Nada precisa ser tão difícil
3 Sobre Pedro Pettigrew
— Puxa... Meu garoto mal chegou ao mundo e já está abalando! – falou Tiago em tom de brincadeira enquanto observava o jornal, tonto com a matéria que acabara de ler.
Sirius lançou a ele um olhar fulminante.
— Ah, então é isso? Quer dizer que é isso que você tem a me dizer depois de eu quase enfartar ao sentar para tomar café da manhã e me deparar com uma manchete como esta? É brincar que o seu filho já está abalando, depois de eu tomar o maior susto da minha vida? – perguntou ele, alterado.
Tiago olhou embaraçadamente para o amigo.
— Almofadinhas, calma, eu...
— QUE CALMA O QUE, POTTER? QUANDO EU LI O SUBTÍTULO DESSA MALDITA MATÉRIA EU ACHEI QUE NÃO TE VERIA DE NOVO COM VIDA! – gritou ele.
— Calma cara, eu...
As pernas de Sirius tremeram, e Lílian achou que ele fosse desmaiar. Mas, ao invés disso, ele puxou o amigo pelo pijama e o abraçou com toda a força que tinha.
— Ah, Pontas! Só Deus sabe o susto que você me deu, seu cretino! – falou o Black, como se Tiago tivesse culpa de ter sido surpreendido dentro da própria casa por um psicopata impiedoso.
O pai de Harry retribuiu o abraço do melhor amigo, dando-lhe tapinhas nas costas para acalmá-lo.
— Tudo bem, irmão! Eu estou aqui, não estou?
Sirius separou-se dele e foi até Lílian. Acariciou fraternalmente o rosto da moça, antes de puxá-la para um abraço apertado.
— Lily! Minha querida! Você está bem, não está?
— Sim, Almofadas! – murmurou a senhora Potter.
De repente, ao sentir os braços calorosos de Sirius em volta de si, Lílian pareceu perceber tudo o que havia acabado de passar naquelas últimas horas. Esteve a um passo da morte. Se o feitiço a tivesse atingido, ela não estaria ali para cuidar de seu filho, niná-lo, sentir a pele macia dele ou mirar-se nas verdes águas que eram os seus olhos, tão parecidos com os seus. Não estaria ali, sentindo a proteção de seu marido, que como um corajoso e provedor pai de família, rondava-os, amparando-os naquele caos, mesmo quando ele próprio estava imerso nele. Não estaria desfrutando da maravilhosa sensação que era receber o abraço fraterno de Sirius, que estendia a mão para a sua família, disposto a mostrar-lhes que aquela tempestade logo se acalmaria. Mas ela estava ali, firme e forte para ser mulher, mãe, amiga, conselheira.
Sirius deixou Lílian e foi até o leito de Harry. Ao ver o afilhado, abriu um largo sorriso.
— Ah, meu moleque! – exclamou ele.
O garotinho, que já conhecia o rosto do padrinho, esticou o bracinho para tocar o rapaz com a sua mãozinha.
— Xilus!
Sirius riu com a tentativa do bebê de pronunciar o seu nome e começou a brincar com ele.
— Oi, meu filhote de veado! – falou ele com voz infantil, ignorando o tapa que Lílian deu em suas costas – Como você tá, meu candidato a quadrúpede? – Sirius não viu que os pais do bebê, que gargalhava deliciosamente, enquanto suas mãozinhas tentavam agarrar os cabelos do rapaz, agora tapavam seus respectivos rostos com as mãos. – O feiticeiro mau tentou fazer mal ao meu neném, foi? Não se preocupa não que padrinho tá aqui, tá? E padrinho não vai deixar mais ninguém chegar perto de você!
O jovem feiticeiro assumiu um ar sério quando seus acinzentados olhos focalizaram a cicatriz em forma de raio na testa de Harry.
— Então é aqui? – perguntou ele, sem tirar os olhos do pequeno ferimento.
— Sim, é aí meu chapa. – respondeu Tiago, cabisbaixo.
Sirius fez mais uma pergunta, em forma de um murmúrio cheio de pesar:
— Será que isso vai sumir algum dia?
Doutora Bo, que mais uma vez permanecia parada observando mais uma cena daquela família e mais um de seus estranhos visitantes, foi até ele e respondeu:
— Não irá sumir. E não tem como tirar ou amenizar. Veja bem, senhor...
A expressão de Sirius, que até então não havia notado a jovem Layra Bo devido ao desespero com o qual chegou ao quarto, foi de preocupação à animação.
— Black, Sirius Black, mas pode me chamar de Sirius.
A médica ignorou o pedido do padrinho de seu paciente e continuou:
— Então, senhor Black, o seu afilhado sobreviveu a uma maldição imperdoável, o que já é um milagre, principalmente na idade dele. A cicatriz é o mínimo em uma circunstância como esta, visto que foi uma marca causada por um feitiço fatal.
Black dissimulou uma expressão de inconformidade.
— Doutora, não é possível que uma cicatriz não possa ser, ao menos, diminuída! Olha, vamos fazer o seguinte: a senhorita me diz o seu nome e me fala quando terá disponibilidade para um jantar para que possamos tratar de assuntos referentes à saúde do meu afilhado!
Lílian, percebendo as intenções do amigo, tratou de por um fim àquela conversa. Conhecia Sirius o suficiente para ter certeza de que ele não deixaria a senhorita Bo passar. A bruxa possuía um rosto bastante comum, era verdade; mas, em contrapartida, era dona de um corpo cheio de curvas e longos cabelos louros escuros, que formavam grossos cachos nas pontas.
— Sirius, nós agradecemos e muito a sua preocupação, mas creio que não será preciso tomar o tempo da doutora Bo para falar sobre questões que ficaram bastante claras para mim e para Tiago. Agora vamos, já estou me sentindo desconfortável de estar com roupas de dormir. – e, virando-se para a medibruxa, acrescentou, com um sorriso amarelo: — Doutora Bo, mais uma vez, obrigada por tudo! E, por favor, nos desculpe por qualquer coisa. – pediu ela, olhando de esguelha para Sirius.
— Não foi nada, querida. Sigam todas as minhas recomendações e lembrem-se: qualquer sinal de que alguma coisa não vai bem, me procurem!
Lílian pegou o seu bebê no colo e saiu do quarto, sendo seguida por Tiago que agradeceu brevemente a médica. O último a passar pela porta foi Sirius que, antes de fechá-la, lançou um olhar malicioso a Layra e, após exibir um sensual sorriso de canto de boca, fechou a porta.
Enquanto caminhavam pelo corredor do hospital, Tiago interrogou o amigo:
— Quer dizer que você ainda arrumou fôlego para dar em cima da pediatra do meu filho, que estava machucado em um leito de hospital?
Sirius soltou um muxoxo.
— Ah, Pontas! Você sabe que para o seu camarada aqui, qualquer hora é hora! E, depois, você não esperava que eu deixasse uma sereia daquela passar, não é? – ele mordeu o lábio inferior antes de declarar: — Um broto!
— Cara! Precisava esquecer que a minha família havia acabado de escapar da morte por causa de uma mulher que é uns dez anos mais velha do que você? – dramatizou Tiago.
Almofadinhas deu de ombros.
— Eu estava visitando vocês, não estava no velório da família Potter! E qual o problema de ela ser mais velha? É boa, e é isso o que importa!
Lílian, que andava um pouco mais a frente da dupla, advertiu:
— Toma juízo, Almofadinhas!
— Minha cara Lily, eu até fui tomar juízo certa vez, mas só tinha whisky de fogo. – ironizou ele.
Lílian soltou uma silenciosa risada, enquanto sacudia a cabeça negativamente, murmurando algo que os rapazes não ouviram.
— Ah, e falando nisso, dona Lílian, pode ir arrumando uma amiga sua bem bonita para me apresentar. Vai ficar me devendo esta, depois de ter atrapalhado minha paquera.
Tiago encarou o amigo de sobrancelha erguida:
— O cachorro quer namorar, é? Tem um canil ótimo perto da rua onde Lílian morava e...
— Ah, vai ver se eu estou perdido no visgo do diabo, Pontas!
Os três acabaram rindo um pouco. Era bom brincar, depois das horas de pânico que passaram.
Alguns minutos depois, os quatro já estavam tomando o caminho para casa de Sirius. Ele voava em sua moto e os Potter iam ao seu lado, em sua vassoura.
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O apartamento de Sirius possuía sala, cozinha, dois quartos e um banheiro. A decoração possuía um estilo despojado, e a cor negra predominava. Na sala, era possível ver quadros de motos e de pontos turísticos de Londres em preto e branco.
O casal tomou banho e deu banho no seu filhinho. Como a família só estava com a roupa do corpo, o compadre de Tiago e Lílian emprestou roupas suas para o amigo e comprou em uma loja próxima roupas para Harry e Lílian.
A jovem mãe acabava de colocar o bebê adormecido num berço improvisado e agora ia para a sala, onde o marido e o amigo já a aguardavam. Sirius estava sentado em um grande puf quadrado, a cabeça baixa e as palmas das mãos juntas, encostadas ao nariz e à boca. No sofá em frente a ele, estava Tiago, também cabisbaixo e os dedos das mãos unidos entre os joelhos. Lílian sentou-se perto do esposo.
— Então, parte da profecia de Trelawney se cumpriu... – observou Sirius batendo as pontas dos dedos, fixando os olhos em um ponto qualquer da sala.
Tiago e Lílian assentiram com a cabeça, sem deixar de encarar os próprios dedos.
— Harry o derrotou, Sirius... O derrotou, como predito... Mas, ainda é tão... Confuso, sabe? – comentou a moça.
— Estou abismado com o fim de Voldemort. – falou Sirius, passando a mão pela barba mal feita. – Mas há um ponto de interrogação nessa história toda: Pedro Pettigrew.
Lílian fechou os olhos e balançou a cabeça afirmativamente.
— Andei pensando nisso enquanto estava no hospital. – ela fez uma pausa e, em seguida, começou a titubear — Não acredito que ele tenha nos traído, Sirius. Ele pode ter sido vítima do Imperius ou...
— Sirius esteve no esconderijo dele antes de ir ao hospital, Lílian. Pettigrew não estava lá. – interrompeu Tiago.
— Bom, isso é uma prova de que ele pode ter sido sequestrado pelos comensais.
Sirius encarou Lílian pela primeira vez desde que ela chegara a sala de estar:
— Lílian, acho que a verdade dói tanto que nenhum de nós queremos enxergar. Mas pense comigo: a casa onde vocês estavam foi achada pouquíssimo tempo após de o feitiço Fidelius ter sido realizado.
— É, mas...
— Lílian – agora Tiago encarava a esposa – Tudo aconteceu rápido demais! Parece que foi algo realmente combinado. E depois... Parando para pensar um pouco... Já suspeitávamos que houvesse um espião infiltrado na Ordem da Fênix. E agora nós três encontramos um novo esconderijo, mas em menos de vinte dias, Voldemort em pessoa nos encontra e tenta tirar nossas vidas.
A senhora Potter mexia lentamente as pupilas de um lado para outro, como se estivesse assimilando as palavras dos rapazes. Seu rosto então passou de incredulidade para indignação, o que ela expressou em um murmúrio decepcionado:
— Eu não acredito!
Tiago, apesar de mostrar-se mais resignado que a esposa, também não queria acreditar. Então era isso. Amara Pedro, contara seus segredos, confiara a sua vida e a vida de sua família em suas mãos. E ele havia os traído. Havia os entregado para os Comensais da Morte. Como ele teve coragem?
No momento em que Lílian cobria a face com as mãos, um pequeno ruído fez-se ouvir. Sirius e Tiago olharam em direção a janela e viram que, do lado de fora, uma coruja batia o seu bico contra o vidro, num pedido claro para que abrissem para ela. O dono do apartamento levantou-se e foi até lá, suspendendo a janela para que a ave entrasse. A coruja branca voou até o casal e depositou um envelope em cima das pernas deles. Lílian pegou o envelope e a rapinante pousou no braço do sofá. Sirius foi até o armário da cozinha, onde guardava algumas sementes.
— É do Ministério! – exclamou Lílian, rasgando o envelope. Desdobrou a carta dentro dela com tanta pressa que parecia tentar rasgá-la. Uma vez que o papel estava aberto, ela passou os olhos por ele, visualizando uma caligrafia cursiva bastante caprichada. Começou a ler em voz alta:
Prezados Tiago e Lílian Potter,
Como Ministra da Magia, percebo ser de extrema importância que eu seja colocada a par de todos os acontecimentos envolvendo a sua família na noite do último dia 31. Portanto, convido-os, juntamente com o seu filho Harry Potter, a comparecer ao meu gabinete esta tarde, às 15:00 horas, para conversarmos sobre este assunto.
Aguardo a sua confirmação,
Emília Bagnold
Ministra da Magia
— Já esperavam por isso, não é? – perguntou Sirius, que voltava com uma das mãos cheias de sementes, depositando-as em frente a ave que, com voracidade, começou a devorá-las.
Tiago descolou a sua cabeça da cabeça de sua esposa.
— Sim. Mas sabe o que acho estranho? Dumbledore não apareceu até agora.
Lílian sorriu pensativa.
— Ele deve estar planejando algo ainda maior que uma simples visita.
— Com certeza. – assentiu Sirius – Bem, vamos almoçar? Vocês vão precisar sair cedo.
Depois de a janela ser aberta para a coruja sair, o casal levantou-se e seguiu o amigo até a cozinha.
Lílian teve que admitir que os dotes culinários de Sirius estavam melhorando cada vez mais. O jovem havia preparado um prato de arroz, feijão e carne que, embora parecesse básico, estava delicioso. A salada de cenoura e batata, nem se comentava! Estava no ponto certo e perfeitamente temperada. Ela e Tiago ficaram muito gratos a ele quando assumiu a difícil tarefa de dar papinha a Harry, a quem os pais acordaram para almoçar.
— Está pronto para casar, Almofadas!
— Vai demorar um pouco, Lily! – respondeu ele enquanto tentava empurrar uma colherinha na boca do afilhado.
— Não sabe o que está perdendo! – falou Tiago de boca cheia, atacando o prato ferozmente. Para ele, ter uma família era, simplesmente, maravilhoso.
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