Notas iniciais
Os nomes sugeridos são apenas nomes que elas adotaram como pseudônimos, os verdadeiros nomes serão citados ao longo dos próximos capítulos.

Era tarde da noite, meus olhos estremeciam e o sono tomava de conta de meu corpo. Uma pilha de livros estava em minha frente, e o brilho incandescente do computador refletia nos olhos da garota que o observava. O brilho azul safira refletia nos olhos da moça que fitava a tela, é como se eles estivessem disputando por qual brilho seria ofuscado.

Em um súbito momento a moça da tela do computador virou-se pra mim, seus cabelos negros, como a noite mais escura que poderia haver, foram jogados em uma direção oposta na qual ela se virava. Sua voz ecoava dizendo que ela havia encontrado uma perfeita ideia que se encaixava em nossos planos. A insegurança tomou conta de cada sentimento que pairava e se entrelaçava entre nós. Apressadamente, quatro pares de olhos se encontravam em frente à tela azul e uma doce voz anunciava o que havia encontrado.

Passamos horas decidindo nomes falsos ou o nome do grupo pelo qual seríamos conhecidas. Nosso vício por obras de Hollywood dominava mais nesse momento do que o próprio desejo de revidar todas as injustiças aplicadas em cada uma, então se for para arriscarmos perder nossas vidas e nossas histórias, pelo menos que seja de uma maneira artística e inspiradora, e não feita de forma amadora. Queríamos algo grandioso, queríamos deixar nossas marcas no mundo, queríamos buscar nossa própria guerra individual por direitos iguais.

— Encontrei algo bem interessante que poderia ser aplicado diretamente a nossas personalidades. — A moça de cabelos negros pestanejava seus olhos brilhantes e com sua mão direita mostrava-nos na tela do computador a imagem de cartas de baralho e logo abaixo, de forma escrita, apresentava-se diversos significados para cada carta.

Se eu acreditasse em coincidência ou de que tudo tem um propósito, diria plenamente que havia sido uma bela piada cósmica que o destino havia nos pregado. As quatro mulheres que se posicionavam estampadas nas cartas de ‘Dama’/’Rainha’ possuíam nomes próprios que poderíamos assumir e personalidades que se encaixavam perfeitamente em cada uma de nós quatro.

Sorrisos de esperança se encontraram e olhares de alegria se cruzaram, cada uma lia mentalmente o que estava digitado em letras em negrito enquanto eu estruturava as coincidências de cada carta com cada uma de nós.

Para nós a personalidade da rainha de copas, chamada Judith, batia exatamente com a morena que encontrou no computador nossos pseudônimos ideais; uma mulher delicada, gentil e dócil. Do tipo de pessoa que faria de tudo para tornar as coisas mais pacíficas no mundo, era tímida e reservada. O símbolo de um coração podia representa-la perfeitamente, já que seu coração era enorme e sua capacidade de amar todos que haviam a ferido até aquele momento era inacreditável.

Infelizmente todo o amor que ela podia oferecer para o mundo não chegava a ser suficiente. Seu pai era rígido e dono de uma máfia igualmente rígida, por má sorte viu na aparência sofisticada e atraente da filha uma fonte de renda para seus bolsos já estufados de dinheiro e assim a começou a expô-la na vitrine para os lobos famintos e miseráveis que estavam solto nas ruas. Obrigada a se prostituir todas as noites para satisfazer as vontades horripilantes e mesquinhas do pai, ainda era espancada e maltratada por ele que repetia infinitamente como adorava a forma que o sangue escorria pelo seu corpo, era um contraste belo e parecia como sangue na neve. E por mais nojento e cruel já seja esse ato, o mesmo era seguido por práticas sexuais forçadas, que não devem ser ao menos citadas por nossas bocas.

A rainha de Espadas era uma mulher mais forte e mais decidida, apenas em teoria, seu nome era ‘Pallas’. Possuía uma sede insaciável por justiça e representava a morte, uma mulher agridoce, forjada na violência e na tristeza. Era uma viúva negra.

O mais cômico de compararmos a nossa rainha de espadas com a rainha de espadas descrita no site era que ambas eram citadas como viúvas negras, a nossa porém bem mais gentil. A forte coincidência foi notada pois ela era uma mulher casada com um policial, e era constantemente agredida pelo marido que usava como desculpa os estresses causados pela rotina de trabalho, o pior de tudo é que ela fingia acreditar, assim sua alma era consolada e o amor que ela sentia por ele não evaporava como as lágrimas que rolavam de seus olhinhos cor mel. Justamente por toda essa aflição repreendida nunca notou que se envolveu com um cara extremamente preconceituoso e, devido aos seu status social, não poderia admitir que era casado com uma mulher negra. Sim, uma mulher negra e muito bela por sinal, com uma pele de canela tão perfumada como aquelas que usava em seus temperos, pois era uma ótima cozinheira e uma boa dona de casa, altamente dedicada e centralizada no seu casamento.

Já minha irmã era um pouco, digamos, fora dos padrões. Não que tivesse nascido louca, mas esse padrão que era imposto pela sociedade para ser uma pessoa perfeita, um manequim humano acabou com os seus sonhos. Quando criança, costumava passar horas no quarto da nossa mãe observando as diversas roupas que haviam no guarda roupa e sua brincadeira preferida era se vestir com elas para ficar bonita. Sempre corria para frente da televisão quando passavam desfiles e quando mulheres altas e magras apareciam nas telas, seus olhos verdes brilhavam de emoção e refletiam seus anseio por ser como elas.

É lindo, mas é um mundo bem diferente quando se está no palco na TV, e ela conseguiu cedo, sua competência era excepcional mas sofreu danos trágicos. Em um dia qualquer recebemos uma ligação do pessoal da agência solicitando que toda família fosse até ela, pois ela havia sofrido um ‘acidente’. Só após dias em coma acordou. E fez questão de contar o que tinha acontecido. De modo geral, as concorrentes a eletrocutaram no intuito de deixa-la temporariamente inválida durante as apresentações, já que era vista como uma oponente com chances máximas de vencer. No entanto algo deu errado e a voltagem foi alterada, por isso minha irmã perdeu um pouco da consciência, e todos os sonhos. É exatamente assim que acontece com várias pessoas e em diversas ocasiões nós preferimos fechar os olhos e fingir não ver.

Depois de todo esse sofrimento, passei a cuidar dela e ela passou a ter uma personalidade enigmática e perturbada, além de amar jogos de raciocínio lógico e anagramas, coincidentemente o nome da rainha de Paus, Argina, é um anagrama de Regina, que em Latim significa “Rainha”.

Por último, eu acho que posso me inserir nessa história e me vangloriar um pouco. Da mesma forma que minha irmã, eu também tenho olhos esverdeados como oliva e cabelos dourados. Eu sempre quis ser uma economista, sempre me dei bem com cálculos e com valores financeiros e cheguei a fazer 2 períodos da faculdade de economia. Nesse ponto você deve estar quase convencido que é por essa causa que eu sou a Rainha de Ouros, e pra rebater eu digo: resposta errada!

O que me compara com a grande “Rachel”? Não vou ser imprevisível como minha irmã.

Meus pais morreram quando eu tinha 17 anos, justamente depois do incidente da minha irmã, que tinha 15, faleceram durante um acidente de carro que levou a vida dos dois. Eu me lembro como me senti ao ver a reportagem na TV anunciando a morte de um casal que ainda estava preso nos destroços do carro em chamas, foi a noite mais longa da minha vida, eu os imaginava presos e queimando, e como humana, não há nada que eu pudesse fazer. Depois de somente 43 dias tive que arranjar um emprego para garantir que eu e minha irmã passaríamos fome ou nos abrigaríamos sob uma ponte qualquer de nossa cidade. O anúncio na vidraça brilhante requisitava pessoas com habilidades matemáticas e que tivesse bom senso de matemática financeira, eu adentrei a porta com uma expressão de incerteza e deixei o local com um sorriso de esperança, porém aqui não é nenhum conto de fadas.

Após meses constatei que meu salário era metade do salário das pessoas que tinham as mesmas funções na empresa, o que não era suficiente para pagar alguns remédios para minha irmã. Pensei por um momento súbito em reclamar com meu patrão, mas não me deixaram entrar na sala e quase fui demitida ao descobrir alguns segredos podres que se escondiam por trás daquelas paredes.

Por anos naquela empresa, testemunhei desvios de dinheiro e tive que manter meu silêncio por um bem maior. E tive que me silenciar ainda mais ao sofrer assédios por meus nobres companheiros, o que fazia me isolar no banheiro durante o horário de almoço deixar as lágrimas escoarem pela minha face. Rachel é a rainha que representa a ganância do homem, a capacidade de inquietar-se diante de situações, é uma verdadeira cobra, uma víbora que não tem medo de fazer o que for preciso, é o grito contínuo de revolta. E foi aí que me encaixei perfeitamente com ela, foi o meu silêncio que enferrujou minha armadura e me tornou o que sou.

Após todas essas coincidências nas histórias, resolvemos usar esses pseudônimos para que assegurasse nosso plano, aliás, plano que ainda não tínhamos pensado em como executar. Sentadas uma olhando para o rosto das outras, ficamos pensando em como faríamos para executar o nosso plano, sendo que nem plano tínhamos, até que Pallas estendeu sua mão e a ergueu no ar sugerindo que deveríamos partir naquele momento e acabar com a vida de cada filho da puta que passou e destruiu nossa vida.

Argina, ao ouvir as palavras da viúva negra, sorriu e repetiu algumas vezes a palavra tortura de forma eufórica, na face de Judith a insegurança e o medo pareciam dominar sua alma e ela parecia estar pronta para desistir, até que me levantei e disse:

— Estaríamos arriscando nossas cabeças em vão fazendo isso sem habilidades, nem preparação física e sem recursos financeiros para nos garantir em campo. Isso é comparado a um jogo de xadrez, cada passo que dermos tem que ser cauteloso e cuidadoso, pois cada um terá uma consequência que pode nos assegurar a vitória ou uma queda desastrosa. Querem mesmo entrar em campo despreparadas? Somente com o desejo por vingança? Isso aqui é a vida real e não a Disney. Ninguém quer viver da forma que estamos, mas ninguém quer entregar a cabeça em uma bandeja prata em vão.

A lua nos refletiu como em um lampejo, todas as opiniões se dividiam enquanto nossas mentes ficavam com mais dúvidas que antes. A noite prosseguia e o nossa busca para arquitetar um plano prosseguiu ainda mais. A cada segundo nossas almas eram infestadas pela incerteza, medo, raiva, tristeza, e pelos sonhos perdidos. Estaríamos dispostas a lutar para destruir aqueles que os jogaram fora como se fossem lixo. Cada minuto era precioso.

Notas finais
Emma Roberts como Rachel Kat Graham como Pallas Lily Collins como Judith Sky Ferreira como Argina As personalidades foram inspiradas em pessoas que sinto simpatia enorme. ^^