Nada precisa ser tão difícil
2 A notícia se espalha
A ala de pediatria do St Mungus não estava muito tumultuada. Harry estava sendo atendido por uma simpática médica plantonista. Após examinar o bebê meticulosamente (ou virá-lo do avesso, segundo as observações do próprio Tiago), a médica passou as seguintes informações aos pais da criança:
— Muito bem, senhor e senhora Potter. Fizemos os exames e constatamos que o ferimento do seu filho foi causado pela maldição Avada Kedavra, como vocês mesmos suspeitaram. O que ninguém da equipe consegue responder é como um bebê de um ano sobreviveu a este tipo de ataque, principalmente vindo de quem veio.
Lílian e Tiago se entreolharam.
— É bastante misterioso, doutora.
— Creio que nas mãos de vocês há alguém muito precioso e importante para cuidar, senhora Potter. – observou a médica, com um sorriso reconfortante. – Ele passa bem, mas é preciso que permaneça no hospital para observação.
Tiago ia dizer alguma coisa, mas foi interrompido por uma voz conhecida, que gritava no corredor:
— Com licença! Eu lá quero saber das normas dessa espelunca, homem! Estou aqui a serviço de Dumbledore! Com licença, com licença!
O chefe da família Potter abriu a porta do quarto e colocou a cabeça para fora. O quão feliz ele se sentiu ao ver Rúbeo Hagrid no corredor, tentando chegar até o quarto onde estava Harry enquanto alguns funcionários do hospital tentavam impedi-lo!
— Por favor, deixem-no passar! – pediu Tiago. Os funcionários pareceram hesitantes por uma fração de segundos, mas permitiram a passagem do meio-gigante, que andou até a porta onde o rapaz estava. Quando já estava perto do ex-aluno de Hogwarts, ele soltou um suspiro alto e aliviado e, puxando-o para um abraço de quebrar ossos, desabafou: — Ah, meu caro Tiago! Quando Dumbledore me mandou vir ao encontro de vocês! Meu Deus, eu tive tanto medo! Onde está Lily? E Harry? Eles estão bem?
— Ugh! – gemeu Tiago, sentindo seu corpo magro ser esmagado pelo abraço forte do robusto Hagrid. – Fique tranquilo, Hagrid. Agora está tudo bem. Venha, entre! Lílian e Harry estão aqui também!
O grandalhão entrou no quarto e esticou os braços para a simpática ruiva que brincava com a mãozinha do bebê.
— Ah, Hagrid! – suspirou Lílian, caindo no abraço do guarda-caças.
Hagrid afagou os cabelos ruivos da jovem.
— Está tudo bem, minha querida. – depois de alguns segundos abraçados, eles se afastaram e ele foi até o leito onde estava o pequeno Potter. — O feitiço que Dumbledore lançou na casa de vocês veio a calhar, hen? Ele soube imediatamente quando a casa foi invadida e me mandou até lá. Quase tive um troço quando vi tudo destruído e vazio, mas então me ocorreu que vocês poderiam ter vindo até o St Mungus e corri até aqui. – explicou Rúbeo, debruçado sobre o leito, sorrindo para o bebê que o olhava curioso. – Esses olhinhos... Fiquei impressionado quando vi a foto que vocês me mandaram. Ele é tão parecido com Tiago, mas os olhos... Idênticos aos da mamãe Lily!
Os jovens sorriram com a observação feita pelo amigo. Hagrid continuou a olhar para Harry, dessa vez posicionando seu grande polegar sobre a cicatriz em forma de raio na testa da criança, quase a tocando.
— E esta cicatriz? – perguntou ele, em tom casual.
A medibruxa, que até então estava em um canto, meio assustada, meio impressionada com a figura de Hagrid, deu um passo a frente e respondeu:
— Foi provocada pela maldição da morte. Nunca sairá. Será uma marca que ele levará para sempre.
— A maldição da morte... – murmurou o gigante. – Então é verdade.
Lílian cruzou os braços e franziu o cenho.
— O que é verdade, Hagrid?
— Ah, então vocês não sabem? – indagou ele, desviando os olhos de Harry para encarar os pais da criança. – Lá fora está o maior reboliço. A notícia de que o filho dos falecidos Fleamont e Euphemia Potter chegou ao hospital com a sua família, gritando aos quatro ventos que o seu bebê havia acabado de sofrer um atentado pelo próprio Voldemort se espalhou como folhas secas em dia de ventania. – concluiu ele, lançando um olhar significativo para Tiago.
Lílian crispou os lábios. Se havia uma coisa que de vez em quando o jovem esposo ainda falhava, remetendo ao Tiago egocêntrico dos anos iniciais em Hogwarts, era na discrição. Ou na falta dela. Mas, nas circunstâncias em que se encontravam, seria injusto julgá-lo pelo ataque típico de pai desesperado que ele dera há uma hora na recepção.
Rúbeo deu continuidade as suas informações:
— Está todo mundo aí fora. A equipe do Profeta Diário, do Pasquim e até mesmo a Ministra da Magia.
Lílian arregalou os olhos:
— A Ministra da Magia está aí fora?
— Pois é. – confirmou Hagrid, displicentemente.
— Bom, eu é que não vou sair daqui para falar com ninguém e nem permitir que alguém entre. Meu filho acabou de levar um avada na cabeça. – falou Lílian.
Tiago olhou para a esposa e mostrou que concordava com suas palavras com um aceno de cabeça.
A medibruxa, que permanecia quieta até aquele momento, perguntou:
— Senhora Potter, posso te dizer uma coisa?
— Sim, por favor. – respondeu Lílian, olhando-a atenciosamente.
— O melhor a fazer é aparecer no portão do hospital e dar uma satisfação às pessoas. Certa vez uma jogadora do Harpias caiu da vassoura durante um treino e veio parar aqui no St Mungus. Formou-se uma confusão aí fora: eram jornalistas, fãs, curiosos... E, quando viram que ninguém apareceria, os populares tentaram entrar a força no hospital. Deus sabe o pandemônio que isso aqui virou!
Tiago escutava tudo o que a bruxa falava com uma das mãos apertando o queixo. Mordia o lábio inferior, a expressão concentrada e o olhar meio distante, como se estivesse pensando nas palavras que ouvia.
— Pensando bem, a doutora tem razão, Lílian. Até porque a Ministra está aí fora...
— Se vocês quiserem, posso fazer isso por vocês. – prontificou-se a médica.
— Faria isso por nós? – perguntou Lílian, os olhos brilhando de gratidão.
A médica lançou um sorriso reconfortante para ela.
— Claro, querida. Aliás, ninguém melhor do que eu para fazer isso. Sou funcionária do hospital e estou cuidando da criança. Não se preocupem, serei discreta e minimalista nas informações.
Lílian e Tiago assentiram e ela se retirou.
Assim que se viu a sós com a família Potter, Hagrid retomou a conversa:
— Lily e Ti... Contem-me agora o que aconteceu, crianças.
O rapaz contou tudo ao amigo, que ouvia embasbacado cada pequeno detalhe, mas nenhum pareceu lhe impressionar mais do que o fim que Voldemort levara.
— Nesses longos anos de vida, nunca ouvi nada parecido... – observou ele.
— Pois é. – concordou Tiago. – Por isso esperamos ver Dumbledore logo. Ele com certeza deve ter uma boa explicação para isso.
— Falando em Dumbledore, eu preciso voltar para Hogwarts. A chave de portal que ele me deu tem prazo, e se eu não voltar dentro deste prazo terei que fazer uma tediosa viagem de trem. – explicou ele, estendendo os braços para os jovens que caíram nos braços calorosos dele – Se precisarem de algo, mande uma coruja. A propósito, aonde vocês vão depois que saírem daqui, já que o maldito feitiço do Você-Sabe-Quem além de atentar contra a vida de vocês, deixou a casa em destroços?
— Hum... Provavelmente, para a casa de Sirius.
Lílian deu um tapa com toda a força na própria testa.
— Caramba! – exclamou ela, cerrando os dentes. – Esquecemos de avisar a Sirius!
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Eram dez horas da manhã quando o bebezinho Harry acordou. A medibruxa o examinou mais uma vez e constatou que o menino estava bem e nenhum dano maior que a cicatriz na testa havia sido causado a ele.
— Muito bem família! – falou a doutora, animada. – Vocês já podem ir para casa. Duvido que Harry tenha alguma reação após este período, mas por desencargo de consciência, é bom que vocês redobrem a atenção. E qualquer anormalidade, não hesitem em trazê-lo para cá.
— Nós agradecemos pela sua atenção e por tudo o que fez por nós, doutora. – disse Tiago, com um sorriso cordial.
— Não foi nada. É sempre bom ajudar os pacientes e...
— Quero saber como é que eu, como padrinho desta criança, só fico sabendo da notícia por terceiros!
Todos olharam para a porta do quarto que estava aberta, deixando aparecer a figura de um jovem alto e sarado, olhos acinzentados e ondulados cabelos negros caindo nos olhos.
— Sirius! – exclamou Tiago. – Você não recebeu meu patrono?
Sirius fechou a porta e foi andando até o amigo.
— Aquele seu veado de meia pataca foi enviado à apenas quarenta e cinco minutos atrás, o que é pouco tempo, já que o que aconteceu com vocês foi por volta das onze da noite. – respondeu ele, visivelmente irritado. – E, antes de receber a sua mensagem, a coruja me entregou isto aqui. – finalizou ele, sacudindo um exemplar do Profeta Diário no nariz de Tiago. Na primeira folha, encabeçando a foto do que restara do chalé dos Potter, havia a seguinte manchete: BEBÊ DE UM ANO SOBREVIVE À MALDIÇÃO DA MORTE. O subtítulo acrescentava: Segundo boatos, o chalé da família Potter foi atacado por ninguém menos que Aquele Que Não Deve Ser Nomeado.
Tiago olhou surpreso para Sirius, suspirou e leu a notícia em voz alta, para que Lílian ouvisse.
Quem estava no saguão de entrada do hospital St Mungus na noite da última terça-feira (31), ouviu uma notícia que chocou a todos. Por volta das onze e quarenta, o renomado auror Tiago Potter e sua esposa, a ex-auror Lílian Evans Potter, compareceram ao hospital a fim de pedir atendimento médico de emergência para o filho de apenas um ano do casal, Harry Tiago Potter. Segundo testemunhas, os pais da criança estavam muito assustados e pareciam ter saído de casa às pressas, visto que estavam em trajes de dormir. Mas, a surpresa maior foi quando o senhor Potter, após ouvir o que parecia um pedido de paciência da recepcionista do hospital, respondeu, aos berros e totalmente transtornado, que o seu filho havia sofrido um ataque de Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado em pessoa. Testemunhas ainda contaram que a criança possuía um pequeno corte em forma de raio na testa e que deste ferimento brotava um fino filete de sangue.
A notícia se espalhou rapidamente, atraindo curiosos, funcionários do Ministério e a própria Ministra da Magia. Apesar disso, ninguém, exceto Rubeo Hagrid, funcionário da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde os pais do garoto foram educados, conseguiu entrar em contato com a família Potter. À uma hora da manhã, porém, a medibruxa Layara Bo, responsável pelo atendimento do bebê, falou com a equipe e com todos os que se faziam presentes no portão do hospital. Segundo o que o casal contou a ela, o ataque aconteceu por voltas das onze horas da noite, quando a família já se encontrava recolhida em seus aposentos de dormir. Você-Sabe-Quem invadiu a casa e os encurralou no quarto do menino. Sem hesitar, lançou a maldição imperdoável conhecida como Avada Kedavra na criança. Os pais tentaram proteger o filho, contudo o feitiço atingiu o pequeno Harry na cabeça. Inexplicavelmente, o garotinho resistiu ao ataque que bruxos adultos e muito poderosos não conseguiram resistir. A medibruxa ainda nos revelou que a cicatriz vista pelos populares foi causada pela maldição e que o bebê passa bem.
Suspeitos de ligação com as Artes das Trevas agem de maneira estranha – Antes mesmo de a notícia se espalhar, alguns afirmam que bruxos suspeitos de seguirem o Lord das Trevas, como Você-Sabe-Quem é chamado por seus discípulos, começaram a ter estranhas reações por volta das onze e trinta, quando, ao que tudo indica, o pequeno Harry Potter havia acabado de receber a maldição que tinha como objetivo ceifar sua vida. Um senhor que não quis se identificar e nem revelar a identidade dos supostos Comensais da Morte, contou à nossa equipe:
— Foi estranho. Eu estava no Caldeirão Furado e essas duas pessoas que eu tenho certeza que são seguidores Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, estavam bebendo numa mesa próxima à minha. Eram mais ou menos umas onze e trinta e oito quando eles fizeram uma cara estranha e saíram como se estivessem em uma espécie de transe.
Devido a isto, iniciaram-se as especulações de que o feiticeiro das trevas foi embora. Em uma breve entrevista, a própria Ministra da Magia Emília Bagnold confirmou que estas especulações tem fundamento:
— Ainda não conversamos com Tiago e Lílian Potter para saber o que realmente aconteceu dentro da casa, que ficou em ruínas, mas, há alguns minutos, recebemos informações vindas de nossos funcionários que pessoas que estavam na mira do Ministério por serem suspeitos de envolvimento com as trevas começaram a agir de maneira anormal, como se estivessem apavorados. Talvez ainda seja cedo para falar, mas há grande chance de Aquele-Cujo-Nome-Não-Deve-Ser-Mencionado ter sido derrotado.
Se o feiticeiro que vem tirando o sossego da comunidade bruxa foi realmente derrotado, ainda não sabemos. O fato é que Harry já recebeu uma alcunha de colocá-lo no mesmo nível de bruxos adultos e habilidosos, pois, nos bares de todo o Reino Unido, o que não falta são pessoas erguendo suas taças em brindes cuja frase é única e incansável:
— A Harry Potter, o menino que sobreviveu!
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