, onde minha irmã disse que seria algo épico e que nada poderia ser descrito de uma maneira melhor, se fosse algo que fosse feito uma única vez na vida que fosse de uma forma teatral. Teatral é a minha bunda.
A garota de olhos brilhantes, Judith, estava ainda nervosa devido aos últimos acontecimentos, mas ela veio até mim e segurou a minha mão de forma trêmula e senti que estava pálida e fria, e de repente ouvi um súbito agradecimento vindo dos seus lábios rosados. Eu meio que ignorei as suas frases e prestei atenção mais na inquietude das garotas que permaneciam no balcão.
No canto do olho eu podia ver que Rachel e Pallas estavam analisando um caderno, na verdade pela indicação de cores, o tamanho do caderno e o fato que a última segurava um telefone puderam ser indícios suficientes para eu notar que era uma agenda telefônica e me concentrei ao ponto de ouvir o que elas planejavam e executavam no telefone.
O som era abafado, e distante, precisei esquecer o fato de Judith estar me encarando com seus olhos penetrantes e me focar em tentar analisar e filtrar a conversa que as duas especulavam sobre o que pretendiam fazer, e com o tempo parece que tudo foi se dissolvendo e eu apenas escutava o que elas discutiam ao telefone.
Rachel, de alguma forma, havia conseguido o número de agentes de moda e marcado com algumas modelos para estrearem algumas peças de roupas, e o decorrer da conversa percebi que seria no park avenue, com alguns outros estilistas para estreia de roupas no outono... A palavra outono ficou girando e tomando meus pensamentos e... Caramba, pensei, já faz nove meses que nos encontramos pela primeira vez...
Elas pagariam o valor de US$ 650,00 ou algo do tipo, estava muito confuso nessa hora, e minha cabeça começava a me dar pontadas agudas. As duas encerraram a chamada e disseram que na quarta-feira estaríamos vestidas para matar, pelo tom sarcástico e medíocre, percebi que se tratava de algo extremamente parecido com o que ocorreu da última vez, e meu pensamento martelou que era realmente um assassinato, só que não me passava pela cabeça que seria uma vingança tão digna e extremamente justa.
Rachel deslizou sua mão em meus cabelos prateados e disse que não era necessário me preocupar, e usou uma metáfora bem estranha sobre um castelo de areia que foi construído por uma bela jovem, mas o mar com inveja fez com que uma rajada de água invadisse a água e levasse o castelo a ruinas, e deixou a pobre e solitária garotinha se debatendo contra a maré, mas que um dia ela moveria o mundo para secar o mar que destruiu os seus sonhos.
Um ataque de nervos me deu e eu simplesmente ignorei o que ela disse e fui até a geladeira e agarrei um litro de vodca e um maço de cigarros, minha irmã não pode sonhar que eu ainda uso drogas, porque provavelmente me enfiaria em um hospício e eu seria obrigada a usar aquelas camisetas bregas com mangas longas e brancas e comer aquela droga de comida que lá eles davam parecia mais as sobras do esgoto.
Saí para a varanda com um olhar meio torto e a cabra morta me seguiu, e quando eu me sentei para observar a lua ela se sentou junto de mim. O luar refletia nossos olhares e encaixou seus dedos aos meus pedindo que se eu me sentisse a vontade falasse sobre o que afligia meu coração.
Retruquei com um: Não sabia que você havia mudado de ramo e agora, ao invés de prostituta ligada a um passado sujo e vergonhoso, era agora uma psicóloga e queria ganhar dinheiro com os problemas dos outros. Com minha resposta, ela direcionou sua mão até seus olhos e os enxugou e eu tive pena.
Vendo que aquela bundona começaria a chorar e se desesperar, resolvi falar sobre o meu passado que ela sabia de certa forma contada em uma versão meio crua pelos lábios de minha amada irmã mais velha.
–O fato, minha querida, é que meus pais me colocaram para desfilar muito cedo, e eu achava que aquilo era o melhor para mim, mas nunca foi. Aos 10 anos ou 11, comecei a visitar as passarelas e conhecer as grandes tendências que estavam rolando nas calçadas das cidades, e aos 14 eu passei pela atividade mais eletrizante da minha vida: ser eletrocutada por um bando de putas demoníacas que mais queriam foder e não conseguiam. –Falei de forma mais crua ainda só para não a deixar em um eterno silêncio.
Ela me olhou constrangida, sem expressões, exceto seu olhar lacônico direcionado para o horizonte, e ela me disse:
–Talvez o problema da sociedade fosse esse egoísmo que conseguir estar no topo sempre e sempre querer que os outros nos notem, não se importando com uma minoria que seria destruída inteiramente para que pudesse chegar até o topo.
Ao terminar a frase, Rachel que espreitava pelas frestas da porta de vidro interrompe:
–Somos uma geração em que é permitido publicar toda vez que peidamos ou comemos um sanduíche, e conhecida pela a indiferença ao sofrimento. Essas pessoas farão e fazem de tudo para que sejam notadas, nem que para isso precisem quebrar vidas inteiras, triturar sentimentos e desestruturar famílias.
Pallas encostava-se à parede e pediu para que a história continuasse mesmo que ela já soubesse e que repetir um disco de jazz mil vezes não faria com que ele tocasse um solo de guitarra.
Continuei a partir do ponto que todas já sabiam, contei como eu me senti no momento em que meus miolos foram cozidos:
–Eu tive medo, e dor, parecia que eu estava me afogando e sendo chicoteada ao mesmo tempo. Minha visão começava a ficar turva e minhas lágrimas ajudavam com isso. As cretinas tiveram a audácia de me colocarem uma mordaça para que eu não pudesse gritar. Senti-me humilhada e desprezada por todos, mesmo que apenas aquele grupo minoritário tivesse destruído a minha vida. Saí abalada. E naquele momento eu não sabia mais o que fazer, eu enxergava apenas como um vidro embaçado e os meus tímpanos transmitiam apenas um zumbido infinito. Eu havia sentido meu coração partido pela primeira vez na vida e não foi por amor. De qualquer forma, estava feito, e após passar vários dias em casa e no hospital, mas ao sair passei a frequentar diversos lugares.
Rachel interrompeu dizendo:
–Você fez tudo o que esteve ao seu alcance, e eu me lembramos de quando você dizia durante os sonhos: Eu fiz de tudo... Sexo... Drogas... Tudo para que a dor fosse embora.
Olhei esnobando ela e pedi para que ela parasse de ser a filósofa metida a líder do grupo, eu precisava voltar a terminar a história. Ela me olhou com um olhar desaprovador e revirou os olhos, terminando com uma palavra para que eu prosseguisse a minha história.
–Nesse meio eu encontrei um cara, rosto magro, tatuagens de péssima qualidade nos braços e cabelo laranja quase em um tom queimado, que me ofereceu uma chance de ter realmente uma vida legal e ele me fez, pela primeira vez, usar tais artifícios químicos. Após um tempo eu praticamente me casei secretamente com ele e ele passou a me proteger, o nome do infeliz era Ali Silverstone, que algum tempo depois foi encontrado morto por overdose. Metade do meu dia eu estava drogada e a outra metade eu estava desesperada para que estivesse e não visse o mundo como ele realmente era. Eu via muitas pessoas isso, pois queriam fugir dos seus problemas e das suas vidas mesquinhas, e todos apenas deixavam fluir, era uma fluência desconhecida. Parecia válido naquele momento! Quando se não estava sob o efeito, é como se a cidade fosse te devorar ainda vivo, então eu apenas deixei me levar, pois minhas memórias naquele momento haviam sido completamente tostadas, e no dia seguinte eu me encontrava consciente perambulando pelas calçadas, e ao olhar meu celular havia umas cem ligações. Eu não queria fazer ninguém sofrer, mas meu sofrimento era maior que a minha pobre alma caridosa que se encontrava cheia de buracos.
Pallas já entrando na sala gritou de forma rouca e baixa que o sofrimento acabaria na quarta-feira, e que deveríamos entrar pois o céu estava negro e denso e logo uma tempestade furiosa desabaria sobre nosso teto.
Os dias se passaram lentamente até a quarta-feira, mas no glorioso dia acordamos dispostas e finalmente pude abrir os embrulhos do shopping. Após ver aqueles trajes eu percebi que talvez eu tivesse uma doença, hmm chamada Tritanopia que faz as pessoas enxergarem uma variação de cores tendenciosa para o rosa e o azul.
Deparei-me com roupas idênticas as do meu filme favorito, e creio que seria uma homenagem triunfal e sangrenta e me recordei da épica frase nas quartas-feiras vestimos rosa.
Dentro do carro, foi explanada sucintamente a forma como ocorreria o plano e como estaria sendo executado e qual seria exatamente a função de cada uma.
Rachel, eu podia até ver o veneno da naja cuspideira, planejaria entrar no salão e conversar cordialmente com o segurança, avaliando as câmeras e onde estariam posicionadas, eu confiava no taco da minha irmã, principalmente quando era para bancar a oferecida que sempre achei que ela fosse, e com essa sorte ela mudaria as câmeras e os focos. Porém com a falta de tempo que tivemos Judith a acompanharia e ficaria entretendo o segurança e Rachel faria as devidas mudanças com as câmeras. E ao mesmo tempo Pallas desestruturaria o encanamento, genialmente ela substituiu a água por gasolina, e fez com que os sprinklers funcionassem apenas no palco, e coube a mim a função de lembrar o nome das garotas que haviam feito o atentado contra mim, para me disfarçar melhor usei um casaco de pele e uma peruca roxa. Para minha sorte, nenhuma se deu bem financeiramente para investir em uma carreira maior e estariam apenas reservadas àquelas pequenas vidas. Aproveitei o momento para conferir os vestidos delas, implantando um pequeno artifício que soltaria faíscas pelo local e exalando fumaça e uma peça que serviria para o atrito.
A música ecoava pelo local, e nós quatro sentávamos na última fileira. Pallas, Rachel, Judith e eu, respectivamente assim como a ordem do filme Gretchen, Regina, Cady e Karen, nós as representávamos, usávamos óculos escuros e até levei pipoca.
Foi só esperar para ver as sete garotas magras e altas entrarem na passarela, contornarem todo o trajeto pré-estabelecido, e vimos que com o andar da última modelo a entrar na passarela o pequeno artifício era friccionado e zarpou do vestido da modelo até o teto, porém o que não contávamos é que o pequeno artifício não soltava faíscas suficientemente. Todos olharam com uma cara assustada e a peça de vestido caiu ao chão, nossos olhares se trocaram de uma forma assustada e silenciosa, tudo havia ido por água abaixo.
A assistente de palco subiu para tentar ajustar o vestido, e eu a reconhecia, era a assistente que devia estar supervisionando as garotas durante o incidente que ocorreu comigo, mas ela negligenciou sua função e voltou apenas depois que ocorreu, e tentou obviamente abafar todo o acontecimento para não prejudicar a agência.
Ela segurava um pequeno cigarro, e ao subir, jogou-o em um canto, que coincidentemente havia uma bolinha de papel, e que estava próxima a cortina que estava ligada às proximidades do teto. Lentamente a bolinha se incendiou e o fogo subiu por trás da cortina de forma colossal, e foi o suficiente para os sprinklers dispararem e pudemos contemplar uma chuva inflamável entrando em contato com uma pequena ignição, e no palco vimos bruxas sendo consumidas pelas labaredas de fogo.
Aquele era o momento mais feliz da minha vida, eu aplaudia e sorria tentando me disfarçar em meio à agonia das pessoas que se desesperaram. Judith olhava com uma expressão ansiosa e ainda assustada, enquanto Rachel olhava com um sorriso malicioso e Pallas com uma expressão imóvel e raivosa, e em ordem nos retiramos do local enquanto as chamas consumiam o pequeno palco.
Os noticiários abordavam o assunto de oito jovens mortas, carbonizadas por um ato de negligência, mas as investigações continuariam, pois o fato dos sprinklers estarem cheios de gasolina era algo bem estranho, mas que em cima do estabelecimento funcionava um estacionamento de carros que dava para o segundo andar do restaurante ao lado, e que talvez fosse o vazamento de alguns carros que pudessem ter causado isso.
Surpresas com as coincidências que haviam acontecido, tentamos formular nossos próximos planos, e realizássemos eles antes que fossem descobertas as farsas.
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