Notas iniciais
A história se passa um dia depois do encontro e é narrada na versão de Judith (aka dama de Copas) Recomenda-se que escute a música: "Le Chant Des Sirenes" de Fréro Delavega

Era uma madrugada melancólica e fria de terça-feira em uma cidade qualquer da Califórnia. A garoa caia, o céu era apenas um negrume sem estrelas e as ruas estavam solitárias, as vozes dos becos escuros anunciavam que uma mocinha andava solitária pela rua, o sentimento de medo rondava em meu corpo e estava a me arrepiar. Passos ecoavam às minhas costas e eu estava tentando apressar meus passos, mas o sentimento agonizante fazia-me sentir como se cada passo fosse como um passo de formiga.

Me virei para trás e identifiquei quatro sujeitos, o terror dominou o vazio da cidade. Comecei a correr e ao virar para trás, percebi finalmente que estava sendo perseguida. As luzes me ofuscaram e meu olhar incessante foi em direção a todos os lados buscando ajuda, mas os prédios depravados e desprovidos de qualquer zelo não podiam ouvir meu choro e o perigo que me cercava. Desviei alguns quarteirões desconfiando que finalmente estaria livre, mas em minha frente um homem alto, usando uma jaqueta preta e uma camiseta branca puxa-me pelo cabelo e me arremessa ao chão rígido e frio.

— E então vadiazinha, achou que poderia correr de caras como nós? — Meu olhar tremulo tentava captar suas expressões, mesmo tentando pensar em coisas boas a sensação de horror me dominou instantaneamente, comecei a orar para que o momento que ali decorresse fosse mais suportável possível. — Essa puta aqui não é das boas, está até orando... — O sujeito me encarou e eu consegui ver sua barba rala que se destacava em seu queixo quadrado com uma cicatriz na ponta, seus dentes eram tortos e suas presas eram afiadas.

— Agora essas putas podem frequentar a igreja? Onde esse mundo vai parar? — Ele aproximou-se de meu pescoço e próximo ao meu ouvido pude sentir seu hálito quente dominado pelo álcool dizendo o que faria após abusar de mim. De longe pude ouvir algumas risadas debochadas em relação à situação — Acha isso suficiente, cachorra?

Eu senti sua mão percorrer meu cabelo enquanto ele brutamente tirava minha roupa, e eu estava prestes a dar mais um replay eterno de todas as situações difíceis que eu já havia passado, como se já não fosse suficiente ser usada como ferramenta financeira para meu pai.

Meu choro era baixo, e soava como uma melodia fúnebre, em pensamentos eu orei para que Deus tirasse minha vida rápidamente e sem dor, eu já tinha visto muito desse mundo cruel e perigoso, eu havia lutado com todas as minhas forças para melhorar minha vida, acreditando nas bobagens que dizem sobre autoconfiança, eram apenas mensagens para criancinhas de 12 anos acreditarem que podiam ser tudo que quisessem nesse mundo.

Deus atendeu minhas preces, porém de outra forma.

Eu me lembro de abrir meus olhos e avistar faíscas e reflexos coloridos, vermelho e azul iluminavam o local. Em um breve momento senti um peso sair de cima de mim e gritos ecoarem lentamente pelo local, eu não sabia exatamente o que estava sendo dito, e as lágrimas que escorriam meus olhos borravam minha visão.

A última coisa que me lembro foi de ser arrastada para o carro e uma voz longe perguntar se eu estava bem. Minhas forças se esvaíram e o mundo ao meu redor ficou sombrio e negro, e foi aí que tudo começou. Em dois dias eu me encontrava em uma sala com quatro mulheres dispostas a buscar vingança pelas injustiças sofridas.

Nasci na França, especificamente em Montpellier, e fui criada com meus pais, o Sr. e a Sra. Blanche, ela era enfermeira e ele um homem de negócios. Sempre fui muito inocente para perceber o negócio obscuro do meu pai, diferente de minha mãe, que após algumas desconfianças o seguiu e descobriu o grande lixo que ele escondia em seus bolsos e trazia para nossa casa todas as noites.

As únicas lembranças que tenho da França é minha mãe. Antes de eu vir, forçosamente, para a América, costumávamos sair todas as tardes para falar sobre diversos assuntos, como valores sociais que são passados de pais para filhos que chegavam a me constranger um pouco. Nossa parte preferida era visitar os jardins botânicos, ambas gostávamos de flores-de-lis e todo o simbolismo que ela representava.

Dias mais tarde, minha mãe chegou em meu quarto em lágrimas, pude notar em seu rosto algumas manchas roxas, seus olhos cansados e lacrimejantes me miravam como se me condenassem. Ao invés de todo temor que eu achei que ela faria, ela apenas segurou-me pelas bochechas e olhou dentro de meus olhos e disse: “Não deixe que ninguém te machuque nesse mundo, você é bela demais para sofrer e eu jamais permitiria que deixassem te ferir, mas infelizmente eu não estarei infinitamente perambulando por esse miserável mundo. Nunca deixe um homem te dizer o que fazer, nunca deixe ele dominar sua força de vida, lembre-se que a coisa mais poderosa do mundo para eles é a arma mais fatal que podemos usar em nossa defesa”.

A última coisa que me lembro antes de vir para a América são gritos e barulhos vindos de casa, meu pai adentrou em meu quarto e me arrastou sem meu consentimento para fora. Nas escadas, de relance, vi o rosto da minha mãe que se esperneava e gritava em minha direção, ela observou me levarem para longe como um filhote de leão é levado para longe de sua mãe pare ser criado em cativeiro. Foi assim que minha vida entrou em declínio.

Após sair da casa da garota que eu conheci em poucos instantes, Rachel, eu encarava as mesmas ruas que encarei cinco dias atrás, mas dessa vez estava quase no crepúsculo, assim como o momento que eu passava, uma época luminosa que em poucos minutos se tornaria escuridão. Eu voltava para a casa que meu pai costuma usar, e meus ossos tremiam enquanto eu caminhava, o medo de rever seus grandes olhos me causavam uma insegurança que eu não gostava de sentir, mas que a partir desse momento eu estaria disposta a fazer o que eu precisasse, e nesse momento eu precisava voltar para casa na tentativa de assassinar meu pai e seus lacaios.

Me deparei com o enorme portão negro de ferro, pensando se eu adentraria ou se eu fugiria como um coelho foge de um leão faminto, e cinco segundos de insanidade me fizeram entrar, já que meu racional me dizia para fugir.

Como esperado, eu o encontrei no escritório. Suas sobrancelhas pretas e grossas expressavam raivas e sua mão segurava um charuto de cheiro horrível. Sinalizou para que eu sentasse e assim eu fiz, incerta do que ele faria. A onomatopeia do relógio ecoou em minha cabeça e fez com que minha insegurança aumentasse a cada vez que ele estalava.

— Então quer dizer que abusaram de você e tudo o que fez foi observar chorando? Apenas forneceu prazer aos que te forneceram sofrimento? — Ele me olhou e me encolhi em meu canto, procurando meios de me esconder e de subitamente ficar invisível diante de seus olhos, mas a voz rouca dele soou novamente — Ninguém faz isso com minha preciosa — Ele então levantou e andou ao meu redor deslizando a mão sobre meu ombro o que me fez pestanejar e curvar minha cabeça para baixo.

— Nada ocorreria se eu soubesse usar meus punhos. Se eu tivesse uma habilidade física melhor poderia ter escapado. Como espera que eu me defenda se não faz nada? — Senti, de repente, um tapa na maçã do rosto que me faz cair no chão. Agora o carpete cor de creme tem três gotas vermelhas do sangue que escorreu do meu lábio.

— Como ousa falar assim comigo? — Ele puxou o meu cabelo e me jogou contra a mesa arrancando uma tábua da cadeira e direcionando diretamente contra minhas costas, assim tentei escapar me jogando do outro lado da mesa.

— Não, por favor, eu não peço mais nada. — E ele finalmente largou a tábua no chão.

— Deite sobre a mesa e vire-se. Boas prostitutas nunca se revoltam contra clientes. Agora venha aqui e tire a roupa — O que me restou foi ir até ele e me despir, enquanto sua mão tocava meus mamilos. Tentei olhar para o horizonte, e fingir que nada daquilo estava acontecendo.

Quando coisas assim acontecem, eu tento me imobilizar e luto com minhas forças para que minha alma se liberte de meu corpo, tentando não sentir nada. E assim cenas como essas apenas se marcam em minha memória como simples borrões, borrões como os mesmos que decorrem após uma longa ingestão de bebidas alcóolicas e fazem pessoas esquecerem o que estão fazendo, se encontrando apenas no dia consecutivo abandonado pelo chão de qualquer lugar sentindo vergonha e arrependimento.

Toda minha dignidade foi sendo tirada de mim durante o decorrer dos anos, e eu não fiz nada, nada para evitar isso, apenas segui a correnteza do rio esperando que uma hora ele me levasse as margens ou então à um belo lugar florido, e eu estava completamente enganada.

No dia seguinte eu sai nas ruas e me deparei com um lugar novo, algo me era coincidente, era um lugar com uma faixada vermelha e umas letras amareladas, e ao piscar os olhos logo percebi que era uma academia de boxe. Minha mente explodiu de alegria e resolvi apressar meus passos e adentro o local.

O lugar estava notavelmente às traças, nada ainda estava funcionando, um homem alto carregava algumas cordas para o centro. Ao me ver, logo avaliou meus trajes e deduziu que eu era uma prostituta. E ele definitivamente não estava interessado. Ainda com minhas esperanças em mão, talvez a única coisa que eu ainda tivesse até aquele momento, eu caminhei em sua direção enquanto encarava seu rosto agressivo.

—Retire-se, por favor, esse lugar não é para pessoas como você — Ele me olhou dos pés à cabeça com certo desprezo e nojo e eu tratei de rebater, acho que pela primeira vez na vida eu tive a coragem de falar, e praticamente esperava um outro tapa.

— “Os preconceitos são a razão dos imbecis.” — Citei Voltaire, um dos únicos autores que li alguns trechos na minha vida— Como consegue me julgar se eu não disse nada ainda, apenas pela minha aparência? — Ele me encarou constrangido mas ainda com raiva, talvez meu discurso rígido não havia funcionado — Eu preciso de uma ajuda sua, é de extrema importância. Imagine alguém que não teve opções na vida, nenhuma escolha, nenhuma oportunidade e foi privada de todas elas.

—Todos temos opções, o que você quer?

— Eu preciso aprender algumas coisas para auto defesa, e acho que você podia me ajudar. Ultimamente eu preciso me defender de várias pessoas que vêm me agredindo. Você não sabe como é a vida de uma mulher em constante perigo.

— Aqui não é caridade, moça, é um lugar para homens lutarem.

— Eu tenho o que oferecer em troca. Esse lugar é no fim do mundo da cidade, mesmo com divulgação você teria poucos alunos e devido a estar começando não teria muito material para isso, eu posso ajudar, sei exatamente como fazer que esse seja um local lotado.

— Moça, desista, eu seguirei meu negócio sozinho, retire-se...

— Você pode até ter um lugar cheio de estereótipos, e testosterona exalando por todos os cantos, mas imagine só um local onde tivesse sangue e mais diversão... E eu posso trazer a diversão, visitei os melhores lugares nas cidades do mundo e sei exatamente o que os homens querem — E então sorri confiante esperando uma resposta positiva vinda dele, porém o mesmo ainda negava.

Em reflexo a isso eu me lembrei do que minha mãe me disse, e de repente eu sorri gentilmente para ele e virei de costas.

— Se fode aí, otário. Ninguém vai vir para esse lugar pois é longe o suficiente, então boa sorte para você, o dono desse lugar esqueceu de avisar qual é a principal clientela daqui? Durante a noite isso aqui é uma rede de crimes na qual ninguém ousa vir, caso você me ajudasse eu poderia fazer com que eles não estragassem o seu negócio, mas não farei isso... Adeus Titanic...

Sai do local sabendo que ele corria desesperado em minha direção, finalmente algo estava dando certo em minha vida, agora eu só precisava conquistar o exército de meu pai.

Notas finais
Agradeço a T.B. por ser uma inspiração para esse personagem